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As Máscaras do Cogito
Neide Coelho Boëchat (PUC-SP)
O ponto de partida dessa reflexão surge de um pressuposto fundamental no pensamento sartriano, a saber, a primazia da consciência. Ou seja, para Sartre, o homem é um ser sempre consciente. Tal pressuposto se configura, sem dúvida alguma, como bastante polêmico para uma sociedade que, principalmente a partir de Freud (1856 – 1939), tem suas condutas explicadas por uma instância psíquica inconsciente cujos conteúdos funcionam como fatores determinantes e condutores de seus comportamentos. O inconsciente se configurou, dessa forma, como a fonte da qual brotariam as causas explicativas das condutas aparentemente inexplicáveis. Por outro lado, tal noção se instalou e floresceu dentro do nosso corpo social como algo que lhe preencheria o vazio que atemorizava uma sociedade cujo Deus estava ameaçado de extinção. De fato, no final do século XIX a morte de Deus era anunciada por alguns pensadores como Nietzsche (1844 – 1900) e Marx (1818 – 1883) e divulgada ainda, principalmente, através da literatura de Dostoiévsky (1821 – 1881). A sociedade inaugurava, portanto, o século XX órfã do Pai Todo Poderoso e imersa no conflito trazido pela liberdade e a responsabilidade que a acompanhava.
A noção de inconsciente apresentada por Freud no início do século XX, veio de encontro a essa problemática como uma proposta sedutora e confortável: se, por um lado o indivíduo tinha sua liberdade assegurada pela morte de Deus, por outro, tinha a partir de então, sua responsabilidade aliviada pelo suporte do inconsciente. Entretanto, se, “sem Deus, tudo é permitido” como afirmava Dostoiévski, sem Ele, dizia Sartre, o homem está “só e sem desculpas”.
Para Sartre, o inconsciente é, na verdade, um postulado perfeitamente dispensável, pois, na plenitude da consciência de um homem, que é totalmente si mesmo, não haveria espaço para uma região psíquica de tal forma inacessível e obscura. Entretanto, precisamos tentar entender de forma cuidadosa, em que consiste, para ele essa primazia da consciência humana.
Partindo do princípio já defendido por Brentano e depois pesquisado por Husserl de que “toda consciência é consciência de alguma coisa” Sartre caracterizava essa transfenomenalidade de forma radical. Ou seja, dizer que a consciência “ é” sempre consciência de alguma coisa significa que se trata de um ser que está sempre voltado para um ser transcendente, para um ser “outro” com o qual ela busca incessantemente e, sem sucesso, coincidir. Essa intencionalidade, enquanto característica fundamental da consciência faz dela um não-ser.
Sartre aponta ainda na consciência uma duplicidade que deve ser explicitada em uma unidade mais profunda: enquanto intencionalidade, ela está sempre dirigida para fora relacionando-se com o Em-si. Mas, por outro lado, ela está também voltada para si própria, pois permanece presa a si sem conseguir abandonar-se. Sartre a denomina então de Para-si e a define finalmente como um “ser que é o que não é e que não é o que é”, pois o que é, é o Em-si, pronto e acabado. O Para-si nada mais é, portanto, que pura relação com o mundo, pura transparência, pura aparência e totalmente vazio de conteúdo.
Na relação fenomênica entre o Em-si e o Para-si, ou seja, na transcendência da consciência rumo ao Em-si, este ser que, em si mesmo, é totalmente indeterminado, passa a sofrer a determinação e um sentido que lhe é atribuído pela consciência. É o Para-si que dá ao Em-si um sentido que em si mesmo não tem sentido algum. O Para-si, na relação de conhecimento com o Em-si, nada acrescenta a este e nem o modifica, mas dá-lhe um sentido. A consciência humana é, dessa forma uma doadora de sentidos; é o único ser pelo qual as significações aparecem no mundo; é, intermitentemente atividade significativa. Essa atividade constante constitui-se numa situação dramática, pois o fato de ter como única função trazer sentido às coisas do mundo, abriga, em si mesmo, uma antinomia: por um lado a consciência é livre para dar ao mundo o sentido que escolher mas, por outro, não pode deixar de escolher e de lhe dar um sentido. Escolher e existir são uma só e mesma coisa. O esforço perpétuo exigido por esse exercício de escolha e significação do mundo, leva o homem, muitas vezes, a não aceitar o seu papel, adotando diversas formas de escapar a essa sua atormentada responsabilidade Tais atitudes se caracterizam por um mecanismo denominado por Sartre como um fenômeno de má-fé.
