VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Intelectual e performance: o ensaio de Eduardo Subirats
Silvia Inés Cárcamo (UFRJ)

Desde os primeiros ensaios escritos ao final da década de 70 até as suas polêmicas intervenções na atualidade, o pensamento de Eduardo Subirats foi se desenvolvendo de acordo com uma coerência de base durante quase trinta anos. No entanto, como acontece normalmente quando a reflexão está centrada nos problemas do presente, a leitura cronológica dos textos do ensaísta deixa em evidência o aparecimento de novos núcleos de interesse e o apagamento de outros que foram se tornando inatuais.

Mas se tivéssemos que assinalar constantes de pensamento na trajetória do autor escolheríamos sem dúvida duas. Em primeiro lugar, desde a introdução à Contra la razón destructiva , escrita em 1977, tem persistido a proposta de uma "filosofia crítica" ou de uma "crítica radical" que assume até suas últimas conseqüências a defesa do sujeito do protesto. Para o autor, o pensamento da resistência não pode fazer concessões diante da reificação do homem transformado em mercancia por determinação das relações capitalistas. O ponto de vista adotado, e aqui destacamos a outra constante do pensamento de Subirats, deve coincidir com o sujeito histórico real. Para o leitor que acompanhou a trajetória do ensaísta não surpreende essa convicção já que ela é conseqüência lógica da sua avaliação crítica da tendência hegemônica do pensamento ocidental: o sujeito construído pelo racionalismo moderno caracterizou-se pela negação do empírico, do individual, do biográfico e do histórico. Semelhante modelo exigiu a linguagem abstrata da filosofia sistemática, a qual enuncia a partir de uma pretendida objetividade pura. A tragédia do homem moderno consistiria, precisamente, na separação do eu racional da realidade empírica do sujeito concreto.

Não é de admirar, por isso, que a própria forma do ensaio de Subirats, incluindo, logicamente, as estratégias de enunciação mediante as quais o sujeito emerge do discurso, tenha que entrar em consonância com esse pensamento crítico. Mas mal indagamos acerca da forma, percebemos a necessidade de considerar a figura do intelectual, o que parece exceder, no entanto, o problema da forma. Com outras palavras, entendemos a conveniência de levar em conta tanto a filosofia do pensador quanto a figura do intelectual associada a um certo uso performático da linguagem. Nosso raciocínio aponta a demonstrar que existe uma identificação entre o intelectual e o ensaísta e que há um corpo desempenhando um papel fundamental nessa equivalência.

Acreditamos que ao voltar para o exame do uso performático da linguagem no sentido que conferiu John Austin a intenção de intervir com a palavra no mundo estaremos iluminando aspectos fundamentais do ensaio de Eduardo Subirats e esclarecendo o sentido de um discurso que se exibe de algum modo espectacular. Segundo Benoît Denis, o escritor engajado tende a instaurar uma " encenação de si " e é precisamente no ensaio onde se dá "a presença total do autor na escritura".

Sendo a polêmica um enunciado com um funcionamento pragmático específico que manifesta traços comuns com o ensaio, se explica que a argumentação polêmica constitua um dos rasgos mais marcantes do gênero. Segundo Catherine Orecchioni, a polêmica é um discurso de paixão assumido por um enunciador que deve persuadir o destinatário a quem deve cercar e convencer. Interpretamos que nesse duplo movimento, quando o ensaio incorpora a polêmica torna-se espetacular, oposto ao discurso da ciência, caracterizada pela retenção do espetáculo.

Poderíamos pensar que a existência de mais ou menos tensão dos enunciados, um dos parâmetros propostos por Longacre y Stephen Levinsohn (Contursi, María Eugenia 2000: 32-33) para classificar discursos, resulta particularmente interessante também para considerar o ensaio. "O espetacular" estaria relacionado com a tensão derivada da polifonia que acompanha esse tipo de discurso.

Alguns ensaios de Eduardo Subirats valem-se do método dramático que faz da enunciação fortemente marcada um espetáculo, cujo ponto de partida é o "eu" do ensaísta apresentando-se a si próprio no texto. Cabe perguntar que imagens conformam essa representação visto que elas cumprem um papel significativo na construção do sentido de seus textos.

