![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Imagens da Amazônia por Vitorino Nemésio
Maria Márcia Matos Pinto (USP)
Muito antes de sua primeira vinda ao Brasil, o que se deu no ano de 1952, o prosador e poeta açoriano Vitorino Nemésio já demonstrava atração pela arte e cultura brasileiras. Desde os anos de 1930, ele já buscava na nossa literatura, historiografia e etnografia as bases para uma reflexão sobre as relações culturais estabelecidas entre este país e Portugal. A partir daí, uma gama de textos dos mais diversos gêneros e subgêneros veio à luz: poesia, crônica, ensaios, crítica literária e até uma novela - "Negócio de Pomba" - em que imagens brasileiras surgem através do olhar do emigrante açoriano retornado. Tais textos demonstram que o autor procurou captar a realidade brasileira através de uma multiplicidade de ângulos para tentar dar conta dos mais variados aspectos que cercam a nossa identidade.
Devido, pois, à multiplicidade de temas abordados nos seus escritos sobre o Brasil, esta comunicação poderá apenas dar conta de uma mínima parte daquilo que Nemésio deixou registrado. Assim, tratamos aqui da viagem que ele fez pelo rio Amazonas de Belém do Pará a Manaus. Era a terceira vez que visitava o Brasil, tendo vindo, naquele ano, para ministrar cursos e proferir conferências nas Universidades da Bahia, do Recife e do Rio de Janeiro.
Como homem ligado aos veículos midiáticos, a princípio jornais e rádio e, nos anos 70, também à TV, com um programa semanal sobre cultura - "Se bem me lembro" -, Nemésio foi um canal importante na divulgação de um certo Brasil para os portugueses, um Brasil que ele concebe como fruto da inter-relação histórica estabelecida com Portugal, mas que não deixa de ser buscado como espaço de realizações literárias da mais alta qualidade, como cenário de belezas naturais e arquitetônicas e como expressão do acolhimento e da amabilidade que cercam as relações humanas.
Tratemos então de sua viagem à Amazônia. Esta foi descrita como um diário de bordo na segunda parte do volume Caatinga e Terra Caída (1968) 1, intitulada "Uma montaria no Amazonas". Armado já de um vasto conhecimento livresco sobre a região, as observações empíricas vão sendo, ao longo da viagem, confrontadas com as leituras que ele já trazia em sua bagagem intelectual. Entre elas destaco duas, A Selva 2, de Ferreira de Castro, e À Margem da História 3, de Euclides da Cunha, pela proximidade no modo dos três autores caracterizarem a região amazônica, mesmo tendo em conta que os objetivos das viagens eram bem diferentes: Nemésio viaja como turista, Castro como futuro seringueiro, numa condição que o levará à semi-escravidão, e Cunha como observador técnico da região. E não só os objetivos eram diferentes. As experiências de cada um foram plasmadas em gêneros diferentes: o primeiro produziu 38 crônicas que podem ser lidas como um diário de bordo, como dito acima; o segundo retratou a vida no seringal em forma de romance, mas que tem muito de relato autobiográfico; e o último concebeu uma série de ensaios, onde a precisão técnica alia-se à linguagem poética, fazendo que o registro científico, em vários momentos, acabe por dar lugar à criação literária.
A princípio, cabe observar como se dá a escrita das crônicas nemesianas sobre a Amazônia. Elas começam tratando da chegada do autor ao Pará e de suas impressões sobre a cidade de Belém. As primeiras apresentam um estilo bastante fragmentário, pois, apesar de estarem ordenadas segundo o trajeto da viagem, introduzem uma diversidade de assuntos que são fatos trazidos à memória pelo contato com a cultura local. É o caso, por exemplo, da crônica de 15 de Setembro de 1958, intitulada "Quem chega ao Pará parou", em que o autor começa discorrendo sobre as frutas locais, passa para os incômodos da viagem de avião entre São Luís do Maranhão e Belém do Pará e acaba numa reflexão sobre a união Brasil-Portugal, de modo a não serem sentidas quebras bruscas no ritmo da narrativa, pois tudo se dá como se fosse uma conversa entre amigos, como ele já deixa entrever pelo tom informal do título. Quando, porém, ele começa a narrar o percurso de cinco dias feito pelo Amazonas, há uma unidade maior.
