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O espaço paradisíaco em Don Juan de Byron
Mara Ferreira Jardim (UFRGS)

André Maurois intitulou a longa e minuciosa biografia que escreveu sobre Byron de Don Juan e a vida de Lord Byron , confundindo, deliberadamente, o poeta com o personagem espanhol. Não é, portanto, de admirar, que Byron tenha dedicado os últimos anos de sua vida ao longo poema que tem como herói a mítica figura de D. Juan, já que ele próprio era visto como uma projeção do personagem de Tirso de Molina. Ian Watt 1 considera Don Juan "um dos maiores poemas do romantismo inglês", e Goethe, admirador de Byron, classifica o poema como "uma obra de infinita genialidade".

Exageros à parte, o Don Juan de Byron é uma surpresa para os leitores que chegam a ele com a expectativa de reencontrar o conquistador das versões de Molina, Molière, Zorilla e tantas outras. Isso porque Byron vira a história pelo avesso, transformando seu Don Juan numa verdadeira vítima das mulheres, um "sedutor passivo", no dizer de Watt. O jovem herói de apenas 16 anos é o objeto de desejo de algumas mulheres, que, por serem poucas, podem ser rapidamente listadas: Dona Júlia, Haydée, a Sultana Gulbeyaz (a quem ele, apesar de sua condição de escravo, ousa recusar) e a Imperatriz da Rússia, Catarina, a Grande. Por se tratar de um poema inacabado (Byron morreu em abril de 1824, em plena campanha pela independência da Grécia, e os últimos versos do canto XVII foram escritos quase um ano antes, em maio de 1823), é impossível saber que rumo tomaria a vida do herói. Nos cantos finais, já na Inglaterra, D. Juan vê-se disputado por três damas: Aurora, Adeline e a Duquesa de Fitz-Fulke. Apesar da experiência adquirida em seus deslocamentos pelo mundo e de certo cinismo empregado nas suas aventuras amorosas, o herói ainda se mostra frágil e inseguro no trato com o sexo oposto.

A verdade é que a escolha de Don Juan como seu herói serve apenas de pretexto para que Byron se desnude na figura do narrador, este sim a grande estrela do poema. A obra tem a forma de uma narrativa objetiva e trata de incidentes imaginários aos quais se misturam fatos históricos. Mas, segundo Bowra 2, em Don Juan , Byron fala livremente sobre ele mesmo e sobre sua época, numa visão crítica e satírica. Como resultado, seu poema oferece comentários vívidos e profundos da cena contemporânea. A história do jovem espanhol é apenas metade do poema; a outra metade é um vigoroso comentário sobre a vida e a sociedade. Indignado com os hábitos da classe alta que ele tão bem conhecia, e que dizia uma coisa e fazia outra, escondendo seus vícios sob uma capa de boas maneiras e altos princípios, ele se propõe a denunciar a hipocrisia que vê reinar em todas as instâncias. Esperava, talvez, que, revelando a verdade, expondo o respeitável sistema social como corrupto e falso, pudesse contribuir para o sonho romântico de um homem ideal e, portanto, de uma sociedade ideal.

Byron começou a redigir o poema em meados de 1818, e os cantos II e III, que serão comentados a seguir, foram escritos entre dezembro de 1818 e novembro de 1819. Nessa época, assombrado pelo casamento desfeito e o escândalo pessoal que o leva para o exílio, desiludido de tudo que observa ao seu redor, ele mantém, todavia, a crença num mundo livre dos instintos corruptos do homem, onde o amor ideal também encontrará sua realização. E esse mundo ele retrata na pequena ilha em que coloca seu herói, único sobrevivente de um terrível naufrágio.

Desde a mais remota antiguidade encontra-se a crença de uma época e um lugar onde reinam a paz, a justiça e a abundância, frutos de uma ordem natural e divina e que, cantada pelos poetas, traz ao homem uma mensagem de esperança.

Esse mito está presente na antiga Suméria, no Egito, em Israel, na Grécia, em Roma. A partir da descoberta da América, o mito ressurge, agora fundado na existência real de uma terra exuberante e paradisíaca, um admirável mundo novo que se abre à fantasia daqueles que vivem na metade do segundo milênio da era cristã.

Thomas More é o primeiro de uma série de autores a imaginar uma sociedade perfeita, que oferece a seus membros os benefícios materiais do bem-estar: comida, roupas, moradia, educação e cuidados médicos. A tudo isso acrescente-se uma curta jornada de trabalho de seis horas e entende-se que More tenha denominado, ironicamente, seu paraíso de Utopia, nome cuja etimologia de origem grega remete literalmente a não-lugar, ou lugar não situável.