A má-fé – esse conceito-chave na teoria sartriana – se caracteriza como um recurso semelhante ao da mentira, mas com a peculiar diferença de que no jogo desta última estão envolvidas duas consciências: a do enganador e do enganado. Na má-fé, ao contrário o enganador e o enganado se assentam sobre uma mesma consciência. Podemos dizer que a má-fé é uma mentira de si a si mesmo, ou seja, o enganador está inteiramente consciente do engano que ele mesmo formula para si. Assim sendo, a má-fé nada mais é segundo Sartre do que “uma mentira sem mentiroso”. A importância desse fenômeno reside no fato de que seu mecanismo impede o sujeito de tomar conhecimento de suas tendências, tornando-se o obstáculo que impede o conhecimento de si. Temos então, diante de nós, o problema da consciência como mentira, ou seja, a consciência como uma construtora de máscaras que vão dificultar a possibilidade do conhecimento de si.
Sartre elabora seu conceito de má-fé com base em um pressuposto epistemológico fundamental, a saber, “ter consciência não significa necessariamente ter conhecimento”. Consciência e conhecimento são duas coisas distintas: se existe consciência, podemos afirmar que existe também um ser; é uma condição suficiente. Diferentemente, no conhecimento o ser existe enquanto possibilidade o que significa que no conhecimento pode ocorrer a revelação de um ser, mas pode ocorrer também a revelação de um não-ser. Logo, eu posso estar consciente de algo sem, no entanto, conhecê-lo. A grande questão se instala no momento em que esse algo é a própria consciência. Sartre tenta resolver essa questão, nos mostrando que existem dois tipos de consciências: a consciência não-cognoscente e a consciência cognoscente, ou seja, uma consciência imediata e não reflexiva que acompanha muitos dos nossos atos cotidianos e uma consciência reflexiva que posiciona o objeto com a intenção de conhecê-lo. Mas é fundamental que se compreenda que toda consciência posicional do objeto é, ao mesmo tempo consciência não posicional de si.
Isto é, quando posiciono o objeto com a intenção de conhecê-lo, não posiciono a minha própria consciência, mas ela é, nesse momento a condição de possibilidade para uma posterior reflexão; A essa consciência imediata e não posicional de si Sartre denominou de cogito pré-reflexivo. Em um primeiro momento, todo esse processo reflexivo parece estar edificado sob duas consciências distintas, entretanto é uma dualidade apenas aparente, pois essas duas formas de consciências são separadas por um nada de ser formando um todo único e indissolúvel. Logo, esse processo reflexivo se dá na unidade de uma única consciência que em sua estrutura mais profunda se caracteriza, como já vimos, por um ser que não-é, ou seja, por um não-ser.
O nó de toda esta questão reside na passagem desse cogito pré-reflexivo para cogito reflexivo que, posteriormente, garantiria a possibilidade do conhecimento de si. Caberia então perguntar: se a reflexão é um processo posterior à consciência imediata e irreflexiva, o conhecimento vai ocorrer sempre sobre um ser passado.Seria possível uma reflexão para um ser que só pode ser no passado? Seria possível posicionar nossa consciência imediata e irrefletida a fim de operar sobre ela uma reflexão a fim de conhecê-la?
