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A Escrita do Tempo nos Retratos da Terceira Idade
Elaine Karla de Almeida (UFF)
Introdução
Neste artigo apresentaremos um recorte de uma investigação feita com a terceira idade, onde abordamos o que há de belo na vida dessas pessoas, seus sonhos, a família, o lar, a saúde, cumplicidade do casal, enfim, a simplicidade da vida cotidiana, o dia-a-dia dessas pessoas, somente o material humano, sem, contudo retratar o lado doentio, amargurado e solitário dessa etapa da vida. O objetivo principal é mostrar a beleza desse corpo já frágil, marcado pelo tempo, como se a cada ano de vida uma página escrita, fosse acrescentada a esse corpo, como num livro, e este sendo apresentado a nós, sem máscaras ou rasuras, numa escrita poética mostrando a passagem do tempo.
A linguagem fotográfica
O homem, desde os primórdios de sua existência, desejou expressar em imagens aquilo que os olhos percebem, porém, o desejo de representar a realidade visível de uma maneira específica - a representação perfeita da visão humana - é um sonho localizado e recente, uma visão ocidental, urbana e burguesa. O sonho da ciência e da arte capturarem a realidade assim como a vemos começou a se formar na mente dos homens da Renascença, século XIV. O nascimento da fotografia só foi possível devido a conhecimentos esparsos, de várias áreas do saber e adquiridos em diferentes épocas. Mas foi na parte mais urbana e industrializada da Europa do século XIX que esses conhecimentos se agruparam em torno de um meio mecânico de registrar a imagem. Sendo assim, o domínio crescente das leis da natureza, foi progressivamente se identificando com os desejos dos artistas, apoiados pelos homens das ciências. Inicialmente dizia-se que o papel do homem como intérprete havia se extinto, e que a partir daquele momento seria apenas um intermediário que acionava um botão, e alguns mais pessimistas previam o fim da pintura. Hoje podemos observar que a fotografia serviu, em parte, para libertar as artes, principalmente a pintura, do figurativismo.
Boris Kossoy comenta a atuação do fotógrafo como filtro cultural, cujo registro demonstra a própria atitude do fotógrafo diante da realidade:
" Toda fotografia é um testemunho segundo um filtro cultural, ao mesmo tempo que é uma criação a partir de um visível fotográfico.Toda fotografia é um testemunho de uma criação. Por outro lado, ela representará sempre a criação de um testemunho " 1.
Consideramos que o registro fotográfico demonstra a atitude do fotógrafo diante da realidade, seu estado de espírito e sua ideologia transparecem em suas imagens, portanto, qualquer que seja o assunto registrado, este também documentará a visão pessoal, ou seja, o olhar, do autor. Ainda de acordo com Kossoy, cremos ser possível fazer várias fotografias, de um imenso tema, sem repetições, pois o momento do disparo é único, é um registro do tempo, de novas experiências, que modificam nossa forma de olhar.
Henri Cartier-Bresson foi o precursor do foto-jornalismo caminho este que também é seguido por Sebastião Salgado. Observando os trabalhos de ambos, por relativo exemplo, vemos muito mais que um simples retrato, uma escrita em imagem que vai além da representação da realidade dos retratados. As fotografias, além disso, são também como poesias visuais, é impossível não se emocionar com elas. Podemos ver além dos retratos, vivenciar a escrita de suas histórias pessoais.
