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Reconstruções Identitárias em Tomson Highway
Antonio Eduardo de Oliveira (UFRN)
A proposta desse trabalho é abordar criticamente a obra do autor aborígine canadense Tomson Highway. Objetivamos discutir a contraposição cultural revelada na crise identitária do individuo, a partir da apresentação de jogos e jornadas que passam a viver as personagens de The Rez Sisters (1989), Dry Lips oughta move to kapuskasing (1989) e Kiss of the fur queen 1 (1998), deslocando-se da reserva para os centros urbanos.
A leitura dessa obra remete-nos ao fenômeno da desterritorialização e às representações que toma a questão da sobrevivência coletiva da raça indígena, em novos territórios imaginários. Tomada em seu conjunto, a criação poética de Highway, faz-nos a revelação de uma escrita que pode ser tomada como a dramatização que ele realiza da crença paterna de que haverá uma saída para o desespero em que se encontra a cultura aborígine do Canadá .
Numa entrevista, o autor declarou que, antes de morrer, o pai afirmara que acreditava na sobrevivência da cultura aborígine canadense, hoje, tão esfacelada pela intromissão dos valores culturais do colonizador. Highway parece ter tomado em suas mãos o papel desse resgate e buscaria confirmar a crença do pai por meio da escrita literária e da encenação dramática, nas quais denuncia o problema da cultura indígena local. Reavivando a esperança paterna, utiliza estratégias de linguagem capazes de intensificar o poder regenerador do riso provocado pela entidade mítica e mística do Trickster Nanabush. O efeito desse procedimento na sua obra restaura a espiritualidade nativa no seio daquilo que pertence à cultura do colonizador: o discurso, a língua e os próprios gêneros literários em que se insere.
Os traços étnicos, misturado aos elementos "canônicos" da cultura "branca", instauram uma visão cuja singularidade é indiscutível. Esta visão é desvelada numa representação ex-cêntrica de personagens índios que vagam de bar em bar. Errância que assimila o destino do aborígine no labirinto das cidades canadenses, como comentou o próprio Highway na entrevista mencionada. Eles moram em centros urbanos do Canadá tais como Winnipeg e Toronto e são vistos como bêbados e arruaceiros. Diz o autor: " um dos símbolos visuais mais comuns na psique urbana canadense é aquela do índio bêbado em cada esquina das ruas ". 2
As peças teatrais The Rez Sisters (1988), Dry Lips oughta move to Kapuskasing (1989) e o romance Kiss of the Fur Queen (1999) , aqui, tomados para análise, mostram, assim, o empenho do autor em transmitir sua cultura na escrita literária, desempenhando o papel do contador de história da reserva que narra desencontros e perdas identitárias desta. Contando histórias, seja como teatrólogo, nas duas peças citadas ou como romancista, Highway apresenta e confirma com acentuada ironia dramática a contraposição entre cultura indígena e a cultura do branco, expondo a dilaceração que desencadeia a crise identitária dos personagens, levando-os a uma atitude de evasão e a um comportamento de diáspora social, imiscuindo-se em jogos como bingo e hockey. Tais personagens vivem em jornadas existenciais e nos sonhos que trazem como marcas a hibridização desses universos imaginários, com essas práticas que se fundamentam no elemento sorte, azar e vício, regulamentadas pelo "establishment".
A hibridização é fortemente presenciada na cena de The Rez sisters em que Marie-Adele Starblanket dança com o Mestre do Bingo ao som da música Crazy , quando repentinamente este se torna Nanabush, a entidade mística indígena que assume várias formas e gêneros. A valsa transforma-se numa marcha fúnebre e a cena do jogo num ritual simultaneamente de morte e festa, pois Nanabush surge com mímicas risíveis 3, no seu papel de condutor mítico da alma do aborígine à vida eterna, mesclando dança, música numa espécie de alegria que se manifesta pelo estranhamento do elemento fantástico incorporado à entidade nativa, num ambiente mundano. Nessa peça, The Rez Sisters tem-se um enredo concentrado na viagem estrada à fora, feita por sete mulheres indígenas para participar do grande jogo de bingo em Toronto.
