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As Mulheres de Deus
Fernanda Ribeiro Queiroz de Oliveira (FESURV)
Cecília Meireles é a palavra da mulher. Cecília Meireles é a fonte musical da condição feminina. Cecília e poesia confundem-se em um só elemento, em uma dupla face indissociável por veias que fazem fluir a vida. Dessa junção, poemas belíssimos surgem para consolidar a condição una e multiforme da beleza. Pela leitura de textos como Santa Maria egipcíaca 1vê-se aflorar uma religiosidade instaurada em flor pela delicadeza das pétalas desacompanhadas de espinhos que expulsam. Os espinhos despendidos pela poesia ceciliana promovem sensações de dor macia, envolvente e, portanto, lentamente contínua.
A mulher é um tema ceciliano muito recorrente, não no sentido de manifesto, mas no curso da imagem. No decorrer desse trabalho, entrelaçaremos uma das muitas mulheres cecilianas a narrativas bíblicas e ao senso comum que ronda a nossa sociedade em que o elemento feminino geralmente é observado pelo viés da fragilidade, da vulnerabilidade e, em palavras mais cruas, pela incapacidade. É imperfeita, chamada de passional sempre que não se curva à subserviência. As interpretações das narrativas religiosas, em especial as vinculadas ao cristianismo, visualizam uma mulher mais pendente ao pecado. Onde Eva oferece a maçã a Adão, lê-se expulsão do paraíso.
" A serpente era o animal mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse à mulher: "É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?" A mulher respondeu-lhe: "Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais." - "Oh, não!" - tornou a serpente - vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal" (BÍBLIA SAGRADA).
E todos sabem como termina a história - Eva, persuadida pela palavra, dela se vale para convencer o encarregado de simplesmente nomear e os dois são expulsos do paraíso e impossibilitados de provar do fruto da árvore da vida. Contudo, existe uma possibilidade de interpretação que sempre se procura evitar. A mulher fundou o pecado original não por lascívia e frivolidade, mas pela necessidade de conhecer, de ultrapassar o estágio da ignorância para o da reflexão. A formação da consciência é algo doloroso por si e saber a diferença entre o bem e o mal implica no posicionamento perante à escolha. Eva não fundou o sofrimento, mas a humanidade. Viver no paraíso rodeados pela perfeição e impossibilitados de refletir, seria uma condição pesada demais para a figura feminina. Nesse momento, a raça humana transforma-se em deus invertido, justamente porque gera as próprias divindades em que acreditar, oferecendo a chance de uma segunda aparição criadora ao Criador.
O homem é colocado em posição de joguete sem vontade nas mãos dessa deusa negra. Adão cede ao discurso de Eva, Judite seduz Holofernes, Ester usa de sua beleza para convencer Assuero, Ruth encanta Booz. As histórias bíblicas possuem como grande tema recorrente o uso da mulher como o melhor instrumento da vontade divina - seja para o castigo, seja para a libertação. A sensualidade feminina deve ser virtuosa. O motivo da tentação é que dá o tom nessa dança de julgamento, perdão e execução. Judite tem sua beleza realçada por Deus para que pudesse render o inimigo.
"Quando acabou de orar ao Senhor, levantou-se do lugar onde estava prostrada diante do Senhor. Chamou a sua criada, desceu à sua casa, tirou o silício e despiu suas vestes de viúva. Lavou-se, ungiu-se de mirra preciosa, arranjou o cabelo e pôs um diadema. Vestiu-se como para uma festa, calçou as sandálias, pôs os braceletes, o colar, os brincos, os anéis e todos os seus enfeites. O senhor aumentou-lhe a beleza, porque tudo aquilo procedia, não de uma paixão má, mas de sua virtude; por isso o Senhor deu-lhe uma tal formosura, que apareceu aos olhos de todos com um encanto incomparável." (Livro de Judite)
A mulher deve ser sensual para o olhar do outro, do coletivo, mas não deve usufruir da própria sensualidade sob pena de ser amaldiçoada. É como conviver com a própria sede sendo água.
Em Santa Maria Egipcíaca de Cecília Meireles, emerge da superfície das palavras uma mulher que se sacia e que ama a própria sensualidade. Deixa a casa, o conhecido, enquanto ainda é menina e sai a construir a própria educação pela diversidade do mundo. É uma mulher-água, constitui-se ubiquamente como um elemento natural e um elemento cósmico.