Confrontando as descrições do prosador e poeta açoriano com algumas das encontradas em À Margem da História e A Selva , chama a atenção, primeiramente, o sentimento da inferioridade humana diante do labirinto de rios e da densidade da mata que constituem a região. O rio e o "aranhol" de seus afluentes são o primeiro elemento a despertar tal sentimento. Nemésio retrata a vasta rede aquática tomando dados geográficos entremeados por números, que já dão conta da imensidão que ela representa, acrescentando a isso expressões tais quais "dédalo tamanho", "rede de água sem termo", "cântaros abissais", "todo ele se navega como um mar". O final da descrição é pontuado com a reflexão pessoal do viajante, reflexão esta que denuncia um certo humor:
Dizem... Que, nisto de Amazonas, nem uma vida inteira em canoa de índio daria uma pálida ideia do colosso -, quanto mais os míseros cinco dias da "montaria" fluvial de uns tristes emboabas lusos, confortavelmente instalados em camarote de ventoinhas do paquete de Belém do Pará... ( p. 201)
A personagem Alberto de A Selva , no seu fluxo de consciência, também revela a sua perplexidade diante daquele que é um mero afluente do grande rio, o Madeira, mas que, nem por isso, deixa de lhe dar a sensação de estar a descobrir um mundo de proporções gigantescas:
Nem a sua subalternidade de afluente de simples braço do gigante, tirava ao Madeira a grandeza e imponência. O "Justo Chermont" navegava há quatro dias já e anunciavam-se ainda mais quatro ou cinco, antes que a veia colossal deixasse de oferecer trânsito à quilha do barco. Ao seu lado, tomando-lhe a dianteira, por irem em rota direta, passavam, causando o assombro de Alberto, navios de alto mar [...]
Os grandes rios de Portugal, o Tejo e o Douro, comparados com aquele, faziam sorrir Alberto. [...]
Ali tudo perdia as proporções normais. Olhos que enfiassem, pela primeira vez, no vasto panorama, recuavam logo sob a sensação pesada do absoluto, que dir-se-ia haver presidido à formação daquele mundo estranho. ( p. 83,84)
De outro lado está uma visão do rio que se propõe ser mais objetiva, a de Euclides da Cunha:
Ao revés da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia geralmente, diante do Amazonas, no desembocar do dédalo florido do Tajapuru, aberto em cheio para o grande rio, é antes um desapontamento. A massa de águas é, certo, sem par, capaz daquele "terror" a que se refere Wallace; mas como todos nós desde mui cedo gizamos um Amazonas ideal, mercê das páginas singularmente líricas dos não sei quantos viajantes que desde Humboldt até hoje contemplaram a Hiléia prodigiosa, com um espanto quase religioso - sucede um caso vulgar de psicologia: ao defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo tempo prefigurada. ( p. 25)
Mesmo tentando mostrar que o gigantismo do Amazonas é de fato uma construção subjetiva ao gosto do lirismo de alguns escritores e que pode ser desmentido por uma aproximação mais objetiva do rio, há certos elementos na citação que demonstram que adentrar os seus limites produz um impacto, para alguns um "terror", justamente por suas enormes proporções. No trecho, ainda, Cunha se utiliza do vocábulo "dédalo", o mesmo usado por Nemésio para se referir ao labirinto formado pela rede de afluentes. Porém, nesse ponto, a elaboração do ensaísta brasileiro tem contornos mais estéticos do que a do prosador açoriano.
