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Três passeios pela cidade carioca: Imagens e representações do Rio de Janeiro em obras de Joaquim Manuel de Macedo, Lima Barreto e Rubem Fonseca
Fátima Cristina Dias Rocha (UERJ)

Neste trabalho, passeio por três obras que se inscrevem como autênticos "marcos" na tradição da narrativa urbana sobre o Rio de Janeiro. São elas: os folhetins de Joaquim Manuel de Macedo publicados nos anos 60 do século XIX e reunidos no livro Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro (1862/1863); o romance Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá , de Lima Barreto (1919); e o conto "A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro", de Rubem Fonseca, incluído no volume Romance negro e outras histórias (1992).

Essas obras, dentre tantas outras que buscam a legibilidade do espaço urbano carioca, aproximam-se por colocarem em cena narradores e/ou personagens "passeadores", os quais propõem, cada um a seu modo, um roteiro de leitura/escrita da cidade do Rio de Janeiro.

Acompanhando tais roteiros, investigarei as múltiplas e cambiantes representações e imagens da cidade neles figuradas, abordando também os pontos de convergência e de tensão entre esses "passeios" que, elaborados em tempos e ritmos diversos, integram a dimensão da resistência ao apagamento da memória da cidade.

Começo, então, a percorrer o Rio de Janeiro pelas mãos do "cicerone" Macedo, que, em seus folhetins, põe em prática o projeto de mapeamento histórico-geográfico da Corte. Assim, naquele tom de conversa com o leitor, próprio da crônica, Macedo convida-nos para um "passeio" pela cidade, traçando um roteiro que inclui painéis diferentes e "sensações de diversas naturezas": de um lado, "cenas animadas pelo movimento, pelas solenidades e pelo encanto ardente da vida ruidosa do mundo" 1, como nas incursões ao Paço Imperial e ao Passeio Público; de outro lado, visitas a retiros melancólicos e piedosos, como os Conventos de Santa Tereza e de Santo Antônio, as igrejas da Sé e de São Pedro.

Assemelhando-se a Martins Pena __ que, nos anos 30, também se servira, em suas crônicas, das fórmulas consagradas pelos relatos de viagem __, Macedo toma emprestado dos relatos de viajantes não só o cuidado com o registro minucioso de usos e costumes, mas ainda modos de narrar e até mesmo a "imagem-guia" da viagem, que se converte num passeio, de curto trajeto, pela cidade. O que o leva a empreender essa "viagem amena" (expressão do próprio cronista) pelo Rio de Janeiro é o desconhecimento, por parte dos cariocas, da história e das crônicas de sua cidade, fruto da "antipatriótica falta de curiosidade pelo que é nosso". Ouçamos o próprio Joaquim Manuel de Macedo:

Se no outro tempo era grande essa antipatriótica falta de curiosidade, agora é muito pior: os paquetes a vapor e a facilidade das viagens ao Velho Mundo tiram-nos a vontade de passear o nosso, e é mais comum encontrar um fluminense que nos descreva as montanhas da Suíça e os jardins e palácios de Paris e Londres do que um outro que tenha perfeito conhecimento da história de algum dos nossos pobres edifícios, da crônica dos nossos conventos e de algumas das nossas romanescas igrejas solitárias,(...).

Hoje em dia uma viagem a Lisboa é cousa mais simples do que um passeio ao Corcovado.

Estou convencido de que se podia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração (MACEDO, op.cit. , p. 20).

 

Ao convidar o leitor, o cronista não deixa de assinalar que se trata de viagem imaginária e ao léu, da qual se excluem quaisquer cronologias ou direções impostas previamente. Com efeito, as trocas de tempo histórico são constantes, bem como a passagem de "fatos comprovados" para casos oriundos da tradição popular ou histórias inventadas pelo próprio cronista. De um parágrafo a outro passa-se, por exemplo, da descrição do Palácio Imperial e de comentários sobre o ano de 1808 para o Rio de Janeiro de dois séculos antes e o Convento dos Carmelitas. E, com a maior sem-cerimônia, Macedo transita das "crônicas do tempo" para a tradição oral e desta, outra vez, para a "fiel narração dos fatos".

