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Cora Coralina e a Tradição Poética Moderna e Modernista
Flávio Pereira Camargo (UFG)
De acordo com Yokozawa (2002), Cora Coralina é freqüentemente lembrada pelo seu insulamento literário, pela sua independência em relação a qualquer escola literária. Essa independência é lembrada tanto pelos que nela vêem um traço de autenticidade, de originalidade, quanto por aqueles que a tomam como uma limitação, como uma incapacidade da poeta em estar sintonizada com as linhas de força que assinalam os melhores poetas do século XX. A própria poetisa corrobora a teoria do insulamento ao dizer que lia muito pouco os poetas brasileiros do século XX, pois em sua cidade não havia livraria e quando viajava não dispunha de numerário para comprar os livros de tais escritores. Mas, em entrevista, a mesma poetisa que corrobora a tese do insulamento literário salienta que só conseguiu escrever versos após a libertação formal dos modernistas de 22. De acordo com Yokozawa (idem), a libertação refere-se ao verso livre, corroborando o diálogo da poetisa com a tradição Moderna e Modernista, como afirma a escritora: "Eu só me libertei da dificuldade poética depois do modernismo de 22, mas não acompanhei o movimento - me achei dentro daquela mudança". Além disso, os versos de Cora são exemplares da indistinção tão cara aos poetas modernos e modernistas referente aos limites tênues entre as formas da prosa e as da poesia anunciadas pela própria autora em ressalva a Poemas dos Becos: " Este livro:/Versos... Não./Um modo diferente de contar velhas estórias" (CORALINA, 2001a, p. 27).
Eliot (/s.d/, p. 22), em "Tradição e Talento Individual", salienta que há uma certa tendência para insistir, quando se analisa uma obra poética, não naqueles aspectos em que o poeta menos se parece com outros, mas naqueles em que se pode assegurar a sua individualidade, "mas se abordarmos um poeta sem este preconceito, acharemos freqüentemente que não só os melhores, mas os passos mais significativos da sua obra, poderão ser aqueles onde os poetas mortos, seus antepassados, mais vigorosamente afirmam a sua imortalidade", tal como o faz Cora Coralina em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais 1.
Da leitura da obra poética de Cora depreende-se que a poetisa, em seus momentos de maior autenticidade, fala em uníssono com a tradição poética. Para verificar essa relação da autora com a tradição examinaremos três tendências da Lírica Moderna e Modernista na poética coralineana: a poetização do não-poético, o processo de despersonalização e o hibridismo dos gêneros literários.
Baudelaire é considerado um dos precursores da modernidade, pois foi o primeiro a cantar a paisagem moderna do século XIX: as cidades na fase inicial da modernização, a multidão, os pobres, os párias e as prostitutas, o tédio da chuva e dos becos na luz lívida da aurora, a decadência e a corrupção que assolam o homem moderno.
Cora, a exemplo de Baudelaire, também busca o lirismo poético no lixo dos becos de Goiás, na lavadeira do Rio Vermelho, na prostituta, no menino lenheiro, na mulher Enfim, doceira. resgata para a sua poesia aqueles temas considerados
até então como apoéticos, como se verifica em: "Becos da minha terra.../Amo a tua paisagem triste, ausente e suja" (CORALINA, 2001a, p. 920).
Cora, assim como Baudelaire, perscruta a poesia no lixo dos becos de Goiás, naquilo que a sociedade despreza. Como o heroísmo épico não encontra lugar na sociedade moderna, o poeta busca seu heroísmo no lixo das metrópoles (BENJAMIN, 1989, p. 78), poetizando aquilo que até então não fora poetizado, isto é, o material apoético, haja vista que a essência poética pode ser encontrada em todo e qualquer lugar.
Exemplar do heroísmo que é buscado no lixo dos becos das grandes metrópoles é "Poema do Beco", de Bandeira (1993, p.150): "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?/__ O que eu vejo é o beco."
