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Imagens e textos visuais na história brasileira: a escrita da visualidade de Guimarães Rosa
Bruno Flávio Lontra Fagundes (FAFI/FEEM)

A tradição crítica da obra de Guimarães Rosa é questionada porque acentuaria demasiadamente os aspectos lingüísticos, metafísicos e esotéricos da criação literária do escritor, o que ocultaria sua raízes na história e na sociedade. Essa tradição criticada teria o endosso de Rosa mesmo, que teria indicado quais seriam os principais aspectos conformadores de sua literatura. Primeiro a metafísica, depois a poesia e por último a realidade.

A crítica a essa já consolidada vertente de análise alega que o escritor não pode ser tomado como um escritor a-histórico que transcende a realidade vivida, e que seus enunciados sobre a cultura política e social brasileira literariamente representados devem fincar raízes num território físico bem definido, o sertanejo, no qual se encontra a matriz de um certo modo de se pensar o Brasil. A literatura de Guimarães Rosa seria muito mais que o objeto de indagações do plano metafísico da vida. A obra do escritor poderia - e até deveria, para desmistificá-lo - ser abordada também pela Sociologia e pela Ciência Política, que poderiam sugerir o modo como se organizam e se estruturam as relações sociais e políticas na história brasileira representadas na imaginação literária roseana por estórias e relatos da vida sertaneja.

É certo que as abordagens são muitas e é provável que muito da pujança da literatura roseana seja favorecida por elas. Uma dessas abordagens que não ganhou ainda força suficiente para se constituir, com estatuto próprio, uma vertente de análise é uma que verta sua literatura enquanto artefato da realidade de um leitor/consumidor de coisas culturais de uma dada época histórica marcada pela ascensão das massas na vida coletiva brasileira. Nessa situação, os produtos da cultura participam de um comércio de trocas que, de forma sem precedentes na história brasileira, os produtos organizados em torno prioritariamente da letra dividem espaço com outros agora organizados em torno do som e da imagem. Guimarães Rosa, sua literatura, teriam sido permeáveis ou não a essas "linhas de força" de sua época?

Se razoável, essa vertente sugere três instâncias de investigação significativas: uma que aponta para como a obra concebe seu leitor em meio a produtos da cultura que, para seduzi-los, utilizam-se cada vez mais da imagem e do som; outra que concebe seu leitor como capaz de apreensões cognitivas de códigos escritos e visuais que se hibridizam para a composição de mensagens significativas; e uma última que concebe um leitor que não acredita só na palavra no livro como modo de transmissão de conteúdos significativos. Se razoável essa análise, a literatura roseana pode ser tocada como produto que sugere a convivência, ora pacífica, ora conflituosa, de registros eruditos, populares e de massas na cultura brasileira dos anos 40/50 em que existe um leitor que não só , mas ainda que ouve e escuta , fala e diz , olha , assiste e contempla . Admitir essa vertente que foca a relação obra-leitor, que localiza a literatura roseana numa época histórica específica, que toma a obra como artefato que é simultaneamente texto e livro, é especular sobre algumas pertinências entre a literatura de Guimarães Rosa e recursos e soluções de composição criativa presentes em outros produtos culturais disponíveis em sua época.

Uma categoria para a literatura de Rosa seria a de uma escrita da visualidade. Em sua obra, duas frentes de observação são possíveis: as ilustrações de seus livros, que, quase sempre passando pelo crivo do escritor, conformam uma "coleção roseana" dos livros da Livraria José Olympio Editora, e as imagens de palavras que escrevem verdadeiras paisagens textuais literárias desenhadas pelo escritor numa espécie de literatura para os olhos:

(...) Antes, em prazos idos, o buriti-grande se erguera bem na beira, de entrelanço com seus grandes irmãos, como agora os outros mais novos, com o pé quase na água - o que os buritis desejam sempre. Agora ele perdera o sentido de baliza, sobressaía isolado, em todos os modos. Apenas uma coluna. Ao alto que parecia cheio de segredos, silêncios; acaso, entanto, uma borboletazinha flipasse recirculando em ziguezague, redor do tronco, e ele podia servir de eixo para seus arabescos incertos. A boroboleta viria para o brejo, que era uma vegetação embebida calma, com lameal com lírios e rosas d'água, adadas, e aqui ou mais um poço, azuliço, entre os tacurus e maiores moitas, e o atoalhado de outros poços, encoscorados de verde osgo. (...) 1

 

O que seria uma escrita da visualidade? Seria a composição de mensagens levadas a um leitor cuja apreensão cognitiva não se faz apenas por uma tradução em imagens mentais o que a palavra conota no ato da leitura. Não. Uma escrita da visualidade, numa situação de tantos apelos visuais, seria cogitar que imagens mentais já povoam o universo cognitivo do leitor, a quem um estímulo pela palavra aciona imediatamente as imagens guardadas na mente, fazendo-o ver pelo que está escrito, preenchendo de material visual acabado e disponível aquilo a que as palavras lhe remetem. Este processo, aqui suposto, exige que escritor e leitor compartilhem hábitos de consumo cultural e valorizem sem resistências conceituais modos como são feitos e transmitidos as mensagens difundidas na sociocultura.

