VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

A fiandeira de vidas: uma representação da maternidade na obra de Patrícia Bins.
Monica Martins (UnB)

A Trilogia da Paixão , de Patrícia Bins, compõe-se de Pele Nua do Espelho, Theodora e Sarah e os Anjos . Esses livros nos contam a história de mulheres artistas em busca de suas identidades, tratando-se portanto de Künstlerromane . Ao lermos a ficção da autora, temos a nítida impressão de estarmos diante de intrincadas composições, nas quais as personagens confundem-se, o que torna difícil distingui-las umas das outras. Na verdade, o que temos é uma obra de profunda coerência, que incita o leitor a uma reflexão sobre a vida, o amor e a arte.

As personagens de Bins são escritoras(es), pintoras(es), músicas(os) ou estão ligadas a qualquer tipo de arte. Elas buscam, por meio da reprodução ficcional de suas vidas, o reencontro consigo mesmas. Para isso, precisam livrar-se das máscaras que as limitam, impedindo-as de reconhecerem seu próprio eu . Obviamente, esse despir de máscaras não pode ser concretizado sem uma reavaliação dos valores sociais nas quais estão inseridas, o que culmina em uma crítica ao sistema dominante. A literatura é o instrumento encontrado pela autora para desabafar, contestar a realidade: "A náusea e a inabilidade de conviver com ela no interior da coisa viva que imaginava ser. Então tudo que escrevo, já disse, traduz o grande vômito para tentar superar o pequeno vômito". 1 Antônia Roma, Sarah e Theodora protagonizam o deslocamento da mulher e da artista em uma sociedade primordialmente regida pelos costumes patriarcais. A autora assinala essa questão por meio do recurso da metanarrativa, do qual ela se utiliza para apontar as dificuldades da artista em conciliar o processo criativo com a resolução dos problemas cotidianos.

A infância, a puberdade, a primeira relação sexual dessas personagens são reinventadas por elas mesmas, no intento de descobrir quando e onde o seu verdadeiro eu foi sufocado. É por meio de cartas, desenhos, pinturas ou esculturas que elas se expressam e realizam a trajetória memorial que as levará ao autoconhecimento. Assim, as relações familiares tornam-se o cerne da problemática, o que nos convida a uma análise sobre a representação da maternidade na obra de Patrícia Bins.

A pele do espelho precisa ser desnudada. Trata-se da pele de Antônia Roma, Emily Evol, Juan Maria, Joshua, Felicity, Sibylle ou Sarah. Essas personagens formam as várias faces de uma só mulher, que precisa desesperadamente encontrar-se: "Quero ser real:" 2 Os dois pontos nesta última frase do romance indicam que há algo mais a ser dito, ou seja, que busca ainda não terminou. É nessa ciranda de personas que se desenrola uma trama que tem início no primeiro volume da Trilogia , Pele Nua do Espelho, e um emocionante desfecho em Sarah e os Anjos. Homens e mulheres fazem parte de um jogo para o qual o leitor é convidado a participar: o jogo de fiar. É fiando vidas, tecendo memórias, que a autora recompõe o universo existencial de suas personagens. Filhas de pais estrangeiros e compondo a classe média alta, elas se sentem deslocadas tanto no meio social em que vivem quanto no âmbito familiar. A contradição é uma característica da personalidade dessas mulheres, que estão sempre transitando entre a cultura natal e a transmitida pelos pais. Elas não se reconhecem em uma única religião. Suas crenças sofrem influências do Protestantismo, do Candomblé, do Kardecismo ou simplesmente do misticismo. O conflito social e racial também está presente, pois seus envolvimentos amorosos são em sua maioria com homens negros e de classe inferior à sua, o que desperta a raiva e o preconceito da mãe:

 

Ela diz que sim. - Tarde demais. A gravidez está muito adiantada. Seis meses.

Como foi se meter nessa encrenca, menina?

Encrenca nenhuma. Amor. Você não entende?

