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Ecos do existencialismo sartriano em Antigone, de Jean Anouilh
Sônia Aparecida Vido Pascolati (UNESP - Araraquara)

Antigone é um dos mais primorosos textos do dramaturgo francês Jean Anouilh (1910-1987). Denso, forjado em uma linguagem de alta poeticidade, o texto seduz pelas inúmeras leituras que possibilita. Uma dessas possíveis leituras é a investigação, no texto dramático, de ecos do existencialismo sartriano.

O primeiro indício do diálogo do texto dramático com algumas das idéias de Sartre é a proximidade temporal, a começar por partilharem o mesmo contexto histórico (Segunda Guerra Mundial), como também pela proximidade das datas de publicação de suas respectivas obras. A crítica, por vezes, divide a produção dramática de Anouilh em três fases (Ginestier, 1974): à primeira correspondem as primeiras peças de Anouilh, da década de 30; a segunda fase recobre o período da guerra; a última fase é composta pelas peças escritas após a desocupação alemã e o fim da Segunda Guerra. Antigone é um texto escrito em 1942 e encenado pela primeira vez em 1944, portanto, com a França ainda ocupada pelas forças de Hitler. Também os primeiros textos ficcionais de Sartre datam do final da década de 30; A Náusea , seu primeiro romance, é de 1938, logo seguido pelo livro de contos O muro. O Ser e o Nada , obra capital na qual se encontra a exposição dos princípios de sua filosofia, é publicada em 1943, mas tudo indica que tenha sido gestada nos anos anteriores. Portanto, o terreno que esses escritores encontram para produção de sua ficção é o mesmo: uma época de conflitos, de angústias, de perguntas sem resposta, de revisão dos valores fundamentais da humanidade.

Mas a proximidade temporal não é o único ponto comum entre Anouilh e Sartre. É possível notar, ao menos no que diz respeito especificamente ao texto de Anouilh sobre o qual nos debruçamos, que as personagens de ambos os autores são construídas de substratos semelhantes, são inseridas em situações diante das quais elas têm de tomar partido e fazer escolhas, e por fim, sua conduta é pautada por princípios semelhantes: sede de absoluto, fidelidade aos valores individuais, busca da autenticidade. O contexto histórico-social vivido por esses autores gerou uma dada concepção de homem e de mundo, concepção esta que parece convergir na produção ficcional de ambos. Dentre os vários pontos de contato entre a escritura de Antigone e o existencialismo sartriano, nos deteremos aqui em dois conceitos centrais: os conceitos de liberdade e de má-fé .

Vejamos, brevemente, de que trata a peça de Anouilh. Construída a partir de um diálogo explícito com o texto homônimo de Sófocles, Antigone revisita o texto clássico para tomar-lhe de empréstimo a trama central. Antigone está diante de uma escolha: enterrar o corpo do irmão e desafiar o poder do Rei, seu tio Créon, ou deixar-se calar e fazer o jogo do poder e da existência medíocre com a qual esperam que ela compactue. Além da inserção de novas personagens e da ausência de outras, a principal mudança se faz no nível das motivações. No texto clássico, Antígona procura cumprir o dever sagrado e familiar de enterrar os mortos, dever que ela coloca acima do poder temporal, acima da necessidade de obedecer a leis humanas. Nota-se, assim, que a ação da personagem é motivada por e fundada em um substrato religioso.

É esse aspecto que muda radicalmente no texto francês, do qual os deuses desaparecem. Segundo a filosofia sartriana, o homem está sozinho, abandonado a si mesmo, responsável por todos os seus atos. As conclusões a que chega Goetz, personagem central de O Diabo e o Bom Deus , expressam claramente o sentido da ausência de Deus no sistema filosófico de Sartre: Não há meios de escapar aos homens. Adeus, monstros; adeus, Santos. Adeus, orgulho. Só o homem existe 1. O mesmo vem explícito no texto As moscas , intertexto com o mundo mítico da Grécia antiga. Reescritura do mito de Electra, o texto faz de Orestes um símbolo da liberdade humana e da independência dos homens em relação aos deuses. A liberdade é a própria definição do humano, como o afirma peremptoriamente Orestes: Não sou senhor nem escravo, Júpiter. Sou a minha liberdade! Mal me criaste, deixei de te pertencer 2. As palavras dessas personagens são ecos do pensamento do próprio Sartre, sinteticamente sistematizado em O Existencialismo é um Humanismo , texto de 1946 no qual procura dirimir dúvidas e combater críticas que pesam sobre sua filosofia: não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade ; e sobre a inexistência de Deus: se Deus não existe, não encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar nossa conduta 3.

