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Sartre: metafísica e liberdade
Marcos Giusti (Universidade Estácio de Sá)

O existencialismo sartriano talvez tenha sido, no século XX, a filosofia que desenvolveu de maneira mais aguda uma meditação sobre o tema da liberdade. Com Sartre, não se trata mais de pensar a liberdade como um atributo do homem, mas de concebê-la como o próprio ser do homem. Este é incondicionalmente livre, porque não há nenhuma determinação para o seu existir, além da própria contingência da existência.

“O homem está condenado a ser livre” (Sartre: 1943, p.484). O ser do homem só se realiza na plenitude da liberdade. Esta, por sua vez, é equiparada à consciência que transcende o “ser-em-si”, para atualizar-se como “ser-para-si”.

Destarte, podemos inferir que, em Sartre, o conceito de liberdade prescinde de um fundamento primeiro, de um inconcusso, ou se quisermos, de uma verdade inicial que lhe dê lastro. O próprio filósofo assente com a nossa observação ao proclamar que "não pode haver outra verdade no ponto de partida senão esta: eu penso, logo eu sou; esta é a verdade absoluta da consciência ao atingir a si própria" (1946, p.63). Portanto, indiscutivelmente, há um princípio fundamental que instaura todo o processo do existir, sendo este o cogito, ou seja a consciência reflexiva.

À primeira vista, Sartre recorre ao conceito de subjetividade tal como o pensou Descartes. A consciência é pensamento que se pensa, que se sabe enquanto pensamento e que se diferencia do mundo consoante sua própria constituição.

Sabemos que a metafísica moderna nasceu sob a égide do cogit o cartesiano. A res cogitans constituiu-se como o pilar de toda uma filosofia da consciência, que atravessou os séculos e marcou contundentemente o pensamento ocidental. A ontologia proposta por Sartre em O Ser e o Nada também se insere nessa tradição. Desta filiação filosófica podemos concluir que, em Sartre, restam intatos os mesmos fundamentos metafísicos que foram instaurados pelas meditações cartesianas. De início, a noção de que há um primeiro princípio incapaz de ser tocado pela dúvida: o cogito. Em segundo lugar, a dicotomia sujeito-objeto, à qual Sartre irá inserir no âmbito da ontologia existencial, e que sempre esteve relacionada, na modernidade, à teoria do conhecimento.

Mas será que o nosso filósofo é inteiramente cartesiano? Até que ponto vai a fidelidade de Sartre ao cogito cartesiano? Como se dá, no interior da ontologia sartriana, a recepção do conceito de subjetividade elaborado por Descartes?

Para responder ao primeiro de nossos questionamentos, nada melhor do que o próprio testemunho de Sartre que afirmou, em entrevista publicada na Magazine Littéraire: "eu penso ser um filósofo cartesiano, ao menos em O Ser e o Nada " (2000, p. 41). Mas se Sartre se diz cartesiano em seu tratado ontológico, cabe ressaltar que esse cartesianismo não é puro. O texto de sua obra de 1943 encontra-se eivado pelo pensamento de outros filósofos como Husserl, Heidegger e Hegel.

Se o cogito cartesiano é o ponto de partida para a elaboração da filosofia existencialista de Sartre, pois como afirma Gerd Borheim, o filósofo francês "não abandona e nem sequer pergunta pela legitimidade dos pressupostos do pensamento de Descartes" (2003, p. 18), o seu itinerário até a composição do conceito de "realidade humana" como "ser-para-si" não será menos sinuoso e sem desvios estratégicos.

Um desses desvios concerne ao problema do solipsismo da consciência. Em Descartes o cogito é extraordinariamente interior, sendo atingido por intermédio do procedimento metódico de duvidar. Ao termo desse processo, resta apenas a consciência que se encontra presa em si mesma e à parte do mundo. Quando o filósofo finalmente pronuncia ego sum res cogitans , está afirmando a substancialidade do cogito, o qual tem existência em si e por si mesmo.

A reflexividade do pensamento só é possível, na filosofia cartesiana, à medida que este se iguala à consciência. Assim, não é a consciência que pensa, antes, ela é o próprio pensamento. Por sua vez, a existência nada mais é do que uma intuição do cogito: existo pensando, penso existindo. Uma identidade absoluta percorre o cogito cartesiano. Em certo sentido, usando a terminologia sartriana para nos referirmos à consciência, podemos então dizer que o cogito, para Descartes, é “um ser-em-si”.

