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Psicologia clínica, ciência e filosofia: interdisciplinaridade em Sartre
Daniela Ribeiro Schneider (UFSC)
Introdução
Sartre é um pensador interdisciplinar por excelência, pois sua produção sempre se deu na interlocução entre várias disciplinas: a filosofia, a psicologia, a antropologia, a sociologia, a literatura, a política. Seus primeiros ensaios técnicos, para citar alguns exemplos, se deram no campo da psicologia ( La Transcendance de L'Ego , L'Imagination , L'Imaginaire , Esquisse d'une Théorie des Émotions 1), mas sustentados em substratos filosóficos fundamentais para a elucidação dos fenômenos psicológicos ali analisados, utilizando-se, portanto, de uma linguagem filosófica. Já em seus estudos caracteristicamente filosóficos ( L'Être et le Néant , por exemplo 2), sustentados em argumentos filosóficos, busca elucidar muitos fenômenos psicológicos (percepção, má-fe, temporalidade psíquica, relações concretas com o outro, projeto e desejo de ser, etc), estabelecendo dialogo com vários autores do campo da psicologia, bem como da psicanálise. Portanto, para acompanhar o desenvolvimento das elaborações sartrianas o leitor tem de estar atento a esse esforço interdisciplinar por ele estabelecido, senão terá dificuldades de compreender suas obras. Esclarece Bertolino (1995) 2:
“(...) isso, até tem feito muitas vezes as dificuldades com que os profissionais da Filosofia se batem na leitura de ‘L'être le néant', uma vez que sua linguagem é muito mais familiar aos psicólogos, do que tecnicamente filosófica. Se bem que, por outra parte, muitas vezes também, esses últimos tenham de haver-se com sua falta de conhecimentos filosóficos, para entender a Psicologia ali exposta. Ironia de uma situação acadêmica e cultural onde ainda não se aprendeu a trabalhar em termos de interdisciplinaridade ”.
Nesse texto procuraremos explorar a interdisciplinaridade que existe na obra de Sartre, o tempo todo estabelecida na interlocução entre a filosofia, a ciência e a psicologia, bem como seus desdobramentos na viabilização de uma psicologia clínica sartriana.
Sartre e a Psicologia
O grande desafio de Sartre foi responder a alguns problemas que estavam propostos aos cientistas, filósofos e pensadores do final do séc. XIX e início do séc. XX: os dilemas trazidos pelo idealismo e racionalismo, por um lado e pelo materialismo e positivismo, por outro, concretizados em questões como a problemática do conhecimento, a discussão acerca da objetividade nas ciências e, mais especificamente, a necessidade de revisão da filosofia, trazida pelo marxismo (que postulava um conhecimento que remetesse à realidade sócio-histórica, pois “bastava de contemplar o mundo, cabia, agora, transformá-lo!”). O contexto estava a exigir, pois, um saber que partisse e voltasse ao homem concreto . Era o que reclamava Politzer (1965), era o que perseguia Vygotski (1996) 4, além da fenomenologia, que tinha esta máxima em seus postulados. Sartre inseriu-se no âmago mesmo das indagações presentes no contexto da evolução do pensamento daquele momento, problematizou suas questões elementares e propôs soluções que visavam superar impasses gerados, tanto no campo filosófico e epistemológico, quanto no psicológico.
Sartre, desde o início de seus estudos no campo da filosofia, compreendeu a relevância do saber psicológico na definição do ser do homem. A psicologia, disciplina oficialmente nascida no século XIX, obteve franca expansão no final desse século e início do século XX, vindo a ser um dos alicerces do saber antropológico moderno, quer dizer, do conhecimento e postulação acerca do homem, de suas características, de suas possibilidades de ser. Com isso, ela contribuiu, sobremaneira, na definição do horizonte de racionalidade da sociedade ocidental moderna, à luz de cujo saber passaram a se consolidar as relações entre as pessoas, as práticas sociais, as exigências normativas do comportamento. Sartre começou suas incursões teóricas formulando proposições no campo da psicologia. Voltou-se, porém, à filosofia (ontologia) pela necessidade técnica de melhor fundamentar seus estudos da psicologia (Bertolino, 1995 – op. cit). Dessa forma, esse intelectual, mais conhecido pelo seu perfil de filósofo, foi também um pesquisador sistemático da psicologia, sendo que sua obra técnica inscreve-se, boa parte dela, nesse campo. No entanto, essa perspectiva é pouco conhecida ou discutida, ou ainda, sua obra técnica é traduzida como tendo, principalmente, um cunho filosófico, o que não é inverídico, mas não é sua total abrangência. Poder-se-ia quase afirmar que a filosofia sartriana foi o meio, o fio condutor de boa parte de suas elaborações psicológicas, posição perfeitamente compatível com o objeto central de toda a sua obra – o homem concreto. Entre os psicólogos mesmo, poucos compreendem a relevância do existencialista na problematização da disciplina psicológica, que se encontra na exposição de uma psicologia em moldes totalmente diversos dos até então existentes, ao propor a superação de uma série de dificuldades e impasses presentes no âmago das formulações da psicologia empírica e da psicanálise freudiana.
