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Utopia, condicionamento e livre arbítrio em Admirável mundo novo, interpretados à luz de A república.
Amaury Garcia dos Santos Neto (UERJ)

Este ensaio pretende discutir, à luz de A república , a concepção de educação moral no romance Admirável mundo novo , de Aldous Huxley, tendo em vista a possibilidade do exercício do livre arbítrio nessa sociedade utópica. Em tal sociedade, indivíduos são submetidos a processos de condicionamento, que têm como um de seus objetivos principais a preservação da harmonia e da estabilidade.

Em primeiro lugar, convém lembrar o conceito de utopia. Na definição de Bernardete Pasold 1, trata-se de um texto literário que apresenta uma sociedade que, no ponto de vista de seu autor, é perfeitamente organizada e proporciona felicidade e satisfação a seus cidadãos, existindo num lugar e tempo imaginários (1997: 18-19).

Contudo, Admirável mundo novo , por sua vez, é considerado uma distopia. Keith M. Booker 2 define distopia como uma visão crítica de uma sociedade com o propósito de mostrar características negativas ou problemáticas do que se concebe como ideal na mesma (1994: 22). Etimologicamente, podemos entender o significado da palavra "distopia" como um "lugar-ruim". Dessa forma, compreendemos "distopia" como a apresentação de uma sociedade utópica em uma perspectiva diferente daquela de seu(s) criador(es), trazendo à tona suas falhas, e demonstrando que tal sociedade é, em si, um lugar-ruim.

Levando-se em conta o fato de que a concepção de perfeição é relativa, concluímos que uma sociedade só pode ser utópica enquanto imaginária, já que existirá apenas na mente de seu(s) idealizador(es). Já uma distopia é a crítica à tentativa de se colocar uma utopia em prática, visto que, para que isso ocorra, a mesma dependerá da concordância total entre seus membros e seu(s) criador(es) sobre o que se entende por perfeição, anulando a possibilidade de outras visões. A utopia se estabelece através de um axioma; a distopia questiona a validade de tal axioma.

Tendo isso em mente, acreditamos ser apropriado analisar primeiramente as principais características do texto utópico, para depois demonstrarmos como tais características serão questionadas no texto distópico. Buscaremos levantar tais características a partir da obra de Platão - modelo da visão utópica ocidental -, relacionando-as com àquelas apresentadas Huxley em seu romance.

A seleção de A República se justifica por ser esse um texto seminal dentro da tradição utópica, cuja influência na formação e desenvolvimento do gênero é indiscutível. Platão traça as bases para que a estabilidade e harmonia constantemente manifestas em escritos utópicos possam ser alcançadas. As regras mostradas, através de um diálogo, descrevem de forma objetiva a organização político-social que a construção de uma utopia requer, sistematizando sua criação e possibilitando a visualização de seu funcionamento 3.

Ao compararmos e contrastarmos o texto de Platão com o de Huxley, observamos marcas do texto platônico em Admirável mundo novo . Dentre elas, destacamos: defesa de eugenia; divisão social em classes; educação como fator de sustentação e reprodução de relações sociais; programa educacional visando treinamento moral do indivíduo; educação fornecida e controlada exclusivamente pelo Estado; princípio de especialização; tolhimento de opiniões contrárias ao Estado; subserviência da arte, inclusive a literatura, ao Estado e à ordem social.

Devemos atentar em primeiro lugar ao chamado "Princípio de Especialização", já que o mesmo funciona como pilar para algumas características desta utopia, como a estratificação social e a concepção de educação. Robin Waterfield, tradutor da versão de A República utilizada neste artigo, nos explica em sua introdução que Platão acredita que o indivíduo tenha apenas um único talento, oferecendo, então, apenas um modo de contribuir para o bem da comunidade. Assim, espera-se que este indivíduo realize sua função, e somente esta por toda sua vida. De acordo com Waterfield, Platão toma o princípio como óbvio, e o transforma num axioma. A sociedade é então conduzida à estrutura paradigmática organizada em classes; as classes são definidas por tal regra 4 (1993: xxii) . O princípio traria satisfação ao indivíduo - ao realizar aquilo que melhor sabe - mas também contribuiria para gerar unidade, já que tal procedimento envolve a cooperação com outros, concorrendo para o bem do corpo social.

