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A história como intertexto em Shame, de Salman Rushdie
Shirley de Souza Gomes Carreira (UNIGRANRIO)
Salman Rushdie é um dos mais brilhantes e conhecidos representantes da literatura pós-colonial em língua inglesa. Sendo um dos muitos escritores migrantes contemporâneos, Rushdie transpõe para a sua obra a experiência do exílio, da migração e de uma subjetividade que é a um só tempo plural e parcial. Ao fazê-lo, transforma a história de seu país de origem, a Índia, e dos países que o acolheram, o Paquistão, a Inglaterra e os EUA, em matéria-prima para a sua ficção.
A proposta desta comunicação é fazer uma breve análise do modo pelo qual Rushdie utiliza a história como intertexto em Shame 1, lançando ao passado um olhar crítico que é fruto da dupla experiência de inclusão e exclusão em uma nova sociedade.
Em uma entrevista concedida em 1990, Rushdie tentou explicar a gênese do romance afirmando que ele nasceu da conjunção de dois interesses: o primeiro diz respeito às razões que levaram o General Zia a dar o golpe militar que depôs o Primeiro Ministro do Paquistão, Ali Bhutto, após ter sido por longo tempo seu protegido; o segundo relaciona-se a uma temática que dá título ao romance. Nas palavras de Rushdie, "o romance é, na realidade, um conjunto de elaborações sobre a natureza do conceito de "vergonha", seja ela pública ou privada." 2
Muito embora afirme que Shame não é um "romance realista sobre o Paquistão" (p.7), as muitas digressões em que o narrador/autor discute questões sociais e políticas daquele país, bem como a correspondência evidente entre personagens ficcionais e personalidades políticas, deixam claro que o romance promove uma re-leitura da história oficial, a exemplo do que Rushdie já havia feito no romance anterior, Midnight's children . A julgar por outras obras suas, a revisão da história parece ser um projeto pessoal do autor, que busca reinterpretar o oriente com o olhar do homem traduzido, ou seja, de um indivíduo híbrido, detentor de uma posição ambivalente, que permite, igualmente, uma revisão dos próprios sistemas de referência, normas e valores.
A história política da Índia está entrelaçada a do Paquistão e, portanto, faz-se necessário explicitar, ainda que em linhas gerais, os acontecimentos que levaram à separação dos dois países e aos conflitos posteriores, a fim de que o diálogo entre a ficção e a história possa ser compreendido.
No século XIX , o Império Britânico assumiu o controle do subcontinente indiano, assim permanecendo até 1947, quando, sob a liderança de Mohandas Gandhi e Jawaharlal Nehru, em uma atitude de resistência não-violenta ao colonialismo britânico, a Índia conquistou a sua independência. O subcontinente indiano foi, então, dividido entre a Índia milenar e o estado mulçumano do Paquistão. Desde 1933, já se cogitava a criação de um estado que unisse politicamente todos os mulçumanos da Índia. A palavra Paquistão provém da palavra "pak", que significa "ritualmente puro" e, ao mesmo tempo, contém as letras iniciais dos principais povos que o compõem: Punjabs, Afegãos, Khashmirs e Sinds.
Os problemas políticos do Paquistão foram gerados, primeiramente, pela intensa migração, pois cinco milhões de sikhs e hindus retiraram-se do país, que, em contrapartida, recebeu oito milhões de mulçumanos. Esse desequilíbrio entre o número de habitantes e o espaço territorial do país gerou um descontentamento com as fronteiras, levando o Paquistão à guerra contra a Índia por três vezes, em 1948 e em 1965, em disputa pelo território da Caxemira, e em 1970, por causa do apoio indiano à independência do Paquistão Oriental. A divisão entre Paquistão Ocidental e Oriental surgiu em virtude de o país ser formado por duas áreas não contíguas e os constantes conflitos entre as duas partes culminaram em uma guerra civil que, com a intervenção da Índia em favor do Paquistão Oriental, propiciou o surgimento de um novo Estado, Bangladesh, em 1971.