Sabemos que não é fácil mexer numa concepção transcendente da literatura de Rosa reforçada pelo sumiço do escritor das rodas literárias de seu tempo, assim como ousar abrir o trato do escritor com outros códigos da cultura para além da língua. A proposta de uma escrita da visualidade que aqui se põe não é denegar o Rosa que foi fixado por anos de assimilação crítica de sua obra, mas agregar uma leitura que coloque o escritor como também um habilidoso articulador de outros códigos da cultura sem recusá-los como baixos, menores ou inferiores à letra. Muitos fatos da vida do escritor e de sua literatura podem ganhar novas luzes, desmistificando-o, talvez. A observação da literatura roseana à luz de circunstâncias dos anos 40/50 brasileiros pode ser importante.

A primeira edição de Primeiras Estórias , em 1962, é sempre lembrada pelo recurso gráfico das orelhas que trazem o índice ilustrado de cada conto. Seria preciso que o leitor entendesse que o que estava desenhado eram representações de símbolos e signos astrológicos ou os pequenos desenhos podiam ser tomados como enigmas, charadas, coisas para se associar como e com que bem entendesse? Não seriam para os leitores como pequenos desenhos que estão em revistas em quadrinhos, revistas, álbum de figurinhas etc? Com que outros hábitos mais de consumo cultural do leitor os índices ilustrados de Primeiras Estórias podem se relacionar? Aquelas tiras ilustradas não podem ser como as tiras de cinema, ou mesmo as tiras das história em quadrinhos disponíveis para o leitor de sua época? Na edição de 1962 de Primeiras Estórias , na última folha do livro, está um pequeno desenho que homenageia o brasileiro: um jogador de futebol chuta uma bola, e logo abaixo vem escrito que aquela edição saía no mesmo ano em que o Brasil conquistava a Taça Jules Rimet. A literatura de Rosa deste universo de coisas não se propõe a um leitor/consumidor, digamos, mais multicultural?

Não é segredo para ninguém que Rosa gostava de cinema e de desenhos. São conhecidas suas intervenções na composição gráfica de seus livros, no esboço dos desenhos para capa, contra-capa, orelhas. Tudo isso é muito sugestivo, mesmo que ainda mereça uma pesquisa mais sistemática. Nunca é demais lembrar a relação de Guimarães Rosa com as revistas de grande circulação amplamente ilustradas, com desenhos e fotografias, em que o escritor escreveu muitos de seus textos: O Cruzeiro, Manchete, Seleções do Reader's Diagest. Não é razoável supor que elas existem como fornecedoras de elementos para a criação literária do escritor? Muitos dos textos roseanos revelam visualizações e artefatos com que se produzem e em que circulam visualidades.

Personagens se encantam com fotografias - Zaquia, de Recado do Morro , se apaixona pela fotografia de uma mulher de uma folhinha de calendário; o homem na canoa na Terceira Margem do Rio não se deixa fotografar pelo homem do jornal, e Seu Olquiste, ainda de Recado do Morro , enquanto viaja pelo interior do Brasil, carrega a codaque (sic) a tiracolo e desenha quase tudo que vê; muitos convivem ou lêem revistas ilustradas, e disputam desenhos e fotografias impressas - o menino de As Margens da Alegria , eufórico com o avião, rejeita revistas de folhear, e Miguilim e seus irmãos disputam uma imagem de mulher santa impressa num pequeno quadrado de papel.

Não é pouco provável, também, que o rádio tenha sido um artefato a que o escritor não se furtou. Estudos sobre a história do rádio no Brasil garantem sua onipresença na vida cotidiana brasileira, e o período que começa em 1940, com a compra da Rádio Nacional pelo governo Vargas, é marcante.

Todas aquelas pessoas que viveram neste período podem ser consideradas ouvintes em potencial e a presença do rádio muitas vezes se encontra registrada como um fato corriqueiro na vida delas. 2

 

Os rituais de leitura coletiva nem sempre significam que uma coletividade lê, mas muitas vezes significa uma comunidade que lê porque ouve alguém ler. Como suporte da transmissão do escrito e indissoluvelmente ligado à produção imagístico-cinematográfica nos anos 30 e 40 brasileiro, o rádio chega com suas ondas nos mais distantes lugares do Brasil.

