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Knock e O alienista: o diálogo palimpsesto
Stela Maria Sardinha Chagas de Moraes (UERJ)
Tendo em vista o panorama sócio-histórico europeu do período que se estende da segunda metade do século XIX até a primeira metade do século XX, parece-nos cabível eleger como momento decisivo de mudanças em todas as áreas do conhecimento humano o assim denominado entre-guerras.
Com efeito, se em termos políticos a instabilidade é uma constante, a prosperidade e o dinamismo artístico verificados nos anos vinte permitem qualificar a França como progressista em relação ao período que precedeu a Primeira Grande Guerra.
Estabelecendo-se como centro cultural de maior evidência na Europa, Paris refletirá, por um lado, a euforia de sua belle époque e, por outro, o pessimismo decadentista do fin de siècle .
Participando da euforia geral dessa Paris que recobrava seu status de capital intelectual, após o longo período de silêncio instaurado, desde outubro de 1914, o teatro, com o fim dos confrontos bélicos, retoma seu eminente posto entre as expressões do pensamento.
Em meio aos grandes nomes que retornam à cena, segundo Surer 1, destaca-se o de Jules Romains entre os autores de comédia satírica pelo fato de perscrutar na vida social todos os elementos que comprometem sua estabilidade e desenvolvimento harmonioso, ressalvando-se, contudo, que sua obra, junto à de Bourdet, Pagnol e Salacrou, desafia todas as possibilidades de classificação em categorias.
No que tange a Jules Romains, em particular, a afirmação parece justificar-se plenamente, uma vez que sua obra teatral comporta temas e formas as mais diversas, variando igualmente o tom , que pode assumir as características da seriedade, do lirismo ou do farsesco mais cômico, de acordo com as circunstâncias do momento.
Aliás, é justamente a sátira direta em que se explora o humor irônico e provocador que o consagrará como autor teatral junto ao público e à crítica.
Dessa forma, é interessante notar que as duas peças de Romains que atingem maior sucesso são justamente Knock ou le triomphe de la médecine 2e Donogoo 3que têm, por tema, enormes mistificações e, por heróis, impostores possuídos de um instinto de conquista e hábeis em exercer sobre as massas um império despótico 4.
De fato, já na virada do século, a tomada de consciência da concentração urbana e industrial, os movimentos de massa na vida política e social, entre outros fatores, atrairão as atenções para os grupos e os fenômenos coletivos, inspirando Jules Romains, em 1903, a conceber o unanimismo e a formular uma realidade poética nova, através de uma linguagem igualmente nova. La vie unanime , longo poema publicado em 1908, constitui, por sua temática, bem como por sua composição, uma obra moderna , cuja principal audácia se deve à fundação de um lirismo objetivo de essência espiritual 5.
Observa-se, assim, que desde suas mais remotas origens, o que ressalta, imediatamente, na obra literária de Jules Romains, é o seu caráter duplamente reflexivo relacionado ao poético em si e a sua própria função.
Tal fato possibilita alinhar Romains a autores como Proust, Gide e Valéry, cuja obra, igualmente transgressora e inovadora , opondo-se ao discurso da crítica oficial da época, lança-se em um outro tipo de crítica que se realiza dentro da própria ficção.
E é justamente dentro deste quadro de literatura crítica que se insere, a nosso ver, já em 1923, Knock ou le triomphe de la médecine .
Situando esta sátira de Jules Romains dentro do contexto da França do começo do século, observamos que, no que concerne ao tema, gravita em torno de uma tríplice reflexão de ordem crítica: da ciência, da política e da própria literatura.
Considerando-se que a ciência - esta componente que, doravante, sob as mais diversas formas, alargará seus domínios pelas mais variadas vertentes do conhecimento humano - constitui o tema central em torno do qual, ou, mais precisamente, a partir do qual, desenrola-se a ação propriamente dita da peça em questão, assinalamos o papel preponderante por ela desempenhado no que tange a nossa pesquisa.
Partindo do pressuposto de que Knock ou le triomphe de la médecine tece, nas suas entrelinhas, uma crítica à realização literária de cunho cientificista, ou seja, ao naturalismo, pareceu-nos justificável, respeitadas, naturalmente, as distâncias espaço-temporais, estabelecer os pontos de contato entre a citada peça de Jules de Romains e o conto O alienista , de Machado de Assis, uma vez que os dois textos parecem realizar, de maneira subliminar, uma releitura de Le roman expérimental , de Émile Zola 6.