No Paquistão, o presidente Yahya Khan renunciou deixando para Zulfikar Ali Bhutto não só a presidência, mas também a tarefa de ser o primeiro administrador civil da Lei Marcial. Ciente de sua posição delicada, em 1976, Bhutto nomeia o General Zia-ul-Haq chefe das forças armadas, preterindo outros cinco oficiais. A imagem pública de Zia, um homem aparentemente religioso e simples, fez com que Bhutto subestimasse a sua ambição. Em 1979, acusado de tramar a morte de um dissidente do Partido Popular, Bhutto foi preso a mando de Zia, julgado em circunstâncias confusas e condenado à morte. A sedução do poder e os limites da honra entremeados à história do relacionamento entre esses dois homens tornaram-se a matéria-prima a ser utilizada na elaboração do romance.
O narrador busca situar historicamente a sua trama no século XIV, para logo depois avisar que essa cronologia está subordinada ao calendário muçulmano, o que, automaticamente, transpõe a história para o século XX. Essa dupla possibilidade de existência temporal transgride os limites entre passado e presente, sugerindo a existência concomitante de duas sociedades distintas, uma regida pelos rígidos códigos do Islã e a outra movida pelos interesses e apelos do mundo moderno. Essa transgressão também ocorre no nível do discurso, pois são muitas as vezes em que o narrador/autor, persona de Rushdie, invade a cena, manifestando-se plenamente como uma entidade extradiegética e tecendo comentários sobre os eventos ficcionais e os fatos históricos, como, por exemplo, ao afirmar que os relatos históricos são semelhantes aos ficcionais na sua seletividade e focalização:
Quanto a mim: eu também como todos os migrantes sou um "fantasiador". Construo paises imaginários e tento impô-los aos que existem. Eu também me defronto com o problema da história: o que reter, o que desprezar, como me ater ao que a memória renuncia? 3
O caminho encontrado por Rushdie é o mesmo trilhado por Gabriel Garcia Márquez em Cem anos de solidão : a história genealógica, ou familiar, que constitui metáfora da história nacional. Há, no romance, dois núcleos familiares distintos que estão vinculados a personagens que são as versões ficcionais do General Zia e de Ali Bhutto: Raza Hyder e Iskander Harappa, respectivamente.
A primeira parte do romance é enganosa, pois dá a impressão de que o personagem que ela traz à cena, Omar Khayyam Shakil, é o protagonista. No entanto, este é apresentado ao leitor como um anti-herói, e descrito pelo narrador como um homem periférico, alguém que está sempre deslocado no mundo em que vive. Graças às circunstâncias obscuras do seu nascimento, pois nunca consegue descobrir quem são seus pais biológicos, Omar é criado sem o apelo da tradição e da religião, o que contribui para que ele incorpore metaforicamente o indivíduo sem raízes e sem moral.
Quando, subitamente, Omar sai de cena e outras personagens são introduzidas, o leitor começa a perceber que Shame é um romance sem nenhuma figura central dominante, porque é formado a partir da tessitura de histórias cuja espinha dorsal se apóia na relação entre dois conceitos cruciais nas sociedades muçulmanas: izzat e sharam , honra e vergonha. A palavra sharam , o equivalente em urdu para "vergonha", é de suma importância para a compreensão da releitura que Rushdie faz da história.
No Islã, o sentimento de vergonha está atrelado a uma posição subalterna e a palavra que o define tem nuances que a tradução em inglês não contempla. Por outro lado, para o muçulmano, a honra deve ser mantida a qualquer custo, sacrificando até mesmo o amor que se possa sentir por alguém. Um exemplo dado pelo narrador/autor, em uma das muitas digressões que o romance contém, diz respeito à morte de uma jovem, assassinada pelo próprio pai, que, ao descobrir que ela tivera relações sexuais com um jovem branco, prefere matá-la a ter de conviver com a vergonha.