Sendo assim, o projeto fundamental do trabalho de Sartre foi reformular a psicologia, realizando-o em moldes totalmente diferentes daqueles do empirismo e da metafísica, perspectivas que determinaram a constituição dessa disciplina até aquele momento histórico, por ele duramente criticados, conforme já foi demonstrado pelas dissertações de Bertolino (1979) 5 e Moutinho (1995) e por outros artigos científicos (Bertolino, 1995 – op. cit).
É importante destacar que desde sua primeira obra técnica, La Transcendence de L'Ego (op. cit), de cunho eminentemente psicológico, as posições teóricas e metodológicas defendidas por Sartre seguirão se aprofundando no restante de seus estudos. Suas obras, destacadamente as de cunho filosófico e psicológico, constituem-se em um conjunto articulado de concepções ontológicas, antropológicas, psicológicas e metodológicas. Portanto, atentemos para o conjunto do pensamento de Sartre, tendo em vista que em seu primeiro livro, de 1936, aparece a discussão acerca do materialismo histórico que aprofundará somente em suas últimas obras, Questão de Método e Critique de la Raison Dialectique , publicados em torno de 1960. As suas últimas pesquisas, como querem alguns de seus críticos, não negam suas teses anteriores; na verdade as complementam, acrescendo aspectos menos explorados anteriormente. O próprio existencialista, em numerosos entrevistas afirma que há, entre o Transcendência e Flaubert , uma linha de continuidade em sua obra. Dizem seus bibliógrafos: “La Transcendence de l'Ego ' contem em germe a maior parte das posições filosóficas que desenvolverá em ‘ L'Être et le Neant' e termina por aquilo que se poderia chamar de um programa de toda sua obra filosófica a vir, até a Critique de La Raison Dialectique e a Moral sempre em curso de elaboração” (Contat & Rybalka, 1970: 56) 6.
A questão da ciência em Sartre
Ciência é definida, de maneira geral, como a produção coordenada de conhecimentos relativos a determinado objeto. Portanto, se queremos discutir o que é ciência é preciso partir da elucidação da “problemática do conhecimento”. No entanto, esta só pode ser pensada tendo por base uma ontologia, isto é, a possibilidade de se estabelecer “o que é a realidade”, para depois se alcançar o “como é possível conhecê-la”. De nada ajudaria, portanto, partir-se diretamente para a discussão das “teorias do conhecimento”, já que, ao não se explicitarem os pressupostos ontológicos que subjazem a elas, se resumiria a uma espécie de “discussão de sacristia”: quem estaria certo, Schlick, Carnap, os teóricos da Escola de Frankfurt, Khun, Popper? Semelhante debate não auxiliaria em nada a encontrar a definição de “ciência”.
Esta é exatamente a posição de Sartre, que ao discutir a ciência e a questão da produção do conhecimento não se permitiu ser seduzido pelas veredas traçadas pelos “filósofos da ciência”, optando por abordar diretamente a raiz da questão: enfrentar a problemática do conhecimento pela via da ontologia. Sartre propõe, entranto, uma ontologia “fenomenológica” para resolver a “problemática do conhecimento”. Por que? É que para ele, é preciso conceber o “conhecimento” como um “fenômeno”, ou seja, como uma forma do ser aparecer. O conhecimento implica sempre em um sujeito cognoscente (a quem o ser aparece) e em um objeto cognoscível (o ser que aparece – fenômeno de ser) ou, como no dizer de Husserl, envolve dois pólos – o noético (consciência) e o noemático (objeto). Sendo assim, Sartre postula que para viabilizar o conhecimento objetivo da realidade, tem-se que trabalhar com a noção de “fenômeno” e, portanto, com a “fenomenologia” (Bertolino, 1995 – op. cit).