Maria Egipcíaca é uma força natural irmanada com o líquido, com a capacidade de movimento sem apresentar uma forma estaticamente definida.
Sou rio, serpente,
corro para onde quero, sozinha
para longe corro.
É a morada do mistério, que consegue ter cabelos como "algas" e arder e queimar. Esse paradoxo não se apresenta como problema em busca de solução, mas como essência mesma dessa mulher condenada pela história, vista a trilhar um caminho inconsútil entre o bem (que oferece a outros) e o mal (que é o bem que oferece a si mesma).
Sou perfume de óleo fervente,
ervas, flor, semente
em viva brasa
De meu fogo morro.
Não há fogo de sol nascente,
não há fogo de sol ardente
que se compare à labareda minha.
Olha os meus braços que seguem na minha frente,
finas cordas de seda muito seguras,
olha o meu vasto cabelo sombrio,
que é uma vela redonda de noite e de vento
Olha o meu corpo como um navio
cortando as horas escuras
e a louca espuma fosforescente...
Olha na minha boca o mel das tamareiras...
Maria Egipcíaca é fogo e travessia, é corpo que se consome pelas brasas e delimita-se pelas águas. Incorpora-se na figura de barco, estabelece-se como continente móvel e imprevisível e redobra-se em outro ambiente que é continente e conteúdo - o líquido.
Nessa propagação de si mesma, vai além de si, tornando-se infinita dentro do próprio corpo. Sua viagem e movimentação, sua busca pelo prazer a fazem conter dentro os homens e a fazem imanente e contida no mundo das coisas.
Permitindo-se a si mesma, a peregrina apresenta-se embevecida com a própria beleza e com o mundo. Sua sensualidade a torna uma manifestação colorida que dá motivo de existência ao céu e à terra. A fugitiva de Alexandria não busca a metafísica e o que não se toca. É alertada constantemente por uma "voz mística" que tenta acordá-la de seu sonho narcisista e que age como uma espécie de consciência banida.
Maria Egipcíaca é a mulher que não busca a virtude e o sacrifício, é a mulher que se permite o corpo, o que sempre foi algo condenável a olhos cristãos. Cultua a materialidade e sintetiza "navios", "desertos", "tendas" e "verdes luas" em imagens que inspiram sua identidade. Fala a Voz mística:
Maria do Egito! Maria do Egito!
há um outro assombro e um outro grito,
e uma cruz que se levanta
e os homens que espera vão para a Terra Santa...
Deus mandou para todos nós a Sua mensagem
iremos àquela sacratíssima paragem
beijar a terra que beijou o Crucificado,
ver o túmulo de onde saiu ressuscitado.
E essa voz movimenta uma simbologia que dialoga com ambientes além terra e não alcançados pelo olhar, mas pela fé - esse olho que traduz o mundo no inalcançável. Levanta uma discussão que estabelece a tensão entre vida e morte, entre o sagrado e o profano.
Mircea Eliade, em Tratado de História das Religiões , discute
"esta ambivalência do sagrado - que ao mesmo tempo atrai e causa repulsa. Aquilo que desde já podemos notar é a tendência contraditória manifestada pelo homem perante o sagrado (considerando este termo na acepção mais geral). Por um lado, o sagrado procura assegurar e aumentar sua própria realidade por um contato tão frutuoso quanto possível com as hierofanias e cratofanias; por outro, arrisca-se a perder definitivamente esta "realidade" pela sua integração num plano ontológico superior à sua condição profana; embora a deseje ultrapassar, não pode entretanto abandoná-la completamente."(p. 23)
Nesse sentido, a voz mística anuncia a existência e sofrimento da Cruz pela materialidade da "cruz", do "túmulo", da "Terra Santa". A presença divina, intangível por excelência, necessita de certa concretude para agregar-se e convencer os homens. Os romeiros buscam um lugar físico, geográfico, para, aí, conseguirem sua comunhão com Deus.
Desde a expulsão do casal do paraíso, o divino precisa convencer os homens de sua existência. Eva vinculou indelevelmente a mão divina à mão humana. Os pecadores são elementos essenciais à engrenagem da purificação que alimenta e reaviva o sagrado. É o corpo de Maria do Egito que confere a motricidade necessária ao girar das rodas celestes. E a peregrina não quer dispor de sua materialidade.