No romance, a associação da vergonha à violência passa a ter vulto quando os dois núcleos familiares são apresentados ao leitor. Em Shame , Sufiya Zenobia, a filha do General Raza Hyder, é a personificação da vergonha. Ela é o receptáculo dos sentimentos que as pessoas deveriam ter e não têm. Ainda quando bebê, ao perceber a decepção e a raiva dos pais com o fato de que era uma menina, ao invés do filho que ambos desejavam, Sufiya cora de vergonha, e, à medida que cresce, seu corpo queima sempre que ela mesma, ou outra pessoa, é exposta a uma situação embaraçosa:
Para falar com franqueza: Sufiya Zenobia Hyder corava incontrolavelmente sempre que a sua presença no mundo era notada. Mas ela também corava pelo mundo inteiro.(...) Deixem-me enunciar minhas suspeitas: a febre cerebral que fez com que Sufiya se tornasse receptiva a todo tipo de coisa que flutuasse no éter à sua volta capacitou-a a absorver, como uma esponja, uma horda de sentimentos nunca experimentados. 4
O romance relata a história das personagens masculinas do ponto de vista das personagens femininas, sem, no entanto, ocultar que o elemento central da narrativa é o relacionamento entre Raza Hyder e Iskander Harappa. A trajetória do General Zia e de Ali Bhutto na vida real é abordada frouxamente no universo ficcional, exceto pelas digressões do narrador, que, em alguns momentos, assumem um ar de ensaio dentro do romance. Muito embora os acontecimentos no romance não correspondam aos fatos históricos de um modo ordenado e fiel, Rushdie cria personagens cujos traços de caráter são compatíveis com as personalidades históricas.
O General Zia foi um fundamentalista truculento que, ao assumir o poder, iniciou um programa de Islamização do Paquistão que primava pelo terror, pela discriminação e pela misoginia. Raza, seu equivalente ficcional, também tem uma carreira meteórica, calcada em atos de extrema violência, apesar das suas demonstrações constantes de religiosidade e fidelidade à moral islâmica.
Em contrapartida, Ali Bhutto foi um playboy incorrigível e, graças ao seu discurso populista e histriônico, sempre conseguiu mobilizar as massas a seu favor. A tal ponto, que, mesmo preso e condenado, diversas entidades mundiais tentaram pressionar o General Zia para que ele fosse libertado.
A versão ficcional de Bhutto não lhe fica a dever em nada. Iskander Harappa é apresentado ao leitor como um homem lascivo e imoral. Enquanto Raza se faz acompanhar do seu líder espiritual, a companhia cativa de Iskander vem a ser o anti-herói do romance, Omar Shakil, trazido de volta à cena com a incumbência de tipificar as seduções do mundo contemporâneo. Por influência deste, Iskander envia a mulher, que vem a ser prima de Raza, para uma propriedade no campo, excluindo-a de sua vida e assumindo publicamente o romance com a esposa de um velho marechal. Sua vida dissoluta tem um fim quando, finalmente, percebe o sucesso de Raza, que fora nomeado Ministro da Educação, Informação e Turismo. A ambição faz com que se afaste tanto da amante quanto do amigo e adote postura populista, acabando por tornar-se Primeiro Ministro. Mais tarde, comete o erro de conceder a Raza poder suficiente para que ele o deponha, prenda-o e mande matá-lo.
O romance ficcionaliza a aura que se formou em torno de Bhutto após a sua morte:
O que está nascendo? Uma lenda. Isky Harappa subindo, descendo; Isky condenado à morte, o mundo horrorizado, seu executor afogado em telegramas, mas acima deles, ignorando-os, um carrasco sem compaixão, desesperado, medroso. Então, Isky morto e enterrado; cegos recuperando a visão diante do seu túmulo de mártir. 5
Em Shame , as circunstâncias obscuras do julgamento e da morte de Bhutto são também abordadas. É Rani, a mulher de Iskander, quem levanta a suspeita de que o marido já havia sido executado antes do enforcamento, pois seu corpo não apresenta nenhum dos sinais típicos desse tipo de execução. Ainda hoje, há quem creia que o assassinato de Bhutto foi promovido pelos americanos como uma espécie de punição pela sua insistência em manter um programa nuclear.
