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Educaçao literária: leitura literária formando leitores criticos
Rosa Amélia Pereira da Silva (UnB)

A leitura literária está em crise, o ensino de literatura está em decadência, professores angustiados anunciam isso, alguns pesquisadores em seus estudos na área confirmam a enunciação dos professores. E a agravante é que não são apenas os professores as únicas vítimas nessa história; o alunado, com certeza, é incompreendido e sofre todas as conseqüências desse problema.

Existem questionamentos em relação à necessidade de se estudar ou não literatura no ensino médio, há muito tempo. Mas para compreender todo esse contexto, é necessário investigar o processo de leitura como prática exclusiva do ser humano e posicionar-se diante dele.

Segundo Ezequiel Theodoro da Silva, o ato de ler ocorre, de fato, quando acontece a abertura da consciência para aquilo que se deseja ler, não precisa necessariamente ser texto verbal, escrito, canônico, a constatação do sentido, o cotejamento com outras leituras, para obter transformações e atribuições de significado. Toda leitura é única, em decorrência dessa atribuição de significado que ocorre de acordo com o horizonte de experiência e expectativa de cada um, e no momento em que acontece o posicionamento do ser perante o mundo, existe um leitor efetivo, pois ele é capaz de pensar a realidade e recriá-la a partir do lido. Então, entende-se que se é leitor desde a infância, pois já nessa fase, apesar de não ser alfabetizado, existe a possibilidade de um leitor sagaz, que busca compreender situações e atuar para modificá-las, ou até mesmo criá-las, atuando junto com o outro, numa construção dialógica de significados.

Em "Como um Romance", Daniel Pennac remonta a história universal de leitor e do fenômeno da leitura. Essa história é considerada universal por ser comum a um número muito grande de leitores. Durante a infância, os pais, construtores da identidade de leitor de seus filhos, contribuem para despertar a imaginação infantil, e fazer com que eles - filhos - construam um mundo fantástico. Os pais que pertencem à primeira esfera social da criança são os outros que compõem o eu-leitor numa relação dialógica para a construção de sentidos. A família é uma esfera importante na construção do sujeito leitor, e freqüentemente, ela faz dignamente o seu papel, às vezes, faz por obrigação, mas de uma forma ou de outra, ela é a primeira responsável pela inserção do ser no mundo da leitura de mundo e de textos.

A escola é, numa escala de importância, a segunda responsável pela abertura e ampliação dos caminhos do leitor em direção a leitura de textos; entretanto, para muitos ela fracassa. A história vivida pelo personagem criado por Pennac nos revela isto, o leitor que antes era perspicaz, imaginativo, vai aos poucos se tornando solitário e vê, no ato de ler textos, algo triste e enfadonho. É perceptível que isso ocorre em conseqüência da brusca mudança no modo de ler, antes compartilhado, agora solitário.Quando se analisa a prática pedagógica, quer de docentes alfabetizadores, quer de Língua Portuguesa e Literatura, percebe-se que a escola é a responsável imediata pelo afastamento entre leitor e textos escritos, principalmente, os literários. A postura de professores preocupados mais com a decodificação das palavras, com a função delas nas frases, dessas nos textos, e menos com o processo de leitura, ou seja, com o sentido construído pelo leitor a partir dos textos, buscando respostas prontas para o material de leitura, faz com que o leitor se distancie cada vez mais do texto literário. Verifica-se que quanto maior é o nível de escolaridade do leitor, maior é o desânimo dele em relação à leitura literária uma vez que há uma imposição desta para fins avaliativos.

Pennac ressalta, então, em sua obra, os dez direitos do leitor, inclusive o de ler o que quiser, fato que pode abrir os horizontes de expectativas e fazer com que o ledor se torne seletivo à medida que suas leituras progridam. Propõe ainda não se exigir do leitor, no momento da leitura, nada em troca para que se estabeleça com o texto uma relação de cumplicidade, a mesma que existia entre o aprendiz, as leituras de mundo, e os outros partícipes, antes do período escolar.

O professor, em sua prática diária, planeja aulas vislumbrando um leitor ideal, na tentativa de explorar textos literários, faz com capricho e sem grande êxito, escolhe textos de sua realidade, propõe interpretações singulares e pratica um discurso monológico O leitor ideal só existe em seu planejamento, na sua visão de mestre. Quando ele se depara com o leitor real, que tem uma série de problemas sociais, cujo hábito de leitura de textos ainda não desenvolveu, acontece uma quebra de expectativas em relação ao projetado.

