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A morte em As palavras, de J.-P. Sartre
Beatriz Cerisara Gil (UFRGS)
Este estudo pretende verificar o papel das atualizações da morte em As palavras , texto autobiográfico de J.-P. Sartre de 1964. Com uma citação de Philippe Lejeune 1 podemos antecipar o espírito geral deste trabalho tendo em vista a perspectiva autobiográfica em questão. Diz Lejeune: “ A ordem de uma vida não é a ordem do calendário, mas a do caminho que o espírito deve percorrer para comprendê-la”. Assim nos perguntamos sobre que “ordem” Sartre afinal seguira para dar corpo a sua narrativa autobiográfica.
Três questões essenciais guiaram esta leitura, questões que não esgotaremos aqui, mas que apontam ao menos a grande diversidade de problemas com a qual nos deparamos nesta rica e polêmica obra.
1- Por que Sartre incorpora de forma tão radical imagens e interpretações sobre a morte em uma obra que tem por centro a perspectiva de um aprendizado – ler e escrever - e uma mudança ideológica, ou seja, a crítica de valores estéticos e políticos? Em suma, porque este processo de mudança compreende, em toda sua extensão, a problemática da morte?
2- O ato biográfico implica em Sartre um jogo entre imaginário e lei, entre o querer, o poder e o fazer, isto é, entre a capacidade de ação e seus próprios limites. Perguntamos: neste contexto, a inscrição da morte assim como as figuras de negatividade constituiriam recursos narrativos encenando os limites históricos e existenciais em questão?
3- Como este complexo trabalho autobiográfico-literário, que entrelaça morte e crítica, insere-se no projeto de engajamento sartriano?
Esclareçamos desde logo que as representações da morte, representações que, para nós, constituem elementos vitais da obra, parecem-nos ter a função de desestabilizar o aparente percurso positivo e linear da narrativa. As figuras e metáforas da morte, que detalharemos a seguir, fundam os gestos desta criação autobiográfica na medida em que não situam-se apenas num plano cronológico - a morte não é somente o fim da existência - mas servem, principalmente, para encadear a narrativa crítica do aprendizado de leitura e de escrita do mundo. Assim, observamos que os elementos de morte proliferam-se em uma obra que possui fundamentalmente dois eixos temáticos: nascimento de um escritor (nascimento em dois sentidos) e balanço e visão crítica do narrador sobre seus próprios crenças e valores.
Neste quadro autobiográfico em que os primeiros sinais do nascimento de um escritor são perscrutados, Sartre quer responder fundamentalmente à seguinte questão: “como um homem torna-se alguém que escreve, alguém que queira falar do imaginário?” Para tal, o autor, repartindo sua obra em dois capítulos, Ler e Escrever, traz ao leitor as circunstâncias e também o universo psicológico e ideológico que deram lugar ao nascimento da decisão de escreve. Ao mesmo tempo em que esse aprendizado nos é revelado, vamos também mergulhando num segundo plano, que vem a ser o de seu processo de auto-crítica pelo trabalho de desmistificação dos ditos valores burgueses, segundo os quais a arte substituía a religião. Para o autor-narrador esses valores teriam impregnado sua educação infantil e teriam sido responsáveis em boa parte pela aposta decisiva na função social do escritor. Trata-se neste ponto de reconhcer que a vocação do escritor encontra-se esvaziada de uma das funções básicas que a sustentaram ao longo de sua existencia, advindo daí o progressivo tom de descrédito e de desencantamento da narrativa. Dito de outra forma, verificamos que o mesmo movimento que escreve um ou vários nascimentos – o do escritor – escreve também uma desilusão, uma morte (ou várias mortes). Notamos que neste grande empreendimento racionalista de ateização da cultura, Sartre dá conta de um dos impasses dentro da evolução de seu pensamento e, por que não, de um dos importantes limites de seu tempo: a literatura não salva nada nem ninguém.