Note-se que o poeta despreza o que é considerado belo pelo feio, pois em poesia tudo se transforma, se recria. Friedrich (1991, p.44) afirma que "Do feio, o poeta desperta um novo encanto! O disforme produz surpresa, e esta, o 'assalto inesperado' [...] A nova 'beleza', que pode coincidir com o feio, adquire sua inquietude mediante a absorção do banal em simultânea deformação em bizarro, e mediante a 'união do espantoso com o doido'".
Bandeira extrai a essência poética dos lugares mais reles da sociedade, assim como Cora Coralina na série dos poemas dedicados aos becos de Goiás: "Becos de Goiás", "Do Beco da Vila Rica" e "O Beco da Escola", que podem ser considerados uma trilogia na poética coralineana.
Os becos de Goiás já não são os mesmos becos da época de Cora. Hoje os becos já não trazem mais galinhas mortas, sapatos velhos, lixo, velhas bacias, potes, balaios e outros objetos tais que, como se lê no poema "Do Beco da Vila Rica": "No beco da Vila Rica/Tem sempre uma galinha morta./Preta, amarela, pintada ou carijó./Que importa?/Tem sempre uma galinha, de verdade./Espetacular, fedorenta./Apodrecendo ao deus-dará./[ ...]/Monturo:/Espólio da economia da cidade./Badulaques:/Sapatos velhos. Velhas bacias./Velhos potes, panelas, balaios, gamelas,/E outras furadas serventias/Vêm dar ali./[...]/Becos da minha terra.../Válvulas coronárias da minha velha cidade" (CORALINA, 2001a, p. 96/107).
Nos tempos de Cora os becos eram lugares mal-afamados onde mulheres de respeito não passavam. Era lugar de mulher da vida e de monturo de lixo. Enfim, de tudo aquilo que não mais fosse útil para a sociedade. O poeta moderno, ao perscrutar o lirismo poético nos becos, resgata para o âmbito da poesia não só velhos objetos, frutos da industrialização, mas também o ser marginalizado social e economicamente pela sociedade: "Amo e canto com ternura/Todo o errado da minha terra./[...]/Becos da minha terra,/Discriminados e humildes,/Lembrando passadas eras..." (idem, p. 92/95).
Na trilogia dos poemas dedicados aos Becos, Cora canta o lixo, o ser marginalizado socialmente, o pária social. O ser poético em Cora ama e canta com ternura os errados de sua terra, pois os becos "têm poesia e têm drama". Portanto, os poemas coralineanos não só cantam, como contam velhas estórias. Além do mais, os becos são as válvulas coronárias da Velha Goiás. Atente-se para o fato de que Bandeira e Cora liricizam os becos em detrimento da bela paisagem. O "belo" aqui é aquilo que é considerado "feio" àqueles desprovidos de sensibilidade poética, pois a essência poética, como lembra Mário de Andrade (/s.d./, p. 208/209), pode nascer, brotar de qualquer lugar, mesmo daqueles mais reles aos olhos do homem moderno.
Dessa feita, lê-se na poesia coralineana a poetização do material apoético corroborando o diálogo de Cora para com a tradição poética a despeito daqueles que insistem em ler e afirmar, em sua poética, o suposto insulamento literário, haja vista que a poetisa, em seus momentos de maior autenticidade e originalidade, busca um passado, uma tradição poética.
Sabe-se que Cora Coralina começou escrevendo prosa, conforme atesta o comentário do professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo no Annuario Historico Geographico e Descriptivo do Estado de Goyaz (1910, p. 209) . No Annuario , o prof. Ferreira transcreve um conto da escritora, intitulado "Tragédia na Roça", e observa que a autora "é um dos maiores talentos que possue Goyas; é um temperamento de verdadeiro artista. Não cultiva o verso, mas conta na prosa animada tudo que o mundo tem de bom, numa linguagem fácil harmoniosa, ao mesmo tempo elegante".
Após a estréia de Cora Coralina em 1965, boa parte da crítica especializada torcia e ainda há aqueles que torcem o nariz à poesia de Cora devido ao tom narrativo que perpassa a sua poética.
