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A Nostalgia do Impossível: realidade humana e falta ontológica em L’être et le néant.
André Constantino Yazbek (PUC/SP)

1 – A falta constitutiva da realidade humana:

 

Por toda parte eu escapo ao ser e, no entanto, sou 1.

A frase acima poderia muito bem se tornar a epígrafe de L'être et le Neant : escapando ao Ser por toda parte, o homem é . Significa que a realidade humana só consegue realizar o Ser – isto é, o Em-si – negativamente, ou seja, ao modo do Ser o que não se é . E aqui reside, de fato e de direito, o centro nevrálgico que anima o conjunto do universo conceitual do ensaio onto-fenomenológico de Sartre.

Todo projeto humano que consista em fazer-se Ser em sentido pleno está fadado ao fracasso – pois a condição ontológica inelutável do humano reside no fato dele permanecer distante daquilo que deve Ser. Portanto, a realidade humana se configura a partir de contornos que apontam para sua condição fundamental: nela, tudo o que é não o é de modo pleno. O homem está separado de si mesmo por uma espécie de fissura ontológica ; ou ainda: de uma fissura nadificante (a liberdade) que cinde a plenitude ontológica do Em-si – donde o fato do homem jamais poder identificar-se totalmente com aquilo que pretende Ser, pois, pela própria estrutura da consciência – que não é senão consciência de ser consciência –, ele não pode evitar ser consciente daquilo que ele é . Assim sendo, aos olhos de Sartre, todos os comportamentos humanos retratam a falta ontológica constitutiva do humano: permaneço necessariamente separado – por Nada – de todos os modos de ser que se avizinham a mim. O Nada que se interpõe entre meu Ser Para-si (o Ser da realidade humana) e os modos possíveis de Ser é suficiente para que se feche a mim toda e qualquer possibilidade de aderir integralmente às coisas ou a uma situação em particular. O homem é ; mas o é de um modo tal que escapa constantemente ao Ser.

Observe-se, no entanto, o paradoxo fundamental da condição humana: se por um lado o homem não coincide inteiramente com o Ser, por outro, e graças ao conceito husserliano de intencionalidade da consciência – “toda consciência é consciência de alguma coisa” 2 –, o homem tende necessariamente ao Ser. Donde a alienação característica da condição humana, posto que a consciência vive desde sua gênese em função desse outro que não ela, ou seja, do Ser das “coisas” – enfim, diz-nos Sartre: “/.../ a consciência nasce tendo por objeto um ser que ela não é”. 3

A intenção subjacente à análise onto-fenomenológica de L'être et le néant , com efeito, é a de fornecer uma elucidação coerente da totalidade do reino do humano em termos do Ser desta realidade e da paixão que a anima e que torna compreensível o “projeto primordial” do Para-si – que não é senão um projeto de Ser, um projeto para completar-se de Ser. A afirmação do Ser se configura como o ponto de partida e alicerce estruturador necessário para a consecução de um estudo de tal monta. Nesse sentido, pode-se afirmar que Sartre acaba por propor uma abordagem oposta à de Husserl: ao invés de reduzir o Ser a uma série de significados, como o pai da fenomenologia teria feito, trata-se de explicar o conhecimento e os significados a partir do Ser e de seu projeto, insistindo no fato de que o Ser é o irredutível evidente por si mesmo – afirmação esta que o filósofo francês credita ao próprio Husserl (quando este ainda não havia se “enveredado” pelos descaminhos da instauração de um “Ego transcendental” que, à la Kant, serviria de instância unificadora das diversas visadas de mundo da consciência), como se pode ler no famoso artigo de Sartre sobre o conceito de intencionalidade husserliana.

Sendo o Ser o “irredutível evidente” por si mesmo, claro está que quaisquer tentativas de se postar para aquém dele, ou de reduzi-lo a alguma outra coisa, resultam necessariamente em uma impossibilidade intrínseca: “/.../ encontramos o irredutível evidente quando atingimos o projeto de ser , pois, evidentemente, não se pode remontar mais além do ser /.../” 4. A partir deste fato primeiro e fundante, de onde não se pode ir mais além, resta somente promover a elucidação do projeto de Ser – e isto implica, por sua vez, em avançar sobremaneira na direção do Ser assim como ele se constitui, isto é, em sua estrutura ontológica, cuja correta compreensão não deve ser levada a cabo enquanto um empreendimento teórico, mas sim enquanto um empreendimento prático que envolve a elaboração de uma Ética e de uma Psicanálise Existencial . Ambas, como se sabe, jamais concluídas por nosso autor.

Nesse sentido, Sartre entrega à ontologia e à psicanálise existencial a tarefa de revelar ao agente moral que somente ele é o Ser pelo qual os valores existem – sem deixar de ponderar o fato de que só então a liberdade poderá tomar consciência de si e, dessa feita, se descobrir na angústia como a única fonte do valor e como o Nada através do qual o mundo toma seus contornos de mundo, quer dizer, se descobrir como o Nada através do qual, onto-fenomenologicamente falando, o mundo existe . Nos encontramos nas últimas linhas de L'être et le néant , onde a promessa de uma obra centrada no terreno da moral é efetivamente feita 5.