Mas este mesmo olhar de descrédito do narrador sobre o sentido de escrever resulta num vigoroso trabalho literário que dá corpo a várias matérias ao integrar, de diferentes formas, elementos contraditórios e imagens que desenham um verso e reverso das coisas. Inúmeras figuras tornam as sombras, as ausências, a negatividade visíveis ao leitor. Ora, é também nessa integração do reverso das coisas que os espectros de morte assumem um papel decisivo; notemos que a morte está para Sartre incorporada ao ato de escrever: ela é, ao mesmo tempo, nascimento e possibilidade, impossibilidade e fracasso. Esta integração é explicitada pelo autor da seguinte forma:
“Outrora, eu me representava minha vida por meio de imagens: era minha morte provocando meu nascimento, era meu nascimento atirando-me para minha morte; desde que renunciei a vê-la, tornei-me eu próprio essa reciprocidade, estiquei-me a ponto de rebentar entre estes dois extremos, nascendo e morrendo a cada batida do coração” 2.
Por outro lado, além das imagens de negatividade que se apresentam no texto, temos uma narrativa constituída por uma espécie de labirinto obstaculizado por aquilo que chamaríamos de horizonte póstumo, ou visão póstuma. É verdade que podemos pensar, em um primeiro momento, que a obra estaria enquadrando simplesmente uma perspectiva virtual de todo ato autobiográfico, perspectiva que se traduziria por aquilo que Pontalis chama de as primeiras últimas palavras sobre si mesmo, em uma espécie de necrologia antecipada. Contudo, a instância narrativa de As palavras parece-nos forjar de uma maneira particular esta perspectiva. Ela parece manifestar-se no nível da sintaxe temporal, que simularia um acavalamento de tempos verbais e ofereceria uma dinâmica que nos permite entrever o mundo de seu fim. Tal dinâmica, que produz um efeito de rapidez e de recuo do narrador em relação aos eventos narrados, coloca permanentemente este narrador em outro lugar , fugindo a toda estabilidade do momento de escritura. Esta configuração temporal em que passado-presente–futuro movem-se também numa engrenagem de simultaneidades é levada ao paroxismo pela coincidencia entre escritura e morte, entre vida e morte, ou entre nascimento e morte. Este olhar póstumo pode ser igualmente encontrado no plano discursivo de um narrador que encontra-se sempre “à frente”, em construções do tipo: “ é preciso morrer à tempo...”, ou ainda na seguinte passagem:
“(...) essa vida que eu considerava fastidiosa e que eu soubera apenas tornar instrumento de minha morte, eu a remontava em segredo para salvá-la; eu a encarava através dos olhos futuros e ela me surgia como uma história tocante e maravilhosa, que eu vivera por todos, que ninguém, graças à mim, precisava mais reviver e que bastaria contar. Fi-lo com verdadeiro frenesi: escolhi como porvir um passado de grande morto e tentei viver ao revés. Entre nove e dez anos, tornei-me completamente póstumo.” 3
Examinando a gênese das escrituras sobre a morte em Sartre, anterior às Palavras , vemos que em Os diários de uma guerra estranha , por exemplo, texto de caráter autobiográfico iniciado entre 1939-1940, o procedimento era um tanto diferente. Nos Diários o autor isolava a morte, ora para teorizar sobre ela, ora para tomá-la como metáfora da situação de guerra, árida e fixa, em que a ação não era possível.
Em As palavras , ao contrário, constatamos que a morte encontra-se absolutamente integrada à narrativa, impregnada no corpo do “eu” que é sempre o “eu que escreve”. Ao longo desse texto, a morte atualiza-se pelo menos de quatro formas. Inicialmente, já nas primeiras páginas e nos primeiros anos de vida do protagonista, ela está posta como o evento fundador do nascimento de Poulou, o pequeno Sartre, e paradoxalmente, de sua liberdade: trata-se da morte de seu pai. Registre-se que os ecos dessa perda reaparecerão em toda a narrativa. As ambigüidades deste luto ressoarão de modo fundamental: a ausência de heranças paternas desencadeará uma liberdade inventiva sem a tutela do superego, mas lançará ao mesmo tempo o pequeno Sartre, despojado de bens materiais, nas ilusões e ciladas da cultura familiar dos Schweitzer. Este último fato produzirá a segunda representação da morte, a saber a participação no processo da morte-ruína física de seu avô e da morte da cultura que ele representa; vemos que a morte aqui assume uma dupla face, de ruína e de re-nascimento.
Terceira atualização: as representações do menino Sartre por visões e imagens num jogo de imaginação e de encenação em que os espectros de morte passam literalmente a ter uma cara. E temos, por fim, a morte encerrada em todos os atos do protagonista, em especial no ato de escrever. Nessa dimensão, a escrita, em seu limite, está sendo mobilizada pela morte-glória, pela morte-progresso ou pela morte-impotência.
