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Parteiras ou feiticeiras? - as mulheres n'As sete gerações
Elen de Sousa Gonzaga (UnB)
"These places of possibility within ourselves are dark because they are ancient and hidden: they have survived and grown strong through that darkness. Within these deep places each one of us holds an incredible reserve of creativity and power, of unexamined emotion and feeling."
Audre Lorde
O presente trabalho, vinculado ao núcleo de pesquisa LER de Brasília, tem por objetivo analisar que significações estéticas e ideológicas estão inscritas na imagem da feiticeira, traçando uma genealogia dessa imagem, a partir da análise das obras O Asno de Ouro (1965) de Apuleio, Malleus Maleficarum (2001), de Kramer e Sprenger e As Sete Gerações (1989) de Eva Figes, sob a ótica dos Estudos de Gênero.
Nos últimos trinta anos percebemos um crescente interesse pelos discursos até então considerados marginais ou de menor importância para serem mencionados ou estudados. Esses discursos opõem-se às regras políticas, sociais e econômicas vigentes na sociedade patriarcal, promovendo um desvio "ao assumirem como ponto de partida de suas análises o direito dos grupos marginalizados de falar e representar-se nos domínios políticos e intelectuais que normalmente os excluem, usurpam suas funções de significação e representação e falseiam suas realidades históricas." 1Esse "discurso do outro", essa alteridade - discutida pelos movimentos de mulheres, étnicos, anticolonialistas, entre outros - traz à tona a voz das minorias, além de buscar novos paradigmas de conhecimento, analisando como sua própria identidade foi construída culturalmente através do discurso de seu dominador.
As idéias de diferença, alteridade e marginalidade, introduzidas no campo acadêmico por teóricas e teóricos como Barthes, Kristeva, Foucault e Derrida permeiam a Literatura e Crítica Literária Feminista. Tendo como base ou influência seus estudos, críticos, escritoras e escritores tentam desmontar a lógica dos sistemas em que se inserem. Em seu esforço de releitura e revisão, o feminismo tem contestado os diversos paradigmas que se impuseram como inquestionáveis e universais ao pensamento patriarcal ocidental. Desse modo, o próprio conceito de história literária tem sido objeto de discussão em muitos trabalhos teóricos e literários. Como nos informa Ria Lemaire:
A história literária, da maneira como vem sendo escrita e ensinada até hoje na sociedade ocidental moderna, constitui um fenômeno estranho e anacrônico. Um fenômeno que pode ser comparado com aquele da genealogia nas sociedades patriarcais do passado: o primeiro, a sucessão cronológica de guerreiros heróicos; o outro, a sucessão de escritores brilhantes. Em ambos os casos, as mulheres, mesmo que tenham lutado com heroísmo ou escrito brilhantemente, foram eliminadas ou apresentadas como casos excepcionais, mostrando que, em assuntos de homem, não há espaço para mulheres "normais". 2
Tanto a história quanto a história literária tradicionais excluem não só as mulheres, como também qualquer indivíduo que não se adeque ao sistema dominante, criando assim a ilusão de uma tradição única. Os grandes homens e guerreiros descendem de famílias nobres e veneráveis e se distinguem por seus atos valorosos e heróicos. Já os grandes escritores são apresentados como herdeiros e representantes de uma herança cultural superior, seres capazes de criar obras de arte grandiosas. Assim como os historiadores buscavam os antepassados de seus heróis, reis e guerreiros, a história literária tradicional buscou os precursores, as fontes ou influências dos autores. Daí o grande interesse - que persiste até hoje - pelos que influenciaram os grandes mestres da literatura.
A reescrita da história literária ocidental desconstrói não somente o mito de uma literatura única como também instiga o interesse de escritoras e escritores por outras histórias. Ao invés de se ocupar com os grandes feitos e vultos históricos, esses artistas escrevem sobre personagens comuns ou excluídos da sociedade - e por esse motivo silenciados - re-criando a História a partir da perspectiva de olhares marginais. Os personagens que antes eram objetos ou antagonistas passam a ser os sujeitos dos romances. Antes silenciados ou obrigados a reproduzir um discurso viricêntrico e etnocêntrico, esses outsiders agora falam e refletem sobre sua própria situação. As escritoras feministas, ao centrarem seus romances em personagens femininos marginais, tentam re-criar uma her story: a estória das mulheres silenciadas pela his tória tradicional.