Identificando-se o papel do teatrólogo com a função do narrador da reserva, podemos, dessa maneira, atribuir a Highway o projeto de resgate como um investimento do contador de histórias da tradição, aquele de que nos fala Walter Benjamin, no conhecido ensaio sobre a obra de Nikolai Leskov. Trata-se daquele que
"tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja em um ensinamento moral, seja numa questão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida - de qualquer maneira o narrador é um homem que sabe dar conselhos". (Benjamim 1936, p.221)
Articulando-o a essa concepção benjaminiana, a qual dá lugar a perspectivas ética-estéticas, refletiremos que o ensinamento moral do teatro de Highway consistiria em estimular a consciência crítica sobre a ruína de seu povo e provocar a busca de reconstrução imaginária da nação indígena agora situada em um não-lugar. Imersos em valores capitalistas de consumismo, percebe-se em The Rez Sisters que as personagens estão perdidas e não pertencem nem à própria cultura, nem àquela do colonizador branco.
O autor representa na figura do Trickster, na aura de sua espiritualidade nativa, uma saída criadora própria, desviando-se dos modelos paternalistas. Põe em circulação esta espécie xamânica da herança cultural aborígine, de que Nanabush é um dos avatares ou metamorfoses. Ainda em The Rez Sisters , percebemos que a jornada das mulheres indígenas rumo a Toronto, para participarem do maior bingo do mundo, revela o poder da aculturação nas suas vidas, interferindo nos seus sonhos, na forma de acesso a estes, e aos objetos híbridos dos desejos delas, o que introduz nos seus repertórios e comportamento pequenos "lixos" da cultura branca como o gosto pela country music. Revela também a peça uma busca das mulheres indígenas por espaços geográficos além da reserva. Busca que as leva para a intricada espacialidade da metrópole, lugar de encontros e desencontros e de perdas identitárias.Idealizando a urbe e seus mitos, uma das personagens, Pelagia Patchnose deseja ser Superwoman para poder sobrevoar a CN Tower. Frustra-se com a realidade de ser apenas uma habitante da monótona Reserva Wasaychigan Hill.
A segunda obra analisada, Dry Lips oughta move to Kapuskasing , apresenta como temática um jogo de hockey, realizado por um time formado exclusivamente por mulheres aborígines.Nesta peça Highway enfatiza a presença metafórica do narrador utilitário. A presença de Nanabush é marcada em momentos especiais e incorporada às três personagens femininas: Gazelle Nataways, Patsy Pegahmagahbow e Black Lady Halked.
Esta entidade Cree transita entre os gêneros e acentua aspectos comuns desse trânsito.Este exagero pode ser visto magistralmente na seguinte cena dessa peça: Nanabush encarnado no espírito de Gazelle Nataways beija a bunda nua de Zachary, põe um par de peitos gigantescos de borracha no seu peito nu. Puxa um suéter gigantesco de hockey do chão, bordado com a letra W brilhando e com o número 1 "costurado em relevo". Antes de sair de cena usa seus quadris voluptuosos para ligar a tv no programa "Hockey night in Canada 4".
A peça se inicia com um tom de exagero e de artifício, como observamos, logo na primeira encarnação de Nanabush, incorporado ao espírito de Gazelle Nataways, visto na forma desta hiperbólica caricatura do feminino com peitos e quadris imensos, traduzindo a natureza performática do teatrólogo em pleno uso de artifícios, a fim de retratar os resultados deformadores da colonização e as interferências na tradição da cultura indígena.