O "Princípio de Especialização" tem forte ligação com o sistema educacional platônico . Aplicada num direcionamento utilitarista, a educação tem por fim formar pessoas que possam servir à comunidade, exercendo diferentes funções, determinadas pelo preceito a que nos referimos acima. Desta forma, as partes (cidadãos) contribuiriam para o funcionamento do todo (comunidade). Waterfield tece um breve comentário afirmando que o programa educacional proviria o condicionamento necessário para a aceitação das normas sociais, e ainda acrescenta que não era esperado que os cidadãos discordassem da ideologia oficial (cf. Plato, 1993: xxiv). Podemos ver então o fim da educação nesta sociedade: condicionamento social produzindo o endossamento do sistema político.

Devemos, então, recorrer à visão althusseriana sobre a educação. Em Aparelhos Ideológicos de Estado 5, Louis Althusser afirma ser a escola o mais forte e eficiente desses aparelhos. Através da educação, controlada pelo Estado, e feita obrigatória para todos, a classe dominante imprime seus valores nas mentes de cidadãos, independente do lugar que ocupam na escala social. Esses indivíduos, por sua vez, se posicionam na sociedade de acordo com o que lhes é ensinado. O autor afirma que são tais aparelhos "que garantem, em grande parte, a reprodução mesma das relações de produção (...). É neles que se desenvolve o papel da ideologia dominante, (...) que detém o poder do Estado" (Althusser, 2001: 74).

A escola, portanto, se mostra como peça chave para que a ideologia da classe dominante seja difundida, e conseqüentemente tenha sua aceitação assegurada. Tal aceitação é indispensável para a existência da utopia. Renato José de Oliveira, em Utopia e razão 6, reconhece que "o utopista sabe que a conversão das expectativas contidas no poder-ser em vir-a-ser depende da capacidade de conquistar a adesão de outrem" (Oliveira, 1998: 46). De acordo com o crítico, o "poder-ser" representa as expectativas em relação ao que possa ser mudado e melhorado na sociedade, ao passo que o "vir-a-ser" seria o real acontecimento dessas expectativas. Como demonstrado no parágrafo acima, o aparelho que oferece maior possibilidade de promover tal adesão, e conseqüente conversão, é a escola.

Ao analisarmos a discussão sobre o currículo escolar em A República , podemos enxergar tal fator na seguinte passagem: Adimanto pergunta a Sócrates o que deverá ser ensinado, que por sua vez o questiona se seria prudente permitir a possibilidade de o assunto a ser abordado estar em desacordo com a ideologia do Estado; ambos chegam a conclusão que tal possibilidade não deve existir, já que isso não geraria a adesão necessária ao sistema. Transcrevemos aqui a questão levantada por Sócrates: "Deveríamos permitir a nossas crianças ouvir estórias criadas por um qualquer e trazer às suas mentes visões que, no geral, contradizem aquelas que queremos que elas tenham quando adultos?" 7 (Plato, 1993: 71).

Platão, através de Sócrates, nos faz então entender a importância da concordância entre a educação e a ideologia do Estado, sem a qual sua utopia seria impossibilitada. No entanto, o que mais nos chama a atenção nesta passagem é a forma como Platão apresenta esta necessidade: as visões do cidadão platônico devem estar harmonizadas com o que seus criadores querem, isto é, a verdade dos membros desta sociedade deve estar de acordo com a verdade de seus líderes. A adesão completa ao sistema e sua conseqüente validação são, assim, diretamente dependentes dessa harmonia, que se faz possível através da educação.

Depois de dar início à discussão sobre o papel do sistema educacional em sua sociedade, Platão segue demonstrando que o mesmo se configurará de forma a condicionar os cidadãos à norma, desencorajando inovações que possam transgredir os regulamentos sociais (Plato, 1993: 128). Desta forma, a harmonia da comunidade ganha precedência sobre o indivíduo, que passa a ser visto como apenas parte de um todo. O indivíduo não é mais um ser único, que se relaciona com outros seres únicos diferentes dele, mas uma engrenagem numa grande máquina, a sociedade.

É precisamente neste momento que devemos estabelecer o paralelo entre Platão e Huxley. O último nos expõe a falibilidade do projeto platônico, subvertendo essa utopia num lugar-ruim, numa distopia. Huxley o faz utilizando a proposta do filósofo, levando-a a seu próprio extremo, e mostrando as conseqüências nada desejáveis caso tal projeto fosse realmente posto em prática.

