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As Aporias da Amizade em Sartre
Deise Quintiliano Pereira (UERJ)

O direcionamento filosófico dos estudos da amizade é historicamente recente. Na introdução da coletânea dedicada a essa matéria, intitulada Friendship. A philosophical reader (Kapur Badhwar, 1993, p. IX), seu organizador, Neera Kapur Badhwar, ressalta o crescimento do interesse por essa problemática, sobretudo a partir dos anos 70.

A renovação desse interesse é corroborada por inúmeras publicações e eventos, a exemplo da realização do V Congresso Internacional de Estudos Sicilianos, que teve como tema geral “L'amicizia e le amicizie”, conforme relata Francesco Alberoni (1995, p. 8) 1. No texto Amizade e estética da existência em Foucault , Francisco Ortega (1999, p. 12) define a amizade como:

 

Um convite, um apelo à experimentação de novas formas de vida e de comunidade. Reabilitá-la representa introduzir movimento e fantasia nas rígidas relações sociais, estabelecer uma tentativa de pensar e repensar nas formas de relacionamento existentes em nossa sociedade que são poucas e simplificadas.

 

Mas, o que é a amizade? O que significa ter um amigo? O que é ser amigo? Seria possível concebermos a amizade como uma propulsão vigorosa na busca do autoconhecimento? Não foram poucas as abordagens filosóficas, sociológicas, antropológicas, éticas ou políticas que buscaram responder a tais questões.

Algumas constantes remetem a um certo cânone nos estudos da amizade – a adesão às idéias de família, de fraternidade, de igualdade, de simetria, o espaço androcêntrico da política, a confraria. Observamos nesse movimento um tipo de amizade institucionalizada, horizontalizada, sem nenhum espaço para a experimentação ou para a criação de novas rotas de reflexão. Trata-se do modelo da philia-amicitia , próprio da Antigüidade, no qual sobressai todo um sistema de coações, hierarquias, tarefas e obrigações.

Nos últimos anos apareceram várias tentativas de se repensar a amizade, sobretudo através dos esforços analíticos empreendidos por Foucault, Bataille, Blanchot, Arendt e Derrida. Esses pensadores operaram uma verdadeira revolução da concepção clássica da amizade , à medida que incorporaram a esse termo as noções de diferença, alteridade, conflito - enfim à medida que resgataram um certo “agonismo” inerente às relações que se estabelecem entre os pares implicados.

Como bem lembra Ortega (1999, p. 27 e p. 157), falar de amizade é falar de multiplicidade, intensidade, experimentação, desterritorialização. É oferecer uma alternativa às tradicionais e desgastadas formas de relacionamento como a família e o matrimônio.

Do mesmo modo que em suas composições ficcionais, nos textos que expressam suas relações de amizade, o escritor Jean-Paul Sartre demonstraria a necessidade de uma resistência conflituosa, realizada por meio de exercícios dialéticos, para que esses laços pudessem ser “reconhecidos”. Isso pode ser verificado na maior parte de seus portraits 2, dedicados a seus amigos ou a personagens que lhe serviam de referência, como Nizan, Merleau-Ponty, Gide, Camus, Sarraute, Tintoretto, Giacometti, dentre outros.

O rigor com que trata seus adversários, que no desenvolvimento dialético transmudam-se incessantemente em amigos ou aliados (ou vice-versa), é o mesmo rigor com que se refere a si próprio. Essa leitura é reforçada pela hipótese de Geneviève Idt 3 segundo a qual, ao responder duramente à carta de seu amigo Albert Camus, em 1952, Sartre teria dado uma pista de que já estava desenvolvendo o seu projeto (auto)biográfico, como um projeto de autocrítica: “se você me acha cruel, não tema: brevemente falarei de mim mesmo no mesmo tom [...] porque você é absolutamente insuportável, mas mesmo assim, você é meu “próximo” por força das circunstâncias” 4.

No momento em que se refere a Merleau-Ponty 5, Sartre remete inicialmente ao pensamento de Montaigne, recuperando o topos clássico da amizade, expresso por Aristóteles e Cícero: “Quantos amigos eu perdi que ainda vivem: porque eram eles, porque era eu” 6. Tal procedimento, contudo, é apenas preparatório para a ultrapassagem das premissas clássicas da philía , baseadas na reciprocidade, na identidade e na homologia: “Éramos iguais, amigos, não idênticos: compreendêramos isso imediatamente e nossas diferenças no início nos divertiam” 7. Essa idéia é reiterada ao longo do panegírico dedicado a Merleau:

 

O que pode me interessar nessa aventura – que vivemos, ambos, penosamente – é que ela mostra por que meios a discórdia pode nascer no seio da amizade mais fiel e do acordo mais estreito. [...] Formamos durante algum tempo um par estranho : dois amigos que se adoravam, mas cada um recrudescia na oposição ao outro e que dispunham, os dois, de uma única voz 8.