Um fenômeno observado nos rios da Amazônia, que parece deixar os navegantes perplexos é o das "terras caídas", como se pode verificar na obra dos três escritores aqui citados. Na crônica de 27 de Outubro de 1959, Nemésio assim o descreve:
Nem propriamente no Amazonas há culturas mimosas que sofram com o desbordar do monstro . Tudo são matos que cedem pelo raigame e abalam rio abaixo, como o berço de Moisés, até encalharem algures. É a terra caída, que a lírica brasileira compara à saudade ancestral e eu escolhi para símbolo da porção amazônica deste livro. O canoeiro da margem perde a várzea e a canoa, mas logo o sossego do rio lhe dá outra vez choça e tronco escavado. (p. 200, grifo nosso)
Em A Selva , Alberto o vê da seguinte forma:
As margens ofereciam agora, no meado do verão, uma altura enorme e eram barro gretado , desvendando raízes e caindo aos pedaços. As águas iam corroendo tudo aquilo, assoreia aqui, draga acolá, numa faina silenciosa e constante. Algumas casas de Manicoré, que certamente tinham lançado outrora os seus alicerces a muitos passos da margem, estavam agora debruçadas sobre o abismo e outras já haviam nele tombado, deixando da sua existência vagos escombros apenas. (p. 84, grifo nosso)
E, na visão de Euclides da Cunha, cuja narrativa técnica do engenheiro é enriquecida pela veia literária do escritor, o fenômeno assim aparece:
O fato é vulgaríssimo. Conhecem-no todos os que por ali andam. Não raro o viajante, à noite, desperta sacudido por uma vibração de terremoto , e aturde-se apavorado ouvindo logo após o fragor indescritível de miríades de frondes, de troncos, de galhos, entrebatendo-se, rangendo , estalando e caindo todos a um tempo, num baque surdo e prolongado, lembrando o assalto fulminante de um cataclismo e um desabamento da terra .
São de fato, "as terras caídas", das quais resultam sempre duas sortes de obstáculos : de um lado o inextricável acervo de galhadas e troncos, que se entrecruzam à superfície d'água, ou irrompem em pontas ameaçadoras , do fundo; e de outro as massas argilosas , ou argilo-arenosas, que a corrente pouco veloz não dissolve, permitindo-lhes acumularem-se nas minúsculas ilhotas dos "torrões", ou, mais prejudiciais, nos rasos bancos compactos dos "salões", impropriando a passagem aos mais diminutos calados. (p. 46, grifos nossos)
A imagem apresentada pelos três autores é a da irremediável destruição, a do caos sobre a terra. Literariamente consideradas, as "terras caídas" surgem como a figura de um novo Adamastor, aproximação para a qual contribuem as expressões grifadas. O obstáculo natural, transformado em monstro na poética camoniana, foi vencido pela coragem e fé dos navegantes lusíadas. Este novo gigante, contudo, parece ser imune aos grandes feitos heróicos. Sua violência destrutiva só é atenuada pela resignação e perseverança do "canoeiro" e dos moradores das "casas de Manicoré", que passam a vida a reconstruir os míseros bens arrastados pelo rio.
Um sentimento freqüentemente reiterado por Nemésio será o da melancolia e da solidão que o ambiente lhe suscita. Isto se revela tanto no conteúdo das crônicas, como na própria forma de narrar, que vai perdendo a agilidade, refletindo uma visível opressão que a atmosfera da selva causa ao viajante. Por um lado, isto se deve ao clima quente e úmido, que incomoda o indivíduo pouco acostumado a ele. Por outro, a paisagem, que a princípio era motivo de uma observação atenta pela novidade que apresentava, durante o percurso torna-se monótona, já que os elementos naturais, as pequenas vilas situadas à margem e os próprios habitantes começam a se mostrar como cenas constantemente repetidas, como no trecho seguinte:
A monotonia rasante da selva e do alagado da Amazónia contamina-se à gente, rio acima. Tudo promete esquecimento; de nada se espera variedade. Cumprida a missão genésica de levantar os Andes, a toalha de húmus e águas da vizinhança do Equador ficou pútrida e absorta. Os grandes geólogos que a sondaram, como Wallace e Hart, proclamaram-na a terra mais nova do mundo, e apetece perguntar porque mistério é a terra velha alegre e a terra nova triste. (p. 259)
Este sentimento de opressão aparece como leitmotiv do romance A Selva , tanto no sentido da opressão social - do homem sobre o homem - como daquela exercida pela natureza:
A selva dominava tudo. [...] E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera. A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos da Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados. Nada a assemelhava às últimas florestas do velho mundo, onde o espírito busca enlevo e o corpo frescura; assustava com o seu segredo, com o seu mistério flutuante e as suas eternas sombras, que davam às pernas nervoso anseio de fuga. (p. 114, 115)
Os sentimentos expressos no trecho que acabamos de citar têm contornos bem mais negativos do que qualquer um daqueles contidos nas crônicas. Mas isto é plenamente justificável pela própria condição do protagonista de A Selva , um indivíduo ainda muito jovem que se encontrou submetido a um regime de semi-escravidão, longe da família e dos amigos portugueses.