Já no primeiro parágrafo do romance, percebemos a ênfase dada a noção de coletivismo. Somos apresentados ao Centro de Incubação e Condicionamento, onde se introduz o lema: "Comunidade, Identidade, Estabilidade". Robert S. Baker 8 afirma que a forma em que o mote é arranjado faz com que o termo "Identidade" seja abraçado pelo ideal coletivista, representado por "Comunidade" e "Estabilidade" (1990: 81). Pode-se concluir também, a partir da junção do lema com o nome do Centro, que a estabilidade a ser alcançada depende da identidade produzida por este mesmo Centro, cuja função é a de fabricar pessoas que tenham adesão inata ao ideal coletivista.

Huxley inicia sua narrativa com uma explicação, através do Diretor de Incubação e Condicionamento, sobre o funcionamento do Estado-Mundo. O primeiro ponto exposto é o fato de bebês serem geneticamente manufaturados para que ocupem um determinado papel social. Criados de acordo com a demanda das várias castas, os mesmos são posteriormente condicionados a aceitarem seu papel, e a desempenharem-no com perfeição, concorrendo para o fortalecimento da comunidade. Tenley Williams nos diz que o Centro de Condicionamento fabrica novos seres humanos como em uma linha de montagem, através de estágios progressivos de completamento, que os levam em direção ao seu lugar social já designado. O crítico conclui dizendo que "o indivíduo se torna uma comodidade garantida a responder às expectativas 9" (Cf. Bloom, 1999: 11).

A comparação dessa sociedade com a proposta platônica se torna então fatal: ambas fazem uso da eugenia, como também são dividas em castas; em ambas a comunidade tem precedência sobre o indivíduo; e, finalmente, as duas fazem uso do Princípio de Especialização, já que os bebês são criados e educados para desempenhar um papel exato no corpo social.

Como em A república, o sistema educacional do Estado-Mundo é crucial para a harmonia e estabilidade social. Huxley nos apresenta esse sistema no segundo capítulo, e nos mostra que o mesmo consiste em dois processos de condicionamento. Podemos nomeá-los como condicionamento psicológico e condicionamento lingüístico. O primeiro acontece nas chamadas Salas de Condicionamento Neo-Pavlovianas. Esse estágio ocorre basicamente através do sistema de associação, no qual o indivíduo é levado a associar objetos a sensações, sentimentos ou valores, que posteriormente influenciarão suas interpretações do mundo material. Através de uma cena chocante, Huxley nos esclarece o funcionamento de tal processo: choques elétricos são aplicados a bebês, que até então se encontravam calmos, brincando com livros e pétalas. Sendo repetido por cerca de duzentas vezes, o tratamento garante a associação entre flores, livros e dor, o que fará com que esses bebês, futuros cidadãos do Estado-Mundo, venham a repudiá-los.

Através desse dispositivo, o Estado evita a formação de cidadãos leitores, já que tal hábito poderia levar os indivíduos a desenvolverem um pensamento crítico 10. Esse cuidado do Estado-Mundo em evitar a leitura nos remete ao capítulo quatro do tratado de Platão que deixa claro que arte e literatura deverão ser subservientes ao Estado. As estórias a serem contadas por poetas serão aquelas que virão a reforçar a ideologia oficial. Em Admirável mundo novo , o controle da literatura se torna obsoleto, já que os cidadãos são educados a não buscarem a leitura.

Após o condicionamento psicológico, encontramos o que chamamos de condicionamento lingüístico, que ocorre através da hipnopedia. Huxley explica em seu Brave New World Revisited 11 que durante o sono o ser humano tem seu nível de sugestionabilidade elevado. Com este nível elevado, o indivíduo se torna altamente suscetível a aceitar sugestões, e conseqüentemente crer no que lhe é dito. Caso as sugestões venham a ser repetidas por diversas vezes, elas podem passar a fazer parte da matriz conceitual do indivíduo, que é uma espécie de sistema de impressões e valores do mesmo.

