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O imaginário do sertão: configuração de um espaço
Gilvone Furtado Miguel (UFMT)
Uma leitura, da perspectiva dialógica, revela que o espaço privilegiado - o sertão - nos romances Grande sertão: veredas 1e Madona dos páramos 2, é mais que um cenário, é leitmotiv realçado de várias maneiras, no desempenho de diferentes funções no contexto. Em busca do mapeamento dessas funções coloca-se em relevo a cartografia - real e imaginária - do processo criador de Guimarães Rosa e do processo criador de Guilherme Dicke, em torno do espaço do sertão mineiro e do sertão mato-grossense, respectivamente.
Na criação da realidade ficcional, os limites da região sertaneja se perdem como dado local 3, adquirindo facetas universais e integradas na concepção do imaginário. O espaço local é trabalhado na constituição de uma dimensão ambígua que procura o equilíbrio entre o geográfico e o simbólico, tornando-se, assim, o patamar sobre o qual se assentam as angústias, as dúvidas, as aflições que atingem a universalidade dos homens ao experimentarem situações conflitivas. As narrativas selecionadas dialogam neste aspecto, pois, concomitantemente, ostentam uma expressão literária vital dos meandros regionais do interior do país e expõem o imaginário do espaço sertanejo, simbolicamente impregnado do sentido da travessia. Tanto Rosa quanto Dicke enfrenta o desafio de permeabilizar fronteiras reais e metafóricas, enfocando as singularidades geopolíticas e culturais do sertão brasileiro.
Em Guimarães Rosa, o universo fabular está calcado na dimensão espacial histórica e mítica, donde se encena o entre-lugar das situações fronteiriças e de passagem constituído na sua ficção, num processo abrangente de valorização do espaço.
Guilherme Dicke é autor de narrativas de caráter mítico com o resgate de entidades lendárias, constituindo um conteúdo mitopoético, ao mesmo tempo em que trabalha os elementos da cultura local, em processo análogo ao da escritura rosiana. Em suas obras retrata, peculiarmente, a natureza local na constituição de um imaginário em que, também, o cenário tem função ativa. As especificidades do sertão e da floresta mato-grossenses são trabalhadas num clima que oscila entre o real e o sobrenatural. O romance Madona dos páramos, resgata a permanência do mítico religioso no fenômeno imaginário do homem mesclado ao registro da regionalidade mato-grossense. Este é o cenário das desventuras dos personagens, homens típicos da região do Mato Grosso e das regiões fronteiriças com o Paraguai e a Bolívia. Eles formam um bando de foragidos da penitenciária de Cuiabá que embrenha sertão adentro, a cavalo, em busca da terra imaginária de Figueira-Mãe, a Terra Prometida. Em comum, todos eles têm a sina do sertanejo endurecido pela vida rude e engastado no mundo do crime pelo impulso do desejo violento de fazer justiça com as próprias mãos, renegando a ordem social. Eles são os frutos dos conflitos geo-políticos-sociais de uma região de fronteiras, lugar ainda por se desenvolver; são forasteiros destemidos que enfrentam as agruras do sertão, vêem-se nos limites da subsistência lutando contra as intempéries climáticas, geográficas, além dos conflitos íntimos.
Grande sertão: veredas tem por referencial visível as paragens abertas do território dos "gerais" mineiros. Esse referente espacial do sertão é retratado na trajetória da itinerância dos jagunços, marcada pela travessia real do território e das veredas que o identificam. Essa itinerância, geradora do deslocamento pelo espaço sertanejo, é provocadora da revelação da diversidade cultural - incluindo as formas de vida social na família e no trabalho, as crenças e a religiosidade mítica, a manutenção das tradições e a aceitação das inovações modernas - latente ou patente nos atritos, choques e conflitos surgidos das alterações e das mudanças impostas pelo processo instaurado para modernizar o sertão mineiro. Também em Madona dos páramos, a itinerância pelo sertão marca o desenrolar da trama narrativa e tece a rede de sentidos associada à história regional de Mato Grosso. Mas, o espaço não é um elemento de valor indiferente na percepção dos personagens, ao contrário, reveste-se de aparências e sentidos múltiplos na reconstituição do imaginário mítico 4. É a movimentação do grupo pelo espaço inóspito que dá mobilidade à narrativa. Nesse dinamismo criado pela alternância entre o relato da ação e a descrição do cenário local, emerge o processo literário que resgata a cultura histórica na hibridez singular que marca a constituição do território mato-grossense.