Segundo Pontalis, o ato autobiográfico parece realizar fantasmaticamente o gesto último de apropriação de si; ser o autor de sua própria oração fúnebre e ser a testemunha de sua morte significa apreender o tempo pela escritura e “fazer como se o que se escreve fosse já póstumo” 4.
Neste sentido, o contexto particular de As palavras, ao deslocar a visão romântica da cultura das Belles Lettres em direção a um racionalismo ateu, afasta o autor-narrador de uma concepção de literatura confessional à qual Deus, enquanto entidade interlocutória principal, estivera histórica e profundamente ligado. O narrador ateu aqui elabora um trabalho crítico de desintegrção de mitos e tece em desdobramento uma espécie de reintegração do indivívuo Sartre, dentro da qual o elemento assimilado é precisamente a morte. Assim, na perspectiva da interlocução, Sartre dialogaria com a morte metafórica da cultura – passada – de seus avós de um lado, e com seus congêneres do futuro, ou, com uma memória histórica futura de outro lado. A matriz de toda idéia de morte remetendo o leitor a faces duplas, tal como nascimento e finitude, progresso e fracasso, potência e impotência, glória e esquecimento, e sustentando enfim o paradoxo de um gesto de escrever que é ele mesmo já a morte, parece-nos potencializar a voz narrativa na obra. Tal composição obstinada de um Sartre irônico e por vezes solene amplia o poder desta voz, que deve propagar-se com a finalidade atingir uma temporalidade e espacialidade inéditas, as de seus congêneres , para além de Deus e de seus contemporâneos.
Percebemos que as contradições fundamentais apresentadas sob máscaras de morte constituem, com muita força, a dimensão narrativa no encadeamento da temporalidade. É assim que observamos um passado vivido e contado em relação, ao mesmo tempo, de promiscuidade e de distância com o presente da escritura. E como isso ocorre? Os diferentes estratos temporais ora fundem-se, ora divergem, conforme a coincidência ou não da voz do Sartre adulto com a do Sartre criança. Esta engrenagem é mantida por uma hierarquia temporal em que a modulação do passado na forma simples (“passé simple”) parece impor-se, dando à narrativa um ritmo firme e veloz assim como um tom ostensivo de comando. Lembremos, a título de exemplo, do eloqüente recurso ao passado simples na referência a hábitos do passado, que seriam comumente designados pela forma Imperfeita.
Mas como seria possível comandar o passado? Uma resposta possível nos é apresentada pela narrativa nos meandros de sua sintaxe, com a seguinte afirmação profunda de caráter demostrativo: eu fazia, eu havia feito, eu fiz, ou, ainda, eu desejava, eu havia desejado, eu desejei (fazê-lo). É dessa maneira que a enunciação autobiográfica sartriana assume então um estatuto de ação, de fazer. E aqui o Sartre de O ser e o nada também parece nos esclarecer algo ao dizer que “negar a minha solidariedade de ser com o meu passado, neste ou naquele ponto particular, é afirmá-lo no conjunto de minha vida.” Pois, segundo ele, podemos conservar sempre a possibilidade de mudar a significação do passado, “enquanto este é um ex-presente que terá um futuro.”
Destacamos finalmente um último aspecto que é ainda disposição do autor-narrador em não representar o papel de espectador passivo da realidade. Em sua criação autobiográfica a responsabilidade individual, tendo esta sido sempre um dos motores de seu projeto de engajamento, continua a ser um imperativo, ainda que aquele projeto tenha sofrido mudanças ao longo de sua vida intelectual. Ë desta forma que a idéia de morte, acabamento, ou limite conserva em parte ainda o horizonte daquele projeto, pois ela rejeita a participação ingênua na dinâmica da vida em sociedade em favor de uma integração plena, ou, se quisermos, de uma atuação íntegra e socialmente responsável.
LEJEUNE, Philippe, Peut-on innover en autobiographie?, VIes Rencontres psychanalytiques d'Aix-en-Provence 1987 – L'autobiographie, Paris: Les Belles Lettres, 1990, p. 67-100.
SARTRE, J.-P., As palavras, 2 a ed, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p.166.
PONTALIS, J.B., Derniers, premiers mots, VIes Rencontres Psychanalytiques d'Aix-em-Provence-L'autobiographie 1987, Paris:Les Belles Lettres, 1990, p. 50-66.