VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Murilo Rubião e as Epígrafes Bíblicas
Suzana Yolanda Lenhardt Machado Cánovas (UFG)

Este trabalho visa a uma abordagem das epígrafes bíblicas que antecedem os contos de Murilo Rubião, enfatizando os movimentos recorrentes na sua obra e valendo-se dos regimes da imaginação de Gilbert Durand.

Murilo Rubião começou a escrever na década de 30 e lançou seu primeiro livro - O ex-mágico - em 1947. O impacto causado pelo livro de estréia, que antecede a explosão da literatura latino-americana, e mesmo a publicação de O bestiário , de Júlio Cortázar, em 1951, mostra a profunda ruptura que sua narrativa representa, já que possui traços de um moderno fantástico alegórico sem precedentes em nossa literatura. Mas é só em 1974, que o escritor mineiro recebe, com quase trinta anos de atraso, o reconhecimento público. Murilo Rubião publicou apenas seis livros: O ex-mágico (1947), A estrela vermelha (1953), Os dragões e outros contos (1965), O pirotécnico Zacarias (1974), O convidado (1974) e A casa do girassol vermelho (1978).

Ao longo de sua carreira literária, o escritor muito mais reescreveu do que escreveu, reaparecendo seus contos modificados de livro para livro em meio a alguns inéditos. Do processo lento de escrita e da obsessão de retomar constantemente os mesmos relatos resultou uma obra exígua, constituída de trinta e três contos, publicados postumamente, em 1998, pela editora Ática, sob o título de Contos reunidos . Mas há textos seus dispersos em jornais e revistas da década de 40, e também inéditos que ficaram inacabados, e permaneceram à margem da obra conhecida do público.

Como as narrativas do escritor são antecedidas por epígrafes bíblicas, perguntamo-nos acerca do significado desses microtextos extraídos de um livro santo.

Uma epígrafe pertence a um texto a que se prende originalmente e no qual possui um determinado significado. Ao ser trazida para um novo contexto, ela vai se ligar a outro campo semântico, estabelecendo, necessariamente, um diálogo com ele.

Pertencendo à tradição primordial, um texto sagrado diz respeito à atemporalidade da palavra de sempre, à potencialidade do Verbo, que, como detectamos no "Gênesis", está associado à luz e à manifestação cósmica. Gilbert Durand, em A fé do sapateiro , salienta a grande importância de um livro santo:

 

Desde logo, vê-se o papel que desempenha, e que deve desempenhar em uma experiência simbólica autêntica, quer dizer, enriquecedora, a provisão de hormônios simbólicos guardados numa tradição e, mais especificamente, em um livro santo. Henry Corbin demonstrou muitas vezes, [...], a importância do Livro como reservatório energético do Verbo. Isto é verdade com respeito ao Corão e mais ainda com relação à Bíblia e ao Novo Testamento. [...] O Livro é uma revelação, isto é, a aparição do Verbo enquanto prenhez simbólica exemplar, e por isso suprema, através de uma escrita, uma cultura. 1

 

Mas, a despeito da atemporalidade que a caracteriza, a palavra das Escrituras, como já salientou Jorge Schwartz, utilizada como epígrafe, ao ser inserida num novo contexto, sintetiza um dinâmico jogo de tempos: Está conectada à ancestralidade do livro sagrado e o deslocamento do seu contexto a presentifica no novo texto, que,

 

adquire dimensão de futuridade na medida em que a epígrafe ocupa sempre um momento anterior a ele. Privilegiada por catalisar tempos narrativos em diversos níveis, aponta continuamente para o seu próprio passado, ao mesmo tempo que anuncia o texto que lhe segue, fazendo-se presente no ato de sua leitura 2.

 

Nos textos de Murilo Rubião que ficaram dispersos em jornais e revistas da década de 40, observamos o procedimento, ainda que muito esporádico, de anteceder crônicas e contos com epígrafes bíblicas. Em Murilo Rubião, todas as epígrafes são bíblicas com a significativa exceção de uma extraída das Memórias póstumas de Brás Cubas - "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis." 3 - que, juntamente com uma de Jeremias - "Se te fatigaste em seguir correndo, os que iam a pé, como poderás como poderás competir com os que vão a cavalo?" 4- antecede o conto "Memórias do contabilista Pedro Inácio" 5.

Sabemos o quanto a Bíblia Sagrada representou para o autor, pois ele mesmo tributou ao livro santo, entre outros, a sua preferência pelo fantástico: "Minha opção pelo fantástico foi herança da infância, das intermináveis leituras de contos de fadas, do 'Dom Quixote', da 'História Sagrada' e das 'Mil e Uma Noites'." 6 Além disso, como o escritor declarou várias vezes, é de Machado que recebeu sua grande influência, e somente ele foi considerado digno de ocupar um lugar junto à palavra das Escrituras.