No romance, o processo é utilizado na educação moral de crianças, que, durante o sono, escutam frases contendo a ideologia oficial. David W. Sisk 12 faz uso da hipótese Sapir-Whorf para explicar tal dispositivo. Segundo essa teoria, a linguagem dá forma e estrutura à percepção humana, o que torna impossível para um indivíduo apreender a realidade a não ser através da linguagem. O condicionamento lingüístico constrói a matriz conceitual do indivíduo, que vem a ditar a interpretação que os personagens tem sobre o real. O caráter dos futuros cidadãos do Estado-Mundo, baseado nessa teoria, é assim formado: as sugestões, contendo a ideologia oficial, são passadas através de frases sucessivamente repetidas, que adquirem o status de verdades. A possibilidade de que essas crianças venham a agir da maneira como são induzidas se torna praticamente garantida. O Diretor de Incubação e Condicionamento explica a técnica através de uma metáfora:

"(...) como gotas de cola líquida, gotas que aderem, incrustam, se incorporam no que caem, até que a rocha seja finalmente um só bloco escarlate.

-Até que afinal a mente da criança seja essas sugestões, e a soma de sugestões seja a mente da criança. E não só a mente da criança, mas também a do adulto, para toda a vida. A mente que julga, deseja e decide - construída com essas sugestões. Mas todas essas sugestões são nossas! (...) Sugestões do Estado 13" (Huxley, 1980: 51).

 

Como conseqüência do condicionamento, o cidadão deste Admirável Mundo Novo será então incapaz de agir em discordância com a ideologia oficial. Edward Rothstein, em artigo publicado no livro Visions of Utopia 14, confirma o papel da educação na utopia, ao dizer que num mundo perfeito o homem pode apenas ser um construto social (2003: 6). Vemos, então, a maior semelhança entre as duas sociedades analisadas: ambas formam um corpo social, cujas partes se encontram harmonizadas e satisfeitas com seus papéis, educado a colaborar para sua própria manutenção. Cuidadosamente concebido e gerido pelo Estado, o processo educacional formaria indivíduos perfeitamente ajustados ao sistema. Tal ajuste, porém, elimina a possibilidade do exercício do livre-arbítrio.

Rothstein afirma que praticamente qualquer utopia faz uma clara exigência: obedecer. O crítico conclui que quanto mais perfeita a utopia, mais rígidas são as formas de controle, o que a transforma em totalitarismo mascarado (2003: 7). A obediência assegurada impossibilita a oposição à ideologia oficial, privando o indivíduo de seu livre-arbítrio. A garantia da obediência se dá através da educação, como visto, que então se transforma na máscara do totalitarismo. O condicionamento social gerado pelos processos educacionais presentes nos dois textos analisados passa a fazer o papel de substituto do livre-arbítrio.

Podemos ver então, através de nossa comparação entre A república e Admirável mundo novo , que para que uma utopia possa existir, a mesma depende da adesão completa de seus membros ao sistema proposto, o que implica a obediência às normas sociais. Tal obediência anula o livre-arbítrio, mecanizando o indivíduo, o que ocorre principalmente graças à educação. Podemos dizer então que enquanto imaginária, a utopia funciona como um modelo para nos auxiliar na busca de algo melhor. Mas, quando posta em prática, a mesma se condena à sua ruína, pois, com a anulação do livre-arbítrio, anulamos nossa própria humanidade, e passamos assim a ter uma "pseudo-existência", numa sociedade que se configura como um lugar-ruim, ou seja, uma distopia.

 

PASOLD, Bernadete. Utopia X Satire in English Literature . Florianópolis: Ares, 1997.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature . Westport : Greenwood Press, 1994.

Sabemos serem outras leituras possíveis. Porém, a leitura mais comumente utilizada é a de que Platão se refere a uma sociedade propriamente dita. Ë desta que fazemos uso neste artigo.

PLATO. Republic , trad. Robin Waterfield. Reading : Oxford University Press, 1993.

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado , trad. Maria Laura Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda., 2001.

OLIVEIRA, Renato José de. Utopia e razão: pensando a formação ético-política do homem contemporâneo. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

Tradução livre. Todas as traduções neste artigo são de seu autor.

BAKER, Robert S. Brave New World: History, Science, and Dystopia . New York : Twayne Publishers, 1990.

WILLIAMS, Tenley, In BLOOM, Harold, ed. Aldous Huxley's Brave New World . Broomall : Chelsea House Publishers, 1999.

Flores são usadas com um outro objetivo que não é relevante para este trabalho.

HUXLEY, Aldous. Brave New World & Brave New World Revisited . New York : Harper & Row, 1965.

SISK, David W. Transformations of Language in Modern Dystopias . Westport : Greenwood Press, 1997.

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo , trad. Felisberto Albuquerque. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

ROTHSTEIN, Edward, ed. Visions of Utopia. New York : Oxford University Press, 2003.