Em Conceitos Fundamentais da Poética , Emil Staiger (1997, p. 185) vale-se da noção substantiva e da noção adjetiva para formular a moderna teoria dos gêneros literários. Segundo Staiger, os substantivos Épica, Lírica e Drama são terminologias utilizadas para enquadrar uma obra em um ramo segundo suas características formais. Já os adjetivos lírico, épico e dramático são termos que designam as qualidades das quais uma obra pode ou não participar. Designa, desse modo, a essência, os fenômenos estilísticos do lírico, do épico e do dramático.
Deve-se ressaltar, na esteira de Emil Staiger (1997), que uma das características da arte moderna pauta-se, sobremaneira, na miscigenação dos gêneros, havendo a predominância de traços estilísticos de um determinado gênero sobre outro. Há, pois, uma inter-relação entre os gêneros. Dessa forma, Staiger (1997, p. 15) põe abaixo a teoria clássica dos gêneros literários ao afirmar que : "Não vamos de antemão concluir que possa existir em parte alguma uma obra que seja puramente lírica, épica ou dramática [...] qualquer obra autêntica participa em diferentes graus e modos dos três gêneros literários, e de que essa diferença de participação vai explicar a grande multiplicidade de tipos já realizados historicamente".
Dito isso, pode-se ter "dramas líricos", obras cujo ramo seja o Drama, porém com traços estilísticos peculiares à lírica. A multiplicidade de que fala Staiger resulta da miscigenação dos gêneros iniciada no Barroco e desenvolvida por outros poetas posteriormente.
Ao analisar a poética de Cora, a exemplo de Bandeira em "Poema tirado de uma notícia de jornal" e de Drummond em "Morte do leiteiro", nota-se a presença de poemas épicos como, por exemplo, "Estória do aparelho azul-pombinho", "O prato azul-pombinho", "As tranças de Maria" e "Do Beco da Vila Rica", dentre outros tais que.
Observa-se na poesia moderna uma certa tendência para o épico ou "epilírico", haja vista que os poemas apresentam características estilísticas da prosa, como, por exemplo, a extensão dos poemas, a presença de personagens, de narrador e de uma ação. Enfim, poemas com tom narrativo de algum acontecimento passado. Em "Poema tirado de uma notícia de jornal", de Manuel Bandeira, tem-se, além do rompimento dos limites tênues entre as formas da prosa e as da poesia, observado na utilização do verso livre que chega a ocupar mais de uma linha, a poetização do pária social representado pelo personagem João Gostoso, carregador de feira-livre, morador do morro da Babilônia. Note-se, um ser marginalizado socialmente, excluído da sociedade moderna, que, em um momento de desespero, vai ao bar Vinte de Novembro, pede uma bebida e, logo em seguida, atira-se na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Os limites tênues entre as formas da poesia e as da prosa são visíveis. O poema enquadra-se no ramo da Lírica. Entretanto, apresenta características peculiares à Épica e ao Drama, como o relato ou a apresentação de uma ação, movida por um dinamismo de tensão. Além disso, observam-se traços estilísticos épicos - distanciamento entre o sujeito-narrador e o objeto, mundo narrado - e dramáticos - há uma ação que se desenvolve por um dinamismo de tensão até o fim culminante, levando o personagem João Gostoso a se atirar na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Manuel Bandeira resgata um acontecimento banal e trágico, a morte de um carregador de feira-livre, publicada em jornal. Ao trazer o acontecimento para a poesia, este perde o caráter temporal e espacial passando do individual para o universal, pois o que ocorrera com João Gostoso pode acontecer com muitos outros iguais a ele. João Gostoso representa uma classe social, ou melhor, uma subclasse, representante da periferia da cidade grande. Um subproduto humano, um lixo humano que é resgatado pelo poeta.
A exemplo de Bandeira, Cora resgata não somente o ser marginalizado socialmente, mas o passado senhorial da Velha Goiás. Em "Do Beco da Vila Rica", a poetisa fala da exploração aurífera pela qual Goiás passou, pois durante algum tempo, Goiás teve suas riquezas exploradas pelos paulistas, "uma cidade de onde levaram/o ouro e deixaram as pedras" (CORALINA, 2002, p. 81).