Entretanto, não estamos diante de um autor religioso, ainda que tenha sido muito católico numa determinada etapa de sua vida, chegando mesmo a ser místico, mas depois se tornou ateu para, finalmente, fixar-se no agnosticismo. Mas há nele uma nostalgia do divino que perpassa toda a sua obra e que o fez declarar que desejaria morrer católico. A ânsia de transcendência está simbolizada, em sua obra, pela imagem do arco-íris, que representa a ponte entre o humano e o divino. Quando fala do abandono do catolicismo, o escritor afirma:

 

O catolicismo está muito mais ligado à morte do que à vida, e transforma mesmo a vida em morte. Daí eu ter partido não para a eternidade que me ensinaram, mas para a eternidade já na própria vida. Desse modo a vida seria apenas uma coisa circular que não chegaria nunca àquela eternidade, mas também nós nunca poderíamos nos livrar dela. 7

 

Eis aí um movimento recorrente, unitário e circular que, como veremos a seguir, ocorre no processo de escrita do ficcionista, no tratamento concedido aos temas e na utilização das epígrafes, que pode ser simbolizado pela imagem do uroboro, a serpente cósmica que morde a própria cauda. Segundo Chevalier e Gheerbrant, ela "simboliza um ciclo de evolução encerrado nela mesma [...] contém ao mesmo tempo as idéias de movimento em torno de si mesma, de continuidade, de autofecundação e, em conseqüência, de eterno retorno" 8.

O processo de escrita do autor mineiro tem chamado a atenção de quantos se debruçam sobre sua obra. Desde seu primeiro livro, cujos contos foram trabalhados durante anos antes de sua publicação, o escritor, no que aparenta ser uma obsessiva busca de perfeição, reescreve suas histórias que são republicadas em outros livros junto com novos contos que, por sua vez, são retrabalhados para serem publicados em novas coletâneas e, assim, sucessivamente. Davi Arrigucci Junior chama a atenção para o tipo de movimento gerado pelo aparente crescimento da obra que, sendo multiplicada, na verdade se reduz: "Mas o movimento parece um tanto ilusório, como se entranhasse uma dificuldade inicial e apenas imitasse o giro recorrente do carrossel em torno do mesmo eixo." 9

Desse processo de escrita infinita, que lembra a "Biblioteca de Babel" ou "O livro de areia", de Jorge Luís Borges, interrompido somente pela morte do escritor em 1991, escaparam as narrativas esparsas em jornais e revistas e as que não foram concluídas. Elas permaneceram no seu acervo, sem entrar no giro do carrossel simbólico mencionado por Arrigucci Júnior. Rubião mimetiza seu processo de escrita no conto "O edifício" em que, para a interminável construção, uma existência é insuficiente.

O mesmo tipo de movimento recorrente que verificamos no ato de escrever, observamos na temática do escritor, pois a constante modificação e a metamorfose constituem um tema obsessivo de suas narrativas.

Em "Os três nomes de Godofredo", por exemplo, há uma confusão de nomes que não se fixam em definitivo, pois o protagonista é chamado de Godofredo/Robério/ João de Deus e os diversos nomes vão sendo utilizados por sucessivas mulheres, parecidíssimas umas com as outras, que vão aparecendo e sendo assassinadas pelo protagonista. Na verdade, há apenas um assassinato que se reflete num jogo de espelhos que dá a sensação de infinito, como há apenas um homem e uma mulher. Geralda, a mulher sem nome, e Isabel são desdobramentos de Joana (o casal é constituído por João e Joana, cujos nomes já indicam um jogo de duplos) Há uma só mulher, a mesma na sua essência, mas que se vai metamorfoseando em detalhes como a cor dos cabelos, o formato das sobrancelhas, um anel de ametista ou um medalhão antigo pendurado no pescoço. Os nomes próprios Robério e Godofredo são igualmente desdobramentos de João de Deus, nome que está no início e no fim do conto. Jorge Schwartz, comentando o conto do autor, afirma:

 

Há um jogo de espelhos que não aumentam, não diminuem nem deformam. Refletem apenas. Só que a sala de espelhos é circular; neles, através da mise em abîme , mudam apenas os contornos de um espaço vazio.Vemos como, nesta sintaxe combinatória de nomes e desempenhos, a nomin/ação se desdobra num único e paradoxal movimento. 10

 