A citação de Nemésio, assim como a de Castro, revelam também uma outra característica da floresta amazônica: ela aparece aos viajantes como um mundo primitivo, "genesíaco", "ancestral". As descrições o mostram como um espaço pré-histórico, dominado pelo movimento da natureza, ainda não atingido pela força da civilização.
Na visão de Euclides da Cunha, a floresta também remete à etapa pré-histórica da terra:
A flora ostenta a mesma imperfeita grandeza. Nos meios-dias silenciosos - porque as noites são fantasticamente ruidosas - quem segue pela mata, vai com a vista embotada no verde-negro das folhas; e ao deparar, de instante em instante, os fetos arborescentes emparelhando na altura com as palmeiras, e as árvores de troncos retilíneos e paupérrimos de flores, tem a sensação angustiosa de um recuo às mais remotas idades, como se rompesse os recessos de uma daquelas mudas florestas carboníferas desvendadas pela visão retrospectiva dos geólogos.
Completa-a, ainda sob esta forma antiga, a fauna singular e monstruosa, onde imperam, pela corpulência, os anfíbios, o que é ainda uma impressão paleozóica. (p. 26)
Mas nem tudo naquele espaço é primitivismo, assim como nem tudo é opressão e melancolia. A crônica "Os Recursos da Terra", de 17 de Novembro de 1959, é totalmente dedicada às possibilidades econômicas da Amazônia, abordando os principais produtos de extração - guaraná, fibras, resinas, madeira e até o petróleo -, o ciclo da borracha e sua decadência, a pesca e a pecuária. Desse modo, Nemésio mostra que os interesses econômicos movem o homem a dominar a selva bruta, como tantas vezes ele o fez em outras partes bárbaras e inóspitas do globo terrestre.
Há momentos em que a narrativa nemesiana revela-se especialmente poética, uma poesia que se mescla à pintura pelo privilégio dado às cores e às formas:
Continua a impressão oceânica do caudal, como se aos quatro pontos cardeais se nos rasgassem estuários tamanhos como o do Tejo ou do Gironda. O aroma fresco da noite carreia os perfumes da mata; três feixes de azul-pálido alternam com o leque róseo e lilás que o sol-posto deixou, e para estibordo segue um estrato maciço e vinoso de nuvens, direito e ininterrupto, sublinhando a capricho o azul de turmalina. Depois, é um cirro de pérola que se esfiapa. A barra do poente afogueou-se de todo e debrua a mata longínqua. (p. 252)
Temos aqui uma espécie de pintura impressionista do pôr-do-sol na floresta. Os tons, que vão do rosa ao vermelho escuro, do "azul-pálido" ao turmalina, em contraste com o verde da mata, produzem um quadro da selva revelador de que, ao mesmo tempo em que ela gera no ser humano solidão e angústia, também é capaz de encantá-lo e elevá-lo a um plano onde a arte predomina.
Nos seus escritos amazônicos, Nemésio também não ficou indiferente às condições precárias em que viaja e nas quais trabalhará o homem que segue para os rincões da selva, assim como o fizeram Euclides da Cunha, no começo do século XX, e, uns vinte anos mais tarde, Ferreira de Castro. O exemplo a seguir, extraído da crônica de 20 de Março de 1960, mostra como a situação narrada pelo primeiro e pelo segundo ainda é verificada pelo autor açoriano alguns anos depois:
Lá em baixo amontoam-se os que vão trabalhar na juta e nos seringais, viver na promiscuidade e na ojeriza do fiel de barracão, defumar a goma elástica, sangrar a carne da Haevea. Vão quase num transatlântico, - e é como se subissem o rio ainda em "gaiola" ou "vaticano". Com o redactor da Manchette aproximo-me da rede onde sua um moço de pele de camarão, dourado como o sol, - um húngaro -, com o vulto da mãe, como uma Pietá, aos pés. Feliz deste, que ainda não perdeu de todo o calor de uma asa! Se a má sorte for grande, chegará para os dois...
