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Espaço e representações monstruosas medievais: repositório e transmigração do bestiário para a cronística sobre o Brasil colonial
Pedro Carlos Louzada Fonseca (UFG)

O objetivo deste estudo consiste em examinar o repositório e a transmigração da cultura bestiária medieval para a cronística sobre o Brasil colonial. O exemplo escolhido para a verificação dessa presença disseminada serão os Diálogos das grandezas do Brasil , de Ambrósio Fernandes Brandão, datados de 1618. Escolhemos esta obra principalmente por razões de quantidade repertorial, isto é, por nela encontrarmos, de modo bastante consistente, referências, diretas ou sugeridas, a animais que figuram tratados no bestiário medieval. Entretanto, esse nosso exame da presença do bestiário medieval em Brandão não será meramente descritivo. Isto porque, interessa-nos ainda verificar a função dessa presença na elaboração de um possível plano ideológico com o qual os Diálogos foram escritos.

Antes, porém, de examinarmos esses pontos, cremos que algumas considerações sobre a natureza e a finalidade do que foi, na Idade Média, o bestiário devem ser feitas, a fim de que fique claro a forma pela qual o conteúdo e a concepção dessa tradição literária entram, com modulações e intenções próprias, na composição dos Diálogos de Brandão.

Mas o que foi, em rápidas palavras, o bestiário medieval? Um tipo de gênero literário, por vezes ricamente ilustrado, com o seu auge de florescido a partir do século XII, que continha ensinamentos sobre animais em geral, desde os mais familiares, selvagens, exóticos, lendários até os mitológicos. Após a descrição física, comportamental e do habitat de cada criatura arrolada, o bestiário normalmente lhe adicionava uma interpretação moral, de fundo religioso e de caráter edificante. 1

Na verdade, a cultura bestiária não existiu apenas na Idade Média. Desde as mais antigas culturas, os animais fizeram parte das cosmovisões, entrando em composições míticas, lendárias e fabulárias, fornecendo inestimável material para a literatura e para o folclore. Pode-se dizer mesmo que os animais foram, e continuam ser, elementos indispensáveis de todo imaginário tanto da cultura coletiva como da criação individual.

Na Idade Média, por razões teológicas ligadas ao entendimento bíblico, os animais eram chamados bestas. 2Por não possuírem a faculdade da razão deviam ser comandados e utilizados pelos homens. 3Além disso, serviriam no plano espiritual, pois sendo criaturas de Deus deveriam, encerrar algum ensinamento teológico e moral, útil para a edificação e para a salvação da alma. 4Esse sentido transcendente do simbolismo animal medieval, constituiu, primordialmente, o aspecto 'promocional' a que se submeteu a Natureza desde a sua origem e criação. Mutatis mutandis será esse mesmo sentido promocional medieval relativo à natureza que comparecerá nos Diálogos de Brandão, principalmente quando certas paisagens e espécies da fauna brasileira são evocados. Entretanto, esse sentido promocional original terá na obra uma intenção ideológica e política própria do autor, determinada pelo contexto da colonização. A presença desse imaginário bestiário medieval em Brandão parece servir para - metafórica e simbolicamente, tal como na medievalidade - interconectar elementos espirituais a elementos materiais constituintes do projeto da colonização.

Se é bem verdade que uma formação cristã lastreava esse imaginário medieval e que Brandão é suspeitado de judaísmo nos seus Diálogos , isto parece, entretanto, não obstá-lo no uso de motivos e informações análogos a certas espécies bestiárias. Mesmo se desconsiderarmos os aspectos cristianizados de certos animais referidos nos Diálogos , ainda assim neles remanesce, numa visão geral, aquela idéia bíblica da gênese das criaturas que, criadas por Deus, serviriam para revelar ensinamentos sobre a sua onisciência, poder e vontade. É dessa forma que muitas das espécies animais descritas por Brandão, a exemplo de muitos outros cronistas, parecem conferir à natureza brasileira uma espécie de vigor espiritual enigmático próprio de uma harmonia paradisíaca, muitas vezes sugerindo, ao de leve, o edênico. 5Nesse caso, o paradisíaco dos Diálogos poderia muito bem ainda ecoar aquela característica modulação renascentista da tradição medieval, quando o afã pelo Paraíso Terreal, próprio da mística teocêntrica daquela tradição, cede lugar ao paradisíaco, com conotações mais materializadas próprias da visão humanista e antropocêntrica dos primeiros séculos dos tempos modernos.

