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A (Re)escritura da História na Ficção Scottiana
Ana Lucia de Souza Henriques (UERJ)
O presente ensaio objetiva focalizar a (re)escritura da história na ficção de Walter Scott. Sua primeira série de romances históricos, conhecida como os Romances de Waverly (Waverly Novels), apresenta temas voltados para a história da Escócia. O discurso ficcional dessas obras prestou importante contribuição para transformações ocorridas na escritura do discurso histórico nas primeiras décadas do século XIX, tanto na Grã-Bretanha quanto no continente europeu.
Ina Ferris, em A conquista da autoridade literária: gênero, história e os Romances de Waverly , de 1991, afirma que, dentre as muitas e, por vezes, contraditórias formas assumidas nessa transformação, a expansão da idéia do que poderia ser considerado histórico estabeleceu um novo relacionamento entre a escritura da história e a escritura do romance. Ferris ressalta que um dos fatores mais relevantes dessa expansão foi a inclusão da noção de "cultura" como um dos mais significativos assuntos/conteúdos/tópicos da história. Lembra ainda que isso não significou uma mudança brusca, pois a história oficial do período ainda permaneceu predominantemente dentro da esfera política, embora se possa perceber - sobretudo a partir de resenhas críticas - que os dados voltados para os aspectos culturais já começavam a ser aceitos como propriamente históricos.
Ferris faz também referência à afirmação de Stephan Bhan 1, autor de Clothing of Clio , a respeito dos Romances de Waverly. Para Bhan, essas obras causaram uma "perturbação" generalizada em toda uma geração de historiadores europeus, dentre os quais, destaca os nomes do alemão Ranke, do inglês Macauly e do francês Thierry.
Após a publicação dos seis primeiros volumes da biografia de Scott, assinada por seu genro, J.G. Lockhart, um ensaísta anônimo afirmou em uma resenha (publicada em 1837 no London and Westminster Review , vol. 12) que as memórias sobre Scott presentes naquele registro despertavam curiosidade e se tornariam ainda mais curiosas para o leitor do final do século XXI. Se, por um lado, é óbvio que ainda não podemos confirmar tal prognóstico cronológico, por outro, podemos pelo menos constatar que, neste início do século XXI, a obra de Scott, acrescida do discurso que sobre ela se formou e a ela se incorporou, continua suscitando releituras renovadoras, o que pode servir para comprovar a permanência do interesse de pesquisadores naquilo que os contemporâneos de Scott chamaram de "inovações literárias".
Mesmo antes de serem denominadas "romances históricos", as obras de ficção scottianas foram definidas, em 1818, por outro ensaísta anônimo da Analectic Magazine como "um tipo de obra escrita que une o fato histórico com o produto da imaginação". Por volta de 1832, Bulwer-Lytton, um dos romancistas sucessores de Scott, já se referia a esse tipo de obra como historical romance (novela histórica) e afirmava que tal denominação não se devia ao fato de esse tipo de narrativa mostrar o desenrolar de um evento histórico ou até mesmo introduzir personagens nos anais da antigüidade, mas "porque essas obras têm por objetivo delinear as distintivas peculiaridades e costumes dos períodos a que se reportam. O evento histórico serve para dar consistência e probabilidade ao enredo, personagens são criados como representantes das maneiras da época em que se inserem".
Já em 1847, no periódico Fraser's Magazine , um outro ensaísta anônimo afirma que os editores de Scott teriam criado o termo "historical novel" ("romance histórico") buscando ressaltar um certo equilíbrio que julgavam existir nas obras desse gênero entre "história" e "ficção", pois, segundo esse articulista, o "valor inerente à história" contrabalançaria a "falta de valor intrínseca do romance". De acordo com tal raciocínio, as referências históricas presentes nos romances de Walter Scott conferem toques de veracidade às narrativas ficcionais, o que contribui para dar credibilidade à história narrada, sem que a abordagem dos "fatos" históricos apresentados ou o enredo escolhido pelo escritor para a reconstrução de um momento passado sejam questionados.