Rádio e cinema, no Brasil pós-anos 30, constituíram uma relação das mais saudáveis e se utilizaram mutuamente na promoção cada qual de seus interesses, mas sem se desvincularem. No entanto, não se pode deixar de considerar o fato de o rádio ser, desde os anos 30, o epicentro da cultura de massa no país. 3

 

Não é casual que Getúlio Vargas tenha se utilizado do rádio como meio de propaganda política e ideológica para que todos pudessem "ler" as mensagens do regime. O texto roseano lembra e sugere a convivência acolhedora do rádio junto às populações sertanejas. No povoado do Ão, os moradores ouviam a novela do rádio por alguém que se incumbia de ir ao Andrequicé ouvi-la para depois recontá-la a todos. E o que dizer de certa passagem de Campo Geral - uma novela repleta de música - em que passagem do texto ressoa certa canção contemporânea de Rosa, a qual, provavelmente, tocava muito pelo interior do Brasil, O que é que a baiana tem ? de Dorival Caymi, em início de carreira no Rio de Janeiro dos anos 40?

Seo Aristeu entrava, alto, alegre, alto, falando alto, era um homem grande, desusado de bonito, mesmo sendo roceiro assim; e doido, mesmo. Se rindo com todos, fazendo engraçadas vênias de dançador.

-  Vamos ver o que é que o menino tem, vamos ver o que é que o menino tem?!... Ei e ei, Miguilim você chora assim, assim - p'ra cá você ri, pr'a mim!..." Aquele homem parecia desinventado de uma estória. - "O menino tem nariz, tem boca, tem aqui, tem umbigo, tem umbigo só... 4

 

Se considerarmos que desde os anos 30 o rádio é o epicentro da cultura de massas no Brasil, é razoável supor que Rosa tenha decalcado a canção na fala brejeira de Seu Aristeu.

A literatura roseana é também as edições de seus livros. Vemos o livro, fazemos uma apreensão visual dele, como espécie de objeto à parte do texto. A contemporaneidade de Guimarães Rosa justifica uma análise de sua obra também sob a perspectiva dos textos percebidos enquanto livros, materialidade na qual (co) agem processos técnicos e escolhas que não dependem só do autor. Rosa parecia perceber muito bem essa dimensão ampliada de sua obra. Sua obsessiva preocupação com a correção de seus textos e livros são disso um testemunho. Será que é possível se pensar em profissionais da arte visual que se tornam "atrações" de produtos culturais desprezando a articulação de um sistema valorativo da fama e do estrelato patrocinado pela junção da indústria do rádio, das grandes revistas fotográficas e ilustradas e do cinema? Um período marcante para ilustradores de livros. Os projetos gráficos dos livros de Guimarães Rosa pela Livraria José Olympio Editora ainda hoje são diferenciados e indissociáveis das ilustrações de Poty, ilustrador de livros de um tempo em que dividia o prestígio com Luiz Jardim, Santa Rosa, Percy Lau, Percy Deane, Magnavita e outros.

Entendida como "escrita de uma visualidade", a escrita de Guimarães Rosa sugere a pesquisa sobre o lugar da ilustração na história literária brasileira como um todo. E sugere avaliar a pertinência entre matrizes textuais e matrizes culturais de uma época histórica. Até que ponto a literatura de Guimarães Rosa, suas paisagens literárias, encontram algum pano de fundo de entendimento com textos visuais sobre imagens do interior do Brasil tão disseminados nos anos 40/50 brasileiros em revistas de grande circulação ou no cinema?

A escrita roseana muitas vezes se aproxima de uma pintura ou de um registro fotográfico e cinematográfico. Vemos as imagens escritas por palavras. Quem não haverá recordar sempre as cenas cinematográficas da morte de um riachinho em Uma Estória de Amor , a despedida da cachorrinha Pingo de Ouro em Campo Geral , ou mesmo a cena antológica do julgamento de Zé Bebelo em Grande Sertão: Veredas , páginas inesquecíveis da literatura brasileira? Escrita de uma visualidade, a literatura de Guimarães Rosa é tanto para se ler quanto para se ver. Os textos de Rosa já circulam entre leitores de um mundo em que signos escritos e visuais convivem.