A partir do que dissemos acerca do cogito cartesiano, adivinha-se qual será a opção escolhida por Sartre: a exterioridade da consciência. O filósofo existencialista opta por buscar o fundamento do cogito fora do próprio cogito, descaracterizando, pois, a natureza substancial que lhe havia dado Descartes. Vejamos o que diz Sartre em O Ser e o Nada :

O erro ontológico do racionalismo cartesiano foi o de não ter visto que, se o absoluto se define pelo primado da existência sobre a essência, ele não poderia ser concebido como uma substância. A consciência não tem nada de substancial, é uma pura “aparência”, no sentido de que ela só existe à medida que aparece para si mesma. Mas é precisamente porque ela é pura aparência, porque ela é um vazio total (já que o mundo inteiro está fora dela), é por causa dessa identidade nela entre aparência e existência, que ela pode ser considerada como o absoluto (1943, p.23).

 

Portanto, de acordo com o entendimento de Sartre, a consciência é, inicialmente, distância de si mesma. Isto significa que somente distanciando-se de si ela pode ser para si, ou seja, aparecer para si mesma. Nessa perspectiva não há qualquer identidade no interior da consciência, uma vez que ela é “um vazio total”. Não possuindo identidade em-si mesma, a consciência é pura diferença, o que a faz buscar seu complemento fora dela mesma, no mundo.

Neste ponto, chegamos a uma interessante apropriação, por parte de Sartre, do pensamento heideggeriano. Interessante não apenas pela perspicácia do filósofo francês, que de algum modo pretende revestir o cogito cartesiano com a idumentária da ontologia existencial, mas também porque toma emprestado conceitos que, em sua origem, são extremamente anticartesianos. Por exemplo, a idéia de que o ser do homem – o “dasein”, segundo a expressão de Heidegger, que Sartre, adotando a tradução de Corbin, chama de “realidade humana” – encontra-se lançado no mundo, sem nenhuma constituição prévia além do “Ser”.

Ora, a analítica existencial de Heidegger tem como princípio destituir quaisquer fundamentos metafísicos no que diz respeito à existência humana. Não é possível, então, afirmar o primado do sujeito. O homem, do ponto de vista heideggeriano, é um ente, ou seja, uma manifestação “ek-stática” do ser que se lança no mundo.

Ao que tudo indica, Sartre conhece muito bem a filosofia do autor de Ser e Tempo , já que lhe dirige algumas críticas, sobretudo no que tange à questão do fundamento. Como vimos anteriormente, para o filósofo francês a metafísica não é um problema. A subjetividade constitui o ponto de partida de seu ensaio ontológico.

Não obstante as reservas que possa ter em relação ao pensamento heideggeriano, Sartre lança mão de vários conceitos cunhados no interior da reflexão do pensador alemão. Interessa-nos, sobremaneira, o conceito “ser-no-mundo”, que na filosofia sartriana torna-se o antípoda do ensimesmado cogito cartesiano e, ao mesmo tempo, pressupõe a contingência da “realidade humana”.

Em Sartre, a consciência exterioriza-se no mundo e somente enquanto exteriorização ela é capaz de se auto-reconhecer. O que quer dizer que a consciência não é imediatamente consciência de si mesma, reflexiva. A princípio ela é consciência do mundo para o qual ela se exterioriza. Em outras palavras, há um cogito pré-reflexivo paralelo ao cogito reflexivo. Com isso, Sartre nos diz que a reflexividade não é o modo próprio de ser da consciência, embora, de alguma maneira, toda consciência de algo já pressuponha, subliminarmente, a conscientização de que se tem consciência desse algo.

Entre o cogito pré-reflexivo e o cogito reflexivo abre-se uma fissura, através da qual escorre toda a substancialidade que Descartes havia atribuído à consciência. A pré-reflexividade é a condição necessária para que a consciêcia torne-se consciência de si. Assim, o aparecer da consciência para si mesma pressupõe “o descolamento do ser em relação a si” (Sartre: 1943, p.113).