O longo ensaio-tese intitulado El continente vacío (1994) e os ensaios breves aparecidos entre 1988 e 1992 em vários periódicos da Espanha e da América Latina, reunidos sob o título de América o la memoria histórica (1994) mostram que o enunciador se concebe a si mesmo como "un español al margen", para usar a expressão com que Subirats caracterizou Américo Castro. Conscientemente, Subirats projeta El continente vacío sobre o fundo da famosa polêmica de Américo Castro e Claudio Sánchez Albornoz. Se nesse momento Américo Castro assumiu a posição do dissidente, do heterodoxo, Subirats não duvida de que na Espanha do V Centenário a sua obra merecerá o mesmo destino das tesis de Américo Castro.

O eu precisa reafirmar-se numa situação polêmica para que o próprio ensaio realize o objetivo de denúncia que o justifica. Nos textos mencionados, esse objetivo consiste no ataque às comemorações do V Centenário da Descoberta, a festa mediática de uma Espanha que na visão de Subirats decidiu monumentalizar o acontecimento do passado para fazer com que ele desaparecesse como memória histórica. O ensaio manifesta uma forma de resistência desde uma "margem" que deve se opor ao poder constituído. El crítico debate-se numa luta desigual uma vez que a outra condição enunciativa é marcada pela solidão, o isolamento ou carência de interação em virtude de um poder que silencia qualquer tipo de protesto.

Mas isso que estamos denominando "dramatização" e "espetáculo" como efeitos enunciativos nada tem a ver com as noções que precisamente o próprio Subirats atacou mais de uma vez. Em vários textos, e especificamente em "La cultura como espectáculo", seguindo de perto ao Guy Debord de A sociedade do espetáculo , Subirats identifica a característica central da sociedade contemporânea que consiste em reafirmar a aparência. Vinculado ao espetáculo, Subirats lamenta a "performatização da experiência" criada pelos médios de comunicação, cujo efeito consiste em substituir a experiência individual, a apreensão direta do mundo e a autenticidade das relações entre indivíduos.

Em El continente vacío a experiência pessoal narrada -uma viagem a Chiapas, ao coração verdadeiro e desconhecido da América- faz com que o ensaio pareça surgir não só das especulações intelectuais mas também da vida, segundo aquilo de "estive ali e fui a testemunha". Isso conduz a sublinhar uma característica de perspectiva dos textos de Subirats: o valor concedido a uma experiência a partir da qual se decide contar a história da marginação de que é vítima um pensador crítico no âmbito cultural espanhol. Adquire sentido, para esse propósito a descrição do que sucessivamente será " cuadro ", " teatro ", " drama ", " escena ", " visión ", " obra de teatro total ", " representación " ou " espectáculo ", com a presença humana transformada em "figuras" ou "personagens". No espaço onde se celebra o Seminário Internacional "Amerindia hacia el tercer milenio", em Chiapas, Subirats toma distância dos olhares acadêmico e burocrático em que adverte "el candor banal de paquete turístico" e se concebe como o "intruso".

El espejo enterrado é a obra de Carlos Fuentes que parece convocar a comparação com El continente vacío para que, por contraste, possa emergir o sentido do ensaio de Subirats. Evidentemente opera no livro de Fuentes a lógica da conciliação que supõem ou exigem os meios de comunicação de massa, a cultura do espetáculo e da celebração. Basta lembrar que o ensaio do mexicano foi escrito por encargo da Espanha para que sua publicação coincidisse com as comemorações do V Centenário da Descoberta e que o ensaio de Subirats "atua" - esse verbo nos parece particularmente adequado para esse caso- contra esses festejos. Antes de El espejo enterrado , Fuentes produz o vídeo para televisão que na realidade acaba sendo o pré-texto do ensaio. Parte, en certa medida, de uma simplificação, de um audiovisual que deve interpretar a história da América com um final feliz, ocultando para isso a profundidade e a atualidade das contradições históricas.