Cora faz um resgate do passado épico da Cidade de Goiás, passando pela exploração aurífera, pela decadência da idade do ouro, até chegar ao estágio de miséria e pobreza. Goiás, no tempo poético representado por Cora, é uma cidade cercada de morros e repleta de becos fedorentos, lugar de lixo, de objetos sem serventia para a sociedade, de gentinha, pois família de conceito não passa em beco. Beco é um lugar sujo, lugar de lixo, de coisas velhas, inúteis para a vida, para a sociedade. Beco é para a prostituta, a lavadeira, a mulher roceira, o menino lenheiro. Enfim, Cora canta e conta a estória dos becos, dos becos da sua terra, "Suspeitos... mal afamados/Onde família de conceito não passava./ "Lugar de gentinha" __ diziam, virando a cara./De gente do pote d'água./De gente de pé no chão./Becos de mulher perdida./Becos de mulher da vida" (CORALINA, 2001a, p. 94).
Os poemas "epilíricos", além de cantar, também contam. Nesse sentido, os poemas de Cora apresentam natureza narrativa que, como subespécie da épica, tem na apresentação sua característica basilar. Segundo Staiger (1997, p. 83), "a linguagem épica apresenta. Aponta alguma coisa, mostra-a", como se verifica no "As Tranças de Maria". Observa-se nitidamente a voz do narrador que apresenta "o caso do Izê da Badia", vaqueiro forte, destemido e conhecido pelas redondezas por sua bravura e amor à Maria, moça de família, que sumiu quando foi buscar água no poço. Há, no presente poema, traços estilísticos épicos, quais sejam: um tempo indeterminado, um espaço tópico, um narrador, a presença de personagens e uma ação a ser desenvolvida pelo protagonista que sai à procura da amada até descobrir que ela fora morta e engolida por uma onça. Deve-se ressaltar que o contar casos ou "causos" filia-se à tradição oral de narrativas contadas em rodas de amigos. Cora, ao resgatar para o âmbito da poesia essa tradição, rompe com os limites tênues entre as formas da prosa e as da poesia.
Nos poemas "epilíricos" de Cora, o objeto é colocado "em frente" ao eu lírico e não nele mesmo como ocorre com a fusão lírica entre sujeito e objeto, expressa pelo "um-no-outro" lírico. Dessa maneira, a voz presente no poema reúne condições para vislumbrar criticamente uma realidade e narrá-la de forma distanciada, mesmo nos casos em que essa voz se apresenta também como personagem. Dessa feita, a poética coralineana pertence ao ramo da Lírica, mas isso não impede o diálogo com o épico e o dramático que perpassa a sua poesia.
Quanto ao processo de despersonalização da lírica moderna é interessante resgatar Pessoa (2002, p. 180), o grande poeta português, que assim diz: "Mutipliquei-me, para me sentir,/Para me sentir, precisei sentir tudo,/[..]/Quebro a alma em pedaços/E em pessoas diversas".
A criação dos heterônimos em Pessoa é uma das formas encontradas pelo poeta para sentir o mundo de todas as maneiras possíveis. A heteronímia torna-se, para os poetas modernos, um caso de desdobramento de personalidade. O fenômeno da heteronímia ou "despersonalização" é produto do fingimento artístico do poeta. Fingimento deve ser aqui entendido, em sua etimologia, como ficção, criação. De acordo com Eliot (/s.d/, p. 27), "o progresso de um artista reside num contínuo auto-suficiente, numa extinção contínua da personalidade". O poeta deve ser considerado um fingidor, pois mesmo que o artista recrie e transfigure em arte as experiências vivenciadas, essas irão transcender o individual para alcançar o plano universal, atingindo uma emoção muito mais complexa, tal como em Bandeira, Cora Coralina, Drummond e Pessoa.
É a partir do tomar-forma estético que as experiências particulares transcendem o individual, pois se tornam poesia, arte. Segundo Adorno (/s.d/, p. 193/194), "o conteúdo de um poema não é mera expressão de emoções e experiências individuais. Pelo contrário, estas só se tornam artísticas, quando, exatamente em virtude da especificação de seu tomar-forma estético, adquirem participação no universal".