Cartier-Bresson fotografava em branco e preto, dizia que a cor confundia o olhar, provocando outros interesses que não a essência. Para ele, a fotografia por si só, não era interessante, defendia a reportagem fotográfica como única capaz de fazer a comunicação entre o homem e o mundo. Segundo Bresson, "A fotografia é um reconhecimento simultâneo, numa fração de segundo, do significado do acontecimento, bem como da precisa organização das formas que dá ao acontecimento sua exata expressão.'' 2
Salgado é comparado a Bresson como fotógrafo, suas fotografias têm uma força intuitiva muito grande, consegue emocionar o mais desatento expectador. Para Salgado, não é o fotógrafo quem faz a fotografia, ela depende diretamente da relação entre fotógrafo e fotografado, assim, a fotografia “resulta numa relação fotógrafo-fotografado comparável a uma tangente equilibrada perfeitamente sobre um círculo. O resultado é elegante, dramático e eficaz”. 3
Retratos da terceira idade
A sutileza dos cabelos finos, brancos e frágeis. As linhas da pele demonstrando que muito se vivenciou. A experiência de várias décadas, o conhecimento adquirido, a tranqüilidade. A simplicidade de um rosto, um casal, as histórias contadas com entusiasmo, saúde, muita saúde, e principalmente esperança. Pretendemos mostrar um pouco desse universo, que poucos param para admirar. Vivemos numa sociedade onde o jovem é valorizado, fala-se muito do menor carente, mas esquecemos dos idosos. O Estatuto do Idoso veio em auxílio desta parcela da sociedade antes esquecida, foi realmente um marco na história do país, porém, pouco se vê em prática, ainda temos muito que lutar para cumpri-lo como um todo.
Atualmente trabalhando com pessoas da terceira idade no Município de Niterói-RJ podemos observar que estes não querem ser esquecidos, tentam conservar uma vida produtiva, inseridos na sociedade e participando ativamente de atividades culturais, intelectuais, sociais e econômicas. Como se não lhes fosse permitido relaxar e apreciar o tempo livre. Estão cada vez mais inseridos no cotidiano agitado da cidade. Ariès 4 nos fala da morte interditada, podemos relacioná-la com a interdição do idoso que deixa de ter autonomia sobre sua vida quando não está mais trabalhando, como se fosse algo inútil e descartável, sendo assim, o idoso se sente meio que obrigado a estar sempre em atividade para conseguir se ver inserido na sociedade, esquecendo da grande importância que possuem como detentores de conhecimentos, não somente conhecimentos acadêmicos ou técnicos, mas conhecimento de vida, com todas suas experiências, ou seja, suas memórias.
Ao entrarmos na terceira idade deveríamos ter a permissão do ócio, pois a tradição oral é também muito valiosa, segundo Marilena Chauí “a função social do velho é lembrar e aconselhar” 5, e acrescenta que são eles os guardiões do passado, porém a sociedade capitalista interdita o velho, deixando somente a história oficial, destruindo os trabalhos da memória”. Podemos afirmar que a convivência com os netos, por exemplo, faz com que o idoso reviva sua história, tendo a possibilidade de reconstruí-la ao contar suas experiência, prestando, ao mesmo tempo, um grande trabalho à sociedade; mostrando aos pequenos um universo diferente do que vivem atualmente.
Pretendemos mostrar a beleza da terceira idade, os rostos alegres das vivências e com muito que conquistar ainda. Podendo parar um pouco com a correria do dia-a-dia par sentar e colocar a conversa em dia, não como forma de favor ao idoso, mas como um presente para nós mesmos, passear no calçadão e ouvir histórias, histórias que nos ensinam a viver melhor, com a experiência de quem muito viveu.
As fotografias em preto e branco, com seus infinitos matizes de cinzas, evidenciam as linhas e expressões destas pessoas. Redigem sobre suas faces vividas uma escrita sensível da passagem identitária do tempo. É o próprio tempo impresso. Ou como disse Kubrusly, "O rosto, e não as impressões digitais, é nosso documento de identidade” 6, acrescentando: “o rosto identifica uma única pessoa e evoca seu modo de ser, sua personalidade e, eventualmente, suas idéias.” 7. Ao observarmos atentamente um rosto, podemos dizer sobre a disposição do retratado, seu estado de espírito, se está triste ou feliz, ou seja, o rosto não engana, e se estes são como nossa identidade, imaginemos o quanto podemos descobrir ao observarmos os traços dos rostos de pessoas da terceira idade, são como enciclopédias, cheias de surpresas.
Referências
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