Como afirma Flora Süssekind, "é a imagem-guia do 'passeio' que permite a Macedo alinhavar, com sua cartografia miúda de cronista, tantos lugares, casos e épocas diversas por que passa, ora rapidamente, ora com vagar e atenção" 2. Passeando, o cronista se detém na "história antiga" de cada prédio, percorrendo minuciosamente o seu interior e os detalhes arquitetônicos que o compõem; e, se julga ter enfadado o leitor com informações excessivas, surpreende-o com uma saborosa aventura folhetinesca de que foi palco aquele edifício ou instituição que está "estudando"__ expressão usada freqüentemente por Macedo, numa clara alusão ao desdobramento do "passeio" pelo Rio de Janeiro no "estudo" dessa cidade, alçando-se o cronista à condição de pedagogo informal do público leitor.

Vale ressaltar que, para concretizar seu projeto "patriótico" de mapeamento histórico-geográfico do Rio de Janeiro, Macedo se obriga a fechar os olhos para o majestoso cenário natural da cidade __ do contrário, tal cenário o absorveria inteiramente, impedindo-o de excursionar "pelos domínios do passado". Cerrando os olhos à "natureza grandiosa e sublime" que cerca o Rio de Janeiro, o cronista dedica-se a ler, nas janelas e salas dos edifícios, igrejas e conventos, as feições do passado da cidade, esforçando-se por registrar __ e conservar __ a memória desses traços. Diz, a respeito de seu método e intenções, o próprio escritor:

Determinei escrever o que sabia e conseguisse saber sobre a história e tradições de alguns edifícios, estabelecimentos públicos e instituições da cidade do Rio de Janeiro, abundando quanto pudesse em informações relativas aos homens notáveis e aos usos e costumes do passado; porque entendi que com este meu trabalho presto ao meu país um serviço e pago-lhe um tributo de patriotismo, pois que concorro com o meu contingente, fraco embora, para salvar do olvido muitas cousas e muitos fatos cuja lembrança vai desaparecendo (MACEDO, op.cit ., p. 17).

 

Além de destacarem o seu papel na tarefa de construção da nacionalidade, os folhetins de Macedo dão exemplo da passagem, nas figurações do país e da Corte, de um "paisagismo naturalístico" para um "paisagismo histórico". Estas expressões são de Flora Süssekind, que assinala a presença obrigatória da natureza brasileira nos relatos, desenhos, mapas e ensaios ficcionais da primeira metade do século XIX, nos quais se referendava "a imagem atemporalizada de um Brasil pitoresco, promissor, coeso" (SÜSSEKIND, op.cit ., p. 189). É só na segunda metade do século, "mapas e paisagens na parede", que passa a predominar o compromisso com origens, gestações, fundações __ tão evidente em romances como O guarani ou As minas de prata , de José de Alencar.

Deste modo, o narrador-cronista de Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro tanto dialoga com os relatos de viajantes estrangeiros sobre o Brasil quanto se aproxima do historiador, assinalando o instante de solidariedade entre a história e a literatura no esforço de afirmação nacional. Embora o cronista procure "amenizar a história" __ "escrevendo-a com esse tom brincalhão e epigramático que, segundo dizem, não lhe assenta bem, mas de que o povo gosta" (MACEDO, op.cit ., p.18) __, é inegável que Macedo quer dar a conhecer a seu público a história da cidade e de seus monumentos, privilegiando os acontecimentos e os "homens ilustres" que construíram essa história e, especialmente, os lugares que testemunharam tais acontecimentos. Nesta clave, o Rio de Janeiro é representado como a antecena da nossa Independência, anunciada em 9 de janeiro de 1822, na "sétima janela" do Paço Imperial, na qual José Clemente Pereira declarou ao povo que o princípe regente ficaria no Brasil. Conclui Macedo: "Quando o príncipe regente chegou à margem do Ipiranga, a 7 de setembro, (...), já tinha passado o Rubicon no Rio de Janeiro ( Op.cit ., p. 47).