A escritora Eva Figes (1932 - ) promove esse deslocamento de perspectiva em direção à herstory . Seus romances exploram a problemática da identidade feminina, rejeitando falsos rótulos e papéis impostos. Sua obra As Sete Gerações (1989) tenta criar uma genealogia, resgatando da invisibilidade o papel da mulher-feiticeira na História da humanidade.
É difícil imaginar que a feiticeira já pôde um dia ancorar-se na realidade como uma personagem positiva, e não como um agente de catástrofes. Essa imagem remonta aos tempos pagãos, quando os ritos e cultos estão associados à magia do corpo feminino - gerador da vida, simbolizando a transcendência e o mistério. O corpo é, então, a personificação das energias da natureza e de tudo quanto lhe diz respeito. Desse modo, "toda a natureza assemelha-se com a mãe: a terra é mulher e na mulher habitam os poderes que na terra existem." 3
Essas concepções estão presentes em Istar na Babilônia; Hécate, Cibele e Gáia na Grécia; Astertéia na Fenícia e Ísis no Egito, informando-nos que a mulher era vista como musa inspiradora da vida carnal e espiritual. Seus atributos englobam, além da magia e da sabedoria, a maternidade e a fertilidade.
No entanto, a figura positiva vai pouco a pouco se fragmentando e se transformando em valores negativos sob a pressão dos homens e das religiões, e poucos são os textos que deixarão entrever a "idade de ouro" do mito. Entretanto, a diversidade e as riquezas da feiticeira provenientes dos ritos pagãos, aparecem num dos primeiros contos escritos: O Asno de Ouro , de Apuleio, datado do segundo século da era cristã.
O texto conserva na personagem da feiticeira sua ambivalência através das muitas representações femininas, cada uma delas cristalizando uma das funções, um dos poderes da feiticeira de outrora. Assim, no Asno de Ouro , temos a descrição de mulheres voltadas à vida mundana, que usam a magia (negra) para satisfazerem seus desejos - especialmente o desejo carnal. É o caso das irmãs Méroe e Pância, que matam Aristômenes, das feiticeiras que roubam as orelhas e o nariz de Telifrão e de Panfília, que mora além dos limites religiosos da cidade e se entrega a toda espécie de encantação sepulcral.
Contrabalançando essas imagens negativas, temos Fótis, Psiquê e Ísis, representando o pólo positivo da feiticeira. Afinal, se não fosse pelo erro de Fótis, Lúcio não adquiriria tamanha experiência e certa parcela de sabedoria. Do mesmo modo, é através de Ísis que Lúcio recupera sua forma humana e garante seu lugar nos Campos Elísios.
Já na Renascença, o Antropocentrismo e o progressivo Racionalismo ratificaram a desvalorização do inconsciente, acrescentando à imagem dual do Teocentrismo [homem (espírito) x mulher (carne)], a figura homem (razão) x mulher (emoção). Tal aspecto é percebido, por exemplo, em Shakespeare, quando este apresenta a Macbeth e a Banquo três irmãs bruxas detentoras de poderes ilimitados - dentre eles o da profecia - dominadoras dos ventos e que desvanecem-se em pleno ar.
A diferença é que, enquanto as bruxas de Apuleio têm beleza, poder e sabedoria, as do dramaturgo inglês não possuem o primeiro atributo. Na verdade são tão horrendas que Banquo, num primeiro momento, é incapaz de identificá-las como seres humanos. Em contrapartida, a força e o espírito indomável dessas feiticeiras sobressaem-se, desencadeando a ação da peça.
O enfoque mais violento dado ao mito da feiticeira foi o da época da Inquisição. Durante quase três séculos as feiticeiras, identificadas com os hereges, foram perseguidas, torturadas e queimadas vivas. Foram necessários à Igreja vários séculos para fazer calar as ressurgências dos antigos ritos pagãos que ainda subsistiam em pequenas cidades da Europa. No paganismo, as divindades se aproximavam da humanidade através de suas ações passionais e seus pólos negativo e positivo. Não havia distância entre o fasto e o nefasto, entre o profano e o sagrado. No processo de assimilação dessas crenças pagãs pelo cristianismo, as características ambivalentes, mas não excludentes, foram dicotomizadas.
