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Em busca do espaço perdido: A náusea de Jean-Paul Sartre
Ozíris Borges Filho (UNESP)

Abordaremos o primeiro romance de Sartre, A náusea 1, publicado em 1938, do ponto de vista da topoanálise , isto é, analisaremos os espaços presentes na obra e suas relações com a narrativa. No presente trabalho, analisaremos apenas o espaço dos cafés. Bouville é a cidade onde decorre quase toda a ação da narrativa. Dizemos quase toda a ação, pois há uma cena muito importante que se passa em Paris. Bouville está povoada de cafés.

Os cafés são, por natureza, fechados e pequenos. Nessa espacialidade ocorrerão várias cenas de suma importância para o entendimento da narrativa, das personagens e da temática existencialista que perpassa todo o livro. Um dos principais cafés de Bouville e fundamental para a narrativa é o café Mably, pois o narrador o freqüenta constantemente. E nessa visitação ocorrem três cenas de muita importância como núcleos dramáticos da narrativa em que a temática geral da obra bem como a caracterização das personagens são reforçadas e passam necessariamente pela espacialidade. Vejamos a seguinte passagem:

Nada disso é novo; nunca rejeitei essas emoções inofensivas; ao contrário. Para experimentá-las, basta que se esteja um pouco sozinho, o suficiente para se livrar, no momento adequado, da verossimilhança. Mas eu me mantinha bem perto das pessoas, na superfície da solidão, decidido, em caso de alarme, a me refugiar em meio a elas: no fundo, até aqui, era um amador.

Agora, em toda parte, há coisas como aquele copo de cerveja ali em cima da mesa. Quando o vejo, tenho vontade de dizer: “Alto lá, estou fora do jogo”. Sei perfeitamente que fui longe demais. Creio que não se pode “dar um espaço” para a solidão. Isso não significa que olhe embaixo da cama antes de me deitar, ou que tema ver a porta de meu quarto se abrir bruscamente no meio da noite.

Simplesmente, mesmo assim, me sinto intranqüilo: faz uma meia hora que evito olhar para esse copo de cerveja.

Olho para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda: mas ele — o copo — não quero ver. E sei muito bem que todos os celibatários que me rodeiam não podem me ajudar: é tarde demais, já não posso me refugiar entre eles.

(...)

Sei de tudo isso. Mas sei que há outra coisa. Quase nada. Mas não posso explicar o que vejo. A ninguém. É isso: deslizo suavemente para o fundo da água, para o medo. (p. 23)

 

Em primeiro lugar, não podemos esquecer que tal cena se passa em um cenário fechado e, por isso mesmo, propício à reflexão psicológica, existencialista. Ou seja, temos aí a dialética do interior e do exterior. E essa idéia de interioridade casa-se perfeitamente com a idéia de reflexão psicológica, poderíamos até dizer, reflexão interior. Assim, percebemos uma coesão acentuada entre conteúdo e espacialidade. Nesse caso, como em tantos outros, o espaço homologa o conteúdo. Segundo Bachelard 2 (1989), “o exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento, uma dialética do sim e do não, que comanda os pensamentos do positivo e do negativo”. (p. 215) Apesar de o pensador francês não concordar com a radicalidade geométrica dessa divisão, observamos que, no caso que ora analisamos, podemos muito bem associar as idéias de sim e de positividade ao espaço fechado, interior; e as idéias de não e negatividade ao exterior. Com efeito, para a personagem principal somente a reflexão interior leva ao autoconhecimento.