De fato, Sartre observa que “conhecer é fazer- se outro”, mas, no momento em que uma consciência torna-se objeto de reflexão, ela sofre uma modificação em seu ser e perde sua autonomia. Essa modificação se deve ao movimento realizado pela consciência reflexiva que em sua ipseidade, significa seu ser passado, projeta-o no futuro e volta ao presente resignificando-o, então, em função daquele futuro projetado. Nesse circuito, com a tentativa de recuperar seu ser, a consciência opera como que uma fuga e perde-se de si mesmo. Ou seja, com a resignificação a consciência refletida se modifica, torna-se “outra” que nada mais é, segundo Sartre, que a Psique . Logo, essa tentativa de objetivação e interiorização que vem a constituir a reflexão, fica dessa forma, condenada ao fracasso: A Psique, essa consciência objetivada, posicionada como um objeto exterior e modificada pela ação reflexiva constitui-se como o ” logro da reflexão ” A consciência originalmente transcendental, pela reflexão, constituiu um ser transcendente, um outro que não é ela, mas, com o qual, tem que coincidir, operando, a partir daí, uma ontificação que vai constituir o que Sartre denomina de Ego Psíquico. Dessa forma, temos então um Ego Psíquico cuja constituição se deu de forma distorcida, pela síntese objetivada da interioridade da consciência irreflexiva com a transcendência da consciência reflexiva. Vale ressaltar que este Ego psíquico não existe na consciência imediata e irreflexiva; nesta consciência o que encontramos é o ego empírico e psicofísico. O Ego Psíquico, diferentemente, é um produto da consciência reflexiva, um produto que surge posteriormente ao vivido concreto, de forma opaca, como um Em-si cujo ser não se reduz ao seu aparecer. Sartre observa ainda que a apreensão desse Ego psíquico pela consciência se dá sempre de forma indireta, “pelo canto do olho”, dizia ele. Sempre que voltamos nosso olhar para o ego, ele se dissipa e recaímos no plano irreflexivo. Com isso, afirma Sartre, que o conhecimento que temos do nosso ego fica alterado pela forma fantasmagórica pela qual ele é apreendido. ”Eis porque – dizia ele - o homem é sempre um feiticeiro para o homem”. De fato, na medida em que esse movimento se dá no interior de uma mesma consciência que mantém em sua unidade a reflexão e o refletido, essa síntese que é o ego psíquico – por essa sua proximidade com a consciência transcendental - só pode ser apreendido de forma indireta. Daí o conhecimento degradado e alterado que temos de nossa psique.
Frente à complexidade desse quadro, poderíamos, então perguntar: Qual a possibilidade da consciência reflexiva estabelecer um efetivo conhecimento de si? Ou, de que forma a consciência irrefletida poderia manter sua autonomia e sua independência em relação à reflexão? Se a reflexão introduz em nossa vida uma modificação essencial, teremos, a partir de então, que colocar em dúvida o valor e o poder da reflexão, como instrumento de um efetivo conhecimento da consciência e, conseqüentemente os resultados de uma ciência da consciência e de toda a fenomenologia.
A questão, para Sartre, não está em procurar o conhecimento de si, mas sim em entender de que forma se dá a passagem da consciência imediata e irreflexiva para uma consciência reflexiva o que significaria uma retomada da consciência não-tética por si mesma, num esforço de recuperação de si. Nesse caso, o que está em jogo é o próprio ser da consciência e o ser da consciência é ser sempre questão sobre seu próprio ser. Logo, é preciso considerar que a consciência, em sua existência absoluta, não é apenas o “si mesmo”; o que ela é depende do questionamento que ela mesma se faz a cada momento da construção de si. Por outro lado é sempre possível para o indivíduo chegar à verdade de sua escolha mais original, pois esta já é vivida por ele de forma pré-reflexiva; ele não tem, é verdade, conhecimento dela, mas tem consciência de sua existência. Entretanto, como ele tem sempre uma compreensão pré-ontológica de suas condutas e, uma vez que estas condutas são todas simbólicas e conscientes, torna-se possível, através de uma decisão intuitiva do próprio sujeito, decifrá-las e conhecê-las.
