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Imagens do inferno no País da Cocanha
João Claudio Arendt (UCS)
E bem-vindo à América. Aqui é o cu do mundo.
Afonso Amábile
Se a América, em contraposição à Itália, figurava como um lugar idílico para a maioria das personagens de A cocanha , a chegada à nova terra desconstruiu parte dessa imagem. De um modo geral, as projeções não se realizaram plenamente, tendo em vista as diferenças entre o mundo imaginado e a realidade aqui encontrada. Ironicamente, as moedas de ouro, as pérolas, os diamantes, os raviólis, as mortadelas, os presuntos, os rios de vinho grego e os lagos coalhados de polpette e fegatelli são substituídos pela visão de uma terra inóspita e selvagem. A floresta virgem e cheia de perigos passou a representar não só um novo adversário, mas também uma nova travessia rumo à almejada cocanha.
A própria espera no porto de Gênova e a longa viagem de navio contribuíram para que as personagens se dessem conta da gravidade e dos perigos que a empreitada reservava. No fundo, forma-se um sentimento de insegurança e de medo, especialmente por causa da demora do embarque, do descumprimento de promessas por parte dos agenciadores e do contato com o mundo marítimo. Na verdade, algumas personagens interpretam essa situação como uma espécie de purgatório, local em que as almas dos que cometeram pecados leves acabam de purgar suas faltas, antes de irem para o paraíso.
Entretanto, a permanência nos portos constituiu um momento bastante interessante da imigração, na medida em que possibilitou aos emigrantes compartilhar sonhos e experiências, bem como socializar as imagens sobre a América. Nesse sentido, o historiador Mário Maestri lembra que,
no que se refere à estada em Gênova e em outros portos de embarque, é normal e compreensível que sobretudo as experiências extraordinárias e os acontecimentos trágicos sejam registrados privilegiadamente pela memória da imigração. 1
A bordo dos navios, por sua vez, a situação de desconforto físico e psicológico era intensa e resultava da precariedade das acomodações, da falta de água, das epidemias de sarampo, dos ataques de histeria e da própria morte:
[Giuleta] não tolerava mais a imundície em que se transformara o dormitório das mulheres. Percevejos nas camas, piolhos em profusão, cheiro de suor e urina, mais a sufocação pela falta de ar. Um purgatório. Ela se sentia uma leprosa. 2
A grande maioria dos imigrantes que chegou ao Brasil partiu de Gênova, atravessando o Atlântico em navios abarrotados de pessoas. Embora descômodos e normalmente muito sujos, os navios ofereciam regalias gastronômicas, estratégia utilizada pelas companhias de navegação para lotar os transatlânticos e reforçar ainda mais a imagem da fartura americana plantada no imaginário dos colonos. Segundo Mário Maestri, "não é descabido que a comida relativamente farta servida eventualmente nos navios constituísse uma estratégia consolatória das companhias de navegação que se locupletaram sobretudo com a superlotação dos navios." 3
No romance de Pozenato, a fartura gastronômica a bordo dos navios aparece simbolizada por pão branco, biscoitos, carne, peixe, queijo, anchovas, massa, arroz, vinho, aguardente, café e açúcar. Uma dieta bastante diferente da que os camponeses estavam acostumados nas suas localidades de origem. Um almoço que teve massa com molho de carne fresca, vinho e muita animação ajuda a exemplificar esse aspecto:
Os pratos foram esvaziados rapidamente. Para surpresa de todos, foi oferecida nova ração, em bacias fumegantes. (...) Ao ver que iam ser fotografados, Roco, Ambrósio Batiston e Betiato ergueram os pratos sobre a cabeça. Depois, enquanto Domênico apontava a máquina, Ambrósio resolveu melhorar a cena. Pegou um punhado de massa e, de cabeça inclinada para trás e a boca escancarada, fingia metê-la garganta adentro ( A cocanha, p.51) .
A imagem presente nesse excerto, com certeza, é a representação de uma fartura alimentar que muitos colonos conheceram, pela primeira vez, a bordo dos transatlânticos, tendo em vista que na Itália, segundo Cleodes M. P. Ribeiro, o regime alimentar dos trabalhadores do campo era "pobre e monótono", restringindo-se basicamente à polenta, couves, cebolas e almeirão-silvestre 4. A carne, de um modo geral, era consumida parcimoniosamente apenas em algumas épocas do ano, inclusive entre as famílias mais abastadas.