O interesse de Scott por História e histórias fica evidente quando consideramos não apenas suas obras de ficção, mas também tantas outras que não se pretendem ficcionais e que tratam, principalmente, da História de seu país e da História da Grã-Bretanha. Como exemplo, podemos citar duas dessas obras. A primeira, Contos de um avô ( Tales of a Grandfather ), publicada em 2 volumes, entre 1828 e 1831, cujo subtítulo é "Histórias retiradas da História da Escócia ("Stories Taken from Scottish History") . A segunda, História da Escócia ( History of England ), encomendada para ser um dos volumes de uma enciclopédia, veio a lume em novembro de 1829, como decorrência do sucesso da primeira.
No prefácio à primeira edição de Contos de um avô , Scott esclarece que, através daqueles contos, oferece uma visão geral da História de seu país a partir de uma seleção de seus momentos mais "importantes" e mais "pitorescos". Assim, em Contos de um avô , os episódios históricos selecionados ganham um colorido todo especial na voz de um narrador nada imparcial, cujo discurso não procura disfarçar suas afirmativas tendenciosas que apresentam ao leitor/ouvinte uma determinada imagem da Escócia e da Inglaterra cuidadosamente construída, na medida em que os encontros e desencontros desses dois países vão sendo narrados.
Servem como exemplo de como se processa a (re)escritura da história nessa obra os parágrafos iniciais do capítulo de abertura, que se intitula "Como a Escócia e a Inglaterra Passaram a Ser Reinos Separados" ("How Scotland and England Came to be Separate Kingdoms"). A partir da leitura desse título, é possível imaginar que, em algum momento do passado, um só reino unia esses países vizinhos. Contudo, o quarto parágrafo mostra exatamente o contrário, pois nele o narrador afirma: "antes desta feliz união da Inglaterra com a Escócia, aconteceram muitas guerras sangrentas entre as duas nações". A feliz união a que se refere Scott foi um longo e polêmico processo iniciado em 1603 com a união das coroas da Escócia e da Inglaterra e concluído com a incorporação do parlamento escocês pelo inglês em 1707.
Nesses contos da história da Escócia para crianças, a Inglaterra exerce seu papel de nação hegemônica perante sua vizinha do norte. No início da narrativa, por exemplo, Inglaterra e Escócia são apresentadas, nesta ordem, a partir de comparações que afirmam a superioridade da primeira em relação à segunda. Numa linguagem clara e objetiva, fazendo uso de comparativos, as qualidades da Inglaterra vão sendo apresentadas. A vizinha do sul é mostrada como aquela que tudo tem de melhor em relação à Escócia, que, como afirma o narrador, ao contrário, está situada numa região montanhosa com poucas faixas de solo fértil, o que é apresentado como apenas uma dentre outras desvantagens em relação à Inglaterra. Traçar essa imagem pode contribuir para levar o leitor/ouvinte mais ingênuo a não questionar o fato de a Inglaterra merecer ou não ocupar uma posição superior em relação à Escócia. Assim, em Contos de um avô , o discurso histórico de Scott se confunde e se funde com o discurso ficcional, o mesmo ocorrendo nos romances de sua autoria, nos quais existe um entrelaçamento desses dois discursos.
Dessa forma, o discurso ficcional dos romances do autor de Waverly muito se assemelha ao de um historiador. Esse tipo de escritura foi estudada por José Luís Jobim, em " Desconstruindo a diferença: narrativa, estória e história" 2. Nesse artigo, Jobim afirma que os personagens "ganham contornos e limites estabelecidos pelo historiador ou ficcionista, ao instaurar as relações compositivas entre os elementos componentes da narrativa". E acrescenta que, apesar de a perspectiva tradicional enfatizar a idéia de que o discurso histórico remete ao "real" e o ficcional ao "irreal", a sua natureza verbal os aproxima. Citando Hayden White, lembra Jobim que ambos produzem sentidos, do mesmo modo que na história e na ficção "reconhecemos as formas pelas quais a consciência tanto constitui quanto coloniza o mundo em que procura habitar confortavelmente".