Eu serei nas minhas alfombras
como um jardim de chafarizes e sombras,
e ensinarei melhor o horizonte e o infinito,
e serei como a parede de basalto
onde tudo está desenhado e escrito,
e serei como a flor
que levanta seu rosto tão alto
e morta se inclina derramando aroma e cor...
Eu pararei as naves, as grandes, austeras naves,
e farei sorrirem para mim os homens graves
que procuram a salvação dentro da morte.
Morro melhor no amor que os sábios em sabedoria.
Desafia o motivo religioso que leva os homens naquela viagem e dispõe-se a integrá-los em sua própria travessia. Nesse momento, Maria Egipcíaca propõe-se a estabelecer um desvio e, nesse braço do rio, ela é envolvida por outros curso que a levarão à Terra Santa. Quando se propõe a fazer de sua delicadeza e intimidade sinestésica um porto de parada à heróica cruzada, a mulher reafirma sua auto-sufuciência perante à divindade. Seu corpo converte-se em templo para o espírito e o intelecto.
A partir desse momento, a ameaça de condenação converte-se de velada a constituída.
Maria do Egito, em fogo breve será consumida
tua pequena, ardente vida.
Maria do Egito, em fogo eterno será queimada
tua paixão desesperada.
A polivalência do fogo que se triparte em desejo, punição e purificação assume-se como elemento marcado pela divindade. A convergência da mulher tão material aos suspiros da metafísica começa a se querer anunciar. Queimar assume agora laivos de perdição e de dissolução da existência. Corpo e alma serão punidos pelo elemento que funde e que desintegra ("fogo breve"), que fere e gera um calor que suplanta a dor quente do desejo insatisfeito ("fogo eterno"). É o fogo, assim, ameaça para o conhecimento.
Bachelard, em A psicanálise do fogo , afirma justamente que "uma psicanálise do conhecimento objetivo deve ir ainda mais longe. Deve reconhecer que o fogo é o primeiro fator do fenômeno . Com efeito, não se pode falar de um mundo do fenômeno, de um mundo das aparências, a não ser diante de um mundo que muda as aparências." (p.85)
A essa provocação flamejante da voz mística corresponde um início de diálogo entre ela e Maria Egipcíaca (as duas, elemento feminino). Como duas vozes que caminhavam paralelas em relação aos mesmos acontecimentos e que atingem agora a concorrência dessas linhas.
Não me atires palavras de escândalo,
que eu não serei jamais mulher que se venda,
seja mendigo ou imperador quem me pretenda.
Eu sou a mulher eternamente dada
que em seu próprio fogo se sente abrasada.
Sou minha escrava, mas sou minha dona,
amo o meu próprio amor que não me abandona,
que é todos os dias uma flor nova...
Maria Egipcíaca reafirma sua liberdade em relação aos homens e à divindade., coloca-se como início e término de um ciclo sempre renovado. Essa "flor nova" não se converte em fruto, o que acabaria gerando uma existência que começa a desvincular-se de si mesma, nem retrocede à condição de semente, posição original, ainda um presságio de futuro. A peregrina renova-se sempre na mesma condição estéril para o futuro e gestação, presa apenas à beleza e ao perfume. Sua busca por estesia acaba por instaurar a virtude do desejo. O desejo que não se vende, que se basta em sua própria realização.
Maria do Egito não é a mulher que se alimenta pela venda de seu corpo, mas uma mulher dotada de um corpo que a alimenta. Ela não se troca, não se vende, não se rende à vontade alheia. Maria é concha voltada sobre si mesma a alimentar a própria pérola. Descobre-se nela a busca pelo corpo do outro não como alguém que necessita do alheio e a ele se submete, mas como altar sem Deus que atrai seguidores que lhe pertençam. Sua auto-suficiência, sua liberdade só se limitam a ela mesma. Sendo o seu próprio começo e fronteira, Maria Egipcíaca se é fiel, não é um elemento que admite sua integração social, na temporalidade e na finitude. Galga as escadas do símbolo e roça o arquétipo. 2
A voz mística continua a alertar a peregrina para que renegue esse amor material e narcísico, essa situação de mulher cujo espelho é a adoração e as fagulhas dos olhares dos homens. Incita Maria a começar uma viagem com destino a outro porto que não o próprio. Mas ela não lhe dá ouvidos.