A atmosfera anárquica invade a cena, mostrando um dos símbolos pop "traduzidos", dentre os mitos da cultura branca, na indígena, associada às aparições de Nanabush. É o caso de um grande pôster de Marilyn Monroe, decorando a sala da casa de Big Joey. Este ícone representativo da cultura de massa é ao mesmo tempo venerado, desconstruído e ridicularizado. Marilyn Monroe, a deusa do sexo de Hollywood, é usada numa referência escatológica:
Fade out. Split seconds before complete black out, Marilyn Monroe farts courtesy of Ms. Nanabush: A little flag reading "poot" pops out of Ms. Monroe´s derriere, as on a play gun we hear a cute little "poot" sound. (Highway 1989, p. 107)
Apegamento das luzes. Uma fração de segundos antes da escuridão completa, Marilyn Monroe peida cortesia da Srta. Nanabush. Uma pequena bandeira onde se lê "poot" sai do trazeiro da Srta. Monroe, como numa arma de brinquedo ouvirmos um som engraçadinho de um "poot" pequeno. (Highway 1989,p. 107)¹
O autor faz sobressair a presença em cena do Trickster, salientando que o ocorrido é "cortesia de Ms Nanabush", o que funciona como um artifício irônico na elaboração de sua escrita. Highway mistura o aspecto sagrado e místico de Nanabush ao sagrado da cultura do branco. Atinge um efeito híbrido entre o ridículo e o sublime. Nanabush, uma entidade mítica, sagrada da cultura aborígine é desse modo utilizada na obra de Highway numa fusão deformante de aparências díspares em relação até com a iconografia cristã. Vê-se isso na cena do nascimento de Dickie Black Halked, que se passa num recanto de um bar: a mãe dele segura um imenso rosário e, trôpega, bebe cerveja. Num outro plano no presente, imaginando o passado, ele tem uma visão da mãe que se assemelha "à madona":
On the puck, looking like a radiant but damaged "Madonna - with child, sits Nanabush, as the spirit of Black Lady Halked, naked and nine months pregnant, drunk almost senseless and barely able to hold a bottle of beer up to her month. (Highway 1989, p.76)
No palco semelhante à uma "Madonna" radiante mas danificada - prenhe, senta-se Nanabush, como o espírito de Black Lady Halked, nua e com seis meses de gravidez, bêbada quase sem sentidos e quase incapaz de segurar uma garrafa de cerveja na altura de sua boca. ( Highway 1989, 76)¹
Ciente da gravidade da perda gradual da identidade indígena, Highway resgata as línguas Cree e Ojibway incorporando-as à fala de suas personagens e inserindo-as no texto escrito.Estas, no entanto, ocupam breves espaços no corpo do texto total de suas obras, se comparadas à língua do colonizador, o inglês, utilizado ao longo do texto.
Na novela Kiss of The Fur Queen (1998) Highway persiste na luta pela sobrevivência cultural aborígine sempre ameaçada de destruição e apagamento.Toma como formato temático uma mistura de narrativas que oscilam entre o ficcional e o biográfico. Tal qual o teatrólogo que faz as suas peças de teatro assumirem uma dimensão utilitária , o romancista Highway também se posiciona numa questão prática . Ele a enfoca na história dos irmãos Cree Champion e Oneemeetoo. Nascidos no paradisíaco cenário do norte de Manitoba e da cultura Cree, vêem sua herança cultural ser roubada pela educação do internato católico , onde passam a serem chamados de Gabriel e Jeremiah, e pela posterior dificuldade de sobrevivência em meio ao cenário urbano de Winnipeg e Toronto.
Desse modo, nessa terceira obra aqui em análise, reitera-se a dimensão de perda de identidade que traz os sinais da violência ligados à práticas do colonialismo cristão. Na novela os dois irmãos são violentados dentro do internato pelos próprios padres. Mais tarde, ao viverem em Winnipeg testemunharão cenas de igual violência entre brancas e índios.
