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“Carandiru”: a travessia discursiva entre a ficção e a realidade
Jairo Rodrigues (UFMG)
Numa cadeia, ninguém conhece a moradia da verdade Drauzio Varella Em literatura o verdadeiro não é concebível. Paul Valéry
O presente texto objetiva trazer uma reflexão preliminar acerca dos conceitos de realidade e ficção implícitos no filme Carandiru , de Hector Babenco a partir da sua comparação com trechos do livro Estação Carandiru (1999), de Drauzio Varella e de entrevistas a ele cedidas por presos da Casa de Detenção de São Paulo.
Pressupondo a ambigüidade existente entre os conceitos de “realidade” e “ficção”, consideramos pertinente delimitarmos o primeiro como ocorrências passíveis de comprovação através de material documental, no caso, as entrevistas. A respeito do trato com o material documental optamos pela proposição apresentada por COSTA LIMA 1:
Na análise do discurso literário ele ( o documento ) é um elemento secundário; secundário não significa que possa ser dispensado, mas apenas que o analista deve ter consciência da impossibilidade de a partir dele, inferir a configuração do teatro mental que forma o seu objeto. ( Grifo nosso).
A escolha do conceito apresentado por Costa Lima deu-se por entendermos que o objetivo deste estudo não visa a inferência de configurações no objeto entrevista, e sim fazer uma análise comparativa do percurso discursivo das informações oriundas das entrevistas nos suportes livro e filme. Com relação ao conceito de ficção, também encontramos em Costa Lima 2 a definição que mais se aproxima de nossa análise:
“Quando, pois, afirmamos que a noção discursiva própria à literatura tem um caráter não documental, uma radicalidade não documental, não tornamos nosso enunciado congruente com a noção beatífica de ficção – i.e., de ficção como um território que não se contamina com a realidade. Afirmamos, sim, que o discurso literário não se apresenta como prova, documento, testemunho do que houve, porquanto o que nele está se mescla com o que poderia ter havido; o que nele há se combina com o desejo do que estivesse; e que por isso passa a haver e a estar”.
Responder a uma pergunta pressupõe um grau de elaboração narrativa que se instaura em função do distanciamento entre o fato ocorrido e o momento de sua enunciação. Na entrevista intitulada "Charuto" 3, recortada para esta análise, Varella apresenta um dos personagens sobre os quais a narrativa do livro será construída. Pensando-se na dicotomia "real x ficção", entendemos que a entrevista representa, dentro do corpus utilizado neste estudo, o nível de maior aproximação com o fato ocorrido. Na entrevista, Charuto relata sobre os crimes que cometeu, a ausência de visitas e destaca-se em sua fala o amor que sente por Rosirene, mulher pela qual o detento abandona sua esposa e seu filho.
A primeira aparição de Charuto no livro ocorre no capítulo "Olho por olho", porém é no capítulo seguinte, "Paixão Arrebatadora", que sua história é narrada. Charuto, após cumprir dez anos de reclusão, vai ao encontro de dona Joana, personagem também citada na entrevista, para entregar-lhe uma encomenda de cocaína. Na casa de dona Joana conhece Rosirene por quem se apaixona imediatamente. Charuto era casado e tinha um filho com Rosane, que o visitava em todos os finais de semana, porém antes de ser libertado sua mulher é presa por tráfico. O envolvimento com Rosirene faz com que Charuto abandone Rosane na cadeia.
As ações narradas no livro, se comparadas às entrevistas, apontam para um nível mais elaborado de ficcionalização. Os fatos descritos por Charuto na entrevista surgem de maneira fragmentada e desconexa. Varella reconstrói este percurso narrativo com o preenchimento das lacunas existentes entre os fatos narrados conferindo-lhes uma dimensão temporal linear, aumentando a distância entre o documental e o ficcional.
A adaptação do livro para o cinema apresenta um distanciamento ainda maior entre os fatos narrados inicialmente nas entrevistas e depois no livro. Babenco opta pela condensação de fatos e características relacionados a mais de um personagem no livro para compor apenas um no filme. Em Carandiru o codinome Charuto é substituído por "Majestade", nome que não consta na narrativa de Varella. Majestade surge como um híbrido de Charuto e Zé da Casa Verde, personagem principal de um capítulo que leva o seu nome 4.
Consideramos importante notar a escolha de Babenco em aproximar estes dois personagens do livro, Charuto e Zé da Casa Verde. Há entre os dois alguns pontos coincidentes. Além do óbvio de serem dois assaltantes que cumprem pena na Casa de Detenção de São Paulo eles também têm duas companheiras, sendo uma considerada a esposa e a outra a amante. A existência de filhos também é coincidente.