Conhecia de cor o caminho...o campo, a concha do céu, o gado nos pastos - os canaviais, o milho maduro - o nhenhar alto de um gavião - os longos resmungos da juriti jururu - a mata preta de um capão velho - os papagaios que passam no mole e batido vôo silencioso - um morro azul depois de morros verdes - o papelão pardo dos marimbondos pendurado dum galho, no cerrado - as borboletas que são indecisos pedacinhos brancos piscando-se - o roxoxol de poente ou oriente - o deslim de um riacho. 5

 

O jeep que conduziu Miguel na viagem de volta ao Buriti Bom, que leva o Menino para conhecer Brasília, o que tem esse carrinho tão simpático e acolhedor, quase o único carro do universo ferroviário de Rosa, com imagens de época? As peças de publicidade da Willis que vende o jeep são muitas e espalhadas nas revistas para o grande público. Provável ou não, vendo o desenho singelo que vende o produto nas revistas, é difícil não se associar a palavra "jeep" escrita nos contos de Rosa ao desenho das revistas. O conto parece ganhar em delicadeza com a imagem que se lhe agrega dos desenhos coloridos e delicados do carro nas páginas das revistas. Os leitores de Rosa, e mesmo o próprio escritor, provavelmente, estavam em contato, maior ou menor, com os desenhos do jeep espalhados em revistas diversas. O singelo do desenho parece penetrar indissoluvelmente na palavra.

Mas essa junção de coisas - letra, palavra radiofônica, imagens de revista e cinema - que aqui se propõe numa escrita da visualidade não parece se resumir a uma percepção. É possível que elas revelem hábitos de leitura/consumo de produtos ligados a gestos e movimentos do corpo. É provável que este período da história do país seja marcado pelo esforço de incorporação da ilustração pela indústria do livro brasileira, até para que pudesse concorrer num mercado de apelos visuais altamente atraente. É possível que muitos livros tenham sido adquiridos depois de um convite feito aos olhos para um leitor que na livraria folheou o livro e se encantou com suas ilustrações? O que esse gesto de ver ilustrações - mesmo que ver , aí, contenha um ato de ler imagem - tem a ver com o comprar o livro para ler o texto? Como um ato se impregna do outro? A revista O Cruzeiro durante algum tempo usou de um recurso de venda que talvez tenha ensejado uma prática. Na capa vinha a fotografia sem identificação de beldades hollyodianas estrelas de filmes americanos que rodavam nas principais salas de projeção das cidades brasileiras. Isso obrigava ao leitor a pegar na revista e abri-la na última página, onde, no canto inferior esquerdo, estava, em figurinha, a foto da capa reproduzida com a devida identificação do nome. Essa estratégia provavelmente significou, algumas vezes, a prática de o leitor tomar a revista nas mãos e, quem sabe, comprá-la. Guardadas as devidas proporções, as edições ilustradas de muitos livros brasileiros da época também tenham significado comportamento semelhante do leitor, que abria o livro, folheava-a para ver desenhos e gravuras, e, quem sabe, senão comprá-los, pegar pelas mãos para vê-los.

Enfim, acreditamos que uma análise da obra de Rosa poderia ganhar se estabelecesse que o escritor escreve num momento histórico em que a penetração da indústria cultural norte-americana no Pós-Guerra parece fincar raízes definitivas como marco histórico divisor de águas de uma nova dimensão de seu poder no mundo. Em meio a essa realidade nova que estabelece outras linhas de força para a cultura, Guimarães Rosa é um escritor definitivo porque não recusa esses elementos de composição de seus livros e textos, assim como supõe um leitor que não resiste em aderir aos produtos que essa indústria coloca como produtos de entretenimento e diversão. Rosa talvez tenha sido mesmo um escritor contemporâneo de seu tempo. Ao tomar os elementos de uma indústria da cultura do entretenimento logo os reinterpreta e os refaz, sem considerá-los intrinsecamente inferior. Rosa teria feito disso tudo não elementos que "impedem sua criação" - como muitos gostavam de dizer nos debates culturais e intelectuais de sua época - mas como virtualidades que potencializam sua criação. Num certo sentido, se Guimarães Rosa não fez uma literatura de entretenimento, fez uma literatura para um mundo da cultura em que leitores têm a cultura como diversão e entretenimento. Será? Se seus leitores não são, e não foram esses, ao longo da história, aí a história é outra.

 

 

Da novela Buriti , em Corpo de Baile.

In: CALABRE, Lia. A Era do Rádio - Memória e História. Anais do XXII Simpósio Nacional de História. João Pessoa, PB, 2003. A autora estuda exatamente os anos 40/50 brasileiros.

In: FERREIRA, Suzana C de S. Cinema Carioca nos anos 30 e 40 - Os Filmes Musicais nas Telas da Cidade . São Paulo: Annablume: Belo Horizonte: PPGH-UFMG, 2003, p.70.

Veja trecho da música:"O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Tem torso de seda tem tem brincos de ouro tem correntes de ouro tem tem pano da costa tem (...) como ela requebra bem quando você requebrar caia por cima de mim caia por cima de mim (...) o que é que a baiana tem o que é que a baiana tem? (...)"

Da novela Dão-lalalão, em Corpo de Baile.