Amar alguém de classe inferior, um nativo, negro? Não acredito, não acredito. Você é vadia, cadelinha no cio! O rapaz será punido, e você internada bem longe daqui. Que escândalo! Seu pai perderá o posto, se a Companhia descobrir! You're a little bitch! Você é uma cadela! 3

 

Na re-memória inventada de nossas personagens, a mãe aparece ora repressora ora indiferente. O sentimento em relação a ela é um misto de amor e mágoa. Essa imagem materna ambígua permeia as três obras em questão, nos remetendo as representações tradicional e inovadora da mãe. A primeira simboliza a dominação, a castração e o poder do qual as personagens precisam livrar-se para existir, ao passo que a segunda representa a possibilidade de coexistência entre a mulher e a mãe.

Theda Bara, Daisy ou Margarida são mães distantes e repressoras. Elas representam o caráter elementar negativo, da mãe dominadora, da qual é preciso livrar-se para existir:

 

Ela está estendida sobre o leito. Não consigo vê-la através do mosquiteiro translúcido que se arrepia devagar, um lago. (...) Onde foi Theda Bara? Na cama, a mulher frágil e hirta. Velhíssima. Ah, meu Deus, a flor murcha no vaso, no lago de ontem, mas hoje é hoje. Morta? Morta. E agora, mamãe? (...) Dirijo-me ao espelho tríplice do banheiro. Agora, eu sou Theda Bara. 4

 

Ao tentar enquadrar-se no modelo exigido pela família e pela sociedade, as mulheres retratadas por Bins assumem os papéis tradicionais de mãe, esposa e filha, deixando para trás suas próprias verdades, que somente poderão ser recuperadas por meio da liberação das amarras familiares: "Preciso me defender dos papéis. Já falei, em outro romance, sobre esse conflito feminino". 5 Elas não conseguem compreender os preconceitos, lutando constantemente contra a hipocrisia que as cerca. A o domínio da mãe é tão forte que somente pode ser anulado com a sua morte.

Em Theodora , a protagonista encarna as faces do anjo, por ser uma mulher bonita e amável, e do demônio por seu poder de sedução. A sexualidade feminina aparece nesse romance como um aspecto negativo, ao qual o homem deve temer. Abelardo abandona o lar por não ter certeza de ser o pai da criança esperada por Theodora. A maternidade aqui surge como um dos motivos pelo qual a mulher teve sua dominação concretizada e sua sexualidade reprimida: para garantir aos pais a certeza da paternidade de seus filhos. No entanto, a busca pela identidade continua sendo o argumento central do romance, só que desta vez empreendida por um homem: Abelardo. O personagem retorna à terra natal para ver pela última vez sua avó: "Iphygenia gravemente enferma. Chácara Campo do Mar. Vem logo. Alba. Alma. Theodora". 6 Mas ele não abria os telegramas que recebia de Theodora e, ao chegar em casa, descobre que Iphygenia já estava morta há anos. É esse evento que marca o crescimento de Abelardo, que irá conhecer o seu filho nesse retorno ao lar.

Em Sarah e os Anjos Patrícia Bins nos apresenta uma reflexão sobre os limites entre a loucura e a sanidade mental. Sarah, apesar de diagnosticada como louca, defende com extrema lucidez suas idéias sobre os valores humanos. Para ela, a insanidade não está na fuga da realidade, mas sim na sua aceitação, no perfeito enquadramento do homem em uma sociedade vil e hipócrita. Dessa forma, alienando-se do sistema nossa personagem descobre o seu verdadeiro eu . É nesse romance que temos o surgimento de um novo elemento, que é a compreensão das atitudes maternas. Internada em um manicômio, Sarah assume a personalidade dos homens e mulheres que tiveram um papel significativo em sua vida. Eles são os outros internos que coabitam em sua ala: os internos de si mesma. Em suas seções de psicoterapia ela leva os desenhos desses "outros" inclusive os de Daisy, sua mãe. É aí que ela compreende a tristeza da mulher por trás da máscara da mãe castradora. A distância da terra natal, as constantes mudanças devido ao trabalho do marido e a falta de amizades culminaram em dois abortos que a fizeram murchar, como as oito margaridas por ela desenhadas. A descoberta da mãe-mulher faz com que Sarah encontre a si mesma: "- Não Daisy. Você encontrou o centro do problema, precisa lutar, se curar. Reapreender a vida. Precisa ver o dia nascer, a cada dia. Sabe? Por incrível que pareça, os desenhos ajudaram. A você e a mim. Também quero agradecer. Começo um novo processo de percepção, de sensibilidade." 7

