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As fronteiras do hibridismo: um diálogo poético entre Virginia Woolf e Clarice Lispector.
Fani Miranda Tabak (Fapesp)
Em 1929, no artigo Phases of fiction, Virginia Woolf discute as mais distintas perspectivas diante da ficção e da poesia. No trecho dedicado aos autores que Woolf chama "The Poets", podemos vislumbrar as apreciações da escritora sobre determinados romancistas que fazem uso corrente da poesia em suas obras. Essa discussão, sobre a presença da poesia na prosa, não é estranha à obra crítica de Woolf, uma vez que a encontramos em outros ensaios anteriores (como por exemplo Impassioned Prose, de 1926). Nesse ensaio, publicado no mesmo ano em que a autora escrevia To the Lighthouse , discute-se a obra de De Quincey. Virginia Woolf visualiza a arte de Quincey e parte de uma afirmação interessante sobre a produção do mesmo: we have to confess that, prose writer thought he is, it is for his poetry that we read him and not for his prose 1
O trecho citado refere-se à visualização de Woolf sobre a importância da escrita de De Quincey. Nesse mesmo artigo discute-se a grandiosidade do autor não como um escritor em prosa, mas sim como um poeta da narrativa. Ao refletir sobre a infelicidade da postura da crítica vigente em querer manter uma distinção rigorosa entre um escritor de prosa e alguém que escreve narrativas como um poeta, a autora expõe claramente o tema da falência dos gêneros. Woolf reconhece que os escritores líricos podem estar fadados ao insucesso diante da crítica, mas sempre terão uma imensa importância no decorrer da história:
There are in every age some writers who puzzle the critics, who refuse to go in with the herd. They stand obstinately across the boundary lines, and do a greater service by enlarging and fertilizing and influencing then by their actual achievement, wich, indeed is often too eccentric to be satisfactory. 2
As preocupações de Woolf com os escritores marginalizados podem ser visualizadas também na ampliação dos horizontes ficcionais de sua própria obra. Imbuída por um desejo obsessivo de buscar o sentido real da vida, Woolf entrega-se às experimentações com a linguagem e com o próprio processo narrativo.
Nesse mesmo artigo, Phases of fiction , Virginia destaca a obra de Proust e revela como a construção de A la Recherche du Temps Perdu combina engenhosamente narrativa e poesia. Dessa forma, a autora percebe a imensa importância da obra de Proust para a sua geração e reconhece também a necessidade de aliar narrativa e poesia dentro do romance.
Embora a autora não utilize a expressão "narrativa poética" ou "narrativa lírica", nesse ensaio, ela demonstra o seu profundo apreço por essas formas híbridas de representação literária. O uso de um referencial contido na metáfora, que a autora descreve na técnica proustiana, é um exemplo claro da amplificação do significado que essas narrativas atingem. Esse mesmo recurso é amplamente utilizado pela escritora, em toda a sua obra. O sentimento de que algo não-humano, mas cheio de humanidade, está sendo construído por impressões e visões de um eu solitário é também um foco recorrente da autora.
Partindo de uma perspectiva simbolista e passando por uma realidade atuante de uma crítica sólida e contundente, Woolf realiza ficcionalmente muitos de seus anseios epistemológicos. Recusando-se a perecer no domínio da tradição do romance inglês vitoriano, a autora transforma os fatos do cotidiano em reflexos de uma consciência viva e voraz. Reconhecendo, dessa forma, que a literatura futura ou aquela que herdará os conceitos da sua geração terá necessariamente alguns dos atributos da poesia, pois a linguagem pura e simples da prosa não será suficiente para comunicar os anseios mais profundos da alma humana.
É nessa atitude, consciente, de reconhecimento das nossas limitações, dos nossos sentidos sobre a verdade, de toda a complexidade e ambigüidade que permeiam o real, que nasce a matéria das narrativas poéticas: a busca pelo sentido da vida. Nessa reflexão, que Woolf constrói ao longo da sua obra, é que buscamos o diálogo entre a autora inglesa e Clarice Lispector. Afinal, Clarice também representa essa geração futura que herda as experimentações híbridas nos chamados romances.