E é interessante notar que a personagem, já de início, ao refletir sobre a questão da solidão, instaura no texto o eixo vertical ao dizer que se mantinha “ na superfície da solidão”. Temos então a oposição, superfície X profundidade, análoga à oposição alto X baixo que norteia toda a narrativa. Percebemos, outrossim, que o narrador, ao usar o advérbio temporal “agora”, mostra-nos que anteriormente ocupava a superfície, mas que em seu atual momento se encontra na profundidade. E é essa solidão profunda que contamina o cenário que cerca a personagem desde os “celibatários” que se encontram no café até, inclusive, o copo de cerveja que está a sua frente em cima da mesa . É por esse motivo que ele evita olhá-lo. E nessa fuga, o olhar do narrador, sempre o olhar, percorre toda a espacialidade ao redor, tanto o eixo vertical (alto/baixo), quanto o eixo horizontal (esquerda/direita), no entanto, invariavelmente, seu olhar é atraído para a centralidade, para o copo e, com ele, para a solidão. Igualmente interessante é a forma como o narrador termina essa cena. Além de reforçar o traço semântico da profundidade ao dizer que “desliza para o fundo da água, para o medo”, ele inclui um outro tema espacial bastante significativo para a interpretação da passagem que é o elemento água. E, obviamente, não podemos nos esquecer do estudo que Bachelard empreendeu sobre esse elemento. Bachelard, em seu livro A água e os sonhos 3, afirma que a água representa um tipo de intimidade e que é também um tipo de destino essencial que metamorfoseia incessantemente a substância do ser. (1998: 06) Confrontando esse pensamento com a passagem do romance, perceberemos que ele lança várias luzes sobre a personalidade de Roquentin. Com efeito, essa sensação de “descer para o fundo das águas e para o medo” representa realmente essa intimidade do protagonista e, sobretudo, esse destino de transformação. Roquentin está sempre em movimento em seu interior, isto é, está sempre refletindo, sempre buscando a essência de si mesmo e dos outros. Esse é o seu destino, a mobilidade. Jamais Roquentin poderia ser comparado a uma personagem estática. Ele se move constantemente através de sua mente inquieta. Ele é uma personagem móvel e, justamente por ser móvel, por recusar a estaticidade, sente medo. Na medida em que se é móvel, há os desafios a enfrentar, o desconhecido aparece a cada passo, a cada pensamento que vai mais além do já conhecido. Assim, é natural que a personagem se sinta com medo, no entanto, sobressai-se que, mesmo com medo, ele avança. Seguindo a metáfora das águas, percebemos em Roquentin o axioma heraclitiano. Roquentin não poder banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois a cada mergulho que faz, está diferente. Sua mente móvel já o levou a um outro patamar, a novas idéias, a novas formas de ser consigo e com os outros. Roquentin é uma personagem em constante devenir. Ele é um “ser em vertigem. Morre a cada minuto, alguma coisa de sua substância desmorona constantemente”, como diria Bachelard. (1998: 07)

Ligados à simbologia da água também estão os temas de vida, renascimento e purificação como afirmam Chevalier e Gheerbrant em seu Dicionário de símbolos 4. (1999: 15) Esses três temas, que estão, em essência, interligados, também encontram ressonância na característica de mobilidade da personagem principal do romance A náusea . A cada mergulho seu nas águas profundas de seu próprio ser, a personagem volta modificada, isto é, regenerada, revitalizada e sem as características ultrapassadas de seu próprio pensamento. Nesse sentido, metaforicamente, podemos dizer que a personagem volta purificada.

Outra cena importante que se passa no Café Mably é aquela em que Roquentin percorre várias ruas da cidade à procura de algo que não sabe definir bem o que é. É uma cena bastante intrigante, pois não falta a ela um quê de misticismo. Roquentin parece um hierofante, um advinho, prestes a receber a revelação. Vejamos o que diz a personagem:

Paro um instante, espero, sinto meu coração bater; vasculho com o olhar a praça deserta. Não vejo nada. Levantou-se um vento bastante forte. Equivoquei-me, a rua Basse-de-Vieille era apenas uma escala: a coisa está à minha espera no fundo da praça Ducoton . (p. 88)

Esse trecho salienta uma característica muito marcante do protagonista que é a do olhar. Com efeito, ele está sempre olhando, sempre observando, por isso ele pode ser classificado como um autêntico voyeur sem a conotação sexual. O protagonista olha à procura da “coisa” e não a encontra. Outro tema presente nesse trecho e em toda a passagem é o tema do caminhar o que faz do protagonista uma personagem móvel como já dissemos. Roquentin anda durante toda a narrativa. Seus inúmeros deslocamentos pela cidade de Bouville são a pé. Sempre olhando e observando as coisas e as pessoas. É dessa maneira que ficamos conhecendo as várias ruas que compõem Bouville. Nessa passagem, que ora analisamos, observamos esse mesmo aspecto. Obviamente, Roquentin, com essa sua característica, nos remete ao flâneur benjaminiano. Segundo Benjamin “a cada passo o andar ganha uma potência crescente; sempre menor se torna a sedução das lojas, dos bistrôs, das mulheres sorridentes e sempre mais irresistível o magnetismo da próxima esquina”. 5 (1989: 186)

Essa “potência crescente” que acomete o flâneur pode ser muito bem percebida nessa passagem de Roquentin. Ele intui que algo está a sua espera, mas não sabe exatamente onde. Daí, ele vai andando cheio de angústias em busca dessa intuição.

Torno a caminhar. O vento me traz o grito de uma sirene. Estou inteiramente sozinho, mas caminho como uma tropa que irrompe numa cidade. (...)