Mas a Utopia de More emprestou seu nome a um gênero literário que tem produzido frutos ao longo da história da literatura: Campanella, Cyrano de Bergerac, Montesquieu, Jonathan Swift, Hawthorne, Júlio Verne, Wells e já no nosso século, Huxley e Orwell fazem parte do universo dos utopistas.

Em Don Juan , Byron também criou seu espaço utópico: a pequena ilha em que o herói descobre o verdadeiro amor, na figura de Haydée, a jovem grega que habita o espaço insular, um lugar em que a natureza se apresente em toda a sua beleza selvagem e primitiva.

Um breve resumo dos incidentes que antecedem os episódios do canto II ajudarão a situar o leitor, já que, infelizmente, tudo indica não haver uma tradução do poema em português. Todas as buscas realizadas levaram-nos somente a uma adaptação feita por João Vieira, incompleta e insatisfatória, publicada em 1942 pela Edições Cultura, sob o título de Os amores de D. Juan: extrato do imortal poema de Lord Byron .

Para ler Don Juan , em sua íntegra, recorremos à edição inglesa da Penguin Classics 3, que traz uma série de notas explicativas de grande utilidade para o entendimento do texto, especialmente no que se refere aos fatos históricos da época e da própria vida do autor, constantes ao longo do poema. Consultamos, ainda, o texto em espanhol, traduzido por Pedro Ugalde e editado na Coelção Millenium, da Unidad Editorial 4.

No canto I do poema, o leitor é introduzido na vida do jovem Juan, filho de Don José, um fidalgo espanhol, e de Dona Inez, uma dama sábia e virtuosa. Com a morte prematura de Don José, Juan passa a ser tutorado pela mãe, que providencia uma educação que envolve as artes, ciências, a esgrima, o uso das armas e a equitação. Mas o que mais preocupa Dona Inez é a formação moral do rapaz, e ela não envida esforços para mantê-lo longe de todos os vícios, especialmente daqueles relacionados à arte de amar. O jovem recebeu, desta forma, uma sólida educação religiosa, que incluía a leitura de sermões, homilias e vida dos santos. No entanto, aos 16 anos, Juan é seduzido por Dona Júlia, amiga de sua mãe, uma mulher ainda jovem, mas bem mais velha que o rapaz e, sobretudo, casada. Apaixonados e envolvidos num romance adúltero, Juan e Julia são flagrados pelo marido traído. Júlia retira-se para um convento e Juan é afastado do escândalo, embarcando em Cádiz com seus criados para uma viagem através da Europa.

O canto II inicia com a descrição da tristeza de Juan ao se ver separado de seu primeiro amor, da viagem e do temporal que provoca o naufrágio do navio. Juan consegue salvar-se num bote em que se amontoam 30 sobreviventes. Aos poucos, acossados pela fome, todos vão morrendo, e Juan é o único a alcançar, já quase morto, uma pequena ilha perdida no mar Egeu, apresentada pelo narrador em estrofes do canto II.

 

177

Era uma costa selvagem e batida pelas ondas
Com altos penhascos e uma ampla praia de areia
Protegida por escolhos e rochas, como um exército.
Aqui e ali uma enseada, cujo aspecto oferecia
Uma melhor acolhida ao náufrago.
E raramente cessava o estrondo das ondas
A não ser nos longos dias mortos de verão, que faziam
Brilhar como um lago a superfície marinha.

 

Assim descrita, a ilha apresenta uma das características dos espaços utópicos: sua inacessibilidade. Para sobreviver, as utopias precisam manter-se livres da corrupção do mundo exterior. Byron cria então esse espaço rodeado de recifes, penhascos, rochas e ondas incessantes que protegem suas praias, mantendo-as em seu estado paradisíaco.

 

181
A costa ( eu creio que era a costa
Que eu estava descrevendo, sim, era a costa)
Jazia nesta hora quieta como o céu,
Suas areias imóveis, as ondas azuis em calmaria,
Tudo era silêncio, exceto o canto das aves marinhas
E o salto dos golfinhos e o marulho das pequenas ondas
Batendo em declives e rochas baixas
Que elas molhavam levemente.

 

183
Era o momento crepuscular, quando o disco vermelho do sol
Se põe atrás dos montes azulados,
Abraçando toda a terra,
Circundando a natureza, silenciosa, sombria e tranqüila,
De um lado o círculo de montanhas,
e do outro o mar profundo, calmo e frio, e acima o céu rosado,
com uma estrela brilhando como um olho.

 

Trata-se de um espaço selvagem e perfeito para o sentimento puro e ideal que nasce entre Juan e a jovem Haydée. Ela o encontra jogado às areias da praia e salva sua vida, trazendo-lhe alimento e, sobretudo, amor. Em Haydée, Byron projeta sua visão idealizada da mulher. Criada nessa ilha isolada, protegida por seu pai, o pirata Lambros, Haydée nada sabe das malícias do amor, nem de enganos ou traições.