Ambas as autoras, ainda que de forma distinta, constroem em suas obras o questionamento e a busca por esse sentido escamoteado da vida, do eu, de quem somos nós. Embora, tenham utilizado a prosa como elemento de comunicação, é visível a presença intensa da poesia em suas obras. To the Lighthouse , publicado em 1927 e Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres , publicado em 1969 possibilitam esse olhar crítico. Tratados, tradicionalmente, como romances, constituem-se em narrativas híbridas onde o poder da poesia extrapola os níveis do real. A construção do discurso opera de forma ambígua trazendo para o universo da história um mundo paralelo, um segundo plano, onde a presença de elementos da narrativa, dispostos de forma atemporal, mítica e lírica, transcende o plano original deixando lacunas entre a significação e a sua representação. Dessa forma, o discurso construído passa a operar no plano do real, mas de forma que a recriação do mesmo seja uma representação sempre distinta da percepção do eu diante do mundo. Nesse sentido, essas narrativas utilizam a referencialização da prosa , mas a desestabilizam através do uso de uma projeção lírica, de forma narcísica, sobre a mesma. Interpõem-se, dessa forma, os discursos de caráter narrativo e poético formando um amalgama que constrói a realidade através de uma percepção extremamente variável e criativa dos cinco sentidos. As narrativas poéticas possibilitam ao autor a profusão de todos os elementos presentes na arte, pois elas representam uma transposição do sentido ontológico do ser universal diante de seu universo individual.
Diante dessa subjetividade avassaladora, de um eu que se auto-reflete continuamente, podemos compreender as obras em questão. Como bem ressaltou Virginia Woolf em muitos de seus ensaios, a geração moderna reconheceu que a mente está povoada de monstruosas, híbridas e inimagináveis emoções. É o sentido da transposição desse incontrolável material mental para a narrativa que alimenta os autores líricos. Pois, eles buscam um sentido que está dentro de nós, mas que é ao mesmo tempo tão desconhecido por nós.
Os narradores presentes em To the Lighthouse e Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, demonstram claramente a expressão de um lirismo que devora toda a cena através de uma manipulação progressiva de imaginários. No caso específico de To the Lighthouse , o problema do foco narrativo é uma das questões cruciais para a compreensão de sua poética. Ao longo dessa narrativa podemos seguir a manifestação de diversas vozes, mas não de forma linear. Auerbach, em Mimesis , chama-nos a atenção para esse detalhe, insistindo na idéia de que a expansão de um fato externo aparentemente insignificante lança o leitor na interioridade das personagens, fazendo com que o foco se perca do plano original. Esse recurso, que comumente foi chamado de fluxo de consciência, faz com que o leitor não saiba ao certo quem efetivamente está proferindo aquela sentença. Como o próprio Auerbach menciona, essa perspectiva representa um desejo, da autora, de alcançar uma realidade mais verdadeira. Afinal, a tentativa de transpor os elementos que povoam a nossa mente, da forma como estão concatenados originalmente, constitui-se em um fator de aproximação extrema com a realidade que a autora busca atingir.
Essa análise, feita por Auerbach, dialoga diretamente com o processo da narrativa poética. Pois, a aproximação mais objetiva da realidade é conquistada através do uso de consciências subjetivas. Dessa forma, a visão lírica de Woolf faz emergir uma situação em que o ponto de vista do autor torna-se a chave estética para a representação formal, não de si mesmo ou de seu herói, mas sim do mundo onde sua visão aperfeiçoou-se. A construção da subjetividade múltipla, cujo objetivo parece convergir para o esgotamento de uma personagem, é também o reflexo de uma busca pessoal de compreensão artística. Embora, na narrativa, tenhamos a presença de um narrador, a perspectiva formal fica expandida na mente e nas ações de várias personagens. Há a presença constante de um filtro de personagem e a fusão entre diversas enunciações. Dessa maneira, as vozes são diluídas, despersonalizadas, para engendrar uma única voz paralela ao mundo real.
O ato de narrar em Clarice Lispector representa também muito mais do que um mero ponto de vista. É quase um ato de verdadeiro existir, como bem ressaltou Benedito Nunes. A tentativa de chegar a um esvaziamento , de encontrar um eu sem máscara é justamente o ponto central do narrador de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. À medida que a protagonista (Lóri) vai apoderando-se de sua imagem, de sua verdadeira identidade, o próprio reconhecimento da máscara torna-se um tema de discussão. Essa reflexão é marcada por um desnudamento do rosto, a queda da máscara marca o fim de uma representação momentânea. Quebrando, dessa forma, as falsas identidades e marcando a necessidade de um encontro com a verdadeira voz.