Mas não é monocórdico o tom com que o cicerone Macedo descreve os quadros e personagens que resgata do "livro do passado": freqüentemente o acento entusiasmado é substituído pelo tom nostálgico ou até mesmo pela descrição disfórica __ como a da decadência e ruína do Passeio Público no início do século XIX ou a da perversão moral da cidade no século XVII.

Sendo necessário interromper por aqui este passeio, faço como Macedo; descanso um pouco, deixando em meu lugar o urbanista Robert Pechman, que diz: "Passeando, (...) [Macedo] aproveita para contar histórias, cultivar o amor pelas coisas locais, criticar os vícios e estimular a adesão a uma ética, cujo desafio é a vida cosmopolita" 3.

Quando volto a percorrer a cidade, encontro-a remodelada, pois, com o romance Lima Barreto, dei um salto para o início do século XX. Desta vez tenho como cicerones o passeador Gonzaga de Sá e seu discípulo Augusto Machado __ este último o pseudo-autor do romance, que é apresentado como um "despretensioso esboço de biografia" do mestre Gonzaga de Sá. Na companhia dos dois amigos, revisitarei o Passeio Público e o Largo do Paço; irei ao Pedregulho e ao Engenho da Penha; assistirei a um espetáculo no Teatro Lírico e passearei pelas vertiginosas ruas do centro da cidade __ como a do Ouvidor e a Gonçalves Dias.

Constato, logo de início, que, ao contrário de Macedo, Gonzaga de Sá e Augusto Machado não temem a paisagem natural: ao contrário, esta se configura como um convite à reflexão, contribuindo para o autoconhecimento de quem a contempla. Deste modo, "(...) por meio de um modo alternativo de olhar , cujo árbitro de valor é a memória, [a obra] resgata as longas ligações entre a memória coletiva da paisagem e o nacionalismo, a identidade e tradição cultural" 4. Assim, ao visitar, com Gonzaga de Sá, o Passeio Público __ "para ver certo matiz verde que o céu toma, às vezes, ao entardecer" 5 __, Augusto Machado, inspirando-se na paisagem natural, procura estabelecer as possíveis analogias entre os seus atos passados e o ambiente de sua pátria:

Por isso, já me apóio nas cousas que me cercam, familiarmente, e a paisagem que me rodeia não me é mais inédita: conta-me a história comum da cidade e a longa elegia das dores que ela presenciou nos segmentos de vida que precederam e deram origem à minha (BARRETO, o p.cit ., p. 26).

 

A culminância da analogia entre o percurso individual e coletivo e os aspectos da paisagem se mostra na identificação de Augusto Machado com o sentimento de melancolia que impregna a cidade: "Saturei-me daquela melancolia tangível, que é o sentimento primordial da minha cidade. Vivo nela e ela vive em mim!" (BARRETO, op.cit ., p.26). Mas, se Augusto Machado exercita essa sensibilidade para olhar a paisagem __ investindo-a do poder de emitir linguagem __, ele adquire tal sensibilidade no convívio com o amigo mais velho, pois, enquanto passeiam pela cidade, o discípulo ouve as saborosas narrativas de Gonzaga de Sá. Este, ao contemplar a paisagem, procura religar natureza e história, desenvolvendo no jovem a faculdade de projetar na paisagem a atividade humana. Desta forma, em seus passeios pelas ruas e bairros do Rio de Janeiro, Gonzaga de Sá desenha uma cidade em que cada parte da paisagem ostenta a marca de um grupo ou classe social:

O quilombola e o corsário projetaram um pouco a cidade; e, surpreendida com a descoberta das lavras de Minas, de que foi escoadouro, a velha São Sebastião aterrou apressada alguns brejos, para aumentar e espraiar-se, e todo o material foi-lhe útil para tal fim (BARRETO, op.cit ., p.37).

