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Travessias interartísticas: apontamentos sobre literatura e pintura
Neurivaldo Campos Pedroso Junior (UFMS)
“Por outro lado, a idéia de artes irmãs está tão enraizada na mente humana desde a Antigüidade remota que deve nela haver algo mais profundo do que a mera especulação, algo que apaixona e que se recusa a ser levianamente negligenciado. Poder-se-ia mesmo dizer que, com sondar essa misteriosa relação, os homens julgam poder chegar mais perto de todo o fenômeno da inspiração artística”.
Mario Praz.
As palavras de Mario Praz, tomadas em epígrafe, têm, há algum tempo, conduzido a nossa reflexão acerca das possíveis relações entre Literatura e Pintura. À afirmação de Praz, alia-se outra, de Étienne Souriau que parafraseando o aforismo “O vento são todos os ventos”, de Victor Hugo, vai afirmar: “A arte são artes”. 1 Vemos, então, que as afirmações tanto de Praz quanto de Souriau atestam, de certa forma, uma irmandade ou parentesco entre as diferentes manifestações artísticas. Com base nessa idéia de irmandade entre as artes, sentimo-nos “convocados” ou “convidados” a participar do debate teórico-crítico acerca das correspondências artísticas. Dentro dessa pauta, pretendemos não apenas evidenciar os pontos nos quais Literatura e Pintura se tocam e dialogam entre si, mas também, atentar para os pontos nos quais elas se afastam, pois, acreditamos que ao sublinharmos as semelhanças tanto quanto as diferenças, estamos contribuindo para precisar, de um lado, a natureza peculiar de cada arte e de outro a compreensão do fenômeno artístico como um todo.
Pretendemos, então, nesse trabalho trazer para o palco das reflexões uma questão que se coloca como importante para os estudos analógicos entre as diferentes artes: a diversidade de materiais. Essa diferença, pode, a priori , ser considerada como um limite ou um obstáculo para a comparação entre artes distintas, entretanto, pretendemos ressaltar que, inicialmente, havia tal tendência em estabelecer obstáculos e demarcar as fronteiras, há agora, uma profícua atitude em diluir as fronteiras entre as artes, possibilitando, dessa forma, as travessias interartísticas.
Abordaremos, a seguir, alguns pontos importantes acerca dos diferentes materiais utilizados pelas diferentes artes, sobretudo, porque, apesar da sugestão barthesiana de abolição das fronteiras entre as artes e a afirmação da “pluralidade dos textos”, o estudioso/crítico deverá atentar também para a forma pelas quais os textos são materializados: por meio das cores, ou do bronze ou, ainda, da palavra.
Observamos, entretanto, que quando falamos em “materiais” em arte, este termo dá-se a ler por um duplo viés. A priori , ele pode ser lido como aquilo que antecedeu a “execução” da obra de arte, ou seja, os sentimentos, as convicções, as crenças, as aspirações, tudo aquilo que estava trancado dentro da “memória” do artista, mas que, por meio do gesto criativo, harmonizam-se e ordenam-se para resultarem na “obra” em si.
O termo “material” também pode estar relacionado aos materiais físicos empregados pelos artistas para que a sua obra “exista”, já que a arte depende, de certa forma, do elemento físico para realizar-se ou constituir-se. Sendo assim, aqueles estudiosos que se dispuserem a seguir pelos caminhos dos estudos crítico-comparativos entre as artes, deveriam atentar para esse caráter singular de cada arte, pois, ainda que consideremos ser os sentimentos, as crenças, as convicções parecidos, entre pintores, escritores, escultores, músicos, etc, entretanto, devemos, ver que, por outro lado, “a obra de arte não é uma figura somente espiritual e interna mas é um objeto físico, uma realidade sensível, uma coisa entre coisas”. 2
O crítico deverá, então, observar como os sentimentos se “traduzem” ou são transpostos para o campo físico. O pintor o faz por meio dos cores, das simetrias, das linhas, o músico através do ar posto em vibração, o escritor por meio das palavras. Conseqüentemente, devemos considerar, também, os elementos que separam as artes (e os diferentes materiais seriam alguns desses elementos) para podermos falar em correspondência – ou seja, aquilo que apesar de diferente as une. Étienne Souriau considera o estudo da diversidade dos materiais usados uma idéia tentadora e necessária, porque:
A diversidade é importante e bem visível na arte. O escultor empurra o cinzel no mármore com o martelo. O pintor dispõe as massas multicolores na tela estendida com o pincel ou com a faca. O músico faz vibrar o ar com palhetas ou tábuas de madeira acionadas sob as cordas. O dançarino dispõe os membros em atitudes diversas graças ao jogo dos músculos. Diríamos que vontades comparáveis fazem com que um mesmo espírito lute contra diversas matérias. E essa luta do espírito contra a matéria é certamente um aspecto importante da arte. 3
A classificação das artes através da diversidade de materiais deve ser considerada sob um outro ângulo: alguns materiais não são exclusivos de uma única arte. Tomemos como exemplo a escultura, que, além de utilizar materiais como o bronze, o cobre e o mármore, faz uso da pedra, que também é material do arquiteto e do litógrafo. Os metais, que também podem ser utilizados pela escultura são facilmente empregados pelos músicos, quando transformados em instrumentos musicais para colocar o ar em vibração. Até mesmo o ar que é utilizado pelos músicos não pode ser considerado material exclusivo dessa arte, em pintura, por exemplo, não podemos esquecer que encontramos facilmente trabalhos enquadrados em uma “perspectiva aérea”.