Se em El continente vacío e em América o la memoria histórica o ensaísta figura-se o testemunho inconveniente da grande farsa mediática do V Centenário, no texto "Los dilemas del atraso", incluído em Después de la lluvia. Sobre la ambigua modernidad española , a disputa estabelece-se com a esquerda dos anos sessenta, quer dizer, com a gente da sua própria geração que subiu ao poder e ocupou cargos administrativos desde a transição democrática.

Essa figura do ensaísta, de tal modo delineada, corresponde exatamente à sua concepção do intelectual, um assunto abordado pelo autor em vários ensaios. Diante do "espetáculo pós-moderno", empobrecido pela carência de diálogo, de crítica e de pensamento, impõe-se a necessidade de outro tipo de espectáculo, embora Subirats não o reconheça como tal. Cremos, no entanto, que seu ensaio se configura como o gênero destinado a representar no discurso esse outro drama em que deve atuar a consciência crítica e autônoma do intelectual, que procura, apesar do rechaço que suscita o espetacular, a cena pública. Conjugar marginalidade, cena pública e méio de comunicação de massa representa um verdadeiro desafio para um intelectual. Por isso o seu modelo de ensaísta e de intelectual da nossa época é Juan Goytisolo.

No ensaio "El intelectual en la crisis contemporánea", o autor reafirma o papel de educador social do intelectual moderno, cuja singularidade consiste na compreensão global da realidade e na sua consciência autônoma e crítica. Com essa convicção, Subirats interpreta como um signo regressivo a substituição do intelectual pelo especialista ou pelo experto, deslocamento que conduziu à crise daquele, situado em posição contraditória na sociedade atual. Reconhecer semelhante conflito implica "un momento de protesta contra la instrumentalización política de la inteligencia, su disciplina y pasividad académicas o su degradación mediática" (Subirats, Eduardo 1991: 155).

A alusão à tradição cumpre o papel de assinalar, mais uma vez, a radical solidão do ensaísta posto que ele se identifica com a tradição espanhola do "exílio intelectual". "Memoria y exilio"(2003) foi precisamente o título do livro que reuniu ensaios centrados em problemas das culturas ibéricas e latino-americanas. O compromisso do intelectual pós-moderno com a sociedade mediática levaria, segundo o ensaísta, ao abandono do que sempre deveria ter sido a sua função: a crítica.

As insuficiências do projeto político da esquerda dos anos sessenta, sobretudo a sua concepção sublime do poder, albergavam as contradições que geraram o intelectual-político e o especialista ou técnico. O rechaço dessas figuras leva a proposta de instaurar algo novo. É por essa diferenciação que o intelectual se vincula a um discurso de "tensão" como o ensaio. A aproximação da política e a atuação social do técnico ou especialista, com a inevitável presença dos meios de comunicação constituem fatos do processo de modernização econômica e social, mas como "ambos entrañan, al mismo tiempo, poderosas limitaciones y ambigüedades" (Subirats, Eduardo 1991: 164) a função do intelectual consistiria em desempenhar a função crítica que essas figuras devem negar por definição.

Sem dúvida o ensaio é proposto como o gênero que se vale da crítica uma vez que "es el medio expresivo de libertad reflexiva" e "medio de transformación al mismo tiempo analítico y creador, intelectual y artístico de la realidad" (Montejo Navas, Adolfo 2001: 7). Notamos, no entanto, que a certa altura não basta considerar exclusivamente as idéias: é imprescindível enxergar a atuação, o modo em que o próprio corpo do ensaísta passa a ocupar um lugar de relevância. Para Subirats não pode existir ensaio sem pensamento crítico já que o gênero existe justamente para manifestar o compromisso ético do intelectual. Mas seu compromisso não é só teórico como o demonstra a tradição hispânica do exílio (Blanco White, Américo Castro, Lloréns, Goytisolo): é o relato dramático das escolhas de um sujeito que compromete seu próprio corpo.