Dessa absoluta e inerente liberdade humana deriva que o homem não tem a quem responsabilizar nem por sua existência, nem por suas escolhas e atitudes, daí que o sistema filosófico de Sartre admita que o homem está condenado a ser livre 4. A consciência da liberdade provoca no homem a sensação de desamparo e solidão, sentimentos aos quais a personagem de Anouilh não escapa.

Antigone está totalmente só; desde o início da representação, Le Prologue aponta quem é Antigone, aquela que irá se dresser seule en face du monde, seule en face de Créon 5. A solidão acompanhará Antigone por todas as cenas até o final, quando ela inevitavelmente reconhece que sua opção e seu gesto a fazem diferente de todas as outras personagens: Je suis toute seule 6. A sensação de desamparo, de desproteção e de solidão experimentada por Antigone condiciona toda existência humana autêntica. Para melhor compreender esse ponto, é preciso retomar o fundamento do existencialismo, qual seja, que a existência precede a essência .

O homem é o único dos seres que se faz a si mesmo, que não possui uma essência predefinida ao nascer. São os atos de cada homem que definem cada existência, individualmente. O homem não obedece a uma essência comum, mas sim a uma condição humana comum: o homem é livre . Consciente da gratuidade da existência, ou seja, que a existência não tem uma finalidade definida a priori por um ser superior e transcendente, o homem percebe-se só com sua liberdade. Totalmente liberto de valores preestabelecidos que possam condicionar suas escolhas, o homem tem de assumir a responsabilidade pelos valores gerados por suas atitudes, por suas opções : afinal, os valores passam a existir a partir das ações humanas, eles brotam da subjetividade. Nas palavras de Régis Jolivet,

também os valores, que vêm de minha liberdade, são absolutamente gratuitos e injustificáveis. Produzo-os sem outra razão nem outra lei senão a de exercer minha livre escolha, porque a mim mesmo me escolho absolutamente apenas por efeito de minha escolha. Daí já se infere que na realidade não há senão um só valor, a saber, minha liberdade 7.

 

Isso nos autoriza a concluir que a liberdade, único determinante do ser do homem, conduz à solidão e à angústia.

Por que Antigone se sente tão só? Qual a origem de sua angústia? Mais uma vez são os paralelos com as idéias filosóficas e a ficção de Sartre que podem nos oferecer respostas.

Em A Náusea acompanhamos a trajetória de Antoine Roquentin, personagem que, presa da náusea, toma consciência de que é um indivíduo, quer dizer, que é algo que difere dos demais entes do mundo (pedras, plantas), seres estes desprovidos da consciência da existência. A náusea é o nome dado por Sartre à sensação de desconforto e angústia que toma conta da personagem quando ela cai em si, se percebe como sujeito no mundo, como alguém que tem de fazer a si mesma. Aliás, o próprio Sartre reafirmará mais tarde que o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: esse é o primeiro princípio do existencialismo 8.

A náusea é a reação natural de todo homem que se dá conta do absurdo da existência, de sua gratuidade, de sua contingência. Desprovido de uma razão para existir, o homem tem de forjar o sentido da própria existência. Condenado a exercer sua liberdade e ciente de que suas escolhas geram valores e por isso influenciam as escolhas dos outros, sente-se profundamente angustiado e solitário, sozinho para escolher, sem nada que lhe justifique as escolhas, sem nada que lhe assegure ter feito a escolha certa . O que Gerd Bornheim afirma sobre a angústia parece útil para entendermos a solidão angustiante de Antigone: condenado a ser livre, o homem carrega o peso do mundo; ele se torna responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser 9.