Além disso, quando comparamos fragmentos de diversos contos do autor, descobrimos que, num movimento recorrente, a despeito da variação de argumentos, eles repetem sempre o mesmo. Até personagens, que têm conflitos, nomes e aspectos diferentes, são, na sua essência, a mesma figura. Tal é o caso, por exemplo, dos protagonistas de "O ex-mágico da Taberna Minhota", "O pirotécnico Zacarias" e "Teleco, o coelhinho". Há uma profunda fusão entre eles, pois os três realizam constantes metamorfoses, estão associados às cores, têm ligação com as crianças e os velhos e são profundamente solitários. Sobretudo eles são hábeis ilusionistas, constituindo-se numa só figura na obra de Rubião, que é o artista por excelência, que, em "O ex-mágico da Taberna Minhota", não está individualizado através de um nome, o que denota a sua universalidade na obra do autor.

O mesmo movimento recorrente ocorre nas epígrafes bíblicas de O ex-mágico e em livros posteriores. O livro de 1947 está dividido em cinco partes - Arco-íris, Mulheres, Montanha, Condenados e Família - contendo três contos em cada uma delas. Além de uma epígrafe geral, que ilustra o livro na sua totalidade, cada uma das partes é antecedida por uma. Nos livros posteriores, há uma epígrafe para cada um dos contos publicados, procedimento que se mantém em Contos reunidos .

Jorge Schwartz, no interessante estudo que realiza sobre as epígrafes, examina-as, primeiramente, na seqüência em que aparecem em O ex-mágico , na sua relação umas com as outras, chegando a descobrir surpreendentes "pontos narrativos" 11, que constituem uma história independente, concluindo que elas representam tematicamente "um espelho redutor dos contos" 12.Analisando as duas primeiras epígrafes, a que abarca o livro na sua totalidade, que ele chama de arquiepígrafe -"E quando eu tiver coberto o céu de nuvens, nelas aparecerá o meu arco." 13 - e a que engloba a primeira parte do livro -"E haverá um dia conhecido do Senhor que não será dia nem noite, e na tarde desse dia aparecerá a luz." 14 - ele chama a atenção para o tom profético que se detecta no uso dos tempos verbais no futuro e para a presença da esperança. Como Schwartz tem em mente uma concatenação de "pontos", que vai gerando a linearidade narrativa, ele acopla as duas primeiras epígrafes numa só. No tocante à seguinte - "Aquela voz é a voz do meu amado, ei-lo aí, vem saltando sobre os montes, atravessando os; outeiros." 15 - o autor chama a atenção para o fato de o "aparecerá", que está presente nas duas primeiras, se transformar num "ei-lo", anunciando um encontro, que acabará gerando a desilusão, que se verifica na epígrafe seguinte: "Que tenho uma grande tristeza e contínua dor no coração." 16 No tocante à penúltima epígrafe - "Vós semeastes muito e recolhestes pouco; cometes, e não ficastes fartos; bebestes, e não matastes a sede; cobriste-vos, e não ficastes quentes; e o que ajuntou muitos ganhos, meteu-os num saco roto." 17 - o crítico enfatiza o fato de esta epígrafe revelar temas centrais da narrativa muriliana. Ela anuncia o quarto grupo de contos, que aparece sob a denominação geral de Condenados , estabelecendo uma relação de identidade semântica com a própria epígrafe. A condenação dos homens consiste precisamente na inutilidade de suas ações, que dizem respeito a um trabalho de Sísifo, pois eles são vítimas de um eterno refazer desprovido de sentido. "A ação garante sua perpetuidade na medida em que não gera nada fora de si mesma; ela não se estende nem se ramifica. Voltada sobre si, provoca um fazer em moto perpétuo." 18 Na última epígrafe - "Ao mundo eram estranhos, mas íntimos e familiares de Deus." 19 - o crítico identifica uma relação de equivalência entre o primeiro e o último ponto, indicando repetição e percurso infinito.Comentando os microtextos, ele declara:

 

A passagem do homem pelo mundo vem carregada, num primeiro instante, pela esperança. A fatal infecundidade dos seus atos lhe empresta a marca da estranheza em relação ao mundo que habita.Não havendo esperança nem fecundação, só lhe restam as formas identificadoras dos seus atos repetitivos, aos quais está condenado.

 

Assim, é de forma surpreendente, que Schwartz conclui que a leitura linear das epígrafes sintetiza os grandes temas da obra de Murilo Rubião. Num segundo momento, o crítico as relaciona com as que ocorrem nos outros livros, não mais as analisando em sua linearidade, mas, a partir do que chama de uma "epígrafe matriz", as reúne, por similitude, em verdadeiros feixes epigráficos que denunciam seu caráter circular e repetitivo, que reiteram os movimentos recorrentes que comparecem no processo de escrita de Murilo Rubião, na utilização dos temas e, por fim, nas epígrafes.

