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Benito Cereno: Máscaras no Mar
Eliane Muratore (UFRGS)

A literatura, como toda forma de arte, proporciona aos seus admiradores e leitores, a oportunidade de pensar o mundo e a si mesmo através de uma nova ótica.Os clássicos da literatura nos proporcionam isso e tornam claro o quanto, apesar de diferentes e, algumas vezes distantes no tempo e/ou no espaço , os homens possuem de semelhante.

Benito Cereno é um desses livros, que podem ser chamados de clássicos pois é atual e se revela novo e inesperado. Além disso, Herman Melville é um autor consagrado, considerado um dos grandes escritores norte-americanos, tendo escrito um dos clássicos do século XIX, Moby Dick . Melville atravessou o século observando os homens e a sociedade, aprendendo a ver além das aparências. Na maior parte de suas narrativas, Melville usa suas próprias experiências como fonte principal e base de suas histórias.

Seu 1º livro, Typee (1846) fez grande sucesso junto ao público e imediatamente Melville publica outro livro, Omoo (1847). O próximo livro Mardi (1849) não agrada muito e as vendas diminuem. Melville tenta recuperar seu prestígio escrevendo e publicando em pouco tempo Redburn (1849) e White-Jacket (1850). Nenhum deles conseguiu reverter a situação e Melville começou a entender que agradar os leitores já não era tão fácil.

A publicação de Moby Dick demorou um longo tempo, pois Melville o escreveu duas vezes. O que iria ser mais uma aventura no mar transforma-se num dos mais importantes e marcantes livros da literatura norte-americana