Assim, observamos que os diferentes materiais utilizados pelas diferentes artes, longe de serem apenas sinônimos de “fronteiras” e “limites” intransponíveis entre artes distintas, podem servir como estímulos aos artistas a pesquisar e realizar obras que se situariam em um locus fronteiriço. Concordamos, dessa forma, com o esteta Jan Mukarovisky, quando observa que:
O papel do material na arte, e nas artes plásticas, não consiste em vigiar severamente as fronteiras que separam as artes mas sim em estimular a fantasia da arte, mediante as suas características limitadoras e reguladoras, para uma mútua oposição frutuosa e, bem entendido, também, para a conformação. 4
Uma parada no caminho. Uma pergunta. E a literatura ? Falamos que o pintor trabalha com as cores, o escultor com o mármore, os metais, as madeiras e as diferentes pedras. O músico com o ar posto em vibração. E qual seria o material utilizado pelo escritor? a tinta e o papel – como sugere Souriau? Vemos, entretanto que a palavra, a língua e por conseguinte a linguagem são o material do escritor, que poderá explorá-las de diversas formas para poder “dar forma” ou “corporificar” seu discurso. Esta corporificação transformar-se-á nos seus personagens, enredos, conflitos, espaços, entre outros.
A literatura, por apresentar um caráter físico menos evidente que a pintura (tela, cores) e a escultura (mármore, ferro, barro), poderá evocar com maior facilidade o ar, a água, ou qualquer outro elemento material, uma vez que não recorrerá materialmente a nenhum deles, a não ser à tinta e ao papel. Devemos, atentar para a forma com que cada artista lida com esses materiais; é certo que eles possuem suas próprias preferências, o que os levariam a adotar, uns as cores, outros o cobre ou o mármore em suas criações. Há ainda os que se valem do ar posto em vibração, ou da palavra. Logo, o trabalho empreendido pelos artistas de “lidar” com esses diferentes materiais, ou, de trabalhá-los até que adquiram a sua forma final, também deverá ser considerado como importante para os estudos comparativos entre as artes.
Inicialmente deve-se observar que elementos físicos constituem as obras de arte, o mármore, as cores, o cobre, a palavra, adquirem um novo fim ao serem tocados pelas mãos dos artistas. Abandonam seus lugares de objetos utilitários e tornam-se objetos artísticos. Entretanto, tais materiais ainda carregam consigo algumas regras e alguns obstáculos que poetas, pintores e escultores devem observar para transformá-los em obras de arte, pois, como observa Fayga Ostrower:
(...) cada materialidade abrange certas possibilidades de ação e outras tantas impossibilidades. Se as vemos como limitadoras para o curso criador, devem ser reconhecidas também como orientadoras, pois dentro das delimitações, através delas, é que surgem sugestões para se prosseguir um trabalho e mesmo ampliá-lo em direções novas. 5
Há, por conseguinte, uma interdependência entre os elementos de determinada matéria com os propósitos do artista. Assim, se o artista elege determinada matéria em detrimento de outras é, talvez, porque saiba transitar e trabalhar melhor dentro dos limites específicos do material eleito, pois, seguindo a linha de raciocínio iniciado por Fayga Ostrower poderíamos afirmar que os diferentes materiais também impõem suas regras aos artistas, ou seja, cada matéria exigiria comportamentos e disciplinas específicos.