Eu sou a água, eu sou a rosa,
que me desfolho, que me desfolho,
Quero dar-me a quem passa, eu, Maria,
irreprimível dadivosa,
quem me recebe não vejo, só amo...
Meu corpo é a minha sabedoria,
meu rito é o tempo que se goza
na trepidante Alexandria
Meu nome é a ardente alegria.
Maria do Egito estabelece-se como divindade e questiona porque o mundo não pode adorar o prazeroso. Essa mulher báquica divide-se com "quem passa", impregnando aos outros de sua travessia dinâmica e estacionária. Ela se desfolha como rosa libertada das próprias pétalas, que impregna a todos que a tocam com o seu cheiro e que continua sendo rosa em cada parte que solta de si. É a fragilidade que não se fere. É a água que contém a travessia dos homens.
Não é uma deusa convertida em negras águas. Maria Egipcíaca não é a mulher destruidora, que ameaça e consome. Coloca-se antes como "verde lua", ciclo inocente e iniciante no gozo e na redenção da transitoriedade, descida do céu à sensualidade da terra e da natureza. É fruto, é alimento, transfere sua continência para o interior do alheio.
De que terra falais, e de que profecias
e por que navegais com pressa tanta?
Vinde comer à minha mesa,
onde o alimento é minha beleza,
vinde beber meu vinho doce e forte.
Por que ireis procurar a morte?
Que gosto é o vosso por sepulcro e cruzes?
Ficai comigo, descansai neste aposento
onde o meu sonho é o mar e a minha voz, o vento,
e meus olhos outros faróis de extensas luzes...
Ou levai-me convosco por esses mares que não conheço.
Levai-me convosco que posso pagar o que quiserdes.
Eu mesma serei a moeda, seja qual for o vosso preço:
pois meu peito é uma cesta de frutas e flores,
meus olhos, uns tanques de inquietos peixes verdes,
minha cintura uma harpa com fitas de mil amores,
e é uma noite de seda meu cabelo aberto,
e a minha boca uma tâmara entre os ventos do deserto...
Observa-se aí a instauração da mulher natural em uma mulher cósmica, que possui em seu corpo todos os elementos do universo. Contém o mar, o vento, a noite, contém as representações do cosmos feitas pelos homens como a harpa, o cesto, os faróis. É esquema digestivo, copulativo, é arquétipo. É esquema porque estabelece-se como princípio profundo, como alimento à espera de um movimento que o possua, e, quando tomado, transmuta-se em corpo prazeroso, une-se, mas não mais se confunde com o interior do outro ("Ficai comigo", "Levai-me convosco").
Nessa transição entre o primordial e as imagens que se geram em seu seio, Maria Egipcíaca assume-se como figura de um Cristo precário. Precário porque usa como argumento para sua adoração a vida, porque os peixes que distribui são verdes e imaturos, porque não pretere seu agora em função de um agora depois, porque renega o símbolo, degrau mais distante de sua fonte geradora, porque sepulcros e cruzes são estáticos e plantados em um terreno geográfico e histórico. Maria Egipcíaca oferece aos homens a informe vida, a situação universal do instante, um instrumento capaz de sintetizar a simultaneidade. E ela não entende quando os homens passam e recusam-se a imergir em sua travessia e prontificam-se a levá-la em outra viagem.
Mas a Terra de que falais não é um mundo eterno?
Não dizeis que buscais uns lugares sagrados?
Como quereis levar-me para essas terras tão tristes,
onde tudo que é belo está morto?
Maria do Egito não compreende a matéria a que se dirigem, não entende e menospreza a adoração ao seco e infértil, não entende a troca de seu luxuriante jardim por túmulos e desertos. Não aceita a redução da divindade à coisa triste e morta, recusa um trajeto redutor da plenitude do imaginário ao signo.
Mesmo assim, usa seu corpo como entrada naquela viagem. Mais uma vez, o corpo da mulher rendendo-se a percursos traçados pela divindade. Mais uma vez seu corpo é barco a vela sem timão ou timoneiro, apenas projetado no veículo de um barqueiro alheio.