Os romances scottianos, pois, não devem ser entendidos apenas como obras de ficção sobre o passado, mas como um tipo de ficção que apresenta a maneira como esse passado deve ser conhecido. Scott é um nacionalista que vê a união dos parlamentos como um caminho para o progresso, mas que, em igual proporção, entende a necessidade de conservação da identidade nacional escocesa. A seu modo, procura contribuir para que traços tomados como tipicamente nacionais possam ser resgatados do passado e mantidos vivos dentro do contexto cultural da Escócia pós-União.
Esses posicionamentos contraditórios não devem ser considerados como exclusivos de Scott. Eles pertencem, em grande parte, ao momento histórico em que o escritor se insere. Talvez possamos explicá-los considerando a formação de Scott como um produto de dois movimentos que surgiram na Escócia após a união dos parlamentos. Um deles seria o Iluminismo escocês e o outro uma tentativa de reavivar o passado do país.
Scott encontra-se entre os valores do passado e os da vida moderna. Essa dualidade não se reflete numa falta de habilidade diante de uma possível opção entre o passado da Escócia e o progresso decorrente da união dos parlamentos inglês e escocês. Tampouco se trata de uma indecisão. Na verdade, parece-nos que estamos diante de uma posição não-excludente que assume a compreensão de sistemas de valores distintos: um que aponta para a preservação do passado e o outro que defende o desenvolvimento.
Scott ilustra melhor do que ninguém o paradoxo da cultura escocesa que marcou o século XVIII e o início do XIX. Em suas obras, o escritor procura mostrar a coexistência pacífica entre o passado, do qual todos devem se orgulhar, e o presente, que deve promover o progresso sem apagar a tradição. Com essa forma de pensar, a nacionalidade escocesa poderia ser acolhida pelos ingleses, já que não constituía um desafio à supremacia da nacionalidade estatal inglesa, opinião também defendida por Hobsbawn na obra Nações e nacionalismos desde 1780 : programa, mito e realidade.
O sucesso das tradições resgatadas ou inventadas foi enorme. Muitos de seus contemporâneos, como o Lorde Cockburn, acreditavam que a Escócia nunca devera tanto a um homem. Harold Macmillan diria que Scott tornara os escoceses e a história da Escócia conhecidos em todas as partes do mundo civilizado, além de ter feito com que a Escócia conhecesse a si mesma. A esse respeito, Caroline McCracken-Flesher afirma, no ensaio "Uma Política de Madras? Costura e Criatividade Nacional no Novo Parlamento Escocês" 3, que Scott testou inúmeras possibilidades de Escócias, entrelaçando escoceses e ingleses em seus romances, numa complexa trama permeada pelo colorido de "tradições" e contribuindo para o fortalecimento da idéia de seu país como uma nação exótica. McCracken-Flesher acrescenta que os escoceses ainda hoje vivem conscientemente uma falsa consciência de sua identidade nacional, cuja origem pode ser encontrada na Escócia imaginada por Walter Scott - e aqui me aproprio da expressão utilizada por Benedict Anderson, em Imagined Comunities .
No livro O romance escocês: narrativa e imaginação nacional , publicado em 1999, Cairns Craig atribui ao papel desempenhado pela ficção de Scott o mais problemático legado para a cultura escocesa deixado pelo século XIX para o século XX. Diz Craig:
Nenhum assunto tem sido mais debatido na Escócia nos últimos trinta anos, em relação a suas conseqüências políticas e culturais, do que a falsificação da história da Escócia iniciada por Walter Scott.[...] Scott carrega o fardo de ter inventado uma Escócia que deslocou a Escócia verdadeira em favor de suas ilusões românticas .
O autor de Waverly selecionou com cuidado os elementos que compõem a tessitura de seus discursos ficcionais, suas escolhas quase sempre apontam para a rasura de determinados acontecimentos históricos que, se incorporados ao texto de seus romances, desconstruiriam a imagem de uma união harmoniosa entre seu país e a Inglaterra. Contudo, em seu discurso ficcional, essas lacunas relativas a uma realidade que não se deseja mostrar, de certa maneira, são compensadas. Os espaços vazios no texto aparecem, por um lado, preenchidos com o colorido das novas velhas tradições, e, por outro, através de uma série de notas, de cunho histórico, apensas ao texto, as quais servem para atribuir veracidade a determinados aspectos da narrativa. Ao se deparar com notas tão cuidadosamente registradas, o leitor é levado a crer no que afirma esse narrador, cujas palavras ganham o respaldo de dados referentes à história "verdadeira". Contudo, a seleção das informações apresentadas nas notas é feita de tal maneira que também nelas há lacunas.
