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Fronteiras entre ficção e realidade: literatura e jornalismo.
Jandira Lúcia de Mello (UERJ)
Fronteira
(... ) que se pretende
entre o eterno e o humano
e que existe no centro
da forma se engendrando.
( Gilberto Mendonça Teles) 1
Já foi mais fácil identificar as diferenças entre literatura e jornalismo. Alguns entendiam, simplistamente, que o jornalismo trabalhava/trabalha com a realidade; a literatura com a ficção. Outros atribuíam o ponto de diferenciação entre uma atividade e outra ao uso da língua. A literatura se utilizaria de uma linguagem mais formal; o jornalismo, mais informal. Estas identificações são aleatórias e frágeis, uma vez que tanto a literatura, quanto o jornalismo partem do real, seja a literatura pela mimese, seja o jornalismo pelo fato e ambos utilizam a palavra escrita e/ou oral, a formalidade ou informalidade deste uso denota, apenas, o estilo do autor ou a adequação à situação relatada.
No V Fórum de Estudos Lingüísticos da UERJ, realizado em outubro de 2000, Zuenir Ventura nos esclarece que "a partir do movimento chamado New Jornalism de Gay Talise, de Tom Wolf, de Trumman Capot, de Norman Miller as fronteiras se embaralharam um pouco". Para exemplificar esse "embaralhamento das fronteiras", cita as palavras de Gay Talise em entrevista concedida a Luciano Trigo, no suplemento Prosa e Verso, do jornal O Globo, por ocasião do lançamento do livro O Reino e o Poder 2:
" O que faço não é Jornalismo, é uma tentativa de escrever histórias sobre pessoas e fatos reais verificáveis. Acredito que isso é Literatura. Acredito que isso é uma arte da realidade (...) Não considero escrever um romance algo mais artístico ou importante do que escrever uma obra literária sobre a realidade"
Essa concepção de Gay Talise - "escrever histórias sobre pessoas e fatos reais verificáveis"- mostra como são escorregadias as fronteiras entre a verdade jornalística e a ficção literária.
Graças aos pioneiros americanos, citados por Ventura, a transgressão entre uma área e outra possibilita um jornalismo mais inventivo, mais re-criador e uma literatura que se apropria dos recursos expressivos do jornalismo. Exemplos desse hibridismo jornalístico-literário podem ser encontrados em alguns textos publicados nos jornais diários.
Neste trabalho, buscamos apoio em Baudelaire para apontar o humano e o social de nosso tempo nos escritos de Wanderley Soares, jornalista e escritor gaúcho, que fez e faz da crônica um meio de expressão dessa ambivalência, aliando literatura à informação.
Nossa opção pelos textos deste autor é pautada, primeiramente, pela qualidade de sua escritura e, principalmente, por sua temática: o submundo. É o próprio Wanderley quem nos orienta nessa escolha, dizendo em Durante a Febre 3: " ...sou apenas um contador de histórias de sangue, narrador de episódios obscuros dos proscritos. Minha intimidade é com o pecador e não com o pastor. Tento cinzelar no espaço vazio uma imagem, construir um poema..." Assim, estamos diante de um jornalista que tenta traduzir conteúdo e forma numa linguagem de dimensão estética, transformadora do lado obscuro da natureza humana em arte, unindo a notícia à poesia.
A fusão, notícia e poesia, fica evidenciada quando observamos o percurso profissional de Soares e sua produção cronística. Para que se possa estabelecer um paralelo entre sua atividade jornalística e seu escrito, informamos, inicialmente, alguns dados de sua carreira, em seguida, analisamos alguns de seus textos.
Exerce a profissão desde 1960. Iniciou no jornal Última Hora, hoje Zero Hora, em Porto Alegre. Foi repórter, redator, pauteiro, copy-desk , chefe de reportagem, editor e cronista. Como cronista, é agraciado com o Prêmio ARI, honraria concedida pela Associação Rio-Grandense de Imprensa. Como chefe de reportagem, sua equipe ganhou um Prêmio Esso regional de jornalismo com a cobertura do Caso do Homem Errado. No jornal Zero Hora, de 1980 a 1992, foi editor de polícia e cronista, criou a seção Crime & Castigo instituindo a publicação diária da foto de pessoas desaparecidas uma década antes de o tema virar moda. Algumas destas crônicas estão publicadas no livro O Feiticeiro de sua autoria.