Se essas considerações podem nos levar a outras investigações, aqui as colocamos, para esclarecer que aquela tradição medieval bestiária deixou, nos Diálogos de Brandão, marcas bastante significativas, as quais, nem a orientação ideológica e histórica do tempo em que foram escritos, nem a formação religiosa do seu autor, puderam anular.

Vocês devem estar de certa forma inquietos com o fato de, até agora, não nos referirmos a certos termos que formam a primeira parte do título desse nosso estudo: Espaço e representações monstruosas medievais. Ainda mais porque começamos por tratar da segunda parte desse título: o bestiário medieval, seu repositório e sua transmigração para a cronística sobre o Brasil colonial, elegendo como exemplo os Diálogos das grandezas do Brasil , de Ambrósio Fernandes Brandão.

Do jeito que o título está composto, devem estar se perguntando se todos os animais do bestiário eram igualmente considerados monstros. Um simples exame do seu elenco, invocando o bom senso, serve para responder a essa pergunta. Por exemplo: a corriqueira e inocente pombinha, que comparece no bestiário, não pode ser considerada na mesma categoria de outros animais, como o basilisco, verdadeiramente estranho e monstruoso pelo seu hibridismo e propriedades esdrúxulas e maléficas: era um galo com cauda de serpente, cuja mirada era tão danosa que chegava a causar a morte. Aqui, uma primeira e fundamental característica do monstruoso, no bestiário, pode ser aventada. Monstruosos eram os animais que, corporalmente, fugiam às normas naturais, como, por exemplo, os híbridos. 6

Os monstros híbridos (como a sereia, o basilisco, o sátiro, entre outros) eram geralmente considerados maléficos e negativos, não só fisica mas moralmente, dada a sua simbologia demonológica eivada de intenção teológica e moralizante. Se, no bestiário, tais criaturas eram assim consideradas, o mesmo não acontecia com outros monstros do imaginário medieval que, apesar da sua deformidade e anomalia, podiam ser, de certa forma, encarados numa perspectiva positiva. O que podemos concluir disso é que, para a mentalidade medieval, fortemente condicionada pela religião, todas as criaturas eram obras de Deus. Deviam, portanto, ser boas e verdadeiras por natureza, uma vez que, nada na criação existia e acontencia à revelia da vontade do seu Criador. Tal era o pensamento de santo Isidoro de Sevilha, um das mais influentes figuras da cultura e do conhecimento medieval no século VII. Se havia o Mal ligado à deformidade, isto ocorria por obra do Demônio, cuja função primacial, na teogonia judaico-cristã, era a de deturpar e de mentir na formação das desarmonias do mundo.

Sintonizando esse sentido de harmonia e de perfeição do Universo criado por Deus, santo Agostinho havia apresentado, por volta de 391, a sua noção, entre teológica e estética, da pulchritudo, isto é, da beleza miraculosa e epifânica inerente a todos os seres da Criação. 7Entretanto, na Idade Média, surgiu um adicional sentido revelatório atribuído aos seres de exceção que, devido à sua excepcionalidade, eram considerados maravilhosos. Santo Agostinho, em A Cidade de Deus - seguido em muitos aspectos por santo Isidoro de Sevilha - dizia que a natureza era uma verdadeira fonte de milagres, e que "Os monstros ( monstra ), justificadamente assim chamados, derivam de mostrar ( monstrare ) porque mostram algo, justificando-o . . . 8Os seres monstruosos haviam sido criados por Deus para mostrar, para "além da norma" 9, e de forma estranhada, a emanação do seu poder. 10Deviam, por isso mesmo, possuir uma verdade e um ensinamento divinos a serem desvendados. Essa noção revelatória do monstruoso penetrou no Renascimento, significando "o sinal ou a mensagem enviada por Deus, 'demonstrando' sua vontade ou ira". 11

Nesse ponto de nossas reflexões chegamos à questão do espaço ou geografia das monstruosidades no imaginário teratológico medieval. Mesmo na tradição literária, como a do bestiário, os monstros animais possuiam uma localização alocêntrica. Habitavam nas zonas distantes e periféricas do globo - África (Etiópia), Índia e China - ou nos confins da Europa civilizada e cristã. Essa postura na consideração do habitat dos monstros, a bem da verdade, tinha a sua origem no pensamento cultural da antigüidade clássica que, etnocentricamente obcecado com o conceito de civilização e barbárie, localizava o selvagem sempre fora da pólis .

