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Vozes de toda América, vozes de toda África
Donizeth Aparecido dos Santos (UEL/CAPES)
A produção literária africana em língua portuguesa dos anos 40 e 50, e afro-brasileira da década de 60 à de 80, apresentam uma poética de solidariedade sem fronteiras para com as pessoas da raça negra, não importando o local de nascimento e sim a cor da pele e a origem comum. É a apologia do que se convencionou chamar de "negro de todo o mundo", na qual, o sujeito poético assumindo um caráter coletivo torna-se o porta-voz da sua raça, e se solidariza com todos os negros oprimidos, sejam aqueles que foram escravizados no passado, ou os que estão sofrendo a opressão colonial e o preconceito racial no presente, ao mesmo tempo em que exalta as grandes personalidades do mundo negro que se tornaram verdadeiros símbolos para a raça. Essa literatura cem por cento negra só foi possível graças ao movimento Pan-africanista e aos movimentos que surgiram a partir dele.
O Pan-africanismo surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX, propugnando, segundo Pires Laranjeira 1, uma solidariedade negra para além da geografia ou da classe, adotando o reconhecimento da identidade negra na sua realização nacional, integrada e assimilada à nação, e solidária com os africanos e a restante diáspora fora da África. Ele foi o responsável pelo despertar da consciência negra que inspirou os vários movimentos de libertação nacional na África e foi a partir dele que surgiram outros movimentos que por sua vez revelaram ao mundo uma nova maneira de ser negro, resgatando o orgulho da origem africana, revalorizando suas tradições e sua participação na construção da história.
A primeira das manifestações culturais oriundas do Pan-africanismo foi o Renascimento Negro norte-americano. Esse "movimento intelectual de negros empenhados em participar na crescente valorização do homem negro e na luta pela igualdade de direitos com os brancos" 2 surgiu nos anos 20, trazendo "para a literatura uma consciência grupal e racial, de herança africana e reivindicação sócio-política" 3. A poesia dos poetas negros americanos pertencentes a esse movimento, principalmente a de Langston Hughes, percorreu todo o mundo negro, contribuindo para o surgimento do Indigenismo no Haiti em 1927, do Negrismo em Cuba em 1930, e da Negritude na França em 1934.
O Indigenismo haitiano, surgido em torno da revista La Revue Indigène ( que editou seis números até 1928 ), propunha, segundo Pires Laranjeira 4, a reconstrução da imagem do negro, incutindo nos haitianos o sentimento de orgulho da raça que permitisse reaver os valores da herança africana. Sobre a mesma questão, Zilá Bernd 5 observa que os povos indígenas ( Caraíbas e Arauaques) que habitavam não só o Haiti, mas todo o Caribe foram totalmente dizimados pelo conquistador, e assim o termo "indígena" passou a designar a herança cultural africana, e desse modo, o Indigenismo pregava o retorno à cultura autóctone e popular, valorizando os falares crioulos e o vodu.
O Negrismo cubano surgiu em 1930 quando o poeta Nicolas Guillén publica Motivos de son , a obra que, segundo Pires Laranjeira 6, revolucionou a poesia cubana, afastando-a em definitivo, da subserviência em relação aos modelos europeus". De acordo com o autor, a idéia de Negrismo consistiu no trabalho poético a partir da linguagem e das culturas crioulas (musical e folclórica ), populares, mestiças e nacionais. E Zilá Bernd, observando que, ao contrário do Haiti, em Cuba os negros consistem em uma minoria, acrescenta que para essa minoria "ser cubano autêntico passa a ser reivindicar sua parte de cultura negra, o elemento fundamental que o distingue do europeu" 7, e isto para ela é o Negrismo cubano.