Além dos problemas estruturais dos portos e navios - e suas conseqüências -, as personagens defrontam-se com situações estranhas às suas práticas sociais e culturais. Nesse caso, pode ser citada a quebra do ritual fúnebre quando da morte de passageiros em alto mar, fato que marcou profundamente a memória da imigração e foi incorporado ao imaginário social:
Não havia dúvida. A nòna estava morta (...) O velório foi autorizado no corredor entre os alojamentos, mas somente até o fim da tarde, quando o corpo deveria ser jogado ao mar. (...) Não havia um padre para fazer as orações. Não havia uma flor para pôr entre as mãos da falecida. E seu corpo seria sepultado no mar, onde nem uma cruz poderia marcar o lugar em que ficava.
(...)
- Os peixes vão comer a nòna ? ( A cocanha, p.64-65)
Na opinião da historiadora francesa Evelyne Patlagean 5, a o imaginário pertence tudo aquilo que uma coletividade tem de experiências nos mais diversos setores da sociedade, desde o mais coletivo até o mais intimamente pessoal. Estão incluídos aí a curiosidade acerca das terras desconhecidas e dos horizontes distantes, a origem dos homens e das nações, as incógnitas sobre o futuro e o presente, a consciência do corpo vivido, os movimentos involuntários da alma, os sonhos, a interrogação sobre a morte, os desejos, as repressões, as evasões e recusas, os jogos, as artes, as festas e os espetáculos. No romance em análise, é interessante perceber a necessidade que o grupo tem de manter a sua identidade cultural através de um ritual fúnebre de orientação cristã, que no caso da nòna só pôde ser efetuado parcialmente. Já na morte de um menino de sete anos, a mãe, ao implorar ao capitão do navio para não lançá-lo ao mar, consegue realizar o enterro num cemitério de Rio Grande.
Transposto o Oceano Atlântico com seus perigos, caberia finalmente às personagens a concretização dos seus sonhos e projeções individuais. Conforme se viu num ensaio anterior 6, a cocanha era uma construção imaginária coletiva marcada especialmente pela possibilidade de obtenção de lucros fáceis, fartura alimentar, liberdade, extensas propriedades de terra etc. Todavia, no romance, esse sonho coletivo pode ser analisado individualmente, tendo em vista que cada personagem imaginou para si uma vida ideal na América. Nesse sentido, é possível afirmar que existe uma força coletiva, resultante de experiências negativas vividas na Itália, que age sobre o comportamento dos indivíduos/personagens, impulsionando-os à ação de emigrar, de fazer a travessia oceânica e buscar no Brasil a compensação para todos os sofrimentos.
O caso de Oreste e Gioconda Santin, por exemplo, é representativo das condições encontradas pelos imigrantes na Serra Gaúcha. Cheios de sonhos e recém-chegados ao Campo dos Bugres, Oreste morre, deixando Gioconda e três filhos à mercê da boa vontade dos amigos e dos administradores da colônia. Mesmo assim, ela decide ficar e enfrentar a situação: "- Voltar? Nunca! Não volto nunca mais. Oreste queria tanto vir, por causa dos filhos. Não vou levar meus filhos de volta. Nunca! Nunca! Morro de fome aqui, antes, eu e meus filhos. Não preciso voltar para morrer de fome. Morro de fome aqui" ( A cocanha , p.106). Todavia, mesmo recebendo seu lote de terras e se esforçando para vencer, Gioconda enlouquece e é enviada ao hospício São Pedro, em Porto Alegre.
Outro projeto interrompido é o de Pier e Aurora, cuja miséria material e psicológica não deixam de comover o leitor: "dois cachorros magros e cobertos de bernes"; os filhos "imundos, nariz escorrendo"; os estrados de dormir "cobertos de trapos sujos"... Mas a seqüência de desventuras, iniciada com a morte da nòna a bordo do navio, o desaparecimento da filha Chiara e a morte de outros dois filhos, vitimados pela crupe (difteria), culmina com o suicídio de Pier:
Assim terminava a América que o Pier tinha vindo buscar. A terra, que ele ainda não tinha pago, seria comprada por outro. Os filhos, quando crescessem, não iam ter onde plantar nem o direito de receber uma nova colônia. As meninas resolviam seu problema casando, quando chegassem na idade. Mas os meninos teriam de começar tudo do nada, ou passar a vida trabalhando para os outros, como teria sido o destino deles se os pais ficassem na Itália" ( A cocanha, p.249).