No Esboço de uma Teoria das Emoções , que foi o extrato do livro não terminado La Psyché, Sartre, traça sua perspectiva de ciência, ao realizar uma crítica à pretensão “pseudo-científica” da psicologia empírica. O empirismo, na medida em que descobriu o valor da descrição dos fatos e dados, assumiu uma lógica classificatória, que o caracterizou. No entanto, a ciência moderna, a partir do século XIX, estabeleceu um processo de rompimento com o modelo empírico, realizando um corte epistemológico, como Foucault (1987) 7 exemplificou em O Nascimento da Clínica, instaurando, enfim, o modelo experimental. É fundamental, portanto, distinguir experiência, enquanto um acontecimento subjetivo, de experimento, como sendo uma realização objetiva, no sentido de transcendente ao sujeito que a investiga (Bertolino, 1995 – op.cit).
A ênfase do empirismo na investigação de fatos isolados, sistematizando uma coleção de dados estranhos entre si, totalmente dispersos, inviabiliza a psicologia como ciência, afirma o existencialista. Trabalhar com ciência é, portanto, elucidar fenômenos, compreendidos como “conjunto articulado de ocorrências objetivas” (Bertolino, 2004 8). E para elucidá-los é preciso como demarca Sartre, “ conhecer as condições de possibilidade de certos fenômenos de ordem geral” (1938: 13 – op.cit). Mas e o que são “condições de possibilidades”? São aqueles fatores sem os quais o fenômeno não ocorreria, quer dizer, são as determinantes que definem que o fenômeno se estabeleça, se desenvolva da forma como deve ser (Bertolino, 1995 – op. cit).
A ciência como sendo interdisciplinar por excelência
Na sua própria forma de elaboração técnica, indo da filosofia para a psicologia, voltando para a antropologia, etc, Sartre vai mostrando que a ciência é, necessariamente, interdisciplinar.
Na medida em que os fenômenos, naturais ou humanos, se caracterizam por ser um conjunto de ocorrências objetivas múltiplas e articuladas entre si, portanto, por ser complexos e multideterminados, faz-se necessário a sua elucidação por diferentes disciplinas, que devem investigar cada um dos diferentes perfis ou ocorrências do fenômeno, segundo a especificidade do objeto de cada disciplina, articulando as elaborações específicas de cada área em uma compreensão unificada. A interdisciplinaridade , portanto, considerada como a articulação de diferentes disciplinas em torno de um objeto em comum, deve ser concebida como o princípio que rege a ciência e o fazer científico.
Segundo Bertolino (2004 – op. cit), a interdisciplinariedade, em razão dessa constituição interna dos fenômenos (correlação de forças e funções entre os perfis), deve ser compreendida segundo o modelo do “Arco de Pedra de Marco Polo”. No arco de uma ponte romana, por exemplo, não há uma pedra única que seja a fundamental, pois o arco é sustentado pela articulação entre todas as pedras, sendo que qualquer uma que seja retirada afeta a estrutura da ponte como um todo. Portanto, cada pedra tem sua função particular e imprescindível, mas o fundamental é a articulação entre elas. É assim que deve ser pensada a interdisciplinaridade: cada disciplina é imprescindível para elucidar o fenômeno no perfil que lhe é pertinente, no entanto, para compreender o fenômeno como um todo é fundamental a articulação entre as várias disciplinas, sendo que não há nenhuma que se destaque em importância.
A Psicologia Clínica em Sartre
A tarefa da ciência da psicologia deve ser, portanto, tendo em vista os argumentos anteriores, investigar as condições de possibilidades de ocorrência dos fenômenos de ordem psicológica, considerando-os em suas essências específicas e suas estruturas particulares. Isso permitiria definir certas regularidades da realidade psíquica que oportunizaria um conhecimento que desse conta, ao mesmo tempo, do fenômeno em sua dimensão singular e universal.
Sendo assim, a psicologia clínica, cujo objeto é a elucidação da personalidade, para ser científica, em sua teoria, em seu método e em seus procedimentos, deve investigar quais as condições de possibilidade para um sujeito chegar a ser quem ele é, ou seja, como chegou a ter determinada personalidade, constituída a partir de um projeto-de-ser específico.
Esse caminho metodológico em direção à psicologia clínica se explicita de forma mais elaborada na proposta por Sartre da “psicanálise existencial”. Nela ele expõe um método para a psicologia em geral, mas também para a clínica psicológica, entendida por ele como sinônimo de psicanálise, pois este era o único modelo vigente em sua época e, portanto, o único que conhecia. É por isso que o existencialista utilizou o termo “psicanálise”, o que foi considerado por muitos como um equívoco, pois na verdade sua concepção contrapõe-se àquela teoria. No entanto, a função do termo é a da demarcação da sua proposição no campo da clínica, ou da psicoterapia, se se preferir. A sua argumentação de que “esta psicanálise ainda não encontrou seu Freud; quando muito, pode-se encontrar seus prenúncios em certas biografias particularmente bem sucedidas” (Sartre, 1943: 663 – op. cit) demonstra como sua preocupação era a de viabilizar uma prática clínica para sua psicanálise.