Sobre ela diz o narrador:

 

190
Haydée não falou de escrúpulos, não exigiu juramentos,
Nem fez promessas; ela nunca ouvira falar
de compromissos e pactos matrimoniais,
ou de perigos que ameaçavam uma jovem apaixonada.
Toda ela era pura ignorância e assim voou
para seu companheiro como um pássaro.
E desconhecendo a falsidade, também
não conhecia a palavra fidelidade.

191
Ela amava e era amada, adorava e
Era adorada segundo as leis da natureza.
Suas almas arrebatadas, inclinavam-se uma para a outra,
E se as almas pudessem morrer,
teriam ali morrido de paixão.
[...]

 

Um pouco antes, já o narrador falara dos amantes:

 

185
Eles olhavam o céu, cujo resplendor errante,
Espalhava-se como um oceano rosado, vasto e brilhante.
Eles olhavam o mar esplendoroso,
Em que a lua cheia se mostrava.
Eles ouviam o bater das ondas e o vento sussurrante
E se olhavam nos olhos, escuros, cintilantes
E assim se contemplando, seus lábios
Se aproximaram e se uniram num beijo.

 

186
Um longo, longo beijo, um beijo de amor, de juventude
E de beleza, concentrados como raios em um foco, aceso nas alturas;
Beijos assim pertencem somente a épocas primitivas
Em que coração, sentidos e alma andam concentrados,
Quando o sangue é lava, as pulsações são chamas,
Cada beijo um terremoto...

 

188
Eles estavam sós, mas não na solidão daqueles
Que se fecham nos quartos e acham que estão sós.
O oceano silente e a baía estrelada,
A luz crepuscular que ia descendo,
As areias impassíveis e as cavernas lacrimosas
Em torno deles, faziam com que se abraçassem,
Como se não houvesse outras vidas sob o céu
A não ser as suas, e nunca pudessem morrer.

 

189
Não temiam olhos nem ouvidos naquela solidão.
Não tinham medo da noite. Estavam
Absortos um no outro. E ainda que só dissessem
Palavras entrecortadas, se entendiam
E cada discurso inflamado, ditado pela paixão
Encontrava nos suspiros o melhor intérprete
Do oráculo natural, primeiro amor, tudo aquilo
Que Eva legou a suas filhas no dia em que pecou.

 

Espaço utópico, amor utópico. Byron permite-se esse momento de ternura e crença num estado paradisíaco que sabia não existir. E é por isso que a serpente, no canto III, irá penetrar no pequeno Éden de Juan e Haydée. Vítimas de sua paixão, esquecidos de tudo, não percebem a chegada do mal, transfigurado no pai de Haydée, que de um só golpe destrói o frágil mundo dos amantes.

Haydée encarna a figura da mulher que Byron teria buscado durante sua vida inteira, o amor terno e natural, completo e inocente. Ela é a filha da natureza, não corrompida pela sociedade, que segue seus instintos sem questionar seu valor ou conseqüência. Tal amor só pode conduzir ao desastre e separada de seu amante Haydée morre de tristeza. Morre naturalmente, da impossibilidade do amor, como morreram antes dela Isolda, Julieta e tantas outras.

Em seu ensaio sobre Don Juan , Bowra diz que Byron, ainda que sentindo os apelos do amor ideal, acreditava que esse amor seria inevitavelmente frustrado pela sociedade e destruído pelos instintos corruptos do homem. Ele mostra como a vida embota os melhores sentimentos e conduz ao esquecimento as lembranças do amor mais puro. O poeta mistura seu ideal romântico com considerações realistas, mas o resultado, segundo Bowra, é que o ideal permanece mais fascinante do que antes.

Bowra ainda considera que, além de seu interesse nos temas da natureza e do amor ideais, há em Byron alguma coisa mais profunda: sua crença na liberdade individual e seu ódio contra a tirania e a coerção, quer exercidas por indivíduos, quer pela sociedade. Não se rendendo ao fracasso da Revolução Francesa, Byron aceita o desafio de levar o sonho de liberdade adiante e usa sua poesia como arma. Sobretudo, põe seu dinheiro e sua vida a serviço desse sonho de liberdade. Sua morte em Missolonghi mostra que ele não foi um mero ator, mas um soldado, não foi apenas um poeta, mas um homem de ação.

 

 

WATT, Ian P. Mitos do individualismo moderno : Fausto, Don Quixote, Don Juan, Robinson Crusoe. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1997. P 214.

BOWRA, Maurice. The romantic imagination . Oxford/London: Oxford University Press, 1973. P. 160.

LORD BYRON. Don Juan . Inglaterra: Penguin Books, 1996.

___. Don Juan . Madrid: Unidad Editorial, 1999.