De fato, como por nós demonstrado em recentes estudos 7, remetendo, à primeira vista, à apologia da ciência - a partir do título onde a exaltação à medicina parece evidenciar-se - observamos que Knock , após a revelação das verdadeiras intenções do personagem central - fazer fortuna - configura-se como preponderantemente exegética, questionando vários aspectos do contexto sócio-histórico franco-europeu, por assim dizer, dos anos vinte, além de indagar não só sobre o fazer literário , mas sobre a sua própria função.
Com relação a O alienista , o mesmo parece ocorrer, desta vez, dentro do contexto sócio-histórico do Brasil oitocentista, mais precisamente, do início da década de 80.
Segundo Roberto Schwarz 8, o ritmo de nossa vida ideológica, seguindo à distância os passos do velho mundo, viu passarem as maneiras barroca, neoclássica romântica, naturalista, modernista e outras, que na Europa acompanharam e refletiram transformações imensas na ordem social . Em outras palavras, adotadas - o que vale dizer importadas - tais idéias encontram-se desajustadas em relação ao lugar a que são submetidas; donde o desacordo entre a representação e o que, pensando bem, sabemos ser o seu contexto (ibid. p. 25).
Tal impropriedade de idéias européias aplicadas por uma sociedade recém-emancipada e à procura de identidade será verificada também no campo das artes e, particularmente, no da literatura. Dessa forma, ainda de acordo com Schwarz, herdávamos com o romance, mas não só com ele, uma postura e dicção que não assentavam nas circunstâncias locais e destoavam delas (ibid. p. 49). E é deste desajuste naturalmente cômico (ibid. p. 49-50) que Machado de Assis tirará partido, principalmente no conto O alienista ao colocar em xeque o determinismo mecanicista que a ciência do seu tempo, meio às cegas, apregoava 9.
É o que se evidencia através do personagem principal, Simão Bacamarte, que, encarnando a Ciência, na sua incansável luta pela demarcação da zona limítrofe entre a razão e a loucura, propicia, não só o questionamento das verdades científicas , mas também, das instituições sociais, de maneira geral, além da própria linguagem - instrumento indiscutível de ataque utilizado por Machado de Assis, no entender de José Carlos Garbuglio 10, contra os vezos da época e do brasileiro, amante da retórica balofa e inchada, ainda hoje estimada de muitos .
É preciso considerar que, em um como em outro caso, os protagonistas, apesar da seriedade e devotamento à missão que se propõem cumprir, não são totalmente imunes às satisfações de ordem pessoal: Simão, embora exteriormente , compreendeu que ocupando-se da saúde da alma , a ciência lusitana e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de louros imarcescíveis (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 10). Louros estes que lhe cobririam, por certo, a fronte que sempre se mostra altiva: primeiramente, ao declinar do convite que lhe fazia o rei para que pudesse dedicar-se apenas ao estudo da ciência (ibid., p. 9); em seguida, diante da decepção causada pela recusa da esposa em lhe atender à prescrição do regímen alimentício que asseguraria a continuidade à dinastia dos Bacamartes, mergulhando inteiramente no estudo e na prática da medicina (ibid., p. 9); depois, defendendo com veemência, na Câmara, sua proposta de agasalhar e tratar os loucos de Itaguaí e vizinhança; mais tarde, ao falar com o vigário a respeito da razão humana, e puramente científica que explicaria a demência de um dos reclusos (ibid., p. 12); também no momento em que retorna à casa depois de se despedir da esposa que partia para o Rio de Janeiro, sem se deixar abalar pelas abundantes lágrimas por ela vertidas: se alguma coisa o preocupava naquela ocasião [...] não era outra coisa mais do que a idéia de que algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de juízo (ibid., p. 16).
Nem a ameaça de morte alardeada em altos brados pelo barbeiro Porfírio e a convocação deste para que os revoltosos que o haviam acompanhado até a residência do Doutor Bacamarte destruíssem a Casa Verde (ibid., p. 29 - 30), ou seja, o hospício que mandara construir, é capaz de desengonçar por um instante a rigidez científica (ibid., p. 23) do alienista.
Tão pouco a posterior descoberta de que a verdadeira doutrina (ibid., p. 40) não era a que o levara a enclausurar quatro quintos da população de Itaguaí, mas a oposta, poderá desconcertá-lo: Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na penetração com que principiou a tratá-los (ibid., p. 45).
Os exemplos se multiplicam ao longo do conto consolidando essas que constituem as principais características do alienista: a autoconfiança, fruto de sua fé inabalável na ciência, e o autoritarismo revestido de abnegação e desprendimento: Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão (ibid., p. 40).