O objetivo desta é decifrar o nexo existente entre os diversos comportamentos, gostos, gestos, emoções, raciocínios do sujeito concreto, ao extrair o significado que salta de cada um destes aspectos em direção a um fim. É esse nexo que define o sentido da vida de alguém. Isto quer dizer que a psicanálise existencial deve decifrar o “ projeto de ser ” de cada indivíduo estudado, pois é ele que define o que são e para onde vão os diferentes movimentos de uma pessoa (Sartre, 1943).
O ponto de partida da investigação devem ser os aspectos concretos da vida de um sujeito, ou seja, os fenômenos de sua vida de relações, de homem em situação em seu contexto sócio-histórico. Aqui delineia-se o método sartriano : por um lado, ele é comparativo , ou seja, estabelece ligações entre os diversos aspectos que presidem a vida de um sujeito, procurando atingir o projeto original que dá sentido ao conjunto; é, nesse sentido, um método compreensivo ou sintético, já que pretende chegar “ à intuição do psíquico, atingida por dentro” . Por outro, ele deve ser progressivo e regressivo , como podemos ver no Questão de Método, ou seja, deve situar os aspectos objetivos (época, cultura, sociedade, nível social, estrutura familiar, etc.), que definem os contornos de ser de um sujeito concreto, reenviando-os ao mesmo tempo, à sua subjetividade, a fim de se compreender a apropriação peculiar desses aspectos mais universais. A expressão da pessoa em gestos, atos, palavras, obras, devem ter, sua dimensão subjetiva e objetiva. O sujeito é um singular/universal, pois ainda que seja idiossincrático, é resultante de seu tempo, de sua cultura.
Desta forma, a concepção de homem que subjaz na teoria sartriana é histórica e dialética, segundo a qual, o sujeito só pode ser compreendido levando-se em conta sua história individual, tanto quanto a de sua conjuntura sociológica (familiar) e a de seu contexto social e cultural, tendo como fundo de sustentação a noção que “ele se faz e é feito” no/por esse conjunto de fatores.
A compreensão psicológica é, portanto, etapa essencial de uma intervenção clínica. Sendo assim, a psicanálise existencial coloca-se como o método necessário para a concretização de uma psicologia clínica científica.
A estratégia por ele utilizada, a partir de seus delineamentos teórico-metodológicos, em vistas à viabilização de sua psicanálise, foi o da elaboração de biografias de escritores famosos, por possibilitarem uma compreensão rigorosa do ser dos seus biografados, ou seja, esclarecerem o processo de suas personalizações, em suas dimensões objetivas e subjetivas, chegando ao projeto e ao desejo de ser, que são o “combustível” dos fenômenos psicológicos e de sua história de vida. É necessário, portanto, acompanhar o desenvolvimento dos empreendimentos biográficos de Sartre, para poder refletir sobre a sua viabilidade clínica. As duas principais biografias realizadas por Sartre foram as dos escritores Jean Genet e Gustave Flaubert. Elas são exemplos do exercício interdisciplinar de Sartre.
Seu “ Saint Genet: comédient et martyr 9” foi o exercício de compreensão da constituição histórica do projeto de ser do escritor Jean Genet, que em função de seu comportamento bizarro (ele era ladrão, homossexual, mendigo, prostituto), foi considerado, por muitos, como patológico. Sartre vislumbrou, portanto, ao elaborar sua biografia, a oportunidade de questionar aspectos centrais e polêmicos da compreensão de homem, subjacentes nas concepções psiquiátricas e psicanalíticas, bem como nas análises marxistas totalizantes. Sartre verificou ali, em pormenores, a trajetória histórica de Genet, que condenado à exclusão social, conseguiu, em função do exercício de sua liberdade, tornar-se um dos escritores franceses mais conhecidos da metade do século passado, o que levou o existencialista a sua famosa afirmação: “ o fundamental não é o que se fez do homem, mas aquilo que ele fez daquilo que fizeram dele” (Sartre, 1952 – op. cit) .