Diante da galeria Gillet já não sei o que fazer. Estarão à minha espera no fundo da galeria? Mas há também, na praça Ducoton, no fim da rua Tournebride, certa coisa que necessita de mim para nascer. Estou cheio de angústia: o menor gesto me compromete. Não posso adivinhar o que querem de mim. No entanto é preciso escolher: sacrifico a galeria Gillet, ignorarei para sempre o que ela me reservava. (p. 88)

 

Nessa passagem, verificamos a ânsia de caminhar, própria do flâneur, mas também temos a típica angústia do mesmo. Outro dado interessante do trecho acima citado é a opção que deve ser feita pelo flâneur, pois não é possível ver todas as coisas, é preciso abrir mão de algumas. E é o que faz Roquentin ao optar por seguir para a Rua Tournebride.

A praça Ducoton está vazia. Ter-me-ei equivocado? Acho que não o suportaria. É possível que realmente nada vá ocorrer? Aproximo-me das luzes do Café Mably. Estou desorientado, não sei se vou entrar: dou uma olhada através das grandes vidraças embaciadas.

A sala está abarrotada. O ar está azulado por causa da fumaça dos cigarros e do vapor exalado pelas roupas úmidas. (p. 89)

 

Assim, então, o protagonista chega a seu destino: o Café Mably. Entretanto, à primeira vista, ele pensa que se enganou, pois não encontra nada de anormal no café. Através do olhar, isto é, do distanciamento máximo entre espaço e ser, estabelece-se dentro da narrativa a oposição interior X exterior mais uma vez. O protagonista visualiza o interior do café, estando do lado de fora, encostado à vitrina. Justaposta a essa oposição, encontramos outra: cheio X vazio. O interior do café está abarrotado de pessoas que fumam. Já, do lado de fora, temos apenas a personagem e seu olhar inquiridor. Mas subitamente, ao analisar a caixa do café, ele tem uma revelação, seu momento de epifania.

A empregada que se encarrega da caixa está em seu balcão. Conheço-a bem: é ruiva como eu; tem uma doença no ventre. Apodrece suavemente sob suas saias, com um sorriso melancólico semelhante ao cheiro de violeta que às vezes exalam os corpos em decomposição. Arrepio-me da cabeça aos pés: era... era ela que me esperava. Estava ali, erguendo o busto imóvel por cima do balcão, sorrindo. Do fundo desse café algo retrocede para os momentos esparsos desse domingo e solda-os uns aos outros, dá-lhes um sentido: atravessei todo esse dia para chegar a esse momento, a testa apoiada nessa vidraça, para contemplar esse rosto delicado que desabrocha sobre uma cortina grená. Tudo parou; minha vida parou: esse grande vidro, esse ar pesado, azul como a água, essa planta carnuda e branca no fundo da água e eu próprio formamos um todo imóvel e pleno: estou feliz. (p. 89)

 

Acreditamos que nessa passagem o narrador instaura um dos temas capitais de toda a narrativa e também da filosofia existencialista que é a questão da morte. Temos aqui o que alguns filósofos chamam de experiência secundária da morte. Ou seja, outro está morrendo e o “eu” presencia essa morte. E esta morte provoca uma reflexão que, no caso do protagonista da narrativa, costura os acontecimentos do dia vividos por ela. E essa reflexão sobre a fugacidade do ser humano proporciona-lhe uma plenitude, uma felicidade. Note-se ainda a expressão “atravessei todo esse dia...”. Com efeito, desde a manhã desse domingo citado pela personagem ela está caminhando e, nesse caminhar, passa por diversos lugares: desde as ruas mais povoadas perto da igreja e do comércio, até as ruas menos povoadas num domingo, passando também pela praia e, ao final do dia, chegando ao Café Mably onde tem sua revelação. Trata-se, portanto, de um típico flâneur. E o mais interessante é que uma das características do flâneur é sua busca pelo próprio espaço. Como epígrafe ao seu famoso texto, Benjamin cita o autor Marcel Reja que faz a seguinte afirmação: eu viajo para conhecer minha geografia. (L'art chez les fous , Paris, 1907, p. 131) É justamente essa característica que justifica o título desta comunicação, ou seja, Em busca do espaço perdido . Roquentin busca seu espaço, sua razão de ser. Daí ele ter viajado bastante pelo mundo e agora estar em Bouville. Essa busca do espaço é a busca do próprio eu. Os espaços funcionam como espelho para o eu se ver e encontrar-se. É por isso também que o protagonista passa o domingo inteiro caminhando e observando e, ao encontrar seu destino, o dia termina bem como ele próprio afirma:

Atrás de mim, na cidade, nas grandes ruas retas, na claridade fria dos lampiões, um fantástico acontecimento social agonizava: era o fim do domingo . (p. 88 89)

 

Finalizando nossos comentários sobre essa passagem, note-se a presença mais uma vez do elemento água que vem reforçar todos aqueles sentidos que já mencionamos anteriormente.