A definição das fronteiras geo-políticas do Estado de Mato Grosso foi realizada através de processos conflituosos em que a violência tornou-se a lei vigente nos confrontos entre grupos de fora e etnias locais na disputa pela apropriação da terra, o domínio político, o acesso ao poder econômico pela extração dos minérios e o comando das zonas de garimpagem - o exercício da jagunçagem interferindo nos rumos da história regional. No entrelaçamento de ficção e realidade, Dicke estabelece um cruzamento de dados. No sertão, ao longo do espaço percorrido pelos homens em viagem de fuga e de busca por um lugar que, lendariamente, prometia proteção, segurança e liberdade, são encontrados os signos residuais da trajetória histórica da violenta ocupação da terra e da chegada da modernização aos limites do estado de Mato Grosso: ruínas de povoados, aberturas de estradas, marcas em pedras, cercas de novas fazendas, restos mortais e objetos de forasteiros.
Historicamente, sob o signo da valentia, se fez a justiça e a lei na região, ainda, ao longo do século XX. A demarcação das fronteiras geográficas se deu - desde a incursão dos bandeirantes pelas matas virgens no século XVIII - pelos métodos de agressão violenta à localidade, seja na captura de índios para o serviço escravo, seja na exploração das minas de ouro e diamantes, até a disputa dos limites oficiais entre Mato Grosso e Goiás, nas primeiras décadas do século XX. A população sertaneja local e as comunidades indígenas sofreram a destituição de suas posses, de sua cultura e de sua dignidade, pela invasão de forasteiros, aventureiros e exploradores de índoles diversas. As marcas dessa época, emblematizadas na ficção de Dicke, ficaram pelo território que é percorrido pelos fugitivos errantes e, nesse processo, oportuniza aflorar a constituição híbrida da cultura e do povo mato-grossenses, hibridez essa presentificada na diversidade da origem dos homens do bando e confirmada na riqueza dos relatos de cada um deles que possibilitam o levantamento de dados e de informações sobre hábitos, modos de vida, crenças e ideologias.
A narrativa de Grande sertão: veredas retrata a mudança da forma organizacional da vida e da política no sertão com a inserção dos paradigmas da modernização que levaram à extinção da jagunçagem - teor temático do contar de Riobaldo. A narrativa de Madona dos páramos, por seu lado, possibilita, na multiplicidade de vozes, um substrato histórico das disputas e demarcações das fronteiras geográficas e culturais em Mato Grosso. Os autores, ao colocarem seus personagens num espaço periférico, não desejam recuperar a imaginária condição de "Paraíso" que foi alimentada desde o descobrimento; ao contrário, sua ficção revela a rusticidade da vida no interior do país - reforçada na representatividade das incongruências do sertão e na ressonância dos topônimos - tornando-o o espaço ambíguo onde se mesclam história e temporalidades em confronto. Enquanto território periférico, o sertão mineiro e o sertão mato-grossense têm função de cenário privilegiado onde o tensionamento entre os rastros do colonialismo residual e as investidas da modernização 5 configuram-nos como o entre-lugar fronteiriço, onde fluem várias vozes, distintos planos temporais e culturas confrontantes, para "além" do geográfico 6.
A função do espaço-sertão, enquanto espaço híbrido, onde temporalidades e alteridades se superpõem em relações culturais dialógicas, é também o espaço da população flutuante representada pelos bandos de jagunços (GSV) e pelos foragidos andarilhos (MP). Essa imagem móbil associa-se à itinerância, ao nomadismo, à fluidez identitária presente na história da ocupação dos lugares vazios - especialmente em Madona dos páramos, o caráter forasteiro, aventureiro, explorador, migrante, que permeia a história da povoação e da ocupação da terra no Estado de Mato Grosso, está impregnando a configuração dos personagens: homens desenraizados realizando uma travessia do sertão sem limites.