Observa-se que, em ambos os casos, os especialistas, utilizando métodos próprios , buscam estabelecer fronteiras: em Itaguaí, como referido, o Doutor Bacamarte se empenhará em demarcar definitivamente os limites da razão e da loucura (ibid., p. 18); em Saint-Maurice, o Doutor Knock concentrará todos os seus esforços não só no sentido de determinar, mas também no de conduzir à existência medical os milhares de indivíduos neutros do Cantão (ROMAINS, 1924, p. 135).
Mais do que tudo, entrementes, é o final do conto que parece confirmar de maneira definitiva a superioridade e a autoridade científicas de Simão Bacamarte: após a libertação da segunda leva de reclusos por ele tratada e julgada recuperada , o alienista não hesitará em se internar, reconhecendo em si mesmo os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral (ibid., p. 48), isto é, tudo aquilo que, de acordo com suas novas conclusões, determinaria os sintomas de demência :
Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato contínuo, recolheu-se à Casa Verde. (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 48)
Mas outras satisfações serão igualmente apontadas, no conto: a forma como é descrita, pelo narrador, a atitude do personagem em relação à surpresa de Dona Evarista diante da via láctea de algarismos que lhe apresenta o marido e, principalmente, em frente às arcas onde estava o dinheiro proveniente das internações, parece bastante significativa:
Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões: _ Quem diria que meia dúzia de lunáticos... (ibid., p. 15)
Também Knock se mostrará, ao longo da peça, imbuído do mesmo sentimento de superioridade propiciado por seus conhecimentos científicos que lhe conferirão, ainda, a condição de indiscutível autoridade no tocante às questões de saúde da população do cantão. Como no caso de Simão Bacamarte, a imagem de devoção à causa abraçada - a medicina - e desinteresse no que se refere a questões pecuniárias, amplamente divulgada pelo Doutor Knock, é totalmente - ou quase, considerando-se as dúvidas de seu predecessor antes do desfecho da peça - assimilada pelos habitantes de Saint-Maurice. É o que se deduz a partir da consulta de alguns dos personagens, seja o tocador de tambor da cidade, acometido, por vezes, de um mal - estar no ventre depois de ter comido (ROMAINS, 1924, p. 62 - 65), sejam os dois rapazes gaiatos que só queriam se divertir (ibid., p. 103 - 108), ou a senhora vestida de negro, estafada por excesso de trabalho (ibid., p. 82 - 91), ou, ainda, a senhora vestida de violeta, sujeita a insônia devido a preocupações financeiras (ibid., p. 92 - 102), todos sairão do consultório do novo médico da cidade convencidos da gravidade do mal diagnosticado e do tratamento que lhes é imposto.
Mas não serão os únicos a serem persuadidos por Knock, quer no que concerne à saúde , quer no que se refere à doença . É o que relata Madame Rémy, a dona do Hôtel de la Clef, recém-transformado em hospital, ao atônito predecessor de Knock, Doutor Parpalaid, já ao final da peça, quando este volta a Saint-Maurice, como estipulado anteriormente, três meses após a venda de sua clientela (ibid., p. 122):
[...] E não adianta insinuar tampouco que ele [Knock] descobre doenças em pessoas que não têm nada. Eu, mais do que qualquer outro, já fiz com que ele me examinasse dez vezes desde começou a vir todos os dias ao hotel. Todas as vezes ele se prestou a fazê-lo com a mesma paciência, me auscultando dos pés à cabeça, com todos os seus instrumentos, e perdendo um bom quarto de hora. Ele sempre me dizia que eu não tinha com o que me preocupar, que tudo o que eu tinha a fazer é comer e beber bem. E nem pensar em fazer com que ele aceitasse um centavo. [...]
Também o farmacêutico Mousquet, não colocará em dúvida a teoria profundamente moderna que lhe expõe o Doutor Knock quanto ao princípio de que todos os habitantes do cantão são "ipso facto" clientes potenciais, tanto de um, quanto do outro (ibid., p. 79 - 80):
MOUSQUET
_ É verdade que num momento ou outro de sua vida, cada um pode se tornar nosso cliente ocasional.
KNOCK
_ Ocasional? De jeito nenhum. Cliente regular, cliente fiel.
Observa-se, assim, que o discurso de Knock, bem como suas atitudes, buscam encobrir seus verdadeiros objetivos de satisfação de ordem pessoal: não só o enriquecimento, mas também, o poder.