O processo de despersonalização da lírica moderna implica um caráter objetivo e impessoal na produção poética tal como em Mallarmé e João Cabral de Melo Neto, dentre outros poetas modernos, em cuja poesia se lê a ausência de uma lírica do sentimento e da inspiração, guiada, sobremaneira, pelo intelecto, pela lógica, pela objetividade como um processo construtivo da própria obra de arte, haja vista que a palavra lírica já não nasce da simbiose de poesia e pessoa empírica como haviam pretendido os poetas românticos, conforme afirma Friedrich (1978, p. 37). Dessa forma, prevalece na lírica moderna e modernista, de modo geral, o caráter impessoal e objetivo da arte em decorrência da ausência de sentimentalismo.
De acordo com Yokozawa (2002, p. 5/6), em Cora Coralina o processo de despersonalização não ocorre da mesma forma que em Mallarmé e João Cabral de Melo Neto. Observa-se, de fato, a ausência de uma poesia objetiva, racional e impessoal. Entretanto, o processo de despersonalização em Cora diz respeito à aproximação do eu lírico com o "outro", com o ser excluído social e economicamente pela sociedade moderna, resultando em uma multiplicidade de "eus". O ser poético da poesia coralineana se identifica e representa "Todas as Vidas", ao afirmar que vive dentro dele a cabocla velha, a lavadeira do Rio Vermelho, a mulher cozinheira, a mulher do povo, a mulher roceira, a mulher da vida etc.. Enfim, "Todas as vidas dentro de mim:/Na minha vida - /a vida mera das obscuras" (CORALINA, 2001a, p. 31/33)
Cora, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto, quando criança era chamada de Aninha, a menina inzoneira, feia, chorona, rejeitada pela mãe e pelas irmãs (CORALINA, 2001b, p. 1140). Yokozawa (idem) ainda afirma que em Vintém de cobre: meias confissões de Aninha Cora resgata a figura de Aninha, estigma da família, rejeitada até a adolescência, fase em que lia e declamava Almeida Garret. E por que não ser Aninha mais uma das personagens, das máscaras do ser poético da poesia coralineana? Afinal, Cora dá forma estética às experiências vivenciadas em tempos passados. Da mesma forma que o eu lírico diz: "Eu sou aquela morosa/de tuas ruas estreitas", "Eu sou aquele teu velho muro/verde de avencas", "Eu sou o caule/dessas trepadeiras sem classe,/nascidas na frincha das pedras", diz: "Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa./Eu sou Aninha" (CORALINA, 2001a, p. 34/35). Mais adiante Yokozawa (ibidem, p. 6) afirma: "Cora Coralina é a autora empírica que assina os versos e Aninha é uma das persona, uma das máscaras da poetisa que aponta para o processo de despersonalização decorrente da multiplicidade de "eus" poéticos, transcendendo o mero caráter autobiográfico". Portanto, Aninha é, de fato, umas das faces do ser poético de Cora 2.
Desta feita, a despeito de uma certa tendência que procura ler a poesia coralineana na perspectiva do insulamento literário, afirmamos que a poetisa, em seus momentos de maior autenticidade e individualidade, fala em uníssono com a tradição poética moderna e modernista. Para tanto, procurou-se demonstrar as confluências poéticas de Cora com alguns poetas já consagrados pela crítica literária, tal como Pessoa, Drummond e Bandeira no tocante à poetização do material apoético, utilização do poema "epilírico" e do processo de despersonalização da lírica moderna.
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YOKOZAWA, Solange Fiúza Cardoso. A reinvenção poética da memória em Cora Coralina. In: Anais do VIII Congresso Internacional da ABRALIC, 2002, Belo Horizonte. CD-ROM.
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A idéia da relação de Cora com a tradição literária moderna e modernista é defendida por YOKOZAWA, Solange Fiúza Cardoso. A reinvenção poética da memória em Cora Coralina. In: Anais do VIII Congresso Internacional da ABRALIC, 2002, Belo Horizonte. CD-ROM.
A idéia da despersonalização em Cora Coralina é apresentada inicialmente por YOKOZAWA, Solange Fiúza Cardoso. A reinvenção poética da memória em Cora Coralina. In: Anais do VIII Congresso Internacional da ABRALIC, 2002, Belo Horizonte. CD-ROM.