Waverly , que tem como subtítulo "sessenta anos depois", é o primeiro romance scottiano. Publicado em 1814, se reporta ao período da rebelião jacobita de 1745. O que chamamos de Causa Jacobita ( Jacobite cause ) teve sua origem com o exílio do rei James VII da Escócia e II da Inglaterra. Assim, denominavam-se jacobitas ( Jacobites ) os que eram favoráveis à volta ao trono da linha dos Stuarts que havia partido para o exílio depois da Revolução de 1688.
A primeira tentativa de recuperação do trono partiu de James Francis Edward, o Príncipe de Gales, filho de James VII e II, que viveu quase toda a sua vida no exílio e veio a ser conhecido historicamente como o Velho Pretendente ( Old Pretender , do francês pretendant = aquele que reivindica), por reclamar o trono para si. Na sucessão jacobita, ele seria James VIII da Escócia e III da Inglaterra. O Velho Pretendente cresce no exílio alimentando a esperança de que o trono um dia será seu.
A segunda tentativa, a que ocorreu em 1745, é a que Scott focaliza em Waverly. A iniciativa aqui partiu do filho de James VIII e III, Charles Edward Stuart chamado Bonnie Charlie , que ficou conhecido como o Novo Pretendente ( New Pretender ).
Assim, o jacobitismo, que nasce com o exílio dessa linha dos Stuarts, ganharia mais adeptos durante o reinado da rainha Anne, última soberana da dinastia. Tal fato acontece porque nesse o período debate-se a questão da União dos parlamentos e é assinado o Tratado. Registre-se também que, desde a união das coroas, ou seja, desde o reinado de James VI da Escócia e I da Inglaterra (1603 a 1625) até o de Anne (1702 a 1714), vinha sendo pavimentado o caminho temido pela grande maioria dos escoceses: aquele que levou à completa união política de seu país com a Inglaterra através da assinatura, em 1707, do Tratado de União, o qual incorporou, como dissemos anteriormente, o parlamento escocês ao inglês. Essa incorporação significou, em termos exatos, a completa perda da autonomia política na Escócia.
A seleção desse momento da história da Escócia por Scott nos parece ser bastante apropriada, pois, como afirma David Daiches, em O Paradoxo da Cultura Escocesa , somente após a ida dos Stuarts para o exílio é que eles se tornam uma "causa romântica perdida, identificada, em grande parte, com o sentimento popular da perda da glória e da independência da nação escocesa".
O personagem Waverly - que dá título à obra - é um jovem inglês cuja família está dividida em suas inclinações políticas. Seu pai acredita que através de seu apoio à Casa de Hanover - dinastia que sucede a dos Stuarts - poderá assegurar para si uma boa posição social. Seu tio, um respeitado proprietário rural, é favorável ao partido conservador e simpatizante da causa jacobita.
No primeiro capítulo, que serve de introdução para a obra em questão, Scott justifica a escolha do nome próprio Waverly para o título, afirmando tratar-se de um nome "não contaminado", isto é, que não seria reconhecido por seus leitores como o de um personagem histórico, e, conseqüentemente, não traria consigo "associações pré-concebidas" 4.
Edward Waverly parte da Inglaterra para a Escócia como um soldado do exército inglês. Na Escócia, se deixa impressionar com o movimento pela volta da linha exilada dos Stuarts. Após fazer amizade com alguns habitantes das Highlands , cuja maioria lutou pela causa jacobita, o rapaz é apresentado a Charles Edward Stuart, o Bonnie Charlie, que reclamava o trono para si. Waverly acaba por se tornar um membro do exército escocês, porque julga ser justa a causa dos jacobitas, mas também porque o Jovem Pretendente ao trono lhe desperta enorme admiração.
A rebelião de 1745 é então narrada a partir da percepção romântica desse jovem, que ignora tanto a história quanto a cultura da Escócia. Daí a justificativa para que dados históricos e culturais sejam apresentados para Waverly e, conseqüentemente, para o leitor, ilustrando aquilo que Scott deseja ressaltar sobre esse período.