A biografia de Gustave Flaubert, intitulada L'Idiot de la Famille 10, foi a última grande obra de Sartre, síntese de todo seu percurso teórico-metodológico, onde ele concretiza sua nova psicologia. O ser de Flaubert, em suas diferentes fases e mutações, em seu projeto e desejo de ser fundamental, foram compreendidos em sua dimensão objetiva (aspectos epocais, sociais, familiares) e subjetiva (constituição do “saber de ser” Flaubert, na infância, sua personalização, na adolescência, a definição do projeto de ser, etc.). Além disso, Sartre elaborou um diagnóstico preciso das problemáticas psicológicas de seu biografado, tendo esclarecido o conjunto de variáveis e determinantes (as condições de possibilidade) que levaram à construção de sua neurose histérica e seu significado no conjunto da sua existência. Chegou, portanto, a uma compreensão psicológica rigorosa.
Conclusão
Segundo Bertolino (1995: 36 – op. cit):
“Sartre sempre teve muito presente as conveniências práticas revolucionárias de uma psicologia científica, com seus desdobramentos morais e políticos. Foi esse combustível que alimentou a locomotiva do seu trem, todo o tempo puxado, ao fundo, pelas preocupações com a psicologia.(...) Todo aquele que estudar as obras sartrianas com cuidado, não encontrará mais qualquer razão para duvidar das possibilidades científicas concernentes à investigação e à intervenção nos fenômenos psicológicos”.
As biografias que Sartre elaborou, sustentadas no método fenomenológico e dialético (progressivo-regressivo), baseada na racionalidade científica e interdisciplinar, fornecem a descrição da trajetória de vida de um sujeito, dali extraindo o nexo que estabelece o sentido ontológico de suas escolhas, ou seja, elucidam o projeto de ser dos seus biografados, alcançando, assim, o que poderíamos definir como o primeiro passo de uma ciência, que é o de definir as condições de possibilidades de ocorrência de determinado fenômeno, no caso, o ser do sujeito pesquisado. Fornecem o que seria a primeira etapa, fundamental, de um processo psicoterapêutico científico – a do diagnóstico – ou, como poderíamos designar, a da elaboração da “compreensão psicológica” ou “psicoterapêutica” dos casos estudados, sem a qual o rigor do processo torna-se questionável, já que é ela que permite que o terapeuta obtenha clareza e segurança de como e onde intervir para alterar o fenômeno, ou melhor dizendo, clareza de onde intervir para fornecer ao paciente condições de redimensionar sua vida e seu projeto de ser, ao tomar a sua história e o seu ser em suas mãos. Esse é o principal objetivo de “cura” em um processo psicoterapêutico à luz das concepções sartrianas: possibilitar as mudanças que se fazem necessárias, quando o paciente passa a assumir a responsabilidade de seu ser e se torna sujeito de sua história.
Portanto, Sartre viabilizou: a) uma proposta metodológica concreta para a área da psicologia clínica, no caso a sua “psicanálise existencial”; b) um exercício de elaboração da “compreensão psicológica”, etapa fundamental de qualquer processo psicoterapêutico, como pudemos vislumbrar em suas biografias de Genet e Flaubert; c) um conjunto de reflexões no campo da psicopatologia, apontando para a superação da psicopatologia clássica e psicanalítica e seus impasses de fundo biologicista e/ou subjetivista, que neste texto não tivemos tempo de abordar. Enfim, todos esses empreendimentos demonstram como a obra de Sartre insere-se no campo da psicologia clínica, trazendo importantes contribuições para a superação dos impasses da área .
Sartre, Jean-Paul. La Transcendance de L'Ego. Paris : J. Vrin, 1965.
Sartre, Jean-Paul. L'Être et le Néant – Essai d'Ontologie Phénoménologique . Paris: Gallimard, 1943.
Bertolino, Pedro. Psicologia: Ciência e Paradigma. in: CFP. Psicologia no Brasil: Direções Epistemológicas . Brasília: CFP,1995.
Politzer, Georges. Psicologia Concreta. Buenos Aires: Jorge Alvarez Ed, 1965.
Bertolino, Pedro. Sartre: Ontologia e Valores. Dissertação de Mestrado, Porto Alegre: PUC/RS, 1979. (mimeo).
Contat, Michel & Rybalka, Michel (1970). Les Écrits de Sartre. Paris : Gallimard.
Foucault, Michel. O Nascimento da Clínica. 3 ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária: 1987.
Bertolino, P. Os processos da ciência. Obtido no site: www.nuca.org.br . Acesso em abril 2004.
Sartre, Jean-Paul. Saint Genet: Comédien et Martyr. Paris : Gallimard, 1952.
Sartre, Jean-Paul. L'Idiot de la Famille: Gustave Flaubert, de 1821 a 1857 . Paris : Gallimard, 1971 .