Pelo que expusemos até agora, algumas conclusões gerais podem ser aventadas acerca do que caracaterizava o monstro animal medieval. A primeira delas refere-se ao fato de a idéia do monstro animal ter sido, na sua gênese, obra do Criador que, na sua perfeita sabedoria - e para manifestar o seu infinito poder de criação - havia concebido os monstros como decifração de verdades e ensinamentos morais proveitosos à humanidade. É esse o sentido com o qual, por exemplo, o basilisco comparece, no bestiário traduzido e editado por White, simbolizando, com a metáfora do seu olhar, o perigo da espreita do Demônio, danoso e maléfico ao fiel descuidado das coisas divinas. 12A segunda conclusão sobre o que caracterizava o monstro animal medieval, de certa forma ligada à primeira, tem a ver com a sua já referida localização alocêntrica, com o porquê dos monstros estarem sempre distantes, confinados em paragens as mais remotas. Se os monstros eram obras do divino criador, o Pecado Original legado pelos nossos primeiros pais havia afastado para longe essas criaturas revelatórias. Essa suposição torna-se relativamente fundamentável se considerarmos que o constantemente buscado Paraíso Terreal nas viagens místicas medievais, ou mesmo os sítios simplesmente paradisíacos encontrados, eram guardados por figuras monstruosas, como que querendo preservar o sagrado e as suas riquezas da conspurcação humana.

Neste ponto, uma consideração pode ser feita acerca de uma plausível ligação funcional desse substrato ideológico da configuração do monstro animal medieval com o aspecto promocional que caracteriza a intenção dos Diálogos . Comentamos anteriormente que Brandão escreve à maneira de um espírito humanista renascentista que ainda se ressente da influência do peso cultural da tradição medieval, apesar de não podermos nele encontrar, talvez devido à sua ascendência judia, referências mais animadas ao plano cristianizador do projeto da colonização. Entretanto, o cronista, no intuito de promover a adoção de uma nova política administrativa, econômica e moral para a colônia, se utiliza de imagens e de figuralidades próprias do bestiário medieval, descartando, evidentemente, as suas moralizações cristianizadas.

Se, por um lado, o monstruoso animal dessa tradição bestiária medieval, enquanto anomalia, não comparece literalmente em Brandão, por outro, muitas das suas espécies descritas, fugindo à regra da normalidade natural e tendendo a revelar o inusitado, lembram aquele aspecto sobrenatural do monstro animal medieval, qual seja, o de revelar algum ensinamento ou verdade oculta. E, nesse caso, poderíamos argumentar que o prodigioso animal - associado, nos Diálogos , ao paradisíaco do imaginário medieval - estaria cumprindo a sua função promocional de incentivar a colonização no moldes propostos por Brandão.

Assentada, dessa forma, a viabilidade da disseminação do bestiário medieval em Brandão e pintada a moldura e o fundo do quadro, já é hora de acrescentar-lhe as espécies animais brasileiras. Antes, porém, outra consideração merece ser feita acerca da função epistemológica que o prodigioso e maravilhoso medievais desempenham na cronística mundonovista em geral. Trata-se, conforme observa Janet Whatley, da sua capacidade em suprir a insipiente competência racional dessa cronística que, pretendendo-se historiográfia, deveria obter um conhecimento mais científico da realidade observada. 13

No caso dos Diálogos de Brandão, verifica-se o que podemos considerar como um característico exemplo dessa situação. Descrevendo o cronista uma espécie animal encontrada no Brasil, diz que, apesar do seu aspecto híbrido (misto de cabra com outro animal semelhante), a carne de tal criatura era excelente para se comer. Na hipótese de Brandão ter tido conhecimento do significado etimológico da palavra cabra , incorre o cronista no tradicional procedimento medieval de conferir significado à realidade dos seres através da correspondência entre verba (palavra) e res (coisa), lembrando aqui a explicação que santo Isidoro de Sevilha dá, nas suas Etimologias , para cabra (haedi), ao dizer que este animal "ab edendo vocavi" [é assim chamado por poder ser comido], tendo "saporis uicundi" [sabor deleitável]. 14

Várias são as descrições zoomórficas, nos Diálogos de Brandão, que se fronteirizam com descrições de animais contidas no bestiário medieval, demonstrando o cronista que, apesar do seu interesse prático pela realidade, também se simpatizava, ou trazia conhecimentos próprios do imaginário bestiário medieval. Os exemplos, a seguir, servem para evidenciar essa possibilidade.