Arrigucci Júnior reafirma o mesmo princípio estrutural, declarando que há um movimento constante e circular que se multiplica indefinidamente repisando a rotina, que está ameaçado pela esterilidade. E é aí que o crítico detecta o procedimento irônico presente na utilização mesma do Verbo:

 

Nos limites - princípio e fim - a multiplicidade é roída pela ameaça de esterilidade. A Bíblia se transforma num respaldo irônico para essa ameaça, porque acaba sendo reduzida, também ela, a mero meio de eficácia duvidosa, para salvar o escritor da falta de inspiração, do horror do princípio estéril 20

 

Como muitos dos procedimentos do escritor, também esse aparece mimetizado no interior da própria obra literária. No conto "Marina, a intangível", um jornalista, na solidão da madrugada, busca inspiração para vencer a esterilidade da página em branco, mergulhando na fonte perene representada pelo Livro: "De novo abri a Bíblia. [...] O silêncio se desfizera e, mesmo sabendo que as horas eram marcadas por um relógio inexistente, tinha certeza de que o tempo retomara o seu ritmo."

Pertencendo à tradição primordial, as epígrafes bíblicas, deslocadas do seu contexto, se presentificam num presente narrativo onde, tal como a esfinge, guardam a chave dos contos murilianos. Devido à própria localização na página, elas anunciam os contos que vão ser lidos. Mas, ao se espelharem nas narrativas, estabelecendo um diálogo com elas, são passíveis da degradação da ironia muriliana.

Na tentativa de apreender as epígrafes bíblicas na obra de Murilo Rubião à luz dos regimes da imaginação de Durand, concluímos que prevalece o regime diurno. Nesse regime, que é antitético, há constante tensão entre luz e trevas. Os terrores ante o fluir da temporalidade e a ameaça da morte são afrontados com uma atitude diairética, que separa os aspectos positivos, que são projetados num além temporal, dos negativos, que estão associados ao devir e ao destino.

No regime noturno, o antídoto contra o tempo já não será buscado na transcendência, no mundo das essências puras, "mas na segura e quente intimidade da substância ou nas constantes rítmicas que escondem fenômenos e acidentes" 21. Agora a própria matéria e a natureza se oferecem como cálido refúgio contra a implacabilidade de Cronos. As trevas do regime diurno se eufemizam em noite benfazeja.

A possibilidade de uma realidade benfazeja emanada do valor sagrado do Verbo, que diz respeito a um regime noturno, degrada-se em ironia, que se anuncia na repetição estéril dos atos humanos num movimento recorrente que se repete ad infinitum . A obra de Murilo Rubião reafirma suas próprias palavras: "a vida seria apenas uma coisa circular que não chegaria nunca àquela eternidade". Não há refúgio nem cálido aconchego e nem restauradoras repetições cíclicas, mas um eterno refazer sem sentido de todas as coisas.A Bíblia Sagrada torna-se ineficaz para resgatar a fonte perene da felicidade e da inspiração poética.

 

DURAND, Gilbert. A fé do sapateiro . Brasília: Ed. da Universidade de Brasília, 1995. p. 45-6.

SCHWARTZ, Jorge. Murilo Rubião : a poética do uroboro. São Paulo: Ática, 1981. p. 4.

MACHADO DE ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: Obra completa . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. v.1, p.536.

"Jeremias", XII, 5.

Todas as narrativas citadas estão incluídas em Contos reunidos ( São Paulo: Ática, 1998)

MURILO Rubião. Busca desesperada da clareza. Seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico e exercícios por Jorge Schwartz. São Paulo: Abril Educação, 1982.p. 3. (Literatura comentada).

Ibid., p.4.

CHEVALIER , Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos . 2.ed. rev. aum. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.p. 922.

ARRIGUCCI JUNIOR, Davi. Minas, assombros e anedotas. In:___. Enigma e comentário : ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 151.

SCHWARTZ, Jorge, op. cit., p. 33.

Ibid., p.5.

Ibid., p.3.

"Gênesis", IX, 14.

"Zacarias", XIV, 7.

"Cântico dos Cânticos", II, 8.

"São Paulo aos romanos", IX, 2.

"Ageu", I, 6.

SCHWARTZ, Jorge, op. cit., p.9.

"Imitação de Cristo", I, 18,4.

ARRIGUCCI JUNIOR, Davi. Minas, assombros e anedotas. In: ___. Enigma e comentário : ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.152.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas de imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 194.