 

Nas palavras de Gonzaga de Sá, as ações humanas harmonizaram-se com os contornos da natureza no traçado da cidade, que acabou por adquirir uma fisionomia própria. Diz ele:

__ Pense que toda a cidade deve ter sua fisionomia própria. Isso de todas se parecerem é gosto dos Estados Unidos; e Deus me livre que tal peste venha a pegar-nos. O Rio (..) é lógico com ele mesmo, como a sua baía o é com ela mesma, por ser um vale submerso. A baía é bela por isso; e o Rio o é também porque está de acordo com o local em que se assentou. (BARRETO, op.cit , p.36).

E, se o Rio de Janeiro tem um rosto em que estão impressas as marcas dos homens que o fizeram, Gonzaga de Sá identifica-se com essa cidade feita de fragmentos de cultura, reunidos e contraditórios entre si: "Eu sou Sá, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafuzos e seus 'galegos' também..." (BARRETO, op.cit ., p. 34).

Com efeito, amando a cidade por inteiro, é imprescindível para Gonzaga de Sá tocar e vivenciar uma rua, um prédio, uma ruína. Ao contemplar os prédios antigos, Gonzaga não está apenas em busca dos objetos externos que traduzem os hábitos dos que ali viveram; ele procura reencontrar naqueles prédios os "espaços qualitativos, plenos de afetos, de pulsações ocultas, de modulações internas" 6:

Segui-o uma vez. Gonzaga de Sá andava metros, parava em frente a um sobrado, olhava, olhava e continuava. Subia morros, descia ladeiras, devagar sempre, (...). Imaginava ao vê-lo, nesses trejeitos, que, pelo correr do dia lembrava-se do pé para a mão: como estará aquela casa, assim, assim, que eu conheci em 1876? E tocava pelas ruas em fora para de novo contemplar um velho telhado, uma sacada e rever nelas fisionomias que já mais não são objeto... Não me enganei. Gonzaga de Sá vivia da saudade da sua infância gárrula e da sua mocidade angustiada. Ia em procura de sobrados, das sacadas, dos telhados, para que à vista deles não se lhe morressem de todo na inteligência as várias impressões, noções e conceitos que essas cousas mortas sugeriram durante aquelas épocas de sua vida (BARRETO, op.cit ., p. 36).

 

Segundo Augusto Machado, Gonzaga era um "historiador artista": com uma memória muito plástica, "de uma exatidão relativa mas criadora", discorria sobre as coisas velhas da cidade, "principalmente os episódios tristes e pequeninos", a respeito dos quais fazia "considerações eruditas e associações imprevistas"(BARRETO, op.cit ., p. 36). Ao relembrar, por exemplo, a origem do Teatro Lírico, Gonzaga de Sá insere vida nos alicerces de pedra, uma vez que relaciona as atividades dos homens aos espaços físicos e arquitetônicos, retomando-os pelo fio da memória. Em conseqüência, o passado ressurge, vivo, infiltrando-se no presente, e contribuindo para o enraizamento de Augusto Machado em sua cidade:

Tinha penetrado no (...) passado vivo, na tradição. Em presença daqueles velhos bons que me falavam das coisas brilhantes de sua mocidade, tive instantaneamente a percepção nítida dos sentimentos e das idéias das gerações que me precederam. Em torno daquele legendário "Provisório", grotesco e formalista, que eles evocaram, pude ver os trabalhos e as virtudes dos antepassados e, também seus erros e seus crimes. Vim descendo... Lançara mais uma raiz: estava mais firme contra as pressões externas,(...) (BARRETO, op.cit ., p. 53).

 

Trechos como este aproximam o "historiador artista" Gonzaga de Sá das palavras de Walter Benjamin em suas teses "Sobre o conceito da História": como o "historiador materialista" de Benjamin, Gonzaga de Sá é capaz de identificar no passado os germes de uma outra história, que, levando em consideração os sofrimentos acumulados e dando uma nova face às esperanças frustradas, funda um outro conceito de tempo, o "tempo de agora". Deste modo, ao invés de apresentar, sob a autoridade da nação, uma imagem "eterna" do passado __ como fazia o folhetinista Macedo __ Gonzaga de Sá "faz desse passado uma experiência única", ainda na acepção de Walter Benjamin 7.