Todos esses movimentos culturais surgidos a partir do Pan-africanismo (Renascimento Negro, Indigenismo Haitiano e Negrismo cubano ) foram de vital importância para a eclosão da Negritude em Paris nos anos 30, sob a liderança do martinicano Aimé Césaire, do senegalês Leopold Sedar Senghor e do guianense Leon Damas. Segundo Benedita Damasceno, o movimento
Surgiu como uma forma de recusa à pura assimilação da cultura européia por parte de intelectuais negros africanos, antilhanos, e outros, em detrimento de sua própria identidade cultural, e como uma tentativa de retorno às tradições e valores primordiais da raça negra; era uma tentativa de corrigir as distorções observadas pelos intelectuais africanos e neo-africanos entre a cultura que lhes era imposta e a sua própria realidade circundante e impedir a desagregação de sua unidade cultural. 8
A Negritude utilizou-se essencialmente da poesia como meio de propagação de suas idéias e como movimento poético com valores estéticos diferenciados dos padrões ocidentais, e inseridos no seu grito de revolta, encontrou ecos em todo o mundo negro, principalmente na África e nas Américas, transformando a poesia numa arma de combate contra a assimilação cultural, o racismo e o colonialismo europeu a que os negros estavam submetidos, convertendo o movimento poético-cultural em político-social, que enorme influência teria na luta pela independência dos estados africanos colonizados pelas nações européias, e na conscientização do negro em diáspora que o levou a reivindicar o seu lugar na sociedade e na história do país onde vive e teve participação ativa em sua construção.
Kabengele Munanga 9 afirma que Césaire, um dos principais mentores da Negritude, redefiniu-a em três palavras: Identidade ( o assumir-se como negro ), Fidelidade (a ligação permanente com a origem africana ), e Solidariedade ( o sentimento de união entre todos os negros ). Essa solidariedade apenas entre elementos da raça negra foi a responsável por grande parte das críticas que o movimento recebeu, por entenderem os críticos que ela deveria ser extensiva a todos os oprimidos, independente de cor e raça. A principal crítica talvez tenha sido a que foi feita por Jean-Paul Sartre em Orfeu Negro , na qual alertou para o perigo do movimento tornar-se "um racismo às avessas" 10. Num balanço feito por Zilá Bernd 11sobre os principais lucros e perdas da Negritude, constata-se que os ganhos foram maiores e por isso, o movimento, apesar de suas falhas, desempenhou um importante papel na história, dando uma grande contribuição à geração da época e deixando um precioso legado às gerações futuras de escritores negros. Na visão de Benedita Damasceno:
Todos os jovens poetas negros posteriores, de qualquer língua, devem à Negritude esse legado de independência política, lingüística e espiritual já que agora podem descrever seu mundo e sua cultura em línguas européias sem necessidade de ir apregoando sua cor. Devem-lhe também a liberdade para criar poesia usando seu mundo, sua educação e seu talento, utilizando toda a herança da experiência poética mundial. 12
Antes de entrarmos na análise de alguns poemas significativos que expressam a solidariedade rácica em língua portuguesa, é necessário lembramos uma observação feita por Zilá Bernd sobre a função do poeta da Negritude, que segundo ela, consiste em fazer da lírica o espaço de aceitação da tarefa de tornar-se o "porta-voz da comunidade à qual pertence" 13. Desse modo, ao se identificar com o mundo de que é porta-voz, o poeta assume na primeira pessoa do singular, a história do seu povo, e essa identificação total com o povo negro já é em si uma manifestação de solidariedade.
De acordo com o ensaísta angolano Mário Pinto de Andrade 14, quem primeiro exprimiu a Negritude em língua portuguesa foi Francisco José Tenreiro em seu livro Ilha de nome santo , publicado em 1942, assinalando que o poeta são-tomense encontrou por si só, as formas mais autênticas da expressão subjetiva e objetiva da Negritude, compondo uma obra na qual há um feliz encontro entre temas da sua terra de origem ( São Tomé ) e a exaltação do homem negro de todo o mundo. "Epopéia" é um dos seus poemas em que a Negritude é expressada através da solidariedade ao negro oprimido na diáspora e também ao negro vencedor:
No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No Norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações do fumo!