 

Definido por Sartre como seu melhor amigo, Paul Nizan surge, em primeira análise, como uma espécie de espelho, capaz de refletir sua imagem ideal: “Disse-se muito tempo na escola normal: ‘Sartre e Nizan' e a representação era tão forte que acontecia de sermos tomados um pelo outro. Muito tempo depois atribuíam a mim Antoine Bloyé e pensava-se que Nizan fosse professor no Havre” 9 Annie Cohen-Solal 10 também reconhece que “ Nitre e Sarzan tornaram-se naqueles anos as verdadeiras mascotes da turma”.

Em Nizan, poderiam inscrever-se, então, os pressupostos aristotélicos da proté philía – alter ego ideal que possibilitaria a realização da “amizade por excelência” ou “amizade de virtude”. Todavia, Nizan apresenta-se como duplo-invertido de Sartre: “ele era vesgo como eu, mas no sentido oposto, isto é, agradavelmente. O estrabismo divergente fazia do meu rosto uma terra estéril, o seu convergia, dava-lhe um ar de maliciosa ausência, mesmo quando ele prestava atenção em nós” 11.

Muito mais do que a identidade, é a lógica dessa diferença, dos conflitos e das dissensões radicais o elemento que define os fortes laços de “amizade” que sustentam essa relação: “Nizan era um desmancha-prazeres. Ele convocava às armas, ao ódio: classe contra classe, com um inimigo paciente e mortal, não há acomodação possível, matar ou deixar-se morrer, sem meio-termo” 12.

Instaurando o império do “outro” e produzindo dificuldades, a lógica da diferença funda, assim, a estrutura dialética que sustenta a maior parte dos textos sartrianos. Componente fundamental da “amizade”, considero que seja também a lógica da diferença e da alteridade que leve o escritor a debruçar-se, por mais de uma década, sobre o maior e mais audacioso projeto de sua vida – a confecção de L'idiot de la famille. Nessa obra, Sartre reúne métodos psicanalistas e marxistas na tentativa de explicar um homem:

 

Lia durante os meus raros momentos de descanso L'éducation sentimentale de Flaubert. Como é desajeitado e antipático. Que besteira essa hesitação constante entre a estilização nos diálogos e as pinturas e o realismo. [...] Por exemplo : « um vento leve soprava  ». Mas o que pode fazer o vento senão soprar ? Seria melhor então escrever « vento leve », como Loti. É um pouco por horror a tudo isso que eu escreveria « havia um vento leve », porque o « havia », vago e indefinido, não pressupõe a seqüência e a frase termina com força. A frase de Flaubert termina sempre enfraquecida 13.

 

O assunto retornaria em carta enviada ao Castor, em 6 de dezembro de 1939, na qual o escritor deixa transparecer a ambigüidade de seus sentimentos com relação à obra flaubertiana:

 

Li L'éducation sentimentale de Flaubert tomando notas sobre seu estilo que é execrável. O que você pensa dessa frase : « isso descia nas profundezas de seu temperamento e tornava-se quase uma maneira geral de sentir, um novo modo de existir » ? É isso aí, entretanto, o que escreve um sujeito a quem se atribui a reputação de hábil estilista. É de dar dó. Mas interessante apesar de tudo 14.

 

Como que se tornando uma obsessão, o escritor retomaria o tema Flaubert, em tom exasperado, em nova carta enviada ao Castor, no dia seguinte, 7 de dezembro de 1939: “não agüento mais ler L ' éducation sentimentale. É muito estúpido e além do mais tenho horror do excesso de delicadeza daquele tempo [...] e depois, além de tudo isso, é uma merdice abominável. E mal escrito. Vou passar para Marivaux” 15.

Ao explicar-se a Madeleine Chapsal sobre suas opções por escrever sobre Flaubert, Genet e Mallarmé, essa postura seria ratificada, duas décadas mais tarde: “os três casos são diferentes, [...] e depois, por que eu não tentaria explicar essa mistura de admiração e de profunda repulsão que Madame Bovary provocou em mim desde a adolescência” 16.

Nas rememorações sartrianas de infância, a ambigüidade que caracteriza a obra de Flaubert determina uma certa incompreensão de Poulou - cognome do jovem Sartre - de alguns de seus aspectos. Este fato já constituía um problema para o narrador de Les mots , fortalecendo essa direção de análise:

 

Reli vinte vezes as derradeiras páginas de Madame Bovary , ao fim, sabia os parágrafos inteiros de cor, sem que a conduta do pobre viúvo se me tornasse clara : ele encontrava cartas ; era razão suficiente para deixar crescer a barba ? Lançava um olhar sombrio para Rodolphe, logo guardava-lhe rancor - de quê , efetivamente ? E por que lhe dizia : « não lhe quero mal ? » [...] A seguir, Charles Bovary morria : de tristeza ? de doença ? [...] Eu gostava daquela resistência coriácea que eu nunca conseguia vencer ; mistificado, estafado, degustava a ambigüidade voluptuosa de compreender sem compreender 17.