José Túlio Barbosa 4, no artigo O Peso da Escritura, considera "Wanderley um dos maiores criminólogos do Estado quando editor de polícia" porque, segundo ele, os escritos deste autor são revestidos de "um tom de verdade anunciada". Esse tom vai resultar "no ponto de tangência com o humano" e se torna o eixo de sua obra.
Ligada ao tempo ( chrónos), a crônica, objeto de nosso estudo, tem como referência um momento. Podemos entender esta forma do escrever como um "flash" dos acontecimentos. Devido a esse aspecto, é amplamente utilizada na linguagem jornalística, apesar de não ter nascido com o jornal, mas só quando este se tornou diário, de tiragem relativamente grande e de teor acessível, conforme nos informa Antônio Cândido (1993:24).
É na crônica que Wanderley traduz a sua angústia - o ponto de tangência com o humano- no dizer de José Túlio. A cidade, a paixão, a miséria, a solidão e o crime são seus temas e transformam-se em observações reveladoras de um ser que mergulha na dor para nela encontrar a ternura do existir.
Para o jornalista Wanderley Soares, a literatura é oferecida ao homem a fim de que, numa ligação entre o real e o imaginário, seja possível estabelecer um contraponto entre ficção e realidade. Na possível divergência entre uma e outra, há a convergência do belo. Esse contraponto, essa divergência/convergência pode ser notada na crônica Do Lirismo Impossível 5. Ao apresentar como recursos a cidade, o crime, os procedimentos investigativos dos detetives ficcionais e detetives reais, nos dá, através do emprego da adversativa mas , a indicação da diluída fronteira entre ficção e realidade. Assim temos:
" Alguns intelectuais com quem, vez por outra, me encontro, falam-me com algum entusiasmo de contos e romances policiais. Apreciam, na literatura, os estrangulamentos nas ruas de Londres, um envenenamento num cabaré de Paris. Ficam fascinados pela fúria dos jovens bandidos norte-americanos e pela frieza do crime organizado italiano. O preciosismo do conhecimento literário leva os amantes dos contos e romances policiais a uma admiração, não só pelo desenvolvimento, mas também, pela inteligência lúcida, pela perspicácia detalhista de detetives como Poirot, da Agatha, Sherlock, de Doyle, Maigret, de Simenon. Observo- e certamente não observo sozinho- que a rotina da criminalidade real não sensibiliza os amigos de Maigret, Sherlock e Poirot. Os homens que investigam os crimes de nossa cidade não chegam a provocar muitas emoções nos espíritos elevados. Mas nem sempre é assim (grifo nosso). Há casos em que os possuídos pelas obras clássicas abandonam suas bibliotecas para saborear o sangue de uma bela mulher morta a tiros num apartamento de cobertura. Os cérebros mais completos, os espíritos mais elevados são pungidos pelas histórias torpes, mal cheirosas, sem toque de paixão quando, entre os passos cuidadosos do perito, repousa o corpo e há, ainda, um quase imperceptível perfume de violeta. A violência do quadro assume um belo de impossível descrição. Enfim, uma investigação para ser acompanhada por cabeças privilegiadas deve ter alguma coisa de fantástico".
Aqui, se o pretexto-notícia é o assassinato de uma mulher, é o pretexto-poético - o ambiente, o cheiro, a visão, o paladar, as mentes pungidas, o fantástico - que vai dar o fio condutor para opor e apor sua cosmovisão.
Afastando-se da mera reprodução de fatos, sua crônica se orienta para uma abordagem intimista e reflexiva. O "eu - lírico" penetra nessa escritura e nos proporciona a prosa poética. O entrelaçamento poesia e prosa já pode ser encontrado em Baudelaire (1821-1867) que em carta destinada a Arsène Houssaye, revela a sua própria inquietude: "Qual de nós, em seus dias de ambição, não sonhou com o milagre de uma prosa poética, musical sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?" 6
A prosa poética, referida por Baudelaire- musical sem ritmo e rima, adaptada aos movimentos líricos da alma- encontra neste cronista gaúcho sua forma de expressão para o dizer da cidade e de seus opostos: o bom e o mau que nela convivem.