/ ... /
Quando cantas nos cabarés
fazendo brihar o marfim da tua boca
é a África que está chegando!
Quando nas Olimpíadas
corres veloz
é a África que está chegando!
Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja o ritmo de uma conquista!
... para que a tua gargalhada
de novo venha estraçalhar os ares
como gritos agudos de azagaia! 15
A dor dos negros escravizados, expostos a trabalhos árduos nas plantações da América (do Sul e do Norte ) pertence a toda a raça negra, assim como o sucesso de cantores e esportistas que conseguiram mostrar ao mundo que o negro também era capaz de ser vitorioso. Dessa forma, quando nas Olimpíadas de Berlim em 1936, um atleta negro vence uma corrida, impondo uma amarga derrota a Hitler e a tese da superioridade da raça ariana, não é a vitória de um homem só, mas de toda uma raça. O orgulho da identidade negra aparece mesclado ao sentimento de solidariedade. Agostinho Neto em Introdução a um Colóquio sobre Poesia Angolana afirma:
Quando a música negra americana invadiu os salões da Europa, os negros de todo o mundo sentiram com os seus irmãos americanos a alegria de poderem ser ouvidos, mesmo através do trompete. Os murros de Joe Louis foram aplaudidos em todo o mundo negro. Porém, mais importante do que estes factos ( sic ) é o sentimento de solidariedade e de comunidade que existe entre os negros de todo o mundo. Este mundo disperso pelas Américas, Europa e África, formado fora e dentro de África por indivíduos desenraizados dos seus povos e das suas culturas, mestiços culturais portanto, vivendo marginalmente na civilização européia, descobriu-se a si próprio. 16
Dentre os vários poemas de teor negritudinista de Agostinho Neto, está "Voz do sangue", no qual o poeta angolano faz eco às vozes negras vindas da América, tornando-se também um porta-voz do povo oprimido:
Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
Ó negro dançarino de Chicago
Ó negro servidor da South
Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos
Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo
Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a nossa Dor
meus irmãos. 17
Essa "voz do sangue" que faz com que o poeta se sinta solidário com os seus, padecendo da mesma dor comum a todos, num mundo negro destituído de fronteiras lingüísticas e geográficas, segundo Miguel Gusmão 18, não pode ser ignorada, porque ignorá-la é trair a si próprio e todos aqueles que o têm como porta-voz da sua luta diária.
Outro grande poeta angolano que lançou sua voz ao encontro de outras vozes negras foi Viriato da Cruz. Em "Mamã Negra ( Cando de Esperança )", o sujeito poético se solidariza com seus irmãos de destino, ao chamar a atenção para o drama da raça negra, descrevendo o coro de vozes de lamentos de negros escravizados, discriminados e colonizados, e reverencia a voz dos grandes porta-vozes do mundo negro americano, eles também solidários com a Mamã Negra e seus filhos de pior sorte:
Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
drama de carne e sangue
que a Vida escreveu com a pena dos séculos!
Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[ dos seringais dos algodoais !...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos banguês das tongas dos eitos
[ das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
Vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues , subindo do Mississipi, ecoando
[ dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén ... 19
Na poética afro-brasileira, a primeira voz a integrar esse coro formado por vozes americanas, antilhanas e africanas, foi a de Solano Trindade. Zilá Bernd 20 afirma que em Cantares do meu povo , a principal obra do poeta publicada em 1961, ele dialoga diretamente com Langston Hughes e Nicolas Guillén, transformando-se no representante brasileiro da linhagem a qual vinculam-se os seus dois ilustres interlocutores. O poema "Também sou amigo da América" soa como um eco de "I too sing América", de Hughes, expressando uma fraterna manifestação de apoio ao grito de reivindicação do poeta norte-americano que reclama seu espaço na sociedade que ajudou a construir:
América
eu também sou teu amigo
há na minh' alma de poeta
um grande amor por ti.