 

Corolário das motivações que justificam a biografia sartriana de Flaubert, as razões que teriam impedido Sartre de biografar seu escritor preferido, segundo Michel Contat, confirmam essa interpretação: “mas se Sartre não escreveu sobre Stendhal [...] foi por uma razão mais profunda [...] em função da forte identificação de Sartre com Stendhal. Contrariamente a Flaubert, Stendhal não pertence à herança cultural transmitida pelo avô Schweitzer” 18.

Exercendo seu duplo poder (atração e repulsão) e reforçando a existência de uma tensão entre igualdade e diferença, ambigüidades, antagonismos, incompatibilidades constituem elementos que assinalam uma propensão para as premissas norteadoras de uma acepção contemporânea de “amizade” nos escritos sartrianos.

 

Bibliografia

ALBERONI, Francesco. L'amitié. Paris: Pocket, 1995.

BURGELIN, Claude. Lectures de Sartre. Lyon: Presses Universitaires de Lyon, 1986.

COHEN-SOLAL, Annie. Sartre. Paris : Gallimard, 1985.

CONTAT, Michet et alii. Pourquoi et comment Sartre a écrit “Les mots”. Paris: Presses Universitaires de France, 1996.

______ “Pourquoi Sartre n'a pas écrit sur son écrivain préféré: Stendhal” in BURGELIN, C. (org.). Lectures de Sartre. Lyon: Presses Universitaires de Lyon, 1986, p. 139-157.

KAPUR BADHWAR, Neera. (org.) Friendship. A philosophical Reader. Ithaca and London : Cornell University Press, 1993.

ORTEGA, Francisco. Amizade e estética da existência em Foucault . Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda, 1999.

______ Para uma política da amizade: Arendt, Derrida, Foucault . Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

______ Genealogias da amizade. São Paulo. Editora Iluminuras, 2002.

SARTRE, Jean-Paul. Les mots. Paris: Gallimard, 1964.

______ Les carnets de la drôle de guerre. Paris: Gallimard, 1995. [Reedição do livro publicado em 1983, com o acréscimo do 1 o diário, escrito entre setembro e outubro de 1939].

______ Lettres au Castor et à quelques autres. Paris: Gallimard, 1983. (Dois volumes, abarcando a correspondência de 1926 a 1963).

______ Situations IV – portraits . Paris : Gallimard, 1964.

______ Situations IX – mélanges . Paris : Gallimard, 1972.

______ Situations X – politique et autobiographie . Paris : Gallimard, 1976.

 

 

Congresso realizado em Palermo, na Sicília, Itália, de 24 a 26 de novembro de 1983.

Conjunto mais importante dos textos que Sartre publicou sobre a literatura desde 1949, reunidos em Situations IV . Cf. SARTRE, J-P. Situations IV. Paris : Gallimard , 1964, 474 p.

Cf. IDT, Geneviève. “Travail du style dans les avant-textes des Mots in CONTAT, M. Pourquoi et comment Sartre a écrit Les Mots (1996) p. 137. 500 p.

Cf. SARTRE, J-P. (1964). Situations IV. p. 122. 474 p.

No texto “Merleau-Ponty” . Cf. SARTRE, J-P. Situations IV . p. 189-287. 474 p.

Ibid. p. 189

Cf. SARTRE, J-P. (1964). Situations IV. p. 189. 474 p.

Ibid. p. 251-253.

SARTRE, J-P. (1995) Les carnets de la drôle de guerre. Paris : Gallimard, p. 511. 673 p.

COHEN-SOLAL, Annie. (1985) Sartre. Paris : Gallimard, p. 92. 728 p.

SARTRE, J-P. (1964). Situations IV. Paris : Gallimard, p. 134. 472 p.

Ibid. p. 134.

Cf. SARTRE, J-P. (1995). Les carnets de la drôle de guerre. Paris : Gallimard, p. 304-307. Numa entrevista concedida em 1971, sobre L'idiot de la famille , considerando que a empatia implique a supressão de todo julgamento moral, Sartre revela que sua metodologia logrou êxito, tendo lhe permitido “conhecer” o homem Gustave: “Outra dificuldade foi a de chegar a esse método pela empatia. Quase sempre estive contra Flaubert no passado. Isso desapareceu pouco a pouco. Hoje digo a mim mesmo que não gostaria de jantar com ele porque ele devia ser realmente enfadonho, mas o vejo como um homem”. Cf. SARTRE, J-P. (1976) Situations X . Paris: Gallimard, p. 102. 226 p.

Cf. SARTRE, J-P. (1983) Lettres au Castor 1 . Paris : Gallimard, p. 461. 520 p.

Ibid. p. 456-466

SARTRE, J-P. (1972). Situations IX . Paris : Gallimard, p. 14. 364 p.

SARTRE, J-P. (1964). Les mots . Paris : Gallimard, p. 48. 212 p.

Cf. CONTAT, M. “Pourquoi Sartre n'a pas écrit sur son écrivain préféré: Stendhal” in BURGELIN, C. (1986) p. 140. 320 p.