Assim, no romance de Lima Barreto, os enriquecedores diálogos entre Gonzaga de Sá e seu discípulo __ que concatenam a memória afetiva do sujeito e a memória da cidade __ configuram, a grosso modo, duas cidades: a cidade real, concreta, com suas ruas, prédios, bairros __ cidade em que o homem habita; e a cidade que habita o homem, com seus rastros pessoais e coletivos, sua história, sua memória: "Vivo nela e ela vive em mim", como assinala Augusto Machado, fazendo eco às palavras de Gonzaga de Sá: "Eu sou Sá, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafuzos e seus 'galegos' também".

Esse projeto de comunhão com a cidade é o móvel que impulsiona um outro personagem "passeador" em suas andanças pelo Rio de Janeiro do final do século XX: trata-se do protagonista do conto "A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro", de Rubem Fonseca __ texto em que o autor retoma a tradição da narrativa urbana carioca, para reciclá-la e fecundá-la. Dialogando, por exemplo, com o romance Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá, o personagem de Rubem Fonseca, quando abandona o antigo emprego e passa a dedicar-se exclusivamente a escrever, rebatiza-se com o nome de Augusto.

E, se o outro Augusto __ Machado __ aprendeu a ler a cidade com o seu mestre, o personagem de Rubem Fonseca quer reconstruir a arte de ver a cidade, assumindo o papel de guia. Além disso, este outro Augusto, ao tornar-se escritor e "andarilho", assemelha-se ao passeador Gonzaga de Sá, com ele compartilhando o "abuso da faculdade de locomoção" e o amor pelo Rio de Janeiro: "(...) quando não está escrevendo (...) [Augusto] caminha pelas ruas. Dia e noite, anda nas ruas do Rio de Janeiro" 8.

Porém, enquanto Gonzaga de Sá transmitiu a seu discípulo a "arte" de comungar com a cidade e de estabelecer com ela uma simbiose harmônica, Augusto caminha por uma cidade espacial e socialmente segregada, que exclui o qualitativo e as referências individuais e coletivas. Andando a pé, Augusto anota tudo o que vê para, com esse material, compor o livro que está escrevendo: A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro , como o título do conto. Deparando-se com mendigos, prostitutas decadentes, grafiteiros, assaltantes, sem-teto __ seres que a cidade grande produz, segrega e expele __, Augusto não os rejeita. Ao contrário, relaciona-se com eles e toma-os como matéria-prima para o seu livro: "Andando pelo Rio e registrando-lhe a face obscura e, ao mesmo tempo, visível, Augusto acredita que pode __ porque pensa __ solucionar, como intelectual pequeno-burguês, os problemas da cidade dividida, não-compartilhada e perversa" (GOMES, op.cit ., p. 150).

Instalando-se num sobrado vazio, na Rua Sete de Setembro, no centro do Rio, Augusto traça o seu projeto nostálgico de comunhão com a cidade. Quer recuperar suas raízes, e, através do centramento no lugar de origem, tenta encontrá-las nas ruínas do passado. Visita, com esse intento, o sobrado velho, os prédios da infância, recorrendo ainda à lembrança dos antigos botequins e de Noel Rosa, e aos detalhes antigos do Passeio Público:

(...) ainda que pareça deambular,[Augusto] nunca anda exatamente ao léu. Pára na rua do Teatro e olha para o sobrado onde sua avó morava, em cima do que agora é uma loja que vende incenso, velas, colares, charutos e outros materiais de macumba, mas que ainda outro dia era uma loja que vendia retalhos de tecidos baratos. Sempre que passa por ali lembra-se de um parente __ a avó, o avô, três tias, um tio postiço, (...) Neste dia, dedica suas lembranças ao avô (...) (FONSECA, op.cit ., p. 23).