Se o cogito cartesiano repousa sobre sua identidade absoluta, o mesmo não pode ser dito quanto à concepção sartriana. O conceito “ser-no-mundo”, tomado emprestado de Heidegger, sinaliza a impossibilidade de haver um “em-si” da consciência. Ela é desde sempre transcendência, ultrapassagem de si mesma em direção ao que lhe é exterior. Eis o que distingue o “ser-em-si” do “ser-para-si”. Aquele é pleno, opaco, fechado em sua própria identidade. Por outro lado, o “para-si” é o vazio que busca a sua completude fora de si mesmo. Encontramo-nos, aqui, diante do antigo tema parmenidiano do “ser” e do “não-ser”. Sem qualquer dúvida, podemos afirmar que o “para-si” é o “não-ser” que se dá a partir de um fundo de “ser”.

“Não-ser” ou “nada de ser”, a cosciência, para Sartre, é quem nadifica o “em-si”, tornando-o “para-si”. A negação vem ao mundo por intermédio da “realidade humana”, para quem o mundo é o “não-ser” de si mesma. Entretanto, não há outra saída para o homem, já que ele está condenado a existir, o que em outras palavras significa dizer que a condição mais própria da “realidade humana” é a de lançar-se para fora de si mesma e, a cada instante, constituir-se como um “não-eu”. Com o que acabamos de escrever, queremos afirmar a tese preliminar do existencialismo de que a existência precede a essência.

Retomando nossas interrogações iniciais acerca do cartesianismo de Sartre, parece-nos evidente a dívida que este último tem em relação a Descartes. Sem o cogito como princípio fundamental restaria impossível a tarefa do pai do existencialismo francês. Contudo, devemos considerar a distância que os separa, não apenas temporal, mas também filosoficamente. Esse afastamento manifesta-se mais claramente quando examinamos a concepção metafísica de cada um de nossos filósofos.

Descartes, como bom racionalista, fixa o princípio metafísico nos conceitos de identidade e substancialidade. A consciência é idêntica a si mesma, segundo seu modo próprio de intuir-se: “eu sou uma coisa que pensa” (Descartes: 1987, p. 21). Em outras palavras, a identidade da consciência dá-se em sua própria substancialidade. Dizer que a consciência é alguma coisa é o mesmo que afirmar a sua hecceidade. Sartrianamente falando, a consciência cartesiana é um “ser-em-si”.

Eis onde encontra-se o ponto de bifurcação para o percurso metafísico sartriano: a consciência é “ser-para-si”, ou seja, o princípio fundamental da metafísica de Sartre não se encontra mais eixado nem na identidade, nem na substancialidade. O “Nada” imiscui-se no “Ser” e rouba-lhe a plenitude. Desde então a negação toma o lugar da identidade e a diferença aflora na aridez das semelhanças. A consciência, para Sartre, passa a ser pensada como distanciamento de si. Encontramos uma bela analogia entre o pensamento sartriano e as palavras de Alberto Caeiro : “Não sei o que é conhecer-me. Não vejo para dentro./ Não acredito que eu exista por detrás de mim” (Pessoa: 2001, p.166).

“Sartre é inteiramente cartesiano? Até que ponto vai a fidelidade de Sartre ao cogito cartesiano? Como se dá, no interior da ontologia sartriana, a recepção do conceito de subjetividade elaborado por Descartes?” Foram estas questões que nos instigaram a pensar e que nos conduziram até aqui. Talvez, à guisa de conclusão, possamos dizer que haja um cartesianismo sartriano, o que já nos deixa entrever uma espécie de contaminação, de impureza, de ensujeiramento da concepção filosófica de Descartes por Sartre. Pois ainda que o cogito mantenha-se como o príncípio do filosofar de ambos, separam-nos a interioridade e a exterioridade, o desejo de perder-se na multidão de Amsterdã, de Descartes, e a certeza de não poder deixar de ser visto, de Sartre.

 

Referências bibliográficas:

 

BORNHEIM,Gerd. Sartre. Metafísica e existencialismo . 3 a edição. São Paulo: Perspectiva, 2003, 315 pp.

DESCARTES, René. Les Méditations métaphysiques . Paris: Bordas, 1987, 192 pp.

PESSOA, Fernando. Poesia/Alberto Caeiro . São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 306 pp.

SARTRE, Jean-Paul. L'Être et le néant . Paris : Gallimard, 1943, 687 pp.

_____. L'Existentialisme est un humanisme . Paris : Nagel, 1946, 141 pp.

_____. Une vie pour la philosophie . Entretien avec la participation d'Oreste Pucciani, Susan Gruenheck et Michel Rybalka. Magazine Littéraire n o 384. Paris , pp. 40-47.