O romance estabelece uma forma de parentesco entre os antagonistas que não existiu na vida real e que tem a aparente função de demonstrar a dinâmica da política paquistanesa, que concentra o poder nas mãos de uma minúscula classe governante. Por outro lado, serve também ao propósito do autor de igualar os governos civis e militares no que diz respeito ao abuso de poder.
A imoralidade, a crueldade e a tirania de Iskander são imortalizadas no âmbito do romance por meio dos dezoito xales que a sua mulher tece no exílio domiciliar. Após o assassinato do marido, ela mostra os xales à filha, em uma tentativa de desconstruir a idolatria que esta desenvolvera pelo pai.
Um epitáfio de lã. Os dezoito xales da memória. Cada artista tem o direito de nomear a sua criação, e Rani colocaria um pedaço de papel dentro do baú antes de enviá-lo à filha. Nesse pedaço de papel ela escreveria o título escolhido: "A falta de vergonha de Iskander o Grande". E ela acrescentaria uma assinatura surpreendente: Rani Humayun. Seu próprio nome, recuperado em meio às naftalinas do passado. 6
Em Imaginary Homelands 7, Rushdie publica um ensaio intitulado "Filha do oriente", que focaliza o livro homônimo escrito por Benazir Bhutto, no qual ela descreve com precisão as atrocidades cometidas durante o regime de tortura do General Zia, omitindo, no entanto, os genocídios ordenados por seu pai. Shame a descreve como Arjumand, "a virgem de calças de ferro", uma mulher que renega sua feminilidade em prol do poder; uma filha que é incapaz de admitir que seu pai foi um tirano assassino tão cruel quanto o seu algoz.
O tratamento dado às mulheres no romance pretende ser uma denúncia da condição ultrajante da mulher em uma tal sociedade. Em uma passagem, na qual explica porque seu romance não pode ser considerado realista, Rushdie menciona o Sind Club, em Karachi, onde, até hoje, existe uma placa com os seguintes dizeres: "Mulheres e cães não são permitidos além deste ponto" (p.66). Em suas próprias palavras: "uma sociedade que é autoritária em seus códigos sociais e sexuais, que esmaga as suas mulheres sob o peso intolerável da honra e da propriedade, também é capaz de gerar repressões de outra espécie" (p.181). Ironicamente, em Shame , as histórias masculinas são contadas por meio da ótica feminina.
Não é, portanto, sem um propósito que Rushdie apela para o realismo mágico, fazendo com que Sufiya acumule dentro de si toda a vergonha causada pelos erros dos que a cercam, acabando por tornar-se um monstro assassino, cujo último ato, antes de explodir em combustão espontânea, é pôr fim à vida de seu próprio marido, Omar Shakil. A vergonha elevada à violência pela falta de moral.
A releitura ficcional da história contém uma série de advertências não só contra o que Rushdie denomina "mentalidade de gueto", isto é, um nacionalismo exacerbado, que cultua as próprias raízes ignorando as lições da história, como também adverte o ocidente contra a imagem de barbárie que tem do oriente. Para exemplificar e finalizar; faço referência a uma passagem de Shame, em que Rushdie relata que, durante um jantar em Londres, o apoio americano ao governo de Zia foi objeto de uma discussão acalorada com um diplomata inglês. Ao deixarem a mesa, a pacífica esposa do diplomata perguntou-lhe discretamente porque os paquistaneses não se livravam de Zia da maneira usual. A conclusão do autor é pertinente em termos desta análise: "A vergonha, caro leitor, não é propriedade exclusiva do oriente (p.22)".
RUSHDIE, Salman. Shame: a novel . New York: Picador USA, 2000. A tradução das citações é de minha autoria.
CHAUDHURI, Uma. Imaginative Maps . Excerpts from a conversation with Salman Rushdie. V. II, no.1, 1990. Disponível em : http://www.subir.com/rushdie/uc_maps.html
RUSHDIE, Salman. Imaginary Homelands . Essays and criticism 1981-1991.Londres: Granta Books, 1991. pp. 56-58