Num determinado momento dos Diálogos , os interlocutores referem-se a um pássaro brasileiro conhecido, pelo nome da terra, por gurainguetá, fazendo desse animal uma descrição bastante semelhante à do pelicano, encontrada no bestiário. O elemento comum de comparação da ave brasileira com a ave de atributos mitológicos e simbólicos consiste no motivo do amor e da compaixão crística, um dos temas mais caros à cristandade medieval. Assim como o pelicano, que dá o seu sangue para restaurar a vida aos seus filhotes mortos, o gurainguetá de Brandão tem tão grande afeição pelos seus filhos que sacrifica-se para sustentá-los,

aos quaes mostram tanto amor, que, pera effeito de os sustentar, se vão lançar por entre alguns bichos, que se lhe apegam nas carnes, sem arreceiarem que lh'a comam, havendo por cousa suave padecerem as dôres que elles lhe causam a troco de terem, por esta via, a sustentação certa pera os filhos, a que os dão a comer, quando têm fome, e só pera isto os trazem tanto á mão; estes passaros são emplumados de varias côres . 15

 

Outro exemplo da tradição bestiária medieval disseminada em Brandão refere-se à descrição feita a propósito das serpentes boaçus (as jibóias brasileiras), na qual é comentado que elas têm "uma cousa assás extranha, a qual é que, depois de mortas e comidas dos bichos, tornam a renascer como a Phenix, formando novamente sobre o espinhaço carne e espirito". 16A explicação enciclopedística desse animal ofídico, presente no bestiário, provém de santo Isidoro de Sevilha, quando esclarece, nas suas Etimologías , acerca desse poder de renascimento da serpente, explicando que, devido ao fato de ela possuir grande longevidade - renovando, quando velha, a sua pele - parece realmente renascer ciclicamente. 17A Phoenix, ao lado do Unicórnio e de outros animais do bestiário, granjeou indiscutível posição de destaque devido à sua importante simbologia de fundo místico e cristológico.

Ainda várias outras referências a um exótico, excepcional e maravilhoso florilégio animal comparem nos Diálogos de Brandão, lembrando uma verdadeira menagerie medieval. Por exemplo: os anuns, "de uma calidade estranha, que, além do seu canto semelhar a chôro, não têm nenhum modo de sangue, nem nunca se lhes achou, e são de uma côr preta tristonha" 18; o cajujuba, "um passaro pequeno e de bico revolto, o qual, em se vendo preso, cerra voluntariamente o sesso, sem fazer mais por elle purgação, até morrer" 19; o sernambim, marisco de qualidade estranha, "porque se acha nelle sangue, na forma que os têm os pescados, sem embargo de estar encerrado na sua concha, cousa de que todo outro semelhante marisco carece, e sobretudo o que mais espanta é que, nas conjuncções das luas, lhe acode o menstro [i. é., a menstruação], como costuma a vir ás mulheres" 20; o camorim , "um peixe pequeno a que chamam peixe pedra, por ter outra dentro da cabeça em lugar de miollos . . ." 21

Dessa forma, o gosto por uma suspeitada significação simbólica para o estranho, o fantástico e o sobrenatural, grandemente praticado pela mentalidade imaginária medieval, tornou-se, a exemplo de Brandão, ideariamente transferido para a representação da realidade brasileira. O caráter de unicidade e originalidade dessas categorias excepcionais não feriam, entretanto, aquela já comentada noção de harmonia, equilíbrio e perfeição cósmicos inerentes à própria natureza da divina mente criadora.

Na verdade, o que nos parece autorizado observar, à guisa de conclusão e na esteira desses nossos comentários, é o fato de Ambrósio Fernandes Brandão, um dos mais saborosos cronistas historiográficos do Brasil colonial, ter-se, de certa maneira, ressentido da necessidade de toda essa mentalidade tradicional formadora do imaginário medieval. Não fosse assim, como explicar a convivência confortável do documental com as recorrentes figuralidades simbólicas e imaginativas que comparecem nos Diálogos , as quais, diga-se de passagem, são grandemente responsáveis pelo que há de mais pitoresco, agradável e inventivo na sua narrativa.

 

 

Pedro Carlos Louzada Fonseca; Animais e imaginário religioso medieval: os bestiários e a visão da natureza; In: Dulce O. Amarante dos Santos e Maria Zaíra Turchi (Org.); Encruzilhadas do imaginário: ensaios de literatura e história ; Cânone Editorial; Goiânia; p. 162 e passim; 2003.

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Idem, ibidem, p. 168-69.

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Ambrósio Fernandes Brandão; Diálogos das grandezas do Brasil ; Introd. de Capistrano de Abreu e notas de Rodolfo Garcia; Officina Industrial Graphica; Rio de Janeiro; p. 219; 1930.

Idem, ibidem, p. 254.

Idem, ibidem, p. 254.

Idem, ibidem, p. 217.

Idem, ibidem, p. 218.

Idem, ibidem, p. 234-35.

Idem, ibidem, p. 227.