Essa representação, do poder da máscara, é bastante significativa na compreensão do processo desenvolvido pelo narrador. Embora a narrativa desenvolva-se primordialmente no discurso indireto livre ou através dos diálogos, há também várias passagens do discurso que suscitam no leitor a percepção de um discurso direto monologado. Esse recurso assegura o caráter lírico da narrativa, mantendo sempre uma perspectiva da visão do eu sobre tudo. Há diversas passagens em que perdemos o ponto de vista, o narrador é diluído pela fala do pensamento da personagem. Esse recurso favorece o desenvolvimento de uma voz lírica que tudo projeta em torno de seu ser, o que, aliás, é também uma metáfora do próprio ato de aprender consigo mesma. Quando a personagem indaga, no início da narrativa, "Quem sou eu?" acaba firmando um pacto com a busca por auto-conhecimento. Embora essa busca lhe cause uma dor extrema, já que a máscara impede uma escavação mais profunda em seu universo.
Conseqüentemente, a narrativa é toda construída por sensações. As descrições são janelas para o olhar por dentro. Esse fato é determinante para o ponto de vista, pois compromete de forma inigualável a orientação do ato de narrar. Transcrever as sensações de uma pessoa, de uma persona , é viver novamente aquele estado de graça, de êxtase. E é nesse sentido que narrador, personagem e autora acabam fundindo-se na obra.
A transgressão de um gênero, como o romance, pode parecer inicialmente um fator irrelevante para a critica literária. Persiste, no entanto, nos dias de hoje ainda a caracterização de autores de prosa e poetas. Longe de uma simples divisão clara de águas ou muitas vezes afirmando não ser esse o grande problema da literatura, a crítica ainda repousa suas asas sobre antigas antinomias literárias. A definição do que seja prosa e poesia, longe de uma conclusão sábia ou definitiva, acaba por restaurar outras reflexões que convergem para o elemento humano. A questão complexa do que seja a literatura transforma-se numa possibilidade poética de expressão da alma humana através dos tempos. A narrativa poética, paradoxalmente, une as categorias genéricas que sempre estiveram separadas. Dessa forma, a literatura revigora-se de sua natureza mais profunda: a liberdade da individualidade. Longe das velhas discussões sobre o valor maior ou menor do gênero, das estéticas revolucionárias e catastróficas, renasce na discussão do universo infinito do homem universal. A transgressão das fronteiras impostas pelo modismo ou por preceitos imutáveis de algumas escolas torna-se apenas um eco longínquo e etéreo.
O uso de um espaço e de um tempo, de forma atemporal, reflete o desejo de esgotar-se o tema da condição humana. A repetição, como um eco constante, traz o movimento circular da poesia para a prosa. O uso de símbolos e mitos transforma a narrativa em uma alegoria da interiorização humana. Dessa forma, Virginia Woolf e Clarice Lispector dialogam como duas expressões singulares na literatura de todos os tempos, refletindo sobre a busca incansável do ser por uma identidade própria e verdadeira.
A angústia de viver, pois existir é experimentar e retornar continuamente a um primórdio, demonstra que a busca ontológica é uma necessidade única, afinal: "A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano." 3
Bibliografia consultada:
AUERBACH, E. Mimesis . São Paulo: Perspectiva, 1994.
BURGOS, J. Pour une Poétique de L'Imaginaire . Paris: Éditions du Seuil, 1982.
FREEDMAN, R. The Lyrical Novel. New Jersey : Princeton University Press, 1971.
HUMPHFREY, R. O fluxo de consciência . São Paulo: Mc. Graw-Hill do Brasil, 1976.
LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou livro dos prazeres . Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
WOOLF, V. To the Lighthouse. Orlando/ Florida: Hardcourt Brace & Company, 1990.
WOOLF V., Granite and Rainbow (Essays) , Harvest: New York , p.32, s/data.
WOOLF, V. , Granite and Rainbow (Essays) , Harvest: New York , p.33, s/data.
LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres . Rocco: Rio de Janeiro, p. 32, 1998.