A prática do professor deve objetivar o leitor real, mas sem desconsiderar a existência também do leitor imaginado, ambos nortearão o trabalho, determinarão o caminho que deve ser seguido. O primeiro, na concepção pennaquiana, é um leitor hábil, lê o mundo de forma mágica, já o segundo, embora seja preparado para o contrário, é, em sua maioria, inábil para a leitura, sente-se sufocado pela proposta cheia de objetivos do professor.

Os objetivos pré-estabelecidos determinarão o tipo de leitor que será desperto em cada um. E um deles deve visualizar a pluralidade de leituras. Não se lê um texto da mesma forma, cada leitura é inédita, até mesmo uma releitura é ímpar. Os sentidos dependem da interpretação das palavras e os textos estão abertos a interpretações múltiplas, dependendo do intérprete 1. Cada leitor, no momento da leitura, acionará uma série de elementos para a eficácia desta; seu horizonte de expectativas que tem relação com a sua formação escolar, seu nível de maturidade, sua relação com os meios de comunicação, com livros, enfim, o horizonte de experiência determinará a eficiência da leitura.

Ser leitor não pressupõe, necessariamente, ser ledor e vice-versa; a existência de um não determina a do outro. De acordo com a história de Pennac percebe-se que se lê a partir do momento em que se começa a construir significados. É-se escritor antes mesmo de ser leitor, porque se inscreve, na mente, aquilo que oriunda do outro, e que constrói o sentido para depois se praticar a leitura de mundo, do outro, de si mesmo. Leitores efetivos chegam à escola, aprendem a lição de decifrar códigos, entender letras e palavras, classificá-las, de construir frases, mas desaprendem e a arte de ler o mundo e textos. Estes são produtos de ações sociais e atendem a fins específicos.

Mas o que acontece com o estudante que consegue compreender um texto utilitário, sente-se motivado para fazer tal leitura e não consegue o mesmo com o texto literário? É difícil motivá-lo, pois a leitura literária não apresenta fins objetivos na construção do conhecimento. A leitura na escola é realizada para atingir fins específicos como ler para adquirir conhecimentos, ler para buscar respostas pala algum questionamento, para obter informações exatas, ler por prazer, para alimentar a imaginação. A leitura é uma forma de investigação, reflexão, rupturas e construção de novas idéias. Os fins determinam a maneira como o leitor se porta diante da perspectiva de leitura.

A leitura por prazer ocorre em menor escala nas instituições de ensino, nas aulas de Literatura ocorre a leitura para compreender a intenção do autor do texto 2, para compreender o processo de construção dele, para investigar o período em que ele foi escrito, para determinar a sua estrutura e categorizá-lo quanto ao tipo e ao gênero a que pertence. Torna-se assim uma leitura utilitária, prática, o literário que pressupõe beleza, criatividade, imaginação, recriação perde a sua verdadeira característica. Muitos leitores não conseguem aliar praticidade ao fantástico mundo da imaginação. E nesse caminho, a Literatura, que é a arte superior produzida pelo homem, a arte da palavra, perde o seu sentido que é de construção, velamento e desvelamento.

A partir de varias reflexões, procura-se um culpado. A culpa é da escola que não viabiliza meios para motivar a leitura, é dos currículos que são conteudistas, é do professor que não inova, quase sempre repete o que está nos livros didáticos, quando propõe algo novo, encontra resistência, nunca tem tempo para ler e manter desperta a sua imaginação, nem sempre tem condições financeiras para adquirir livros e enriquecer sua biblioteca pessoal, é do aluno que está sempre desmotivado e busca na escola apenas um diploma. A culpa, afinal, é de quem? É de todos e é de ninguém. Responsabilizar alguém não é o importante, cabe a cada um exercer o seu papel de verdadeiro leitor, questionador empreendedor, inovador.

Continuar fazendo o que sempre foi feito não acarretará nenhuma mudança. A partir de experiências e leituras teóricas o que se propõe neste trabalho é a mudança de estratégias. Uma delas é de que professores devem proporcionar leituras sempre novas, mas que estejam inseridas no contexto do leitor, mesmo sendo estranhas, que ele - leitor - possa fazer inter-relações com outros textos e compreender o que se leu para a construção de novos sentidos. Os textos propostos têm a obrigação de atrair o leitor, devem apresentar uma linguagem clara, devem identificar-se de alguma forma com o leitor, suscitar algo no coração e na mente deles. Não basta oferecer textos, tem que oferecer algo significativo, que toque o coração, a alma, que faça perceber a sua universidade e suas peculiaridades dentro da universidade e das peculiaridades de cada texto, buscando entre leitor e texto uma verdadeira comunicação. Devem criar expectativas como suspense, humor, terror, medo, alegria, fantasia, elementos caracterizadores de textos literários que seduzem o leitor.