E os homens pisam a Terra Santa e o amor de Maria Egipcíaca não pesou em seus ombros como pecados. O hálito dela ainda lhes perfumava a boca quando começaram a entoar os hinos sagrados. Contudo, ela perdeu a sua unidade sempre flor. Maria transformou-se em altar sem seguidores. Ela, que prescindia dos outros em sua existência, vê-se sem rumo ao perder o espelho do olhar dos homens. Jerusalém aprisiona seus pés antes brisas em território macedônio. Foi transportada a um ambiente alheio ao seu e Maria do Egito precisava integrar-se à paisagem. Assume a partida de sua ardente beleza para transformar seu corpo em deserto, em memória da água, em rosa seca que começou a enfeitar-se e coroar-se de espinhos.
Nessa nova travessia de Egipcíaca não se pode pensar em termos de punição do corpo para purificação da alma, mas em um Cristo feminino, um Cristo que passou primeiro pelas provações do corpo para depois experimentar a da alma. Ela se compreende em um outro estágio de deslocamento em relação ao outro, prescinde da multidão para carregar sua solitude pelo deserto. Continua auto-suficiente já que continua sem necessidade de intermediação alheia para dialogar com o Senhor. Mais uma vez seu corpo é porto de passagem. Maria abdica da própria transitoriedade e parte em busca do perene. Não é mais um barco deslizante na própria imobilidade, agora busca algo fora de si.
Todavia, Maria Egipcíaca continua a ostentar-se como uma assimilação feminina de Cristo. Sua caminhada pelo deserto refrata o retiro de Jesus para sobreviver às tentações. A peregrina sintetiza em si, ao contrário de sua contraparte masculina, Deus e o Diabo, tentado e tentação.
E Maria levou uns cinqüenta anos sozinha
em penitência pelo deserto.
Nada mais possuía, nada mais tinha
além de seu velho corpo, pela cabeleira coberto.
Um pobre corpo como no inverno a cepa da vinha.
Os 4 evangelhos sobre os 4 ventos
vinham trazer-lhe seus ensinamentos.
E nem comia nem bebia,
Maria de Alexandria,
nem acordava, nem dormia,
e sua vida estava suspensa
entre o alto céu e a ânsia imensa,
alimentada só por um celeste rossio.
E às vezes caminhava por cima das águas do rio.
E Maria de Alexandria não é mais água, caminha sobre ela. Não imerge mais nada em seu corpo que, agora, não se importa mais consigo. Egipcíaca, que antes era alimento de si mesma, nutre-se de uma fonte externa. Sua busca por ajuste estende-se a um céu não mais povoado pela terra.
A transcendência da própria materialidade apresenta-se dolorosamente para a "Santa Maria". É um processo de iniciar nova história sobre as ruínas da primeira. A troca acaba sendo proveitosa, uma vez que Maria troca seus "braços lenhosos e torcidos", seus "peitos frouxos vazios, indiferentes" por uma alma eternizada. Maria rende-se à tentação de Deus.
Era uma bela mulher que perderia a batalha contra o tempo. A sua cosmogonia não ultrapassa a sua condição de mortal. Recolhe-se à deserta Jerusalém e ali transforma-se em única platéia da derrocada de sua juventude. Era tempo de habitar aquele dinamismo estático de sua travessia com uma movimentação anti-narcísica. A paixão e o amor por si convertem-se em amor para além. O tempo local perde sua batalha para o não-tempo da eternidade. Ali onde as coisas deixam de ser para serem realmente.
Zósimo, grava na tua memória
os quatro instantes da minha história:
a menina enganada,
a pecadora reclinada,
a romeira subitamente esclarecida,
e esta que morre e só na morte encontra vida.
Maria Egipcíaca, agora profeta, vendo as pessoas ao invés de apenas amá-las, apresenta uma vibração longínqua de sua mãe como tal, Cecília Meireles. É recorrente em paragens cecilianas a despedida do corpo e a passagem para um mundo sem aflições e sensações de deslocamento e inadapatação.
Pensa em mim, Zósimo, porém sem pena: pois bem cedo
deixarei esta areia,
entrarei clama na minha sepultura,
tão velha, tão feia, sublimada por altas chamas,
tão feliz, tão pura!
A passagem do tempo é algo que sempre atormenta as vozes de Cecília e é geralmente equacionada pelo berço da morte, que embala os sonhos dessa noturna poeta, flamejante por fogo que não queima ou deforma, mas que se volta como ponte para um estágio em que se supera a própria vida.
MEIRELES, Cecília . Poesia Completa . Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993p., 2001.
DURAND, Gilbert . As estruturas antropológicas do imaginário : introdução à arqueologia geral. Martins Fontes, São Paulo, 551p., 1997.