É igualmente durante a Inquisição que começam a representar o demônio com chifres, rabo e pés de bode, numa clara deturpação da imagem de Pã e dos faunos. A feiticeira é destituída de suas várias facetas, seu caráter sagrado é transformado em profano. Para dar conta de suas diferentes matizes, ela é dividida em várias mulheres, cada uma contendo uma parte de sua anterior totalidade.
Na época da Caça às Bruxas, a Igreja explica os males do mundo como conseqüência da falta de servidão ao Deus único. Liga a sexualidade ao demônio; o demônio à bruxa; a bruxa à mulher e a mulher à morte. A transgressão sexual passa a ser equivalente a transgressão da fé. A sexualidade e o prazer são duramente normatizados. A intuição, a magia, a sensualidade e a sabedoria feminina tornam-se marginais, transformando-se em elementos do mundo infernal.
A Santa Igreja, resignificando o Novo Testamento, as crenças e obras dos santos e teólogos, cria uma ideologia misógina. A racionalização da misoginia chega ao seu extremo com o tratado dos inquisidores Kramer e Sprenger: o Martelo das Feiticeiras de 1484. Fundamentação teológica da perversidade feminina, o Martelo baseia-se na crença da permissão de Deus para os atos do demônio e na inferioridade espiritual, moral e carnal da mulher, além da óbvia e natural superioridade masculina. Como afirmam os autores do Martelo , a própria etimologia da palavra confirmaria essa fraqueza original e natural: "pois Femina vem de Fe e Minus , por ser a mulher sempre mais fraca em manter e em preservar a sua fé." 4
O Mal está agora determinado, o corpo e a sexualidade amaldiçoados. A culpa, instalada na mentalidade dos cidadãos, passa a controlar a vida e os impulsos sexuais. A Igreja inicia sua inebriante busca ao demônio, anunciando o "remédio" para o fim da danação. A divisão está completa. A Igreja define o que pertence ao mal, às hordas do diabo e ao bem, ao exército de Deus.
Lilith, a primeira mulher de Adão, que se revoltou a ser submetida a uma posição inferior, foi substituída por Eva. Esta, no entanto, também não se sujeitou a Lei do Pai. Condensadas, as duas figuras do Velho Testamento tornam-se prova indiscutível da maldade feminina, sendo identificadas como feiticeiras.
As descrições do Martelo enfatizam o caráter funesto, lunar e indomável da mulher, e contribuíram para a imagem fantástica que se tem das bruxas e do corpo feminino. Assim como as antigas Deusas vinculavam-se com a natureza, detendo o poder das transmutações e transformações - a exemplo de Circe - as bruxas eram capazes de criar ilusões, voar ou transportar-se para grandes distâncias, transformar-se em, e dominar animais, principalmente aqueles ligados à noite, e controlar certas funções corporais, especialmente aquelas ligadas ao ato carnal.
O elo que liga a feiticeira ao reino animal se inscreve na relação privilegiada que ela mantém com a Natureza, e nos conduz a um de seus mais espetaculares poderes: o da metamorfose. Como os demônios que são, as feiticeiras provêem e participam da instabilidade dos lugares e dos poderes, e é também nessa qualidade que são capazes de adquirir a instabilidade da forma. O poeta Ronsard, no hino Os Demônios , enumera as possibilidades de metamorfose dos demônios de "corpo ágil", capazes de se transformar "em tudo o que lhes aprouver", em objetos, em pessoas, mas sobretudo "são vistos transformando-se em animais mutilados: um que só tem cabeça, outro apenas os olhos, um outro apenas os braços. E ainda outro só com os pés, peludos na parte de baixo." Já se viu a feiticeira transformada em porca, raposa, coruja, loba, sereia ou cobra.
Mesmo quando sentada junto ao fogo, cozinhando pratos misteriosos, a feiticeira, mais uma vez, desvia o uso normal dos utensílios domésticos para transformá-los num de seus principais acessórios de magia. O caldeirão serve para o preparo de poções e filtros à base de plantas, como a mandrágora, a chicória, a cicuta e a beladona. Todas essas folhas têm praticamente dupla função: em doses fortes são venenos, e em pequena quantidade fornecem excelentes filtros de amor.
Os lugares tradicionalmente ligados à feiticeira são os lugares exteriores à muralha social: florestas, montanhas, vizinhanças de lagos e ilhas. A feiticeira mora numa gruta, ou em algum refúgio da floresta, ou então numa casa pobre, escura e suja, onde poucos penetram. Dessa maneira, sua intimidade e seus segredos ficam protegidos. Fora daí, ela domina grandes espaços abertos, como a charneca das feiticeiras de Macbeth.