Antigone experimenta desconforto no papel que lhe querem impingir; esse desconforto a impulsiona a assumir o inevitável exercício de sua liberdade. É seu gesto de rebeldia, sua insistência em manter-se fiel a si mesma, sem render-se às circunstâncias e à imagem dela construída pelos outros, que definem quem ela é. O exercício da liberdade permite dizer que Antigone é corajosa, obstinada, autêntica. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo 10. Portanto, o gesto de Antigone cria os valores rebeldia e coragem . Mais do que isso: reconhecendo-se livre, Antigone inicia uma trajetória que desemboca inevitavelmente na autenticidade . Le Choeur anuncia, no momento em que Antigone já está presa pelos guardas de Créon, que la petite Antigone va pouvoir être elle-même pour la première fois 11. Assumir-se como ser, constituir sua própria essência: esses os fins últimos de Antigone.

Criados esses valores pela heroína de Anouilh, resta às outras personagens posicionar-se em relação a eles. Daí a angústia que toma conta de Antigone: ela sabe que enterrar seu irmão contra as ordens do rei desencadeará reações, sabe que seu gesto terá conseqüências. Ismène é obrigada a reconhecer sua falta de compromisso, sua omissão, seu medo : sua recusa em auxiliar a irmã aponta para um certo tipo de comportamento, e também gera um valor: a covardia . Ao final da peça, Ismène mostra-se arrependida e quer unir-se a Antigone. A recusa da heroína reforça um postulado existencialista: ninguém escolhe por ninguém; ninguém é obrigado a seguir a escolha de outrem. Hémon, noivo de Antigone, é colocado diante de sua fragilidade; embora compartilhe do mesmo sistema de valores da filha de Édipo, Hémon reconhece necessitar da força de Antigone para suportar as exigências da vida. Sem Antigone, a vida lhe parece insuportável e sem sentido, motivo pelo qual ela opta pelo suicídio. E finalmente, Créon, que se constitui como imagem às avessas em relação a Antigone. Créon faz do papel que a sociedade espera que ele desempenhe a imagem de si mesmo; dito de outro modo, ele assume a imagem que os outros construíram dele. Créon e Antigone polarizam atitudes diante da existência.

Também a motivação de Créon é outra em relação ao texto de Sófocles. No texto clássico, deparamos com um rei arrogante, desejoso de firmar seu poder recém-conquistado. Sem reconhecer a supremacia das leis divinas sobre as humanas, Creonte deseja que a condenação de Antígona sirva como exemplo para todo o povo tebano: a desobediência é punida com a morte. Anouilh constrói uma personagem bem diversa. Seu Créon leva uma vida muito tranqüila até assumir o trono de Tebas. Sem descendentes que possam governar a cidade, Créon se diz constrangido a assumir essa função – ou conforme o universo ficcional de Anouilh, todo ele metateatral, assumir esse papel .

A diferença radical entre a atitude de Antigone e a de Créon está relacionada à escolha de cada um. Créon opta por abrir mão do exercício da liberdade refugiando-se no falso argumento de que não lhe resta outra escolha, de que é constrangido a assumir o poder – e mais do que isso, a fazer o jogo das conveniências, a agir conforme seu papel social determina. Ao ser acusado por Antigone de que a política conduzida por ele é odiosa, Créon responde: c'est le métier qui le veut 12. Antigone apóia sua argumentação na possibilidade de dizer “não”, portanto, de escolher e não apenas de aceitar as circunstâncias. Mas Créon rejeita o princípio fundamental da existência humana – a liberdade –, recusa a necessidade de fazer a si próprio e aceita a imagem projetada pelos outros, aceita o papel que lhe querem impor. É Antigone quem lhe esclarece as conseqüências de sua escolha:

Moi, je n'ai pas dit “oui”! Qu'est-ce que vous voulez que cela me fasse, à moi, votre politique, votre necessité, vos pauvres histoires? Moi, je peux dire “non” encore à tout ce que je n'aime pas et je suis seul juge. Et vous, avec votre couronne, avec vos gardes, avec votre attirail, vous pouvez seulement me faire mourir, parce que vous avez dit “oui” 13.