Além da demarcação de fronteiras, o sertão metaforiza o espaço de transição entre a ordem social da modernização e o arcaico, entre o urbano e o regional/rural. Tal demarcação é atribuída ao Curralinho (GSV) e ao povoado de Nossa Senhora do Livramento (MP). Essas concentrações urbanas marcam o desencadear dos deslocamentos e das travessias realizadas por Riobaldo (GSV) e pelos fugitivos (MP). Travessia real que abre o território do sertão ao leitor, e travessia metafórica na busca do conhecimento de si mesmo. Essa forma ficcional de atravessar e mapear novos territórios, expande-se como um processo análogo à ocupação cultural de espaços desabitados e periféricos sócio-economicamente.
A travessia se realiza na viagem. A interferência feita pela natureza, suas intempéries e seus desmandos, vai transmudando a viagem numa trajetória regida pelo desnorteio e pela inexatidão, impregnando a itinerância do caráter da imprevisibilidade que se comprova no relato do desvio da viagem ao norte em que foram alcançar o sul de Minas Gerais (GSV); e no desnorteio dos foragidos que se torna permanente no centro do sertão (MP). Em ambos, todos os planos topográficos atravessados na busca da realização dos objetivos de vingança (GSV) e de fuga (MP) revelam uma natureza labiríntica de uma terra por mapear.
A outra face do cenário é manifesta quando o espaço ficcionalizado sofre substantiva perda de seus referenciais geo-políticos e adquire a força mítica 7 de suscitar e alimentar na mente dos personagens uma visão imaginária ampla, que re-significa o mundo e os fatos no desvanecimento das fronteiras entre o real e o sobrenatural e entre o histórico e o mítico. O sentido do mito como "tradição sagrada", segundo M. Eliade 8, encontra, na base religiosa, uma organização de imagens simbólicas coligidas em mitos e ritos, primando pela redundância imitativa de um modelo ritual que envolve entidades representativas do Bem e do Mal. Esse é o contexto mítico-ritual de Grande sertão: veredas, em que Riobaldo busca realizar contato e contrato com o sobrenatural na imagem do demônio. É o espaço do sertão que se constitui o patamar desse cenário mítico. A encruzilhada das estradas e trilhas, considerada condição geográfica necessária para o ritual, configura também signo de uma travessia dos limites do humano para o mistério do desconhecido e de seu poder. Essas estradas que se cruzam tornam-se símbolo da potência mítica que engloba a representação do Bem (Deus) e do Mal (Demônio) como dimensões opostas que têm caminhos diferentes, rumos diversos, direções antagônicas. Essa dimensão em que as oposições são claras deixa o homem, no exercício de seu livre arbítrio, numa encruzilhada simbólica em relação à escolha do caminho a seguir. A escolha do pacto feita por Riobaldo, a do Mal, deixa-o num dilema, que parece ser eterno, acerca do destino de sua alma: a Deus ou ao Diabo? Nessa travessia simbólica, em que o protagonista enfrenta batalhas terrenas e espirituais, vê-se um desejo de transformação da realidade ontológica - transformação da fragilidade humana em força e poder sobrenaturais que poderão mudar os rumos e os resultados das batalhas.
Em Madona dos páramos, o sertão, mais do que uma paisagem, é a imagem do estado d'alma dos personagens. A deambular solitários e sem pouso pela vastidão sem fronteiras do Tuaiá, o grupo vive à mercê das precárias oscilações; quanto mais se acentuam as dificuldades de sobrevivência mais se aprofunda a formação das imagens que parecem corporificar o lugar almejado. Resgata-se, dessa forma, dos relatos bíblicos a imagem mítica da Terra Prometida e da peregrinação em busca dela, cuja atualização se dá pela inserção de seus mitemas no cenário do sertão. O enredo reproduz momentos e detalhes fundamentalmente característicos do Antigo Testamento, que narra a peregrinação dos descendentes de Abraão pelo deserto hostil em busca de Canaã, a Terra Prometida . No romance, o sertão é chamado de Tuaiá 10, o deserto onde os personagens sofrem privações e experimentam vivências dolorosas e desesperadoras. Assim, a travessia do sertão torna-se a etapa das provações a serem vencidas na trajetória geográfica, pois, segundo os guias daquela jornada, é preciso alcançar e transpor a Serra dos Martírios para encontrar a Terra Prometida.
O sertão reveste-se de duplo aspecto: é, simultaneamente, o reduto do fracasso e da redenção do ser. Reduto do fracasso, pois eles são impedidos de realizar seu projeto de chegar à terra de Figueira-Mãe; e reduto da redenção, pois realizando ali a expiação de seus pecados - travessia existencial - serão regenerados e alcançarão o Paraíso ou a Terra Prometida que, na extensão mítica, é o céu profetizado na mitologia bíblica. Nessa criação mitopoética é possível discernir a dupla operação de abolir o tempo e de reterritorializar o espaço, no transladar dos personagens para a dimensão mítica do espaço utópico da terra de Figueira-Mãe, lendariamente instalada no seio do sertão - uma terra sem mapas. A projeção desse novo mundo imaginário antecipa uma promessa de felicidade, tendo como leitmotiv a existência dessa terra, reduto emergente dos que estão à margem. É a configuração imaginária de uma comunidade interativa, numa inóspita região sertaneja, que floresce do veio das lendas e das estórias orais e tem sustentação no imaginário dos personagens.
Da perspectiva inicial, o protagonista de Grande sertão: veredas é enfocado no ambiente modernizado, seguindo um estilo de vida civilizado, num tempo presente. O seu relato e toda a sua história dão conta de um homem-jagunço que se transformou num homem civilizado; uma vez cumprida sua tarefa de vingança e de libertar o sertão das tropelias dos jagunços sem lei, Riobaldo aquieta sua vida no cessar das andanças, adaptando-se ao ritmo da modernização e da nova ordem política no sertão. A sua travessia já aconteceu; o seu interlocutor o encontra em sua fazenda, com família, como cidadão integrado numa ordem civil - é dessa posição que ele narra as suas aventuras, relatando também o transcorrer da história local. Riobaldo é o personagem que deixa o mundo do sertão "atrasado" e se insere na modernização 11; o seu olhar se detém e retoma uma realidade da vida sertaneja que já não existe mais.
Dicke executa um projeto criador pelo caminho inverso desse de Rosa. A inserção de seus protagonistas mostra-os deixando o circuito urbano, civilizado, para adentrar o espaço infinito do sertão do Tuaiá; eles renegam a lei e a ordem social vigente; infringindo-as criaram o motivo e a justificativa de sua fuga e de sua viagem pelo sertão. Tanto mais se distanciam do mundo urbano, mais vão se envolvendo e aceitando um mundo imaginário, sedimentado nos apelos míticos de suas próprias crenças e esperanças.
O transcurso geográfico dos bandos é referenciado pelos marcos topográficos que adquirem estatuto de ponto cardeal - guia e norteador. Em Grande sertão: veredas , o Rio São Francisco é a referência principal de localização; os rumos são definidos a partir dele. Em Madona dos páramos , ganha esse estatuto a Serra dos Martírios. Ambos, Rio São Francisco e Serra dos Martírios, ecoam a existência permanente das dificuldades da travessia.
No dinamismo da formação das imagens, os foragidos dão formato e estrutura a uma comunidade imaginada, alternativa, periférica e avessa ao modelo da modernização e da ordem social estabelecida como parâmetro de organização e justiça. Da sua imaginação flui um território arcaico paralelo à modernidade - Figueira-Mãe, cuja demarcação é a Serra dos Martírios - aberta a itinerância de toda diversidade de habitantes de margens, seres excluídos da história e da ordem social e política, a minoria periférica que encarna as mazelas humanas na capacidade de praticar o mal e que a territorialidade fixa dos centros urbanos alija do convívio - nas prisões - e até expulsa para os arrabaldes: margens. A travessia de uma realidade a outra se dá pelo influxo da transitividade territorial, pelo redimensionamento da paisagem, pela transformação da noção de fronteira e de limites espaciais. A cartografia dos territórios - do sertão-região no passado e no presente em Grande sertão: veredas e do sertão real de Mato Grosso e do território imaginado da terra de Figueira-Mãe em Madona dos páramos - permite o agenciamento da hibridez e da transmigração que desloca, atravessa e viaja dentro das obras - revelando a transmutação da face regional. Riobaldo (GSV) relata a transformação do sertão rústico em lugar modernizado 12, embora não deixe de denominá-lo sertão. O seu projeto de livrar o sertão da jagunçagem foi realizado e gerou a mudança; ele acompanha e participa das transformações no sertão num lugar adaptado à modernidade. Na ficção dickeana (MP) verifica-se um resgate da cartografia do sertão para uma re-significação do espaço. O processo de imaginação que promove a re-significação do lugar corporifica o potencial utópico que quer dar realidade a uma nova nação, a uma nova pátria, um novo perfil à região. A fundação desse lugar passa pela demarcação de novas fronteiras, passo inicial para se eleger um novo lugar como pátria. Essa visão de uma nova pátria remete à situação do exilado que, pelo desterro, se vê desenraizado do seu lugar. A fuga pelo sertão, num processo de errância à procura de um lugar imaginado para se radicar, dá sustentação ao imaginário que quer mapear o novo território, localizá-lo e a ele pertencer. Nesse perfil, há a identidade de uma nova nação em proporção mínima, simbólica, com uma forma de ordem, de lei e de liderança oposta à ordem vigente, porém estabelecendo uma nova estrutura. Assim, a terra visionária de Figueira-Mãe ocupa posto de entre-lugar, de "terceira margem", tanto na relação entre os espaços urbanos e o sertão, como na relação mítico-religiosa entre o céu e a terra, figurando como um "mais além" do que pode ser comprovado pela capacidade lógica do homem. O entre-lugar como o espaço "entre" - nem um nem outro - mas, no intervalo, na lacuna "entre" o espaço urbano e o sertão; "entre" o real e o mítico; "entre" o senso de percepção lógica e a imaginação visionária.
Verifica-se um processo disjuntivo entre a modernidade urbana e o sertão mítico nos romances: à medida que as marcas da moderna civilização avançam, o mítico tende a ser dissolvido, passando a predominar o pensamento lógico-racional - situação essa contextualizada em Grande sertão: veredas; no reverso, à medida que aumenta a distância temporal e geográfica entre a civilidade urbana e o sertão retrógrado, desabitado e imenso, mais se aprofundam e enriquecem as imagens de um pensamento mítico, primitivo, fundacional, como ocorre em Madona dos páramos.
Ao sentido da viagem agregou-se, na literatura, o valor simbólico da travessia, o que está consagrado desde a publicação de Grande sertão: veredas - referencial incontestável. Neste contexto de estudo, é pertinente agregar-se também, e de maneira a reforçá-lo, o valor simbólico da errância. Em definição, além do desnorteio associado a uma jornada, há também o sentido das tentativas de aprendizagem e conhecimento, de procura e desencontros, de persistência e continuidade, apesar do insucesso constatado. As viagens de Riobaldo culminaram em travessias : objetivos alcançados, projetos realizados; o protagonista chegou a um porto seguro e se instalou. Já a viagem dos doze protagonistas (MP) tornou-se uma errância pelo sertão: uma movimentação itinerante e permanente, sem alcançar o destino almejado de transpor a Serra dos Martírios e se instalar na terra de Figueira-Mãe. O sertão que, para Riobaldo, proporcionou a realização, para os fugitivos tornou-se reduto de seu fracasso; para Riobaldo, o sertão foi o espaço de sua passagem, de suas travessias; mesmo entranhado em seu ser, geograficamente, ele o atravessou; na narrativa de Dicke, eles não conseguem atravessá-lo, pois andam em círculos, e assim, o sertão torna-se seu lugar de permanência, mesmo que em errância constante, permitindo instaurar, por isso, a ponte com o eterno mítico, o in-illo-tempore . Aí se insere a fronteira inevitável: a morte.
Esse diálogo aberto entre as duas obras possibilita, complementarmente, ampliar a visão do e sobre o homem no espaço histórico.
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