A dificuldade no alcance desse conhecimento se deve ao fato de que a realidade humana é sempre de má-fé. Entretanto, se nas atitudes de má-fé há uma raiz desconhecida, esta mesma raiz não está localizada em algum nível obscuro de instância inconsciente. O que ocorre é que esta atitude foi vivenciada de forma pré-reflexiva. A má-fé que impediu o conhecimento se deu por um jogo entre duas estruturas da consciência, a saber a transcendência e a facticidade. Pela transcendência o sujeito escapa colocando-se em um plano inatingível por qualquer crítica e, pela facticidade ele se faz ser do modo de ser da coisa, ou seja, de um em-si. No jogo entre essas duas estruturas, a ma-fé nadifica o sentido de uma para a firmar o sentido da outra; atinge a consciência temporal e toma o passado pelo presente. A duplicidade da má-fé revela-se ainda na ambigüidade contida na relação com o outro: pela minha transcendência escapo do que sou e me vejo com os olhos do outro. A partir daí passo a agir como aquele ser constituído pelo olhar do outro.
Diante de tais pressupostos, a hipótese de uma instância psíquica inconsciente que explique os atos humanos surge, para Sartre como algo dispensável. Para ele, a cisão entre duas esferas consciente e inconsciente faz dessa última um outro que não sou eu. Os fatos psíquicos que não constato em minha realidade consciente são recebidos por mim passivamente e, uma vez que não tenho consciência desses fatos, eles são o outro, isto é, eu não sou estes fatos. Isto reforça um determinismo vertical que remete necessariamente ao passado do sujeito. Entretanto, aponta Sartre, é preciso considerar que um ato só se explica através de um projeto futuro, pois todo ato é sempre intencional; ele é compreensível exatamente porque remete a um conteúdo racional – aos possíveis que eu sou – imediatamente captáveis e compreensíveis pelo princípio de ipeseidade, ou seja, por um percurso do futuro em direção ao presente.
Essa rápida exposição não dá conta de apontar com profundidade as prerrogativas estabelecidas por Sartre ao elaborar uma teoria para a compreensão da realidade humana; teoria esta, que aponta para os caminhos de uma psicanálise existencial cuja pedra fundamental se assenta sobre a primazia e a inteireza da consciência humana. Essa proposta requer o surgimento do homem em toda a sua plenitude, através da translucidez de sua consciência; sem subterfúgios e sem álibis deterministas, sejam eles Deus ou o inconsciente ou ainda qualquer valor que venha limitar sua autonomia. Sem dúvida alguma, era - e ainda é hoje - uma proposta que vem comprometida com profundas mudanças morais, pois um homem sempre consciente implica conseqüentemente em um homem sempre livre e responsável por todos os seus atos, o que, por sua vez, o coloca no caminho da angústia da responsabilidade. A possibilidade dessa psicanálise, portanto, encontra ainda inúmeros obstáculos e vale lembrar aqui a citação do próprio Sartre:
” esta psicanálise ainda não encontrou o seu Freud (...) e pouco importa se ela exista ou não, para nós o importante é que ela seja possível. ” 1
A sua importância reside, na verdade, na raiz de sua proposta, ou seja na busca da idéia de reestruturação da subjetividade, arquitetada sobre o solo da responsabilidade-sem-desculpa. Isto é, a idéia de uma realidade humana consciente que leve em conta o universal sem perder de vista a sua singularidade. Ou seja, ainda, a idéia de uma realidade humana cuja consciência que a tudo nadifica, e que a tudo dá um sentido, nadifique seus atos, nadifique os objetos, nadifique todos os fatos, reconstituindo-os pela ipseidade, com um novo olhar, mas, sobretudo, com a responsabilidade de afirmar o não-ser de sua existência como a única fonte de todo sentido
SARTRE, Jean-Paul. L'être et le néant – Essai d'ontologie phénomenologique. Édition corrigée avec index par Arlette Elkaim-Sartre. Gallimard. Paris . 2001.
SARTRE, Jean-Paul. A transcendência do Ego . Trad. Pedro M. S. Alves. Colibri. Lisboa.1994.
1 – Sartre, Jean-Paul. L”être et le néant . Édition corrigée avec index par Arlette Elkaim-Sartre . Gallimard, Paris , pág. 620.