A identificação com o perdedor, com quem está à margem, é a condição de possibilidade para apreciar a complexidade histórica sem negar o eu como instância da enunciação que supõe um corpo. Essa perspectiva guarda coerência com aquela tese central do autor a respeito das limitações do racionalismo e do império da razão como nefasto à sociedade humana. É a ocasião de lembrar que Subirats se propõe resgatar momentos de destruição do homem moderno registrando a dor individual que acompanha a crise da subjetividade. As "figuras de la conciencia infeliz" são também as figuras da arte que manifestam, por metáforas, a insuficiência da razão. Isso explica ou justifica a valorização do detalhe ou dos momentos insignificantes (o que sugere, por exemplo, a figura humana enfrentada à natureza num quadro do artista romântico alemão Caspar D. Friedrich) ou como a alusão à viagem num dos mais belos poemas de kavafis pode ser o ponto de partida para que a rememoração de conteúdos culturais comece a se ativar (Gómez-Martínez, Giordano).

Subirats acaba coincidindo, a sua maneira, com a tradição ibérica, para cuja compreensão servem de muito as reflexões coincidentes, no essencial, de José Ferrater Mora e Eduardo Lourenço. O primeiro introduziu a distinção entre o sistema filosófico e algo que denominou "estilos de pensar", cuja forma normal de expressão seria o ensaio ou qualquer forma literária equiparável. O pensamento espanhol deve ser escrutado, segundo o autor, em "los estilos de pensar". O mais rico do pensamento não pertenceria aos sistemas filosóficos mas ao ensaio, à forma em que os elementos não estariam hierarquizados como ocorre na filosofia stricto sensu . Como metodologia para estudar os "estilos de pensar" Ferrater Mora propõe explorar a linguagem de que se vale cada ensaísta para descobrir não só os valores estéticos mas também a originalidade de um pensamento. Seguindo essa tradição e assumindo as responsabilidades de um intelectual, Subirats insere-se no ensaio espanhol ao lado de Blanco White, María Zambrano e Juan Goytisolo.

 

Referências bibliográficas

A.A.V.V.Le discours polémique . Lyon: Presses Universitaires de Lyon, 1980.

Arenas Cruz, M. Elena. Hacia una teoría general del ensayo. Construcción del texto ensayístico. Cuenca: Ed. de la Universidad de Castilla-La Mancha, 1997.

Adorno, Theodor W. "El ensayo como forma". In:----. Notas de literatura , Barcelona: Ariel, 1962.

Bajtín, M. Estética de la creación verbal . México: Siglo XXI, 1982.

Contursi, María Eugenia & Ferro, Fabiola. La narración . Usos y teorías . Buenos Aires: Norma, 2000.

Denis, Benoît. Literatura e engajamento, de Pascal a Sartre . Bauru (SP): EDUSC, 2002.

Ferrater Mora, José. "Sobre estilos de pensar en la España del siglo XIX. In: ---. Obras selectas . Madrid : Revista de Occidente, 1967.

Giordano, Alberto. Modos del ensayo . Rosario: Beatriz Viterbo, 1991.

Gómez-Martínez, José Luis. Teoría del ensayo . Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 1981.

Goytisolo, Juan. Tradición y disidencia. México: Ariel, 2001. (incluye el texto de Eduardo Subirats "Homenaje a Juan Goytisolo y una conclusión provisional")

Fox, Inman. La invención de España . Madrid: Cátedra, 1998.

Lourenço, Eduardo. Nós e a Europa ou as duas razões. Lisboa: Casa da Moeda, 1994.

Lukács, Georg. "A propos de l'essence et de la forme de l'essai". In:----. L'ame et les formes . Paris: Gallimard, 1974.

Montejo Navas, Adolfo. Entrevista con Eduardo Subirats. Revista Cult., Ano IV, nº 46, maio, 2001.

Subirats, Eduardo. América o la memoria histórica . Caracas: Monte Avila, 1993.

----- Culturas virtuales . México: Coyoacán, 2001.

------- Después de la lluvia. Sobre la ambigua modernidad española . Madrid: Temas de hoy, 1993.

------- El continente vacío . México: Siglo XXI, 1994.

---- Memoria y exilio . Madrid: Losada, 2003.

------- Figuras de la conciencia desdichada . Madrid: Taurus, 1979.

------- La ilustración insuficiente. Madrid: Taurus, 1981.

------- Metamorfosis de la cultura moderna . Barcelona: Anthropos, 1991.