A seguir descrevo trechos da entrevista de Charuto, dos capítulos "Paixão arrebatadora" e “Zé da Casa Verde" e de uma breve cena do filme para demonstrar o percurso e as transformações sofridas pelo discurso inicial, o da entrevista:
Drauzio - ( perguntando a Charuto) E como você conheceu Rosirene? ( grifo nosso )
Charuto – Um dia, eu estava na casa de D. Joana, que ia comprar uma parada de pó, quando a Rosirene entrou pela porta. Eu falei, "que nêga bonita!". Ela tava morando nos fundos dessa casa, tinha brigado com o marido e saído de casa. Aí, eu vi essa nega e foi amor a primeira vista. E ela parou na minha, também. Não quis ir embora de jeito nenhum. 5
No quarto dessa senhora, dona Joana, Charuto entregou a droga e sentou para conversar com seu Machado, um senhor que morava com ela.
Foi quando a tentação entrou pela porta dos fundos, sorrindo, de vestidinho com alça: Rosirene.
- Nega dos lábios finos, nariz empinado, bunda de escola de samba e eu no esgano, ó, saindo da cadeia, depois de tirar dez anos. Naquela hora, pensei com a minha cabeça, preciso comer essa nega de qualquer jeito! Não sei se isso já aconteceu com o senhor, doutor, amor à primeira vista! Paixão arrebatadora!
Encantado com a mulata chamou seu Machado para um canto:
Charuto - E essa mina aí?
Seu Machado - Essa mina aí, está aí 6
(no consultório da casa de detenção – o Médico e Majestade)
Médico – E tem filhos?
Majestade – Três com a Dalva e um com a Rosirene, O senhor sabe, né, o demônio só atenta quem tá perto de Deus. Já aconteceu isso com o senhor?
(Em um flash beck a cena e deslocada para um bar, onde está acontecendo uma roda de samba em que Majestade dança com Dalva, sua mulher. Majestade percebe a presença de uma mulata, Rosirene. Majestade aproxima-se ao balconista do bar)
Majestade - E essa mina aí?
Balconista - Essa mina aí, tá aí.
(durante a pergunta e resposta a câmera é deslocada para Rosirene, que neste momento está cheirando cocaína) 7.
Todas estas considerações visam demonstrar o percurso sofrido pelos fatos ocorridos desde sua maior aproximação com a realidade até tornarem-se exponencialmente fictícios.
Gilles Deleuze 8, na sistematização da reversão do platonismo, proposta por Nietzsche, argumenta que o simulacro, justamente por corromper o original, traz em si a potência de um novo original. Criando um paralelo no qual as entrevistas, a narrativa literária e o filme corresponderiam, respectivamente, aos conceitos de original, cópia e simulacro poderemos inferir a corruptibilidade sofrida pelos dados factuais vividos pelos presos da Casa de Detenção de São Paulo.
Esta análise, de caráter preliminar, aponta meu recorte a partir das entrevistas cedidas a Varella, onde entendo que a própria narrativa das respostas, além de distantes temporal e espacialmente do fato primeiro que as gerou, não trazem o ato da realidade, pois, como atesta Hector Babenco, em entrevista cedida à revista Cult 9:
(...) O que mais me interessa no livro de Drauzio é o fato de eu não acreditar absolutamente em nenhuma das histórias contadas pelos presos. São invenções que os presidiários contam a eles mesmos e aos outros para expiar a culpa pelo que cometeram.
As ponderações apontadas neste trabalho são de caráter preliminar, pois, visam um primeiro contato com o intrincado tema real x ficcional presentes nas narrativas de cárcere tomados pelo viés da literatura e do cinema. A escolha do filme Carandiru de Hector Babenco não ocorreu por acaso, uma vez que, é nossa intenção levar esta discussão para o âmbito da América Latina e a obra deste cineasta Argentino, naturalizado brasileiro é de grande penetração nos países de língua hispânica, mais acentuadamente nas nações latino-americanas.
DELEUZE , Gilles. Platão e o Simulacro. In: Lógica do sentido . São Paulo: Editora Perspectiva, 1998. Coleção Estudos. p. 259-271.
LIMA , Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional . Rio de Janeiro. Guanabara, 1986. 435 p.
MIRANDA , Wander Melo. Ficção Virtual. Revista de Estudos de Literatura , Belo Horizonte, v. 3, p. 9-19, 1995.
PLATÃO . A república de Platão . São Paulo: Nova Cultural, 1999. 352 p.
VARELLA , Drauzio. Estação Carandiru . São Paulo: Companhia das Letras, 1999. 297 p.
VARELLA , Drauzio. Estação Carandiru . Disponibilidade de acesso eletrônico em<http://www.drauziovarella.com.br/carandiru/charuto.asp> (18/09/2003)
FILME:
CARANDIRU . Direção: Hector Babenco. São Paulo:Sony pictures/Columbia Tristar do Brasil, 2003. 1 DVD ( 146 min.), color.
<http://www.drauziovarella.com.br/carandiru/charuto.asp> (18/09/2003)
<http://www.drauziovarella.com.br/carandiru/charuto.asp> (18/09/2003)
CARANDIRU. Direção: Hector Babenco. São Paulo:Sony pictures/Columbia Tristar do Brasil, 2003.