Os materiais adotados pelos artistas possuem, então, uma constituição natural que deverá ser respeitada por eles. Assim, concordamos com Luigi Pareyson, quando afirma que:
(...) as palavras têm uma relação estrutural entre som e significado; os sons são ondas sonoras que se propagam de um certo modo e têm, entre si, relações mensuráveis; a visão das cores obedece a certas leis que traduzem determinadas aproximações e determinadas divisões em determinadas percepções; o mármore tem uma determinada consistência que lhe permite resistir ou lascar-se conforme o modo pelo qual é esculpido. 6
Os diferentes gêneros artísticos também impõem aos artista suas regras específicas. Tomemos como exemplo as palavras de Akira Kurosawa acerca das diferenças entre as escritas de um romance e de um roteiro, pois, ainda que ambos possuam, a priori , a palavra como “matéria”, aquele permitiria uma maior liberdade do que este, sobretudo, porque o roteiro será transposto, a posteriori , para a tela do cinema. Kurosawa observa que “um romance e um roteiro são coisas inteiramente diferentes. A liberdade que o romance nos dá para realizar uma descrição psicológica é particularmente difícil de ser transposta num roteiro, sem que utilizemos a narrativa”. 7
Dessa encenação narrativa empreendida por alguns diretores de cinema, destaca-se o trabalho de Marguerite Duras, que, insatisfeita com algumas adaptações feitas de seus romances para a tela cinematográfica, lançou-se, ao trabalho de dirigir algumas versões de seus livros. Muitos, entretanto, não consideram o trabalho durasiano como “cinema”, pois, quando a escritora operacionaliza a transição do livro para a tela (cinema), parece que ela não observa as exigências e os limites deste gênero artístico.
Em Marguerite Duras, “a essência do cinema” reside na possibilidade de se encenar diferentes vozes narradoras, que por usa vez, “são moduladas e se harmonizam” como instrumentos que compõem uma orquestra. Eis, então, porque Duras chama seus filmes de “filmes de vozes”, pois, o texto literário aparecerá oralizado , tanto na narração como nos diálogos do filme. Assim, mesmo lidando com os materiais do cinema, luz, câmera, trilhas sonoras, os textos de Marguerite Duras, ainda que adaptados, possuem uma estreita interdependência com seus livros, pois estes apresentam, “uma narrativa múltipla e movente, que se atualiza nos diálogos entre as personagens, que reaparecem como as ‘vozes narradoras dos filmes'”. 8
Devemos, então, ao iniciar um estudo crítico-comparativo entre as diferentes artes, atentar, sempre que necessário, para a questão dos diferentes materiais utilizados por elas, já que esta questão pode simultaneamente unir ou separar as artes em geral.
Dentro dessa pauta, finalizamos ressaltando que as fronteiras entre as diferentes artes existem, mas são, acima de tudo, “fronteiras que podem se abrir ou fechar, conforme a natureza da conexão desejada”. 9Caberá, assim, a nós, estudiosos e leitores, estabelecermos as nossas próprias formas de conexão, abrindo ou fechando as fronteiras entre Literatura e Pintura, tornando-nos, dessa forma, mediadores dessas travessias interartísticas.
SOURIAU, Étienne. A correspondência das artes : elementos de estética comparada. Cultrix/Ed. USP: São Paulo. 271p. 1983. (p.3)
PAREYSON, Luigi. Os problemas da estética . Martins Fontes: São Paulo. 246p. 1997. ( p.151)
SOURIAU, Étienne. A correspondência das artes : elementos de estética comparada. Cultrix/Ed. USP: São Paulo. 271p. 1983. (p.81.)
MUKAROVISKY, Jan. Escritos sobre estética e semiótica da arte. Editorial Estampa: Lisboa. 266p. 1997.
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação . Vozes: Petrópolis. 190p. 2001. ( p.32.)
SOURIAU, Étienne. A correspondência das artes : elementos de estética comparada. Cultrix/Ed. USP: São Paulo. 271p. 1983. (p.159.)
KUROSAWA, Akira apud SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado : processo de criação artística. FAPESP/Annablume: São Paulo. 168p. 1998. ( p.69.)
MELLO, Cecília Maria Moreira. O cinema de Marguerite Duras e a destruição do texto. In: REVISTA ALEEA . Rio de Janeiro, n.1, v.1, jan./jun. 1999. p. 21-35. (p.24.)
ABDALA JÚNIOR, Benjamim. Fronteiras múltiplas, identidades plurais : um ensaio sobre mestiçagem e hibridismo cultural. SENAC: São Paulo:.180p. 2002..(p.125)