 

Créon procura justificar seus atos em algo que é exterior à sua subjetividade, atitude que, segundo o pensamento de Sartre, carateriza a má-fé . Para Sartre, qualquer atitude que projete a responsabilidade pelos atos para fora do próprio homem é uma atitude de má-fé. Ao contrário do homem de boa-fé, que se engaja na luta pela conquista não só da sua liberdade, mas também da dos outros homens – atitude identificada com a opção de Antigone –, o homem de má-fé quer fazer crer que há valores preexistentes a ele mesmo e a suas escolhas. Todo homem que inventa um determinismo é um homem de má-fé 14. Essas palavras de Sartre talvez possam qualificar o comportamento de Créon, que prefere assumir a posição de vítima diante das circunstâncias, a posição de objeto de uma situação ao passo que todo homem deve assumir-se como sujeito de sua própria existência.

O conceito de má-fé em Sartre está intimamente relacionado à idéia de representação de papéis, tema bastante caro ao teatro de Jean Anouilh. Um homem que rechaça sua subjetividade em nome de uma função social que deve desempenhar (seja ela a de um garçom, como exemplifica Sartre em O Ser e o Nada , ou a de um governante, como é o caso do Créon de Anouilh) adere ao jogo da sociedade, esforça-se por atender às expectativas que os outros têm do papel que lhe é oferecido. Como afirma Bornheim, tratando da dimensão teatral da sociabilidade humana,

Representar um papel, ser ator, a sedução do títere, pertence à condição humana. Melhor, a condição humana como que se desdobra para assumir uma segunda natureza, uma outra condição. (...) Na sociedade tudo se passa, portanto, como se cada um devesse assumir uma marionete 15.

 

Instaura-se, desse modo, um jogo entre ser e parecer . Aquele que escolhe o ser , está optando por uma existência autêntica, mesmo que isso signifique suportar a angústia, a solidão, a sensação de desamparo. Já o outro que se contenta com o parecer, convive com a permanente sensação de incompletude, de falsidade e de fatalidade. A propósito, lembremos que esse é o tema central de um outro texto sartriano, Entre quatro paredes : o verdadeiro inferno vivido pelas personagens dessa peça é ter de conviver com a imagem que construíram de si mesmas sabendo tratar-se apenas de uma imagem, de um falseamento de suas existências. É nessa medida que Inês, uma dos três “condenados”, pode afirmar que o inferno... são os Outros 16; afinal, são os outros que revelam o descompasso entre a imagem adotada pelo indivíduo e o seu eu verdadeiro.

Ao levar suas personagens a assumirem posições diametralmente opostas, Anouilh afirma em Antigone que o homem está condenado a ser livre e a exercer sua liberdade. Mesmo quando fugimos a essa responsabilidade, como o faz Créon, estamos, inevitavelmente, escolhendo. Dizer “sim” ou “não” à hipocrisia da vida, aos jogos sociais, aos papéis que a sociedade tenta impor são escolhas que nos conduzem ou à autenticidade – como é o caso de Antigone, que prefere morrer a ver-se corromper pelos constrangimentos sociais – ou à má-fé, como Créon que abre mão de sua subjetividade, do direito/dever de constituir sua própria essência para assumir a máscara de governante que todos esperam que ele assuma.

Isso faz pensar que, mais do que absorver alguns dos princípios do existencialismo de Sartre, o texto de Anouilh leva a refletir sobre o sentido atribuído à existência humana: o ser humano está ou não assumindo sua liberdade – segundo Sartre, princípio fundador da existência humana?

 

 

Sartre, Jean Paul. O Diabo e o Bom Deus . 3. ed. Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1970, p. 224.

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Bornheim, Gerd. Sartre: Metafísica e Existencialismo . Perspectiva, São Paulo, 1971, p. 127.

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Bornheim, Gerd. Sartre: Metafísica e Existencialismo . Perspectiva, São Paulo, 1971, p. 49.

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