Desde a Grécia antiga, a cidade foi configuração para a literatura. O poeta percebe esse ambiente e o traduz. No mundo moderno, é a cidade que vem mostrar, liricamente, a relação do sujeito com o mundo subjetivo, não como o poeta romântico que, ainda, acredita na poesia como expressão do eu, nem com a onipotência de um sujeito heróico, narrador do mundo e das peripécias dos homens. O "eu-lírico" moderno projeta-se no mundo exterior para fazer dele uma tradução parcial. Segundo Salete Cara 7, Baudelaire traduz esta nova cidade fruto da era industrial. No texto crítico O pintor da vida moderna, sobre a obra de Edgar Alan Poe, ele incorpora a seus conceitos estéticos os dados dos novos tempos das metrópoles, associando jornalismo ao fazer artístico e assim diz: "Há na vida trivial uma metamorfose jornalística das coisas exteriores, um movimento rápido que ordena ao artista uma igual velocidade de execução" .
A metamorfose jornalística pretendida por Baudelaire mostra-se na percepção lírica do cronista sobre a cidade. A cidade de Wanderley é vida, mescla de amor, paixão e mazelas. Estes são os códigos que arrebatam o artista e os apaixonados pela cidade e estão expressos em Minha Paixão, cujo título é significativo, e da qual transcrevemos o fragmento abaixo, retirado de O Feiticeiro, p.48:
"Viver alguém numa cidade sem que ela seja um caso de amor, é como viver com uma pessoa que não se quer, ou por não ter luzes para conhecê-la, ou por entender que a conhece demais. O romance com a cidade em que se vive deve ter a intensidade de uma paixão que renasce a cada dia, pela proximidade ou pela distância. Para que essa paixão nunca se complete apenas como um sonho, para que permaneça viva, temos, também, de aprender com seus defeitos e deformações".
Os "defeitos e deformações" da cidade foram, também, abordados por Baudelaire que ao se desinteressar do Belo absoluto para considerar o Belo transitório, abre caminho para a estética do Feio, considerando tudo o que a cidade pode oferecer de artificial e grotesco. Walter Benjamim ao analisar a poesia baudeleriana, a fim de explicar a associação lixo-poesia, norteadora dessa estética, destaca: "Temos aqui um homem - ele deve apanhar na capital o lixo do dia que passou. Tudo o que a grande cidade deitou fora, tudo o que perdeu, tudo o que despreza, tudo o que destrói - ele registra e coleciona" 8.
Para Theodor Adorno (1992:64) o que hoje se exige de um jornalista-artista-pensador. é que ele esteja presente nos fatos e fora deles, registrando, colecionando e criando a todo instante. Dessa forma, poetas e cronistas passam a encontrar, na rua, o lixo da sociedade e, a partir dele, constróem uma percepção heróica , lírica e bela sobre o homem do povo.
A estética do Feio, essa beleza grotesca-humana do homem do povo, refletida no espetáculo da vida de existências subordinadas ao submundo das grandes cidades, é percebida por Wanderley que definindo-se, metaforicamente, como "um catador de gestos humanos" em Os Catadores 9 observa e traduz esse humanismo por meio de palavras consideradas apoéticas - lixo, sarjeta, excremento - visando conduzir, numa perspectiva lírica e contundente, à reflexão sobre até que ponto "as figuras obtusas, obscuras", resultado da miséria, são, ao mesmo tempo, vítimas e réus de uma sociedade que os produz. Diz ele
"Os personagens das tragédias cotidianas, essas figuras obtusas, obscuras, cujos nomes são rapidamente esquecidos, são mal nascidas, nasceram de um caso de amor lacerado, de tramas sórdidas, de risos sem dentes, de hálito impuro. Gente humilde, por vezes talentosa, quase sempre faminta, sem passado, sem futuro. Lixo, sarjeta, excremento. Os personagens das tragédias cotidianas são assim, vítimas por que são vulneráveis, sem riquezas. Criminosos pela deformação do espírito. Difícil entender esses réus. Condenar pode ser desumano. Absolver, pode ser um ato pusilânime".
As "tragédias cotidianas" são, para ele, relatos observados com o carinho de um humanista. Na crônica Do Caçador 10, cujo título denota a prática daquele "catar gestos", podemos constatar a comunhão de Wanderley com o seu/nosso semelhante:
"É do meu jeito de dizer que esses encontros que se alongam pelos domingos são passeios que faço com uma pequena legião que me acompanha porque eu a persigo. Com já há alguns anos isso acontece, terminamos por falar uma linguagem semelhante. Humildemente, lavro a ata de alguns detalhes de nosso cotidiano".