Corre em mim sangue do negro
que ajudou na tua construção. 21
Zilá Bernd classifica Solano Trindade como uma figura exponencial da poesia negra que não conhece fronteiras, devido à sua produção poética fundar-se
numa busca de identidade, que não é apenas individual ou nacional, mas solidária com todos os negros da América ( e do mundo ) empenhados na preservação de uma identidade comum, ela se põe em relação manifesta com textos literários das três Américas. 22
Outro grande poeta afro-brasileiro que segundo a autora parece perfeitamente integrado à corrente negritudinista é o gaúcho Oliveira Silveira, cuja poesia apresenta uma solidariedade a todos os negros da América, além de uma preocupação constante com as origens africanas, materializada numa permanente ligação com a África. O poema "Alô" expressa essa solidariedade pan-afro-americana:
Alô Guianas
Surinam
Colômbia
Todaamérica
nossos tambores
de caule e couro
e som de cerne
se saúdem
fraternos. 23
O som de um "spiritual" serve de fonte de inspiração para um poema cuja matéria poética é a união e a solidariedade do povo negro, frente às práticas de exclusão racial de algumas sociedades segregacionistas:
Deixem meu povo ir
pelas longas estradas
de mãos dadas
deixem meu povo ir
com faixas e cartazes
deixem meu povo ir
enegrecendo tudo
pelas feias ruelas de seus guetos
pelos corredores
de suas escolas separadas
deixem meu povo ir
pelo seu lado da rua
deixem meu povo ir
assim de olhos compridos
nas notas longas de um piston
na pauta longa dos fios de chuva
na melodia funda
de um spiritual qualquer ... 24
Oliveira Silveira engrossa o coro das vozes que cantam "Let my people go", dialogando não só com os cantores norte-americanos Paul Robeson e Marian Anderson, mas também com a poeta moçambicana Noémia de Sousa, que cerca de 30 anos antes, inspirada no mesmo spiritual, escreveu o poema "Deixa passar o meu povo", expressando uma solidariedade que ultrapassava as fronteiras moçambicanas:
/ ... /
Escrevo...
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada
[ de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaícas,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé - meu irmão - e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio
- let my people go
- oh let my people go . 25
O poema de Noémia de Sousa, além de ser um diálogo direto com o Renascimento Negro norte americano, representado pelo spiritual song de Robeson e Marian, também vai de encontro ao ideal de solidariedade de muitos críticos da Negritude, que entendiam que essa deveria ser estendida a todos os oprimidos, independente de cor ou raça. Assim o poema ultrapassa não só as fronteiras geográficas entre a América e a África, mas principalmente as fronteiras da própria solidariedade que era expressa naquele momento pela poesia negra, alcançando o que Zilá Bernd 26 chamou de o maior propósito pelo qual a Negritude foi criada, que era promover a igualdade entre todos os homens.
A poética da solidariedade negra apresenta-se sempre aliada aos outros dois conceitos concebidos por Aimé Cesairé, pois quando o poeta negro expressa sua solidariedade aos negros de todo o mundo, exaltando suas conquistas ou sofrendo suas dores e humilhações, ele está automaticamente se aceitando e se orgulhando de sua raça, o que nos remete ao conceito de "identidade", e ao fazê-lo, ele também está mantendo sua "fidelidade" às origens africanas. Portanto, há por parte do poeta negro integrado na corrente negitudinista, um constante desejo de comunhão com todos os homens pertencentes à raça negra, e ele ( poeta ) ao agir como porta-voz do seu povo, elabora uma poética que não conhece fronteiras geográficas ou lingüísticas, transformando o espaço da criação literária num território comum, como bem observou Zilá Bernd 27 ao mencionar como uma das particularidades da poesia negra, o sentimento de pertencer a um território ficcional onde se encontram todos os condenados da terra, independente do continente em que vivem, ou, conforme Francisco José Tenreiro 28 do idioma que falem, pois segundo ele, a poesia negra é expressa em línguas diferentes (francês, inglês, espanhol e português ) e no entanto todos os poetas negros se entendem entre si .
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