Um outro acontecimento, ligado também à questão da morte e ao Café Mably é aquele em que, certa manhã, o dia amanhece completamente tomado por um nevoeiro denso. Nesse dia, Roquentin levanta-se e põe-se a caminhar. Podemos comprovar isso pela seguinte descrição:

O nevoeiro está tão denso no bulevar da Redoute que achei prudente caminhar rente aos muros do quartel(...) Havia gente à minha volta; ouvia o ruído de seus passos, ou às vezes o leve zumbido de suas palavras: mas não via ninguém. (p. 110)

Dessa maneira, enxergando pouco a sua frente, o protagonista chega mais uma vez ao Café Mably.

Finalmente, depois de uma meia hora vislumbrei ao longe uma névoa azulada. Guiando-me por ela, alcancei logo a borda de um grande clarão: no centro deste, traspassando a bruma com suas luzes, reconheci o Café Mably.

O Café Mably tem doze lâmpadas elétricas; mas só duas estavam acesas, uma sobre a caixa, outra na luminária do teto. O único garçom me empurrou à força para um canto escuro. (p. 110)

 

Ao fazermos uma topoanálise da obra literária, deparamo-nos com o conceito de ambiente, fácil de ser compreendido e exemplificado, mas não tão fácil assim de ser teorizado. Nessa passagem, por exemplo, percebemos alguns elementos que compõem o cenário e que criam um clima tétrico, mórbido. Pelas descrições que vimos, notamos que o dia está cheio de neblina, que está frio, que está escuro e que, mesmo não estando sozinho, a personagem age como se estivesse. Num primeiro momento, há um casal no café. Depois só ficam o narrador e o garçom e todas as luzes são apagadas o que aumenta ainda mais a escuridão. Pois bem, essas quatro figuras: nevoeiro, frio, escuridão e a pouca presença de pessoas atribui um clima psicológico ao Café Mably nessa ocasião. É o clima da morbidez, do azar, da morte, da negatividade. É a essa junção de cenário com um clima psicológico que se chama de ambiente. Temos então um ambiente propício à idéia de morte. E é justamente essa idéia que ocorre na cabeça da personagem em relação ao dono do Café Mably, pois ele estava atrasado para o trabalho. Vejamos a passagem:

A penumbra invadiu o café. Uma leve claridade, manchada de cinza e marrom, descia agora dos vidros altos.

— Gostaria de falar com o Sr. Fasquelle.

Não vira entrar aquela velha. Uma lufada de ar gelado me arrepiou.

— O Sr. Fasquelle ainda não desceu.

— Venho da parte da Sra. Florent — retorquiu ela.

— A Sra. Florent não está passando bem. Não virá hoje.

A Sra. Florent é a empregada da caixa, a ruiva.

— Esse tempo é ruim para a barriga dela — diz a velha.

O garçom tomou um ar importante:

— É o nevoeiro — responde —, é como o Sr. Fasquelle; espanta-me que não tenha descido. Telefonaram para ele. Normalmente desce às oito horas.

A velha olha maquinalmente para o teto.

— Está lá em cima?

— Sim, seu quarto é lá.

A velha diz com voz arrastada, como se falasse consigo mesma:

— E se tivesse morrido...

— Essa agora — o rosto do garçom exprimiu a mais viva indignação. — Essa agora, muito obrigado!

E se tivesse morrido. . . Esse pensamento me ocorrera. (p. 113)

 