Para Stephan Thomas Hall (em "Awkward Silences in Scott's in Waverly" - "Silêncios Embaraçosos em Waverly de Scott"- , 2003), romances históricos como Waverly podem ser entendidos como respostas a algo que lhes é anterior como estórias, histórias, textos e tradições, respostas essas cheias de invenção e silêncios. Para Hall, o leitor de um romance histórico se acha na posição de "responder a uma resposta, tentando captar o sentido não apenas da história "real", mas também de uma deliberada ou amnésica repressão da memória histórica".
O tema do jacobitismo como símbolo da independência e do orgulho do país, perdidos com a união da Escócia à Inglaterra, não sugere nenhuma ameaça à Casa de Hanover. Outras conspirações não seriam tramadas pela volta da linha exilada dos Stuarts, pois a morte de Bonnie Charlie, em 1788, fez com aqueles que ainda acreditavam no direito divino dessa dinastia acabassem por reconhecer que a causa jacobita estava morta.
Acrescente-se a isso o fato de que, após 1745, a maioria daqueles que apoiaram Bonnie Charlie, principalmente os habitantes das Terras Altas, sofreram todo o tipo de punição, tendo inclusive de se submeter a várias medidas governamentais que trariam mudanças significativas em seu modo de vida. Uma delas foi a proibição do uso das suas vestimentas típicas. Durante trinta e cinco anos, apenas o regimento militar das Highlands estava autorizado a usá-las. Por isso, depois de serem obrigados, durante uma geração, a usar calças compridas, Highlanders de origem mais humilde não pareciam mais interessados em voltar a usar nem plaids nem kilts .
Ao "pintar" os highlanders em Waverly, sessenta anos depois de 1745, Scott escolhe mostrar um passado de bravura dessa parte da população escocesa que, naquele momento, enfrentava sérias humilhações. Enquanto o exótico e o pitoresco disfarçam os espaços vazios a que nos referimos anteriormente, vai sendo atribuída a esses highlanders uma imagem romântica, ligada ao culto do nobre selvagem, ameaçado de extinção pela civilização.
Muito já disse acerca da conclusão repentina de Waverly em contraste com a lentidão em que o início e o meio da narrativa são apresentados. Scott, como cavalheiro, se desculpou por essa falha técnica presente não apenas no romance em questão, dizendo ser essa falha uma incapacidade sua como escritor. De minha parte, prefiro pensar que, apesar das desculpas apresentadas, estamos diante de uma escolha consciente, não aleatória, pois prolongar a narrativa com acontecimentos que sucederam a derrota dos highlanders e a fuga de Bonnie Charlie poderia macular a imagem de uma Escócia romântica cuidadosamente construída em que coexistem "pacificamente" escoceses e ingleses.
A escolha do tema do jacobitismo exemplifica desse modo o paradoxo da cultura escocesa no início do século XIX. Walter Scott procura mostrar a possibilidade de convivência pacífica entre o passado, do qual todos devem se orgulhar, e o presente, que deve promover o progresso sem apagar a "tradição". É bem verdade também que essa sua maneira de pensar pode ser entendida como uma forma de agradar a todos, principalmente os detentores do poder. Melhorando o acontecido de história em história, o discurso ficcional scottiano vai, assim, (re)escrevendo a História escocesa com matizes articulados e faz repercutir de um modo original essa combinação entre tradição e progresso.
BHAN, Stephan. Clothing of Clio . Cambridge: CUP, 1984.
JOBIM, José Luís. Desconstruindo a diferença: narrativa, estória e história. In: MARTINS FILHO, Plínio, ed. Limites: Anais do 3° Congresso da Abralic . v. 1. São Paulo:USP, 1995, p. 127-49.
McCracken-Flesher, C aroline. "A Tartan Politics? Couture and National Creativity in the New Scottish Parliament". In: Scottish Studies Review. Glasgow : Association For Scottish Literary Studies. V. 3, n° 1, Spring 2002, p. 110-121.
SCOTT, Walter. Waverly . Harmondsworth: Penguin Books, 1994 , p. 53.