Compreende-se então que a moral sartreana, cuja problemática não constitui o centro de nosso trabalho, é também uma esfera tributária daquilo que se insinua como o ponto primordial de L'être et le néant , a saber, a afirmação da falta ontológica característica da realidade humana, que engendrará a paixão humana por completar-se.

 

2 – O absoluto da liberdade e a nostalgia de Ser:

 

A admissão de qualquer tipo necessidade ou de determinismo em relação ao homem configura uma recusa à liberdade, que não é senão uma tentativa de apreender a si mesmo como um Ser Em-si – recusa à liberdade é má-fé , isto é, o não reconhecimento de que a liberdade coincide em seu fundo com o Nada que está no coração do homem 6. Desse modo, subsiste a tentativa de conferir uma plena permanência aos móveis e motivos, tomados enquanto entes determinantes das ações humanas: a consciência seria então habitada por eles, de modo que, assim reificada, ela adquirisse uma pseudoplenitude – os móveis e os motivos provocam o ato, assim como a causa produz o efeito, tudo é real e pleno. Destarte, não se veria nos fins transcendências postas e mantidas em seu Ser por minha própria transcendência, mas ir-se-ia supor que os encontramos em nosso surgimento no mundo: são fins que provêm de Deus, da natureza, de “minha” própria natureza, da sociedade, etc. Trata-se de fins pré-formados, isto é, pré-humanos que, doravante, irão definir o sentido dos atos antes mesmo que eles sejam concebidos – coagulou-se a dinâmica própria às transcendências; petrificou-se o movimento. Enfim a justificativa para a realidade humana seria possível, ela se encontraria em Deus, na sociedade ou na natureza. Seríamos aquilo que é .

Ora, a partir da entrada em cena da consciência, abandona-se o Ser para adentrar-se ao reino do não-Ser . Note-se que, de acordo com Sartre, todas as minhas “maneiras de Ser” manifestam igualmente a liberdade, pois são todas maneiras pelas quais sou meu próprio Nada 7 – ou seja, meu próprio vazio de Ser; ou ainda: meu próprio não-Ser . É propriamente o ato que decide sobre seus fins e, conseqüentemente, sobre seus móveis; e o ato, grife-se, é a expressão da liberdade. A liberdade não está condicionada por nenhuma necessidade lógica, nem ao menos poderíamos concebê-la a partir de qualquer essência – a liberdade não possuí essência alguma; donde o “mote” fundamental do existencialismo de Sartre: a existência precede e comanda a essência. Liberdade coincide com a auto- nadificação do Para-si . Separado de si por um Nada que o isola, e que o separa dos motivos e móveis de sua ação, cabe ao homem (re) inventar-se sem cessar, posto que sua liberdade o faz escapar ao seu próprio Ser – o homem pode fazer-se sempre outra coisa do que aquilo que se pode dizer ou se pode fazer dele. Situado no mundo, o homem em certo sentido é o artífice de si mesmo. Invenção-reinvenção, ou invenção rediviva de si a partir da “enorme” distância de Nada de si a si , tal é o homem. Trata-se aqui da descompressão do Ser, cujo nome, em vocábulo sartreano, se diz liberdade .

O desejo de Ser é uma ilusão nostálgica de uma transcendência hipostasiada, uma pretensão existencial de data mais que remota – resquício do momento inaugural da consciência, quando ao âmago da plenitude do Ser fez-se em fissura o Nada : Fiat lux –, mas que jaz esgotada já em sua gênese, truncada já ao início dos primeiros passos.

Entretanto, a própria estrutura da existência fundamentalmente tende para o Ser Em-si , que não é senão a sua origem ontológica. A realidade humana visa o Ser a tal ponto que não resta ao Para-si outra realidade senão a de ser a nadificação do Ser: o Para-si é a diminuta nadificação no âmago do Em-si – marcado a ferro por este ato nadificador fundante, ele também é a recordação intensa do Ser, isto é, uma certa nostalgia do impossível coagular de sua transcendência; tal nostalgia se sente impossível e contraditória, advindo daí o gosto ácido da angústia, bem como a sua correlata e polimorfa manifestação, que se dá através da nauseabunda captação da existência. Trata-se da nostalgia do impossível amalgamar-se em Ser Em-si – que será constantemente animada pela meta fundamental de consciência, a saber, ser seu próprio fundamento a maneira do Ens causa sui , ou seja, Deus.

Assim sendo, enquanto houver consciência sob a forma elementar de consciência (de) si, decerto a nostalgia de Ser que nos acomete, este cântico doutras venturas que ainda se faz ouvir em nós, não perecerá – bem ao contrário: não cessará de inscrever-se nos horizontes mais insuspeitos da realidade humana. Fiat homo . Ecce homo .

 

 

SARTRE, Jean-Paul – L'être et le neánt: essai d'ontologie phénoménologique . Collection Tel, Edition Corrigée avec Index par Arlette Elkaïm-Sartre. Gallimard: Paris, 676 pgs., 2001. p. 95.

SARTRE, Jean-Paul – Une Idée Fondamentale de la Phénoménologie de Husserl: L'Intentionnalité. In: Situations I . Gallimard: Paris , pgs. 27/32, 1947. p. 31.

SARTRE, Jean-Paul – L'être et le neánt , p. 28.

Op. cit., p. 610.

Id. Ibid., p. 676.

Op. cit., p. 485.

Op. cit., p. 490.