As leituras literárias devem acontecer sempre de várias formas; silenciosamente, coletivamente como rodas de leituras. Esta última quando feita de forma dramática contribui muito para o despertar da leitura pelo prazer, apesar de que mesmo a leitura silenciosa nunca é um ato isolado, há, entre escritor, texto e leitor, uma relação de cumplicidade, um diálogo interpessoal de vozes que constroem sentidos. E o que é sentido para o primeiro, não é necessariamente sentido para o último. Essa construção polifônica e polissêmica determina a literariedade do texto. O respeito para com esses diversos sentidos é a alavanca para a mudança, uma vez que provocará uma relação dialógica entre texto e leitor, aluno e professor, entre os diversos leitores.

Outra estratégia é o trabalho a partir da transmutação de gênero, que é a reprodução destes em novas categorias, o que colabora para despertar e aguçar o senso crítico por meio da leitura. Preocupa-se muito com a classificação e estrutura do texto e esquece da diversidade cultural em que se vive. Marcuschi considera o gênero um instrumento que reflete a cultura e corrobora a afirmação de Bakhtim em relação à complexidade social ser determinante da complexidade do gênero. Com o advento da escrita ocorre o enriquecimento do número de gênero, com a chegada da imprensa e da cultura eletrônica ocorre a multiplicidade de gênero, tanto quanto a diversidade cultural. E tanto os gêneros quanto a sociedade se transmutam em decorrências das necessidades individuais e sociais. E essa transmutação pode servir como estratégia de verificação de leitura e também como estímulo, já que pode se propor algo significativo para o leitor, a partir de práticas sociais. Pode-se propor a leitura de um conto ou crônica para estimular a escrita de um poema, propor a leitura de um romance para estimular a produção de uma carta, de uma entrevista que faz parte do gênero oral e escrito. Propor a leitura de texto jornalístico - notícia, reportagem, editorial - para estimular a produção de poemas, crônicas, charges. Propor a leitura de um poema, para estimular a produção teatral. Dessa forma o leitor compreenderá, por meio da prática, que cada situação exigirá uma leitura, um gênero específico, e compreenderá que há diferentes formas de apropriar-se da leitura e conseqüentemente da escrita, já que leitura e escrita são atos complementares 3.

As teorias estudadas indicam a necessidade de um redimensionamento do trabalho pedagógico, o que implica reflexão e novas atitudes. Ao analisar o trabalho em literatura a partir das propostas dos livros didáticos, percebe-se que o que afasta o leitor da prática de leitura literária é o fato de o gênero proposto estar fora da sua realidade social.

Numa época em que há uma multiplicidade de gêneros, se perdem os critérios para classificá-los. Os professores propõem leituras a partir de gêneros textuais clássicos, ficam presos a interpretações prontas e em meio a tanto ecletismo de gêneros discursivos há de se compreender o desinteresse do aluno pelo gênero literário, o qual parece estático devido ao discurso monológico do professor. Este deve trabalhar na perspectiva da heterogeneidade textual, propor leituras e estratégias avaliativas que estejam inseridas nos gêneros mais atrativos para os leitores, incentivando-os progressivamente à leitura dos gêneros clássicos e para isso o profissional da educação deve considerar todos os aspectos constitutivos do leitor; o individual, social, histórico, ou seja, a sua cultura. O respeito pelas escolhas e leituras do aluno é a principal contribuição do professor para formação de um leitor consciente e crítico, pois elas provocam emoções, simulam os conflitos vividos por ele e podem restaurar o equilíbrio, gerar mudança, sempre a partir da reflexão.

 

MAGALHAES, Izabel & LEAL, Maria Christina. Discurso, gênero e educação . Brasília: Oficina Editorial Instituto de Letras UnB, 2004. Página 12.

LAGE, Micheline Madureira. Ler sem doer - perspectiva para a leitura do texto literário no ensino médio. Edições Unileste - MG, Coronel Fabriciano-MG, 2003. Página 117.

SILVA, Ezequiel Theodoro da Silva. O ato de ler - f undamentos psicológicos para uma nova pedagogia da leitura. 104 páginas. 8ª edição, São Paulo: Cortez, 2000. Página 64.