Para comungar com a "legião que o acompanha porque a persegue", faz do humanismo a sua profissão de fé e o expressa através de uma linguagem na qual identificamos o discurso afetivo do monólogo para estabelecer um diálogo no qual não faltam a metáfora, a metonímia, a confissão. Na utilização dos recursos estilísticos da língua, busca aproximação com a arte literária para que se realize uma representação simbólica do imaginário coletivo em suas manifestações cotidianas.
Arte da realidade, segundo o já citado Gay Talise, a crônica "wanderleyana" não foge a observações que envolvem uma percepção crítica e discreta ironia presentes em Dos Pássaros, publicada no Zero Hora em 7 abril de 1985. A pergunta, feita a ele por um amigo, "Onde estão os cadáveres dos passarinhos?" deu motivo para tecer considerações sobre o que seja cultura inútil , "que não o deslumbra, mas o assusta", dessa forma confessa:
"...não sei onde estão os cadáveres dos passarinhos. E não busco explicações científicas. Prefiro o lirismo. Imagino que voem para o mar. Se nada sei sobre os cadáveres dos passarinhos, sei algumas coisas da criatura humana. E, se não me aprofundo mais nesse conhecimento, é porque tenho um certo temor de que isso seja, também, cultura inútil".
Nas crônicas de Wanderley Soares encontramos a simbiose entre o "belo e o feio", entre a ficção e a realidade. Suas crônicas são belas porque são poemas humanos. Ao organizar as palavras através da arte, Wanderley desperta no leitor a sensibilidade, aquilo que há de humano no sentir, para que possamos pensar e re-pensar, através da emoção, o mundo e os homens. Assim, este autor rompe as fronteiras entre jornalismo e literatura, cinzelando no espaço vazio a imagem poética por ele procurada em Durante a Febre, já citado.
A ruptura das fronteiras entre jornalismo e literatura fornece um elo de resultados estéticos ricos e diferenciados. É necessário ressaltar que a linguagem jornalística tem as limitações do espaço, dos fatos e do tempo. Estas limitações impõem uma disciplina que leva o jornalista a cortes e recortes naquilo que escreve e devem resultar numa linguagem artística de autonomia própria. Tanto a linguagem jornalística, quanto a literária objetivam a excelência estética porque provocar a estesia é a finalidade única da arte .
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1 - ADORNO, Theodor. Minima Moralia . Trad. de Luiz Eduardo Bicca. Ática Editora, São
Paulo, 1992.
2- AZEREDO, José Carlos de (org). Letras & Comunicação. Vozes, Petropólis/RJ,2001
3- CANDIDO, Antônio. A vida ao rés-do-chão, in Recortes . Companhia da Letras, São Paulo, 1993.
4- BENJAMIN, Walter. A Modernidade e os Modernos . Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1975
5- BAUDELAIRE, Charles. Pequenos Poemas em Prosa . Trad. de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 4ªed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1980.
6- CARA, Salete de Almeida. A Poesia Lírica. 3ªed. Ática, São Paulo, 1989
7- SOARES, Wanderley. O Feiticeiro. AGE Editora, Porto Alegre, 1998
8- _____________. Jornal Zero Hora , Porto Alegre, 1985/1988/1991
9- TELES, Gilberto Mendonça. A Retórica do Silêncio I . 2ª ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 1989
TELES, Gilberto Mendonça. A Retórica do Silêncio, I. 2ªed. José Olympio Ed. Rio de Janeiro, p.13, 1989
-VENTURA, Zuenir. Jornalismo e literatura: alianças e diálogos. In Letras & Comunicação. Petrópolis,RJ, Ed. Vozes, p.41,2001.
SOARES, Wanderley. In O Feiticeiro. AGE Editora. Porto Alegre, p.64, 1998
BARBOSA, José Túlio. O Peso da Escritura. In O Feiticeiro, p.9, 1998
SOARES, Wanderley. Do lirismo impossível . Jornal Zero Hora . Porto Alegre,p.57 25 set.1991.
BAUDELAIRE, Charles. Pequenos Poemas em Prosa . Trad. de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.4ªed., Nova Fronteira, Rio de Janeiro, p.14, 1980
CARA, Salete de Almeida. A Poesia Lírica . 3ª ed. Ática, São Paulo, p. 41, 1989
BENJAMIN, Walter. A modernidade, in A Modernidade e os Modernos . Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro,p.16, 1975
- SOARES, Wanderley. Jornal Zero Hora, Porto Alegre, p.54, 10/07/1988