Para a personagem Giulieta Besana, por seu turno, cuja cocanha assumia a forma de uma nova organização familiar, com maior autonomia e respeito por sua condição de mãe, esposa e mulher, o projeto apenas se realiza fora do casamento, no adultério com Domênico Bonpiero. Se na Itália não suportava mais a condição subalterna a que havia sido relegada dentro do ambiente familiar, não podendo nem se sentar à mesa para comer, no Brasil, ela conhece uma realidade ainda pior. Violentada física e emocionalmente pelo marido Antônio, que por força queria um filho homem para ajudá-lo no trabalho da roça, Giulieta descobre em Domênico uma válvula de escape para seu martírio: "Fora realmente por amor que tinha se entregado a um homem que não a espancava como o marido" ( A cocanha, p.326). Apenas o alfaiate, com seus elogios e afagos, fê-la sentir-se mulher, querida e compreendida por alguém.
Por sua vez, a história de Domênico parece ter todos os ingredientes necessários para conduzir a um final feliz. O objetivo de aproveitar a vida longe da esposa e dos filhos concretiza-se, inicialmente, junto com as conquistas materiais. Apesar do sucesso como fotógrafo e alfaiate, as aventuras amorosas com prostitutas e mulheres casadas, entre elas Giulieta, rendem-lhe uma tremenda surra e a posterior fuga de Caxias. Em comparação às demais personagens do romance, a derrota de Domênico é insignificante e temporária, já que "podia se mudar para Porto Alegre", ou "mais longe, em Santa Maria da Boca do Monte, onde havia também uma colônia de italianos", ou quem sabe, "mais longe ainda, na Argentina" ( A cocanha, p.317). Nesse caso, abandonando novamente a esposa Caterina e os filhos, ele tem as condições necessárias para buscar a sua liberdade, a sua cocanha, em outro lugar.
O sonho de Aurélio Gardone de livrar-se do patrão e ter sua própria terra para plantar realiza-se no momento seguinte à chegada à Colônia de Caxias do Sul. Sem burocracia nenhuma, consegue seu lote, constrói sua casa e começa a plantar. Sete anos depois, já se sente um senhor: "Tinha seu cavalo, as duas vacas, queijos e salames guardados no porão, uma pipa de vinho, essa ninhada de leitões. E tinha também dois filhos, Ângelo e Dosolina" ( A cocanha, p.277). Todavia, o desejo de transformar Rosa numa signora, com anéis, camisas de renda e vestidos vermelhos (tal qual as damas dos folhetos de propaganda sobre a imigração) não se concretiza. O vício do álcool tolhe grande parte dos seus propósitos:
Não passava um dia sem sentir nele o cheiro de cachaça, que a deixava nauseada. Ela [Rosa] não conseguira descobrir onde Aurélio escondia a bebida. Em algum buraco de árvore, talvez, ou debaixo de uma pedra. Não sabia se devia falar ou não, tinha medo de piorar ainda mais as coisas. ( A cocanha, p.200)
Entre os altos e baixos da bebida, Aurélio, segue seu destino. As agressões contra Rosa rendem-lhe o ódio de Ângelo, o filho mais velho, que chega a pensar em matá-lo. Porém, após a morte prematura da esposa, Aurélio reduz seu mundo ao paiol (inicialmente sua casa) e à cozinha, numa atitude sempre tristonha, enigmática e silenciosa: "(...) a tristeza esquisita que deu no pai, enfiado de dia no paiol, sem vontade de viver, e as noites inteiras acordado, na cozinha, mudo, desanimado de tudo" 7. Assim, o sonho de Aurélio de construir um império desaba diante das adversidades do meio, do trabalho muitas vezes infrutífero e da incapacidade de realimentar as esperanças trazidas da Itália.
O destino de Rosa Gardone é o mais significativo de todas as personagens de A cocanha . Alimentando o humilde sonho de ter apenas uma casa e uma mesa farta, ela se torna vítima do comportamento agressivo de Aurélio e da imensa solidão provocada pelo isolamento da colônia. Acostumada, na Itália, a morar em vilas e a conviver com suas amigas , "todas ao redor do mesmo fogo, cozinhando às vezes na mesma panela, podendo conversar a toda hora" ( A cocanha , p.154), Rosa precisa adaptar-se à nova situação e reaprender a viver.
Inicialmente, a partir das práticas culturais trazidas do norte da Itália, Rosa busca encontrar alternativas para solucionar seus conflitos e organizar sua nova vida. Para tal, dedica-se aos afazeres domésticos, cuidando da casa, da horta e dos animais. Ela procura organizar o seu espaço e dominar a natureza através da criação de referências simbólicas que lhe permitam estabelecer novas relações de identidade: a casa de chão batido, o terreno para plantar temperos e flores, a gaiola de taquaras para prender as galinhas e, ao fundo, além dos troncos chamuscados, a mata fechada. Dentro da pequena casa, os utensílios de cozinha, as ferramentas de trabalho, a cama de tábuas e o baú com seu enxoval fazem parte dessas referências. O travesseiro de penas, trazido embaixo do braço, "feio, manchado de tantas chuvas e da poeira da viagem", simboliza, muito mais do que uma permanência, a continuidade "da mesma Rosa de sempre, e não alguma outra que ela não conhecia bem" ( A cocanha , p.153).