A feiticeira gosta de espaços livres; é onde ela faz sua ronda, onde comanda o vento, a água, o fogo, e dialoga com a terra, o mar e o céu. Do seu intercâmbio com os lugares, de sua convivência com os elementos, nascem a força de sua unidade e sua função de mediadora entre o reino dos vivos e dos mortos. Ela fala de amor às moças solteiras, revela segredos às mulheres estéreis e faz aborto escondido naquelas que não querem ser apontadas em público. Mas quando a sapiência se faz acompanhar de um poder, as feiticeiras passam a usar suas habilidades para inverter os valores religiosos, políticos e morais do saber oficial.
Essa imagem puramente negativa da feiticeira é desconstruída no livro As Sete Gerações . O romance é composto por histórias narradas por diversas vozes que compartilham suas experiências particulares. A narrativa começa no feudalismo inglês, passa pelos horrores da Inquisição e da peste negra e culmina na contemporaneidade. Contadas por mulheres, sobre mulheres, as histórias não se apóiam em registros escritos, mas sim na oralidade e na memória. Elas são passadas de mãe para filha, criando uma tradição oral feminina. Cada narradora vai imprimindo sua marca, contribuindo para a (trans)formação da imagem da feiticeira. Em comum, as mulheres d' As Sete Gerações possuem o conhecimento sobre ervas, folhas e flores, entoam canções e murmuram palavras estranhas aos ouvidos daqueles que desconhecem sua arte.
Elas são também representadas através de seu vínculo com os elementos da natureza, como por exemplo, a personagem Judith. Ela vivia nos tempos feudais e com sua avó Emma, parteira do povoado, aprendeu sobre ervas e sua manipulação. Judith traz em si algo de noturno, de enigmático.
Mas Judith não conhecia a palavra medo, pelo menos não desde seus dois anos, quando ela colocou a mão no fogo para retirar um brinquedo seu que lá havia caído. E por alguma razão as chamas não a queimaram. Quando tinha cinco anos, Judith ia há qualquer lugar e fazia tudo o que queria. Judith não tinha medo do escuro. Ela não tinha medo da lua nova, ou do som dos lobos uivando na floresta. Trovoadas em dias de escuridão não a assustavam, nem tampouco os fantasmas em seus túmulos. (...) Era como se ela considerasse a terra como sua herança natural (...) 5
É Judith quem assumirá o lugar de Emma como parteira da aldeia. Além de considerar a terra como sua herança natural, Judith tinha uma boa memória, elemento indispensável em uma tradição oral. A memória funciona no romance como um elo entre as diversas gerações. Através dela a narradora contemporânea revive histórias e experiências que de outro modo teriam se perdido para sempre.
Apesar de temidas, pois detentoras de um conhecimento que transcendia o entendimento de muitos, as parteiras não são mostradas como figuras maquiavélicas ou agentes do mal, como queriam os inquisidores. São mulheres que, por saberem as propriedades de ervas, eram parteiras, curandeiras e boticárias. Sua face demoníaca não é mostrada justamente porque essa face foi um discurso construído por uma tradição misógina. As feiticeiras do romance não participam de Sabás, mas freqüentam cemitérios e lugares ermos em busca de ervas e cantam ao colher raízes. Elas não praticam malefícios, mas fornecem amuletos a quem querem proteger. Não fazem partes do corpo desaparecem, mas preparam poções para diminuir a luxúria de maridos. E, finalmente, ajudam as que querem ter filhos e as parturientes, mas também preparam filtros para aquelas que não desejam uma gravidez. Curandeiras, boticárias e parteiras, são elas que dão o tom da narrativa, trocando o silêncio imposto pela tradição patriarcal por sua própria versão da História da humanidade.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (Org.) Tendências e Impasses: o Feminismo como Crítica da Cultura . Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 8.
L EMAIRE, Ria. "Repensando a História Literária". In HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (Org.) Tendências e Impasses: o Feminismo como Crítica da Cultura . Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p.58.
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. v. 1. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960, p. 68.
K RAMER, H. & SPRENGER, J. O Martelo das Feiticeiras . Trad. Paulo Froés. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2001, p. 117. (Trabalho original publicado em 1484.)
FIGES , Eva. As Sete Gerações . Trad. Maria Celeste Barrocas. Lisboa: Gradiva, 1989, p. 45.