 

Deste modo, como Gonzaga de Sá, Augusto, ao ler a cidade presente, tenta ler a cidade do passado, "através dos pontos que formam a linguagem de sua cartografia afetiva"(GOMES, op.cit ., p. 160). Mas, se Gonzaga de Sá integrava o cenário natural à cidade, nele reconhecendo a história do Rio de Janeiro, a descrição da natureza está ausente dos registros (e percursos) de Augusto, que não é, portanto, um paisagista. Ao contrário, percebendo o centro de perto, ao rés-do-chão, Augusto registra as imagens da cidade gasta __ cidade cuja aura desapareceu: "Em suas andanças (...) Augusto olha com atenção tudo o que pode ser visto, fachadas, telhados, portas, janelas, cartazes pregados nas paredes, letreiros comerciais luminosos ou não, buracos nas calçadas, latas de lixo, bueiros, o chão que pisa, passarinhos bebendo água nas poças, veículos e principalmente pessoas (FONSECA, op.cit ., p. 12). Ficando apenas na superfície, a visão de Augusto é sem profundidade, o que o impede de experimentar a tão procurada comunhão com a cidade.

Entretanto, com sua proposta de resistência ao desenraizamento, o personagem de Rubem Fonseca reencontra os protagonistas do romance de Lima Barreto e também o folhetinista Macedo __ cuja leitura da cidade carioca já se fazia como resistência ao esquecimento e ao desaparecimento dos referenciais que a tornavam possível.

Assim, enquanto grande parte das narrativas contemporâneas, sob o impacto da globalização, assinala o descompromisso com o espaço cultural e geográfico de origem, tematizando uma cidade que passa a ser qualquer cidade, o conto de Rubem Fonseca retoma os aspectos mais característicos do Rio de Janeiro, recuperados pela memória, "na demanda, às vezes nostálgica, de uma legibilidade que se atrela às marcas identitárias" 9. Representando a cidade como "lugar" __ identitário, relacional, histórico __, Rubem Fonseca procura resistir à experiência da desterritorialização e aos efeitos da homogeneização, ainda que o projeto de Augusto mantenha simultaneamente o tom nostálgico e a desilusão pós-utópica.

Reunindo-se a seus companheiros de passeio, situados em outras épocas, o escritor e andarilho Augusto me leva a concluir estas leituras da cidade carioca com as belas palavras de Michel de Certeau, que poderiam figurar em qualquer dos roteiros aqui percorridos: "Essa história começa ao rés do chão, com passos. (...) Sua agitação é um inumerável de singularidades. Os jogos dos passos moldam espaços. Tecem lugares" 10.

 

 

MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro . Garnier, Rio de Janeiro; Belo Horizonte, 262 p., 1991. p. 77.

SÜSSEKIND, Flora. O Brasil não é longe daqui: o narrador, a viagem . Companhia das Letras, São Paulo, 320 p., 1990. p. 230.

PECHMAN, Robert Moses. Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o urbanista . Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 422 p., 2002. p. 190.

FIGUEIREDO, Carmen Lúcia Negreiros de. Trincheiras de sonho: ficção e cultura em Lima Barreto . Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 229 p., 1998. p. 102.

BARRETO, Lima. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Tecnoprint, Rio de Janeiro, 89 p., s/d. p. 25.

GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana . Rocco, Rio de Janeiro, 184 p., 1994. p. 67.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política . Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas 1. Brasiliense, São Paulo, 254 p., 1987. p. 231.

FONSECA, Rubem. Romance negro e outras histórias . Companhia das Letras, São Paulo, 188 p., 1992. p. 12.

GOMES, Renato Cordeiro. A literatura e os estudos urbanos. In: COUTINHO, Eduardo (org.). Fronteiras imaginadas: cultura nacional/ teoria internacional . Aeroplano, Rio de Janeiro, 298 p., 2001. p. 162.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano1. Artes de Fazer . Vozes, Petrópolis, 352 p., 2003. p. 176.