Em relação aos elementos da flora local, com os quais Rosa trava contato físico e constrói laços simbólicos, emerge, além do nabo silvestre e do pissacàn , a figura de um coqueiro, cujos frutos prontamente agradam o seu paladar. Pelo porte marcial e quase vigilante, Rosa elege essa árvore como guardiã da clareira e como ponto limítrofe entre a casa e a floresta cheia de perigos.
Por outro lado, um objeto, em particular, serve como suporte espiritual e emocional para Rosa suportar as dificuldades. Trata-se de um quadro da Madona, entronizado numa prateleira aos pés da cama: "Ajoelhou diante do quadro da Madona rezando e chorando. Ao fim levantou-se resoluta, e apanhou a enxada. Ia preparar o canteiro das verduras" ( A cocanha , p.157). Entre outras, a imagem da Madona, presente no imaginário social dos imigrantes, constitui uma importante referência simbólica da vida religiosa das personagens de A cocanha . Essa religiosidade vem à tona, especialmente, com a construção de uma igreja e a chegada do padre Giobbe, que, na visão pessoal de Rosa, traz consigo o bálsamo da compreensão e do consolo.
Entretanto, o destino não reserva um final feliz para Rosa. Em pouco anos, a euforia e a esperança dão lugar à frustração, ao cansaço e à velhice precoce: "Apenas trinta anos e cheia de rugas, a boca sem dentes, os fios brancos de cabelo que o lenço deixava escapar" ( A cocanha , p.336). Ela morre aos trinta e seis anos de idade, durante o parto do oitavo filho, literalmente mergulhada na miséria física e psicológica. A morte da protagonista, no penúltimo capítulo do romance, pode ser interpretada como a morte da própria cocanha, como o fim do sonho alimentado pelo grupo de personagens/imigrantes desde a saída de Roncà, no Norte da Itália, até a sua fixação na Serra gaúcha.
O balanço final desta análise permite afirmar que, de um modo geral, a cocanha, como projeto coletivo, acaba se concretizando apenas em parte para as personagens do romance. A visão do inferno sobrepõe-se às imagens do paraíso, deixando entrever que a realidade é sempre superior ao sonho. Obviamente, mesmo não chovendo aves assadas nem tendo rios de vinho grego ou vulcões expelindo moedas de ouro, a fome fisiológica é facilmente suprida com o alimento resultante do trabalho diário. A questão central que emerge de A cocanha é que a problemática das personagens vai muito além de uma satisfação material, configurando um outro drama, cuja solução só pode ser alcançada através da construção de uma nova identidade cultural. A imagem de Ângelo Gardone retirando-se do cemitério, após o enterro da mãe, exemplifica esse aspecto: "Sai do cemitério como se as pernas andassem sozinhas, porque ele não tem lugar nenhum para onde ir, não quer ir para lugar nenhum" ( A cocanha , p.365).
MAESTRI, Mário. A travessia e a mata: memória e história. In: Imigração italiana e estudos Ítalo-brasileiros. Anais do Simpósio Internacional sobre Imigração Italiana . EDUCS, Caxias do Sul, 500p., 1999, p. 196.
POZENATO, José Clemente. A cocanha . Mercado Aberto, Porto Alegre, 371p., 2000, p.67.
MAESTRI, Mário. Op. cit ., p. 199.
RIBEIRO, Cleodes Maria Piazza Júlio. Paese de Cuccagna ou País das Maravilhas. In: Nós, os ítalo-gaúchos . (Mario Maestri Coord.) 2.ed., Editora da Universidade, Porto Alegre, 221p.,1998, p.187.
PATLAGEAN, Evelyne. A história do imaginário. In: LE GOFF, Jaques. A história nova . Martins Fontes, São Paulo, 1990, p.291. Sobre a teoria do imaginário social, ver também BACZKO, Bronislaw. Imaginação social . In: Einaudi , n.5, Anthropos-Homem, Lisboa, 1986.
ARENDT, João Claudio. A cocanha: imagens da América. Texto apresentado no XXI Seminário Brasileiro de Crítica Literária, na PUCRS, em dezembro de 2003. Ver anais.
POZENATO, José Clemente. O quatrilho . 7.ed., Mercado Aberto, Porto Alegre, 211p., 1993, p.12.