Como no mito de Core e Deméter, mãe e filha resgatam-se, unificam-se. Desta vez, o que ocorre não é a aniquilação da imagem materna, mas a identificação com ela. Essa reconciliação é a única saída possível para a personagem: "A maternidade nunca se realiza no coração de Sarita, que perpetua os problemas vivenciados entre Daisy e ela". 8 A valsa final com todas as personagens da Trilogia representa a unificação dos eus , o encontro com a identidade perdida.

As personagens de Patrícia Bins não empreendem somente a busca de suas identidades, mas da identidade feminina em geral. Ao trazer à luz personagens que precisam recuperar em primeiro lugar seu próprio eu , para depois assumir plenamente a maternidade, como é o caso de Sarah e Antônia Roma, a autora propõe uma quebra dos parâmetros tradicionais. A mãe deixa de ser vista como um repositório de virtudes imaculadas, como quis a Igreja ao perpetuar a imagem da Virgem Maria, para ser compreendida em sua individualidade.

Concluímos, portanto, que os livros aqui trabalhados apresentam duas representações da maternidade: a tradicional e a inovadora. Esta só pode existir a partir da compreensão daquela. A partir da análise da relação entre mãe e filha a autora aponta um caminho possível para a reconstrução do eu-feminino em um universo ainda regido pela força, pela competição e pela guerra. São os valores equivocadamente denominados fortes, masculinos. Mais do que uma busca pela identidade da mulher, a obra de Patrícia Bins convida o leitor a uma reflexão sobre a sociedade violenta, preconceituosa e hipócrita na qual ele se insere. Ironicamente, é na voz da personagem insana que a autora coloca as mais lúcidas palavras sobre a miséria humana: "- Me chame do que quiser, sempre detestei rótulos, griffes , embalagens, máscaras: signos do poder da dita humanidade desumana. Teremos que reinventar a vida, direcionada para o amor integral. E isso só se fará possível numa visão cósmica, na harmonia entre seres e natureza". 9

 

BIBLIOGRAFIA

I - Obras de Ficção Analisadas

BINS, Patrícia. Pele Nua do Espelho. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. 2ª ed.

____. Theodora. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.

____. Sarah e os Anjos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

III - Teoria, Crítica e História Literária

BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno; Trad. Waltensir Dutra. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

CAMPELLO, Eliane T.A. O Künstlerroman de autoria feminina: a poética da artista em Atwood, Tyler, Piñon e Valenzuela. Rio Grande: Editora da Furg, 2003.

____. (Org) De Gênero a Gênero: a mulher-artista no romance brasileiro. Brasília: Instituto de Letras. Departamento de Teoria Literária e Literaturas, 1988.

NEUMANN, Eirich. A Grande Mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente; trad. Fernando Pedrosa de Matos e Maria Silvia Mourão Netto. São Paulo: Cultrix, 1999.

PINTO, Cristina Ferreira. O Bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1990.

RICH, Adrienne. Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution. Londres: Virago, 1977.

STEVENS, Cristina M.T. "No princípio era a mãe: a maternidade na literatura inglesa". Disponível em <http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/artigo_cristina.htm> . Acesso em: 01 Abril 2004.

WOOLF, Virgínia. Um Teto Todo Seu; trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

 

 

Patrícia Bins, Pele Nua do Espelho , 2ª ed, Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 1990, p. 156.

Patrícia Bins, Pele Nua do Espelho , 2ª ed, Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 1990, p. 166.

Ibidem, idem, p. 124.

Patrícia Bins, Pele Nua do Espelho , 2ª ed, Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 1990, pp. 91-92.

Patrícia Bins, Sarah e os Anjos , Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 1993, p. 76.

Patrícia Bins, Theodora , Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 1991, p p. 14-15.

Patrícia Bins, Sarah e os Anjos , Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 1993, p. 54.

Ibidem, idem, p. 85.

Patrícia Bins, Sarah e os Anjos , Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 1993, p. 83.