Essa passagem é impressionante pela quantidade de índices que oferece a uma topoanálise mais acurada. Em primeiro lugar, é interessante notar as cores que povoam a visão de nosso voyeur. Logo na primeira linha, o narrador nos fala de “penumbra, leve claridade, cinza e marrom”. Não é necessário ser nenhum estudioso das cores para perceber que as cores citadas levam-nos a uma reflexão carregada de presságios. São cores escuras, nada alegres. Em nossa imaginação, como diria Bachelard, essas cores invocam idéias pesadas, negativas. Esse ambiente de escuridade e negatividade é reforçado quando o narrador afirma que o vento gelado o arrepiou. As figuras vento, gelado e arrepiou reforçam o sentido de morte, de agouro criado no Café Mably. E o tema da morte é retomado quase que explicitamente quando a mulher que entrara no Café vem justamente falar da Sra. Florent que não poderia trabalhar por causa da dor que sentia na barriga e, como vimos, essa dor se refere a um câncer que a corroía. Ou seja, mais uma vez o tema da morte é reforçado na passagem. Esse ambiente fúnebre criado é reforçado quando o garçom diz que o Sr. Fasquelle está atrasado para o trabalho e a senhora lança a hipótese, com sua voz de velha e “arrastada” como diz o narrador, de que o dono do Café poderia estar morto e o protagonista confirma a impressão da mulher. Também ele já havia pensado nessa possibilidade. Ora, nesse momento, percebemos a extrema coesão do texto, pois o ambiente carregado de negatividade, de agouros harmoniza-se perfeitamente com o tema da morte. O espaço homologa a ação da narrativa. Podemos falar inclusive de uma certa antecipação do enredo, tudo já indicava o desfecho. Na terminologia do teórico francês Gérard Genette, diríamos que houve uma prolepse.

É interessante notar também que a moradia do Sr. Fasquelle localiza-se “em cima”, ou seja, temos a instauração do eixo vertical alto X baixo. Assim sendo, temos o baixo, questionando o alto. E essa dúvida sobre a morte vai incomodar o protagonista durante todo o dia até ele descobrir que o Sr. Fasquelle não havia morrido, mas estava apenas resfriado. Entretanto, enquanto estava no Café, Roquentin fica deveras incomodado a respeito dessa dúvida. A ponto, inclusive, de fazer menção de subir as escadas para verificar realmente se o patrão do garçom estava ou não morto. Aliás, a descrição da escada, símbolo da verticalidade, é bastante interessante. Observemos:

A escada particular se perdia na escuridão. Mal se distinguia o corrimão. Era preciso atravessar essa escuridão.

A escada rangeria. Lá em cima encontraria a porta do quarto. . . (p. 114)

 

Ou seja, sempre a escuridão a dominar. Entretanto, é interessante notar que a frase ‘é preciso atravessar a escuridão' não deixa de ser simbólica. Em outras palavras, é preciso atravessar a escuridão para compreender a morte, ou para que ela não nos intimide mais ou para que possamos captar o verdadeiro sentido da morte e, por extensão, da vida. E a escada simboliza esse contato entre morte e vida. É o que podemos confirmar nas palavras de Chevalier e Gheerbrant:

Os diferentes aspectos do simbolismo da escada estão todos ligados ao problema das relações entre o céu e a terra.

A escada é o símbolo por excelência da ascensão e da valorização, ligando-se à simbólica da verticalidade. (1999: 378)

 

Para finalizarmos essa análise sobre o ambiente, observemos a seguinte passagem que encerra o trecho transcrito.

É bem o tipo de idéia que o tempo de nevoeiro estimula. A velha se foi. Deveria tê-la imitado: estava frio e escuro. O nevoeiro infiltrava-se por debaixo da porta, ia subir lentamente e afogar tudo. Na biblioteca municipal eu teria encontrado luz e calor .(p. 113)

 

Observemos como o protagonista opõe um novo espaço ao espaço do café. Ele instaura no texto um outro ambiente: a biblioteca. Enquanto no Café Mably existe o frio e a escuridão, na biblioteca há luz e calor. Portanto, o par Café Mably e Biblioteca formam uma antítese perfeita. No primeiro, temos a negatividade enquanto no segundo predomina a positividade. Essa é a segunda vez que o tema da morte aparece relacionado com os cafés. Outro fato que pudemos observar é que o espaço é instaurado dentro da narrativa pela descrição da personagem, isto é, vemos o espaço através da visão da personagem e de sua ação. Seguindo as sugestões de Osman Lins 6, podemos dizer que essa forma de instauração do espaço se chama espacialização dissimulada ou oblíqua .

Concluindo, temos que, no espaço fechado, interior dos cafés, principalmente do Café Mably, encontramos os principais temas discutidos pela narrativa e ligados à questão existencialista : a náusea, a solidão e a morte .

 

SARTRE, Jean-Paul. A náusea . Record/Altaya: Rio de Janeiro. 259 págs. 1996. Todas as nossas citações referentes a esse livro serão retiradas dessa edição.

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço . Martins Fontes: São Paulo. 242 págs. 1989.

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos . Martins Fontes: São Paulo. 202 págs. 1998.

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 13 a . edição. José Olympio Editora: Petrópolis. 996 págs. 1999.

BENJAMIN, Walter. O flâneur In Obras escolhidas. Vol III. Brasiliense: São Paulo. 235 págs. 1989.

LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco . São Paulo: Ed. Ática, 1976.