Gente fugida ao massacre e ao clarão das bombas de petróleo em Budapeste, flores da República Popular? Não aprofundei a devassa. Bastou-me ver os envelopes de letra campónia - a sua letra -, que ele apertava ao peito e endereçara a uns vagos conhecimentos que fizera em Belém do Pará. O desterro e a pobreza muito podem! Os caracóis dourados do seu cabelo magiar caíam-lhe nos olhos azuis com que me fitava do fundo do seu destino jogado à selva e à solidão. Só a mãe, aos pés dele, tinha um sorriso triste e parecia velar um ente em perigo de vida, já embrulhado na rede como o ficaria em sudário. (p. 288)
Naturalmente, as observações de Nemésio não são providas do mesmo conteúdo ideológico que cerca as de Cunha e Castro. Isto não que dizer que ele ignore os problemas político-sociais de seu tempo - a sua obra como um todo dá inúmeros exemplos disso. Porém as constatações que ele apresenta com relação à exploração das classes menos favorecidas acabam se transformando em elaboração estética. No caso acima, a princípio, ela surge à Thomas Mann, como no encontro de Aschenbach e Tadzio, em Morte em Veneza . Logo depois, a imagem é a da Pietá , o que dá relevo ao sofrimento gerado pela miséria da situação. O rapaz transfigura-se no Cristo morto, e à pobre mãe parece estar reservado o mesmo destino de Maria de chorar a morte do filho ou o de encontrar a mesma "má sorte" dele.
Essa viagem pelos escritos amazônicos leva-nos à seguinte conclusão: a comparação que o prosador e poeta açoriano faz entre o "aranhol" dos seus escritos e o "aranhol" da selva é de uma precisão inconteste. De fato, penetrar o mundo de informações, imagens, impressões e sentimentos formulado num discurso que une conhecimento e poesia é como penetrar o âmago da floresta e ver-se enredado num percurso labiríntico por rios e mata. A trajetória grandiosa levou o viajante a refletir sobre as possibilidades de escrever uma novela ou um romance a partir de sua experiência, na crônica que dá termo à viagem e que também dá termo ao volume. Utilizando os procedimentos modernistas da fragmentação e da mistura de sublime e prosaico, além do acento humorístico de que seu discurso muitas vezes se reveste, ele deixa a consciência fluir, imaginando como seria construída tal obra:
A minha novela teria acaso a allure júlio-vernesca? estas gravurinhas luminosas de canoas e troncos derrubados? O SEGREDO TERRÍVEL: rico título para a PRIMEIRA PARTE! Capítulo 1: Um Capitão do Mato . O Capitão Umbelino [condutor da "gaiola" onde ele fez a viagem]? Injúria! O meu amigo não caça negros nem índios fugidos. Em todo caso, eu gostava de começar o meu romance (estou como o mentiroso do conto: "- Tamanha como a ponte não seria a raposa..." ) da mesma maneira que começa A Jangada: "Phyjslyddqfdzxgasgzzqqehxgkfndrxujugioc..."
[...]
Que não tenho o talento nem o saber vulgarizador de Júlio Verne?! Mas então quem tem dado distâncias exactas do aranhol, horários com ante e post meridium , latitudes e longitudes, nomes científicos de plantas, bichos e peixes? E quem é que fala do Amazonas com conhecimento de causa, depois de lá ter ido, e não por ouvir dizer? Ele ou eu?...
"Capitão-do-mato Torres": - Capitão fluvial Umbelino... Júlio Verne, A Jangada: - A Gaiola , pelo autor de Caatinga e Terra Caída . Ah! sonho de best-seller . era belo de mais para me calhar a mim! (p. 324, 325)
Como se pode perceber, após trajeto tão marcante, seu desejo era o de produzir um best-seller à Júlio Verne, já que as informações coletadas cabem bem a um grande romance de aventuras. Porém, ele se sente impotente para tal e acaba se dando por satisfeito com o que realizou - as suas crônicas de viagem -, que não se tornaram nenhum best-seller , mas oferecem muito para ser aprendido por brasileiros e portugueses, além de muito para ser apreciado.
Todas as citações dessa obra serão extraídas da seguinta edição: NEMÉSIO, Vitorino. Caatinga e Terra Caída. Viagem no Nordeste e no Amazonas. Obras Completas Vol. XX . 2 a . ed. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1998.
Todas as citações desse romance serão extraídas da seguinte edição: CASTRO, Ferreira de. A Selva . São Paulo: Editora Verbo, 1972.
Todas as citações dessa obra serão extraídas da seguinte edição: CUNHA, Euclides da. À Margem da História . Introdução, nota editorial e cotejo e estabelecimento do texto de Rolando Morel Pinto. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 1975.