Os dois irmãos se vêem como corpos feridos e torturados numa espécie de via-crucis em que eles são lançados. Entregam-se às orgias em bares, com homens, em Winnipeg, fazendo sua inserção nas práticas do homoerotismo a partir desta experiência de perda corporal de violentação. Numa passagem da obra, Gabriel , ao se entregar a bebida e ao sexo num bar relembra uma cena de abuso sexual praticado pelos padres na época que vivera no internato católico:
Gabriel found himself in a wood-panelled living room. Somehow, time had passed through him. A dozen other men were present, that much he remembered. Coats, shirts, jeans, underwear, socks lay scattered on the floor, over chair belts, across coffee tables. Everywhere he looked, naked limb, an unceasing domino effect of human flesh, smell, fluid. Whisky, beer, wine swirled, splashed like blood, smoke from marijuana rose like incense. And the body of the Caribbean hunter's sun was eaten, tongues writhing serpent-like around his own, breath mingling with his, orifices punctured and repunctured, as with nails. And though it all, somewhere in the farthest reaches of his senses, the silver cross oozed in and out, in and out, the naked body pressed on his lips, positioning itself for entry. Until upon the buds that lined his tongue, warm honey flowed like river water over granite. (Highway 1998, p. 168-169)
Gabriel se encontrou numa sala de estar ornamentada por madeira. De algum modo o tempo tinha passado por ele. Uma dúzia de outros homens estavam presentes era o quanto ele recordava. Casacos, camisas, jeans, cuecas, meias estavam espalhadas pelo chão, no dorso das cadeiras, pelas mesas de café. Em todo lugar ele olhava, músculos nus, um efeito dominó de carne humana, brilho, fluido. Whisky, cerveja, vinho, rodopiando, jorrando como sangue,a fumaça de maconha ergia-se como incenso. E o corpo do filho do caçador de rena foi devorado, línguas se contorcendo como se fossem serpentes em torno da sua, hálito misturando-se com o dele, seus orifícios, perfurados e reperfurados como se fossem com pregos. E por tudo isto, em algum lugar nos mais secretos recessos dos sentidos dele, a cruz de prata aparecia e desaparecia, e o corpo nu pressionando os lábios dele, se posicionou para entrar. Até que, sobre os contornos da língua dele um mel morno fluiu como a água do rio sobre o granito (Highway 1998, p.168-169)
Nesse sentido o autor introduz a questão do homoerotismo trazendo a citação de um amor lésbico em The Rez Sisters e a referência ao desejo pelo tamanho do pênis de um personagem que um demonstrará outro, em Dry Lips oughta move to Kapuskazing . A inserção das obras no discurso de homoeroticidade traduz-se também nessa dimensão de resgate do corpo indígena, das formas instauradoras que condensam o espírito da reserva em Nanabush. A encenação do drama que é dele próprio traz, na obra de Highway, além da dimensão do trágico, o encontro de seu povo com a humanidade ferida de que é desalojado.
Afinal, inscrevendo-se entre os autores mais importantes da pós-modernidade, Highway parece cumprir o seu próprio desígnio: o de animar a letra do colonizador com a fluidez da espiritualidade nativa. Parece igualmente reconhecer que, nas reconstruções identitárias, algo reside na "lógica" das aparições e desaparições do sujeito, muitas vezes encarnado e desencarnado.
OBRAS CITADAS
BENJAMIN, Walter. MAGIA E TÉCNICA, ARTE E POLÍTICA . Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 7ª Edição. São Paulo : Brasiliense.
HIGHWAY, Tomson. THE REZ SISTERS . Toronto : Fifth House, 1988
_________________. DRY LIPS OUGHTA MOVE TO KAPUSKASING . Toronto : Fifth House, 1989.
_________________. KISS OF THE FUR QUEEN . Toronto : Double Day, 1999.
As traduções das obras de Highway aqui citadas são de minha autoria.
Ver entrevista completa no site <http://www.playwrightworkshop.org/tomsonint.html>
Dois ensaios esclarecedores sobre o gênero e o riso provocado por Nanabush são: "Learning New Tricks: Re-imagining community in the Two- Spirited writing of Tomson Highway . in: HERE IS QUEER: NATIONALISMS, SEXUALITIES AND THE LITERATURES OF CANADA . Toronto: UNIVERSITY OF TORONTO PRESS, 1998, p.173 - 186 e Krupat, Arnold, "Para entender os Trickster Tales dos Nativos Norte-americanos". In: PERSPECTIVAS DA LITERATURA AMERICANA NO BRASIL, ESTADOS UNIDOS E CANADÁ. Eloína Prati Santos, org. Feira de Santana: 2003, UEFS, p.13-40.