Verifica-se, pois, que tanto o conto quanto a peça, unindo a retórica à ciência, instalam ditaduras científicas , uma em Itaguaí, outra, em Saint-Maurice - ambas, cidades interioranas, representativas de um macrocosmo político-social em que o poder encontra-se estreitamente relacionado com a palavra , mais exatamente, a ela subjugado.
E não por acaso: o positivismo de Comte e o evolucionismo de Darwin e Spencer teriam suscitado a aceitação da supremacia da ciência sobre as demais disciplinas fazendo com que até as artes a ela se submetam 11.
Assim, nos dois casos, a oratória brilhante - mas vazia do ponto de vista de idéias ou, senão, mistificadora - sob aparente embasamento científico, será utilizada como instrumento de sujeição da população das duas cidades pelos manipuladores da retórica da ciência: Simão Bacamarte e Knock.
E é essa abordagem de cunho irônico verificada nos dois textos supracitados que nos leva a depreender um dos traços da política do palimpsesto neles contida, como bem o demonstra Costa Lima 12 no que se refere a O alienista :
[...] Supomos então haver em Machado uma verdadeira política do texto consistente em compor um texto aparente,"segundo", capaz de interessar a seus leitores "cultos" pelo sóbrio casticismo da linguagem, seus polidos torneios, suas personagens de pequenos vícios e inofensiva aparência. Sob esses traços, eram deixadas as marcas de um texto "primeiro", que a impressão tipográfica antes velava que apagava.
Afirmação semelhante podemos fazer com relação a Knock ou le triomphe de la médecine , pois,o inusitado da situação - um charlatão que contava fazer fortuna graças à aplicação de métodos supostamente científicos e modernos nos clientes de um vilarejo, tendo sido passado para trás pelo médico da região, consegue virar a mesa , dominar toda a população e atingir seu intento - de ordem cômica, esconde, na verdade, as camadas palimpsestas do texto: a do questionamento da parceria ciência-poder e, principalmente, a da aliança ciência-arte, no caso, ciência-literatura, proposta pelo citado texto de Zola.
Outra faceta desse questionamento seria a do tema do nacionalismo, que se verifica implícito, quer no texto de Machado, quer no de Romains.
Com efeito, o humour , que mais do que um recurso estilístico constitui o traço transgressor da obra machadiana, participando, por assim dizer, da própria trama do Alienista (desde a escolha do tema, passando pela elaboração dos personagens e do cenário em que se desenrola a ação), será apontado pela crítica contemporânea - cujos padrões de aferição de legitimidade a uma obra estão diretamente ligados à natureza e aos índios brasileiros - como procedimento anti-natural , logo, anti-nacional .
Quanto a Knock , também não pode ser compreendida como casual a escolha do tema, dos personagens e do cenário, sobretudo no momento em que, em nome do nacionalismo, regimes totalitários, senão declaradamente xenófobos, segregacionistas, começam, como anteriormente referido, a firmar suas bases na Europa. Sendo assim, a questão da recusa do outro - a princípio, o doutor Knock; em seguida, pela inversão de papéis provocada pela mudança de situação, M. Parpalaid, seu predecessor - dentro de uma comunidade gregária - no caso, o vilarejo de Saint-Maurice - pode ser compreendida como a metáfora dessa vertente nacionalística que proporciona um caminho fácil para aspirantes a ditador 13.
Podemos entrever, dessa forma, em que medida o conto e a peça em questão, configurando-se enquanto textos críticos, estabelecem novas perspectivas no que concerne às relações entre o pensamento e a ficção, apontando para um outro lugar da literatura: o da literatura crítica.
SURER, Paul. Cinquante ans de tháâtre . Paris: Société d'Édition d'Enseignement Supérieur, 1969.
ROMAINS, Jules . Knock ou le triomphe de la médecine . [Paris]: Gallimard, 1924.
___. Donogoo . Paris: Gallimard, 1950.
SURER, Paul. Cinquante ans de théâtre . Paris: Société d'Edition d'Enseignement Supérieur, 1969, p.61-2.
ROMAINS, Jules. La vie unanime . [Paris]: Gallimard, 1983, p.34.
ZOLA, Émile. Le roman expérimental . IN: GERSHMAN et WHITWORTH. Anthologie des préfaces de romans français du XIX e siècle . Paris: Julliard, 1964.
MORAES, Stela. Knock ou o triunfo da mistificação (dissertação de mestrado). Niterói: Eduff, 1999.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas . São Paulo: Duas cidades, 2000, p. 25.
MOISÉS, Massaud. Machado de Assis: ficção e utopia . São Paulo: Cultrix, 2001, p. 126.
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