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O ensino de Literatura no 3° grau - relato de experiências significativas
Micheline Lage (Unileste - MG)

Tem que saber ler as mãos. Qual alma cigana, ter disposição para viajar a qualquer instante. Escrever é uma viagem. Uma busca de não sei o quê. Uma doida aventura. Exige-se também a leitura atenta das árvores, das pedras, dos rios, das estrelas, dos mares, dos ventos, dos prédios, dos ônibus, dos medos, dos sustos, dos gritos, das festas, das manchas de óleo e das xicrinhas de café...

(Stela Maris Rezende) 1

 

O ensino de literatura no 3° grau é o eixo deste texto que apresenta o relato de nossas experiências na dupla condição de coordenadora do Curso de Letras do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais - Unileste-MG - e professora de Teoria Literária na mesma Instituição, localizada na região do Vale do Aço, que compreende as cidades de Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo.

A relação leitura, literatura e ensino é temática constante inerente ao nosso percurso, tanto de professora quanto de pesquisadora. O desejo de realizar um trabalho abordando o ensino de literatura nasceu da nossa experiência como professora de língua portuguesa nos níveis fundamental e médio das redes públicas de ensino de Belo Horizonte e de Brasília. O contato com a sala de aula fez-nos constatar a dificuldade do professor de português em lidar com a leitura. A situação crítica do ensino de literatura indicava-nos que o ponto nevrálgico da questão residia nas deficiências quanto ao domínio da leitura. Assim, em agosto de 1999, na Universidade de Brasília - UnB, sob a orientação da professora Hilda Orquídea H. Lontra, defendíamos nossa dissertação de mestrado que, em 2003, revisitada e reestruturada, foi publicada com o título: Ler sem doer - perspectivas para a leitura do texto literário no ensino médio 2. Questionar o ensino de literatura, formular alternativas de procedimento didático, oferecendo, dessa forma, subsídios para outros profissionais da área de língua portuguesa e literatura, foram os objetivos que nortearam a pesquisa descrita em Ler sem doer .

Novamente o desejo fala alto. Porém, no momento, ele é fruto das nossas experiências com a leitura no 3° grau. Algumas universidades vêm realizando trabalhos de pesquisa de suma importância a fim de influenciar positivamente a prática da leitura no ensino de níveis fundamental e médio. Esse intercâmbio, esse trabalho conjunto entre as universidades e as escolas dos níveis anteriores, é de extremo valor para o aprimoramento do desempenho dos professores e também dos alunos. No entanto nossa vivência no âmbito universitário suscitou-nos questionamentos e reflexões acerca da leitura também no nível dito superior. Ora, se temos problemas graves concernentes à leitura e à escrita, nos ensinos fundamental e médio, não podemos nos esquecer de que são as universidades as agências formadoras de recursos humanos - os professores saem das universidades e, em não raros casos, com seqüelas no que diz respeito à apreensão crítica de textos e também em relação à escritura. Acreditamos, pois, que vale a pena um exercício longo de reflexão em que se responda "em que pé está o ensino de literatura no 3° grau". Tal afirmativa advém das nossas experiências iniciadas em fevereiro de 2002 e que se estendem até hoje, ao assumirmos o cargo principal de coordenação do Curso de Letras do Unileste-MG e as cadeiras das disciplinas Teoria da Literatura I e Prática de Ensino de Literatura.

Logo que assumimos o cargo de coordenação, detivemo-nos com uma situação em que se configurava uma lacuna entre as principais direções tomadas pela teoria da literatura, na modernidade, e as possibilidades de atuação na escola, no que diz respeito ao ensino de literatura, tomando-se como base os caminhos abertos pela teoria literária principalmente quanto às concepções de leitura, à especificidade da literatura e quanto à sua natureza e funções na sociedade contemporânea. Isso, em nossa visão, apresentava-se como um "problema", pois tinha, na verdade, relação com nosso horizonte de vivência: durante o mestrado trabalhamos com o método recepcional de ensino aplicado à literatura. Via de regra, na maior parte das instituições de ensino de qualquer nível, os estudos literários têm-se dedicado à exploração de textos e de sua contextualização espaço-temporal, em um eixo positivista. O relativismo da interpretação e, portanto, da leitura não é tópico de consideração no âmbito acadêmico. Por sua parte, o método recepcional não se submete a essa tradição pelo fato de sua base teórica defender a idéia do "relativismo histórico e cultural, já que [a Teoria da Recepção] está fundamentalmente convicta da mutabilidade dos objetos, bem como da obra literária, dentro do processo histórico." 3 Se, por um lado, o historicismo positivista entende os fenômenos literários como determinados pelos fatos sociais em uma relação de origem unilateral, em que a obra é sempre conseqüência e nunca causa, o conceito de historicidade da Estética da Recepção é o de relação de sistemas de eventos comparados: a obra é um cruzamento de apreensões que se fizeram e se fazem dela nos vários contextos históricos em que ela ocorreu e no que agora é estudada.

Quando entramos no Unileste-MG, em 2002, o ementário aprovado para as áreas de literatura brasileira, literatura portuguesa e literaturas de expressão inglesa, pela Comissão Avaliadora do Ministério da Educação e Cultura - MEC, foi o principal motivo do nosso incômodo, o problema a ser enfrentado, pois o elenco das disciplinas privilegiava a periodização literária. Assim, as disciplinas eram divididas de acordo com estilos de época e o foco resultava de uma perspectiva diacrônica. Isso ia de embate aos pressupostos da Estética da Recepção e a toda a nossa postura ideológica frente ao que acreditamos ser efetivamente válido nas aulas de literatura. Apesar de o Curso de Letras ter sido autorizado pelo MEC, acreditávamos que este deveria passar por melhorias para ser avaliado em uma segunda fase, em que seria reconhecido. O primeiro passo para uma mudança positiva foi reunir o grupo de professores das áreas literárias para se discutir o ementário. Por meio de várias sessões em conjunto, houve então uma revisão do proposto, em que se passou a privilegiar a leitura da literatura. As disciplinas foram divididas por temáticas, não mais pelo eixo cronológico. Preocupados com concursos diversos e com o exame do Provão, realidades concretas pelas quais os alunos deveriam passar, estudamos listas de obras exigidas pelas universidades federais mais próximas, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e a própria listagem do Provão, com o intuito de garantir um número razoável de obras pertencentes ao cânone, como leitura mínima a ser exigida dos alunos. Distribuímos as obras básicas de cada disciplina voltada para a área de literatura, deixando espaço para leitura de obras ditas "marginais" e para a leitura de textos escritos por autores do Vale do Aço. Dessa forma, o trabalho com literatura no Curso de Letras do Unileste-MG deu ênfase para uma leitura não-linear, com uma visão da historicidade da literatura, voltada para textos de diferentes naturezas, em uma perspectiva comparativa. Há, pois, o cotejo de obras de diversas épocas, para acompanhar a evolução e as mudanças de perspectivas que, de certo modo, também integram o significado do texto atual.

As disciplinas Práticas de Ensino (regulamentadas pela Legislação Vigente tendo que, obrigatoriamente, compor 400 horas do currículo) também foram avaliadas pela equipe. Definimos o eixo de cada Prática de Ensino, tomando sempre o cuidado de voltá-las para a interface pedagogia/área de letras. Assim, surgiu a disciplina Prática de Ensino de Literatura, com o intuito de preparar os alunos para a docência nos níveis fundamental e médio, valorizando, essencialmente, a Literatura. Com caráter de laboratório de ensino, as aulas foram sempre dinâmicas, com apresentação de seminários, pesquisas e relatórios. A disciplina configurou-se como uma pesquisa que foi desenvolvida pelos graduandos, sob a nossa orientação. O tema que norteou a pesquisa foi: Prática docente em literatura no ensino fundamental e médio na região do Vale do Aço . O objetivo da pesquisa foi mapear a realidade do ensino de literatura primeiro em uma dimensão local para, posteriormente, discutir-se a questão com um olhar voltado para o todo: a crise da leitura no Brasil e em outros lugares do mundo.

A pesquisa desenvolveu-se da seguinte forma: a turma foi dividida em grupos e cada grupo incumbiu-se de uma atividade distinta. A pesquisa do primeiro grupo intitulou-se: O ensino de literatura sob o foco dos professores do Vale do Aço . Os alunos distribuíram 30 instrumentos de coleta de dados nas escolas da região para que os professores respondessem a perguntas de natureza conceitual e metodológica. Assim, nesse primeiro momento, foi detectado o quadro conceitual subjacente ao ensino de literatura, ou seja, a concepção do que seja leitura, literatura, multiculturalismo, na visão dos professores. Também procurou-se verificar as metodologias abordadas no ensino de literatura.

A pesquisa do segundo grupo envolveu o ensino de literatura sob o foco dos escritores da região do Vale do Aço . O grupo visitou as entidades culturais da região do Vale do Aço, a saber: Associação de Poetas e Escritores do Município de Timóteo - APEMT; Clube de Escritores de Ipatinga - CLESI; Academia de Letras de Ipatinga - ALI. Os alunos fizeram uma leitura atenta dos estatutos de tais entidades e uma análise da influência desses espaços culturais na vida das escolas da região. Alguns escritores foram convidados para uma entrevista no espaço do Unileste-MG.

As atividades do terceiro grupo voltaram-se para o ensino de literatura sob o foco dos alunos do Vale do Aço . Alunos do ensino fundamental e médio de diversas escolas da região foram convidados para estarem conosco no ambiente universitário discutindo o ensino de literatura que experimentam nas escolas.

Ao final, todos os alunos cruzaram os dados com o resultado do estudo/pesquisa feito em forma de seminários e de relatório de atividades. Assim, por meio dessa disciplina, propôs-se a reflexão acerca de uma série de questões que chegaram mesmo a extrapolar o contexto da sala de aula, abrindo possibilidades para se reverem e criticarem as relações entre professor e aluno, escola e comunidade e, fundamentalmente, a inserção da literatura como elemento de aproximação e de reconhecimento entre esses diversos sujeitos. Vale ressaltar que uma das turmas apresentou o resultado das pesquisas no 14° Congresso de Leitura do Brasil (COLE), na Universidade de Campinas, no ano passado.

Na função de coordenadora do curso, amparada pela crença de que gestão, pesquisa e extensão devem caminhar juntas, fomos autora e orientadora de duas atividades de cunho artístico com o intuito de interferir nas três cidades do Vale do Aço, a fim de disseminar a recepção de cunho estético. Em parceria com os alunos, desenvolvemos as atividades Poesia Circulônibus e Chá com Letras . A primeira atividade teve como objetivos: estreitar laços com a comunidade do Vale do Aço por meio da arte e da poesia divulgadas nas janelas dos ônibus; incentivar a leitura e levar a poesia para um número maior de pessoas tornando o ambiente dos ônibus mais agradável; valorizar a produção da escrita artística no curso de Letras; valorizar a literatura da região do Vale do Aço. A segunda, Chá com Letras , procurou resgatar saraus literários desaparecidos dos circuitos culturais na região do Vale do Aço; promover diálogos diversos entre pessoas interessadas na arte em geral e, particularmente, na arte literária; valorizar a trama de inter-relações que se estabelecem no ato de ler - a leitura sensorial; a leitura emocional e a racional. 4 As duas atividades buscaram levar o curso de letras para além dos "muros institucionais".

Entendemos que há um compromisso socioeducacional da universidade para com as mudanças culturais, necessárias ao aprimoramento do processo de ensino-aprendizagem em geral. Isso pressupõe um trabalho conjunto, sistemático e permanente entre a universidade e as escolas de nível fundamental e médio e a comunidade em geral, em que a co-participação é um fator de extrema importância para a ampliação do horizonte de vivências dos múltiplos atores da aprendizagem: professores, alunos, pessoas dos mais diversos segmentos da sociedade. Nesse processo é lícito perguntar: quem ensina?, quem aprende?... Com certeza, todos nós.

Alinhavando a grande teia no que tange à questão do ensino de literatura no Unileste-MG, vieram as publicações. Foram seis publicações no total, todas abordando temáticas de interesse da área de letras e, inevitavelmente, discorrendo sobre questões específicas ligadas às literaturas e à Teoria Literária. O diferencial foi a participação sempre ativa dos graduandos, que, desde que ingressam no curso, dão os seus primeiros passos rumo à pesquisa e inauguram-se escritores. Por fim, vale a pena salientarmos, que, como a Penélope, de Ulisses, continuamos a coser, tecer e bordar nossa proposta para a área de literatura. Cada etapa finalizada significa uma nova etapa, que evolui em espiral, sempre permitindo aos diversos atores envolvidos no processo uma postura mais consciente com relação à literatura e à vida. Nas palavras do graduando Lucianderson Gomes Lagares:

O circo circulando
Vai atrás de platéia
O palco?
Um corredor... sem dor! Só alegria
Um corre mãos armadas de palavras... magia
O circo circula
A palavra em movimento
Paira sobre a estrada
Pára, sobe, envolve
Pára, desce, padece
Carece de ouvidos
E outros sentidos
Ah! a poesia...
Rima sem itinerário
Ela toca
Ela escuta
Ela sorri
A poesia aplaude.

 

Para nós, toda a atividade de literatura deve resultar em um fazer transformador - em uma leitura em que o aluno descobre sentidos e reelabora aquilo que ele é e o que pode ser. Essa tarefa é função das escolas de ensino fundamental e médio, mas é, sem dúvida, função das universidades. Associar ciência e prazer não é tão difícil assim. As experiências relatadas comprovam isso e, se lidas e relidas, podem ser úteis e aplicáveis tendo-se em vista o aqui-e-agora e a realidade de cada instituição de ensino superior.

 

REZENDE, Stela Maris. Esses livros dentro da gente: uma conversa com o jovem escritor . Casa da Palavra, Rio de Janeiro: 2002, p. 7.

LAGE, Micheline Madureira. Ler sem doer: perspectivas para a leitura do texto literário no ensino médio . Ed. Unileste, Coronel Fabriciano-MG: 2003.

FOKKEMA D. W. & KUNNE-IBISCH, Elrud. "Theories of literature". In: The Twentieth Century . C. Hurst, London: 1977, p. 138.

A esse respeito conferir a obra de MARTINS, Maria Helena: O que é leitura . Brasiliense, São Paulo: 1994.