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Um Joaquim Norberto ainda desconhecido: o compositor de óperas.
Ana Cristina Vieira (UESP)

A pesquisa ainda não está concluída, sendo realizada na Faculdade de Ciências e Letras, no campus de Assis, da Universidade Estadual Paulista.Está sendo financiada pela Fapesp.

Inicialmente apresentarei um pouco da vida e da obra de Joaquim Norberto de Souza Silva, que é o autor das obras estudadas, em seguida falarei do período em que elas foram escritas, seguido de sua importância na criação de uma ópera nacional, sobre o gênero e sua difusão no Brasil e, por fim, sobre a temática das obras.

 

Joaquim Norberto foi um dos intelectuais da geração romântica e, com uma obra vasta, que segundo Sacramento Blake, em seu Dicionário Bibliográfico Brasileiro são mais de setenta trabalhos espalhados nas áreas de história, história da literatura, teatro, crítica literária, poesia, contos e novelas.Bem ao ideário brasileiro da época, que valorizava o escritor versátil, que se dedicava a vários campos das Humanidades.

Apesar de se envolver em tantos segmentos culturais, se aprofundou no trabalho de historiador, tendo se dedicado ao ocorrido nas Minas Gerais do século XVIII exposto em sua obra “História da Conjuração Mineira”, a qual o fez ficar bastante conhecido dos estudiosos dos denominados “temas mineiros”.

Joaquim Norberto nasceu em 1820 no Rio de Janeiro e faleceu em 1891 em Niterói.Embora ainda não tenha uma biografia, o que se sabe é que ele pertenceu a uma família abastada, mas longe da corte.Freqüentou alguns cursos elementares, mas sua paixão era a literatura.Trabalhou na Biblioteca Nacional e se envolveu com a escrita, realizando alguns trabalhos que foram publicados em diversos periódicos da corte.

E foi nesse momento que o movimento romântico brasileiro adquiriu um reflexo excepcional.O Brasil vivia o período de definição da nacionalidade e de valorização do nosso passado histórico.Uma vez que eram em épocas antigas que a literatura romântica buscava seus ambientes, tipos e argumentos, pode-se considerar Joaquim Norberto um representante da primeira geração romântica brasileira, por assumir as principais características do movimento, ou seja, a busca de uma literatura brasileira e de uma história nacional.(Afrânio Coutinho em “Enciclopédia da literatura brasileira”).

Eu, por pessoalmente apreciar muito o gênero teatral, decidi estudar estas duas obras de Joaquim Norberto, a comédia “Beatriz ou Os franceses no Rio de Janeiro” e a ópera lírica “Colombo ou O descobrimento da América”.

Ambas foram escritas por Norberto em 1860 e foram publicadas na Revista Popular.Não foram, portanto, nem musicadas, permanecendo ainda em libretos, nem encenadas.

Devido ao fato das obras estarem escritas num português muito diferente do nosso atual, realizei a atualização ortográfica e pretendo reedita-las, como tem ocorrido com outras obras dele como “Romances de novelas” organização, apresentação e notas de Sílvia Maria

Azevedo, e “História da Literatura Brasileira e outros ensaios” organização, apresentação e notas por Roberto Acizelo de Souza.

A importância do resgate destas obras se dá à medida que temos poucos exemplares publicados e atualizados sobre a ópera nacional, e poucos estudos a seu respeito também.

Não há uma obra especializada no Movimento da Ópera Nacional, que foi muito importante tanto no âmbito literário, com os libretos, quanto no musical, do qual o nome mais expressivo é o de Carlos Gomes, e é com ele que se dá o início da música erudita no Brasil.

Segundo minhas pesquisas, quem provavelmente despertou o gosto de Joaquim Norberto pelo teatro foi João Caetano, o primeiro grande intérprete nacional, que liderou o teatro brasileiro, mantendo elencos predominantemente nacionais.Ele procurou suscitar o aparecimento de novos autores nacionais, convocando-os através da imprensa.E foi para corresponder a esse apelo que Joaquim Norberto escreveu o drama “Amador Bueno, ou A fidelidade paulistana”, que foi representado e encenado na Companhia Teatral de João Caetano.

Gostaria agora de fazer algumas considerações a respeito do gênero em que as obras foram escritas, a ópera: No início não havia nada de gritaria, boca aberta e frenesi de emoções que acabaram sendo as características mais conhecidas da ópera.Era então uma tentativa dos participantes de um grupo exclusivo de nobres e intelectuais de Florença que tenteavam recriar o teatro cantado na Grécia antiga.O desejo de imitar o coro da tragédia grega levou à concepção da ópera, em grande parte como evolução do estilo vocal secular.Alguns compositores começaram a modificar o papel da voz para aumentar a expressividade e a fidelidade ao texto poético.A música das primeiras décadas do século XVII caracteriza-se pela individualidade da voz por si só, sem artifícios.

Pode-se dizer que o termo ópera vem do italiano “opera in musica”, ou seja, obra em música.A ópera é a representação dramática, co cenários e figurinos, cantada totalmente ou com partes faladas ou declamadas, com acompanhamento orquestral.A ópera representa uma colaboração de texto e música, em que a narração de um enredo combina-se com o poder da música de despertar emoções, criar climas e atmosferas.Juntos, texto e música atingem uma expressividade que nenhum dos dois pode conseguir isoladamente.Segundo Paul Bekker “o canto é a raiz de onde a ópera brotou e se desenvolveu, a ópera surge a partir da voz, portanto, a história da ópera é a história da voz.A evolução da ópera mostra uma tentativa contínua de realizar o ideal músico-dramático de uma unidade artística integrada de teatro e música.

Para falarmos da ópera no Brasil, precisamos nos reportar ao período colonial, no qual as representações foram , a princípio, raras e se limitavam à encenação de peças estrangeiras.Não existia, no país, a profissão teatral.O que havia, principalmente,era o teatro popular, como as folias de Reis, mais conhecidas como Bumba-meu-Boi, e os velhos autos portugueses, como a “Chegada dos Mouros” entre outros.O primeiro teatro surgido no Rio de Janeiro, quando o Brasil já era um Vice-Reino, foi a Casa da Ópera, onde eram representadas traduções das peças de Pietro Metastásio.Porém, ela foi destruída por um incêndio em 1769.

Quando se deu a invasão da península ibérica pelas forças francesas em 1807, embarcou para o Brasil a família real portuguesa, tendo à frente o príncipe Regente D. João.Aquele acontecimento teria grandes repercussões na vida política, social e cultural do Brasil.E o teatro não podia deixar de beneficiar-se com a presença, no Rio de Janeiro, da aristocracia lusa e da vinda de diplomatas estrangeiros.

Agora, dando um salto na história, chegamos ao casamento do imperador Pedro II com a princesa napolitana Teresa Cristina, crescida numa corte onde o teatro lírico era muito bem cultivado, o Rio de Janeiro passou a se entusiasmar com as óperas.O Movimento da Ópera Nacional se consolidou com a chegada, ao Brasil, de um fidalgo espanhol, D. José Amat, compositor e professor de composição, canto e piano.Ele criou uma entidade com o nome de Ópera Lírica Nacional.Vários intelectuais brasileiros tiveram seus nomes ligados, ora traduzindo em português óperas estrangeiras, ora preparando libretos para serem musicados no Brasil.A primeira ópera de libreto e música de autores nacionais foi “A noite de São João”, com texto de José de Alencar e música de Elias Alvarez Lobo.A partir desta estréia, a ópera vai cair no gosto do público burguês brasileiro, especialmente do carioca.

O maior mérito da Ópera Nacional, no entanto, foi o de ter revelado o talento do jovem compositor Antônio Carlos Gomes, com a ópera “A noite no Castelo”.

Compreende-se a difusão da ópera no Brasil, num momento em que o país, por intermédio das idéias românticas, buscava a identidade nacional, a noção de pátria, a questão da nacionalidade e a recuperação da memória nacional, pensadores, literatos e historiadores foram chamados a contribuir e participar dessa tarefa.A relação entre história e literatura não deve ser interpretada pelo compromisso fiel de narrar o passado, mas pela relação entre obra e contexto no qual ela está inserida.Interessava aos românticos brasileiros, além da própria concepção nacionalista e libertária da conjura, as potencialidades literárias daquele movimento, liderado(na visão dos intelectuais do império) por Tomás Antônio Gonzaga.Não por acaso, a ópera vai se utilizar de temas históricos brasileiros, como vai fazer exemplarmente, Joaquim Norberto, que ainda tinha a seu favor o fato de ser historiador, o que foi de grande contribuição para o desenvolvimento da temática nas duas óperas mencionadas.

“Beatriz ou Os franceses no Rio de Janeiro” tem como tema a invasão francesa no Rio de Janeiro em 1811, liderada por Du Guay-Trouin, enquanto “Colombo ou O descobrimento da América” tem como tema a tentativa de Cristóvão Colombo em obter o apoio do rei da Espanha para buscar “nova terra”, as índias, e o imprevisto descobrimento da América.