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Ana Maria Machado: os recursos fono-expressivos como elementos relevantes de uma leitura significativa
Maria Teresa Gonçalves Pereira (UERJ)

Podemos considerar a palavra como massa sonora cuja emissão e recepção sugerem à consciência uma noção ou uma representação sensível. Atribuímos a esta representação do espírito certa extensão, certa duração, certo lugar dentro da escala de valores que transpomos para o mundo das dimensões. Assim, a palavra, através de sua ressonância geral, repercute tonalidades afetivas.

Os valores expressivos de natureza sonora observáveis nas palavras e enunciados são tratados pela Fonoestilística que, como sabemos, corre paralelamente (ou complementarmente) à Fonética e Fonologia.

Na escola, principalmente no Ensino Fundamental, se encaram quaisquer estudos fonéticos e/ou fonológicos reservadamente, vistos como conteúdos vazios e áridos, pouco aplicáveis e sem objetivo aparente, ao contrário das partes "nobres" da Gramática como, por exemplo, Morfologia e Sintaxe.

Para modificar a situação são necessárias práticas lingüístico-pedagógicas que favoreçam a abordagem das questões na escola.

A leitura de textos em que os fenômenos fonoestilísticos apareçam de maneira prazerosa e lúdica - com a preocupação constante de se observarem os aspectos funcionais e estéticos no trato com a linguagem - ainda se constituem na melhor estratégia para que se apre(e)ndam e se apreciem tais fatos.

Há textos que, evidentemente, se prestam mais ao papel do que outros. No caso, elegemos a obra infanto-juvenil de Ana Maria Machado para corpus de nosso trabalho que, através de recursos fono-expressivos variados, admiravelmente manipulados para produzirem efeitos de sentido, possibilita ao aluno sensibilizar-se e, sem dar-se conta, passar a considerá-los quotidianamente na teoria e na prática.

São algumas das ocorrências referentes ao som: aliterações, onomatopéias, criações vocabulares a partir da camada sonora, alongamento da sílaba ou vogal, prosódia expressiva, volume da palavra, motivação da camada sonora, dentre outras situações.

Mostraremos a seguir alguns dos recursos fono-expressivos utilizados por Ana Maria Machado na criação dos seus textos, sempre tendo em vista o aspecto lúdico da linguagem que se configura numa de suas marcas mais significativas, respaldando a literariedade de sua obra.

a- Aliteração

Dentre os variados processos que dizem respeito à sonoridade das palavras e as suas combinações prováveis, consideradas em si mesmas ou pelas ressonâncias de ordem psicológica que suscitam, destaca-se a aliteração, que resulta da combinação dos sons das palavras aliada ao seu conteúdo representativo. Aparece no sentido de enfatizar auditivamente a evocação da coisa mencionada, provocando associações que a sugiram por via sensorial ou apenas criando uma atmosfera musical nebulosa que dê maior valor expressivo ao conteúdo lógico ou representativo das palavras.

Ana Maria Machado demonstra grande sensibilidade perceptiva para captar os misteriosos e difusos valores evocativos mencionados, administrando equilibradamente a expressão racional e o encantamento auditivo.

Observamos, na repetição do fonema destacado, a sugestão de som áspero e vibrante, reforçada por palavra onomatopaica (rangendo).

Só se ouvia de vez em quando uma rede rangendo ... M512

b - Efeitos de sentido a partir da repetição dos fonemas e/ou segmentos fônicos revelados no próprio contexto.

- Um que fala gr o ss o - disse o boi - Assim Bl ão , bl ão ! Eu pensei que estava me chamando. (O boi se chamava Bolão)

- Tem um que é f i n i nho e bate rápido. Até parece T i p i t i ! T i p i t i ! - riu o menino. (Tipiti é magro e alto)

-  E tem um mais ou menos, me chamando El ém , El ém , El ém ... - confirmou Helena. (A menina se chamava Helena) Bem 38

c- Criação vocabular a partir de efeitos eufônicos e/ou estéticos

Os sons podem também apresentar efeitos puramente estéticos e/ou eufônicos. É fator inteiramente subjetivo visto que qualquer resultado da emissão de uma palavra é de ordem pessoal, sensibilizando de maneiras diferentes quem escuta ou lê.

-  Então, inventou um nome que servia para qualquer um. Servia mesmo para qualquer coisa. Era Cusfosfós . Nome gostoso de dizer, dava uma espécie de cosquinha dentro da boca. Pals 5

d- Significação da palavra motivada pela sua camada fônica

-  Esse aí é meu irmão, o Prucutu . Está dormindo, acidentado. É muito desastrado, vive sempre machucado. Toda hora, já se sabe: pru-cu-tu! É Prucutu levando tombo, rolando escada, caindo de cambulhada, levando trambolhão, se esparramando no chão... Bento 33

e- Efeito sonoro expressivo a partir do alongamento da palavra

E o lobinho quando precisa ficar acordado de noite, estica bem alto o focinho para a lua e uiva.

- Sumiiiiiiiiiu! Fugiiiiiiiiiu! Fui eeeeeeeeu! MS29

- Vocês repararam no jeitão do chamado? Não é um jeito comprido de chamar, é bem curtinho. Não é Bolãããão! Nem Heleeeena! Bem 38

f- Efeito sonoro expressivo a partir do eco

As palavras apresentam em sua estruturação determinados segmentos fônicos que, repetidos, funcionam como eco de segmentos fônicos das palavras antecedentes ou ainda palavras inteiras podem ser segmentos fônicos das anteriores também com eco.

Quando finalmente pisou no chão, cansado de tanto ver e viver , de tanto se transformar e viajar , Miguel resolveu dormir até que a noite viesse e se fosse e o dia amanhecesse . Olho43

Arlindo lindo , Arlindo alegre, brincalhão,... Pr18

g- Efeito sonoro expressivo a partir da acentuação da palavra

A qualidade erudita de proparoxítono contribui para a expressividade do vocábulo. São pouco comuns e precários em nossa língua, daí a denominação de esdrúxulos. Outro enfoque possível é admitir esse tipo de acentuação se ajustando ao majestoso, ao retórico, ao desconhecido.

Combate contra quem? Contra o Pérfido Feiticeiro, é claro. O Cavaleiro de ouro era especialista em Pérfidos Feiticeiros. Praga 11

-  Socorro! Acudam! Ladrões! Bandidos! Facínoras ! Biltres! Hist 10

h- Efeito sonoro expressivo a partir do volume da palavra

O volume da palavra polissílaba, por sua vez, induz a idéia de grandeza, de coisa desmedida, às vezes, assustadora. A massa fônica contribui para tal sugestão.

Tinha uma placa com um nome de médico e embaixo estava escrito otorrinolaringologista . Na sala onde os pais entraram com ela estava assim: orientação psicopedagógica . E mais fonoaudiologia . Ela foi ficando assustada. Não dava nem para ler direito essas palavras. Nem que treinasse a vida toda, não ia nunca conseguir dizer essas coisas. Pelo menos, era o que achava. Eram palavras maiores do que ela.

Ficou ouvindo uns pedaços da conversa dos pais com o doutor. Tinha cada coisa assim : agressividade reprimida, perspectiva da maternidade, manifestação de ansiedade, responsabilidade, culpabilizar . E mais uma porção de palavras que a menina tinha certeza de que nunca ia poder dizer direito sem ficar toda atrapalhada. Pals 18

i- Cotejo entre palavras ou expressões de significados diferentes através de estruturas sonoras assemelhadas

A aproximação dos sons proporciona uma instigante e lúdica atividade fônica. É um recurso lingüístico de que Ana Maria Machado lança mão e que instaura um momento de certa perplexidade, permitindo diferentes interpretações, gerando ambigüidade, a partir da massa sonora dos vocábulos envolvidos.

Falou alguma coisa que o neto não entendeu bem. Aruanda? Luanda? Angola? Esquisito... Tu anda agora?... É... Devia ser isso. Lado 20

-  Ah, sim,... Harlem ... Estou reconhecendo essa animação, esse gosto pelas cores, pelas brincadeiras, pelos ritmos alegres... Começo a concluir que o seu Harley King deve ser a nova máscara de meu velho conhecido de outros tempos, o Arlequim ...Pr61

j- Cotejo entre palavras de significados diferentes, porém com fonemas semelhantes

No trecho abaixo, a troca de fonemas como conseqüência de precária percepção auditiva, constitui-se no elemento deflagrador da ambigüidade que gera o conflito, provocando confusão no ouvinte.

Os fonemas em questão |p| e |b| possuem o mesmo ponto e zona de articulação, diferenciando-se apenas quanto à sonoridade, já que |p| é surdo enquanto |b| é sonoro. Entretanto, é exatamente a sonoridade, traço pertinente no português, que causa a mudança de significação.

O público grita (ou pensa que grita isso):

- Dá bomba ! Da BAIS ! Da BAZ ! Da bomba da BAIS !

E outras variantes, que isso de medo é coisa muito de cada um.

Mas o que eles gritam mesmo, agora que os narizes estão desentupidos, é:

- Da pompa ! Da Pais ! Da Paz ! Da pompa da Paz !

De tanto gritar e repetir, vão descobrindo o que têm que descobrir sozinhos, mas que a gente só descobre quando começa mesmo a fazer alguma coisa em vez de ficar só assustado tremendo pelos cantos.

Descobrem que estão gritando bobagem, que a Paz não tem pompa, a guerra e os guerreiros é que são todos sebentos e adoram coisas pomposas. Logo, quando se tratar da paz não é pompa é pomba - deve haver mesmo algum entupimentozinho que é bom deixar, pelo meio, que isso de encontrar obstáculos nenhum acaba tirando o sentido das coisas.

E se, então, o que se grita é pomba da paz a platéia logo descobre que não é coisa de se ter medo, mas de se querer muito.

E como sempre acontece nas torcidas dos estádios ou nos comícios nas praças, os gritos da multidão vão achando seu caminho e virando canção.

E, de repente, estão todos cantando, num canto novo, o canto da praça, as verdadeiras palavras mágicas da transformação:

-  Viva a Pomba da Paz ! Guerras nunca mais! Pr 93 e 94

l- Onomatopéia

Embora muitas palavras sejam inteiramente convencionais, isto é, não tenham correspondência intrínseca entre o nome (som) e o sentido, há outras que podem ser motivadas de várias maneiras. A motivação reside nos próprios sons, na estrutura morfológica das palavras ou no fundo semântico.

Stephen Ullmann se posiciona nos seguintes termos: "No uso da onomatopéia como artifício estilístico, o efeito baseia-se não tanto nas palavras individuais como numa judiciosa combinação e modulação de valores sonoros, que podem ser reforçados por fatores como aliteração, o ritmo, a assonância e a rima. O semântico interessa-se especialmente pela qualidade onomatopaica das palavras, embora os dois problemas sejam muitas vezes inseparáveis. Do ponto de vista semântico, tem que ser feita uma distinção entre a onomatopéia primária e a secundária. A forma primária é a imitação do som pelo som. Aqui o som é verdadeiramente um "eco de sentido": o próprio referente é uma experiência acústica, mais ou menos rigorosamente imitada pela estrutura fonética da palavra... Na onomatopéia secundária, o som evoca não uma experiência acústica, mas um movimento".

Constitui-se condição fundamental da motivação fonética que haja alguma semelhança ou harmonia entre o nome e o sentido. Os sons não são expressivos por si mesmos. A onomatopéia se concretizará apenas quando esses sons se ajustarem ao significado. Ainda sobre essa questão, Ullmann enfatiza: "Quando o som parece naturalmente adequado à expressão do significado, a onomatopéia só entrará em jogo se o contexto lhe for favorável... considerando contexto no sentido lato que inclui tanto o enquadramento verbal como o contexto da situação... Qualquer que seja a força expressiva que exista em estado latente numa palavra, só tomará vida se se ajustar ao efeito geral da elocução".

Determinadas situações e ambientes são mais receptivos à onomatopéia. Pode ser encontrada, freqüentemente na fala emocional e retórica, assim como em formas de linguagem espontâneas, como a linguagem infantil, a linguagem coloquial e popular, o calão, a gíria. Oferece campo fértil para que o poeta e o escritor de prosa artística utilizem naturalmente tais recursos.

A busca de motivação estendeu-se até a palavra escrita. Certos escritores descobrem analogias entre os significados das palavras e as respectivas formas visuais. Se retrocedermos à escrita primitiva em que os símbolos visuais representavam aquilo que nomeavam e ainda não estavam ligados à palavra falada, veremos a pertinência do procedimento.

A onomatopéia reproduz determinado ruído, não se tratando, portanto, de imitação fiel e direta do ruído, mas da sua interpretação aproximada com os meios de que a língua dispõe.

As onomatopéias em Ana Maria Machado aparecem sob variadas manifestações:

- Onomatopéias propriamente ditas

Quando cansavam, paravam quase sem fôlego. Uff! Uff! Uff! QPG 4

- Onomatopéias incorporadas naturalmente ao texto sem o característico ponto de exclamação

Meu coração batia mais forte, cutum-cutum-cutum, como se cada passo do Sérgio fosse uma batida. Bisa 38

- Onomatopéias incorporadas naturalmente ao texto como substantivos comuns

O zzzzzzzz da serra. O pam-pam-pam dos pregos e martelos. O roque-roque do serrote. O splash-splash da pazinha misturando cimento. Bento 48

- Onomatopéias prolongadas

Ai, aconteceu uma tragédia: espirrei. Um escândalo: - Aaaaaaaatchim !!!!!!! Bisa 38

- Onomatopéias que traduzem sons naturais (animados)

- E pata choca, com todo esse quem-quem-quem , resmungona que nem velha coroca... Mais barulho que isso só mesmo uma motoca! Bento 4

- Onomatopéias com som e movimento

Certas onomatopéias já carregam a idéia de movimento. Às vezes, o contexto reforça tal idéia.

- Cada um é um cabrito. Vem correndo para o outro e pumba ! Dá uma cabeçada bem de frente com toda força. Bento 41

- Vocábulos onomatopaicos

Homens, mulheres e crianças, para cá e para lá, zanzando sem parar. Bento 48

Segundo J. Mattoso Câmara Jr., "a intercalação de uma onomatopéia numa frase informativa, por exemplo, dá-lhe um inconfundível sainete expressivo". Essa tendência é claramente observada no uso da onomatopéia por Ana Maria Machado.

Os exemplos se multiplicam, havendo produtividade, condição básica para se eleger a obra em questão como corpus .

Gostaríamos de concluir, enfatizando que os recursos sonoros expressivos possibilitam à leitura (da literatura, no caso) condições de maior envolvimento com o texto, materializando-o, diminuindo o distanciamento com o leitor, envolvendo-o num clima lúdico.

Preocupa-nos que a leitura de um texto não pressuponha atenção à linguagem, matéria-prima de qualquer comunicação eficiente.

A literatura, então, que se utiliza da palavra em sua elaboração máxima, deve considerá-la e estudá-la em todas as suas instâncias.

A escola constitui espaço privilegiado para que tais ocorrências lingüísticas tenham o merecido destaque no material de leitura manipulado pelo aluno, principalmente, tratando-se do texto literário.

 

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Contribuição à Estilística Portuguesa . 3ª ed. Ao Livro Técnico. Rio de Janeiro. 79p, 1978.

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ULLMANN, Stephen. Semântica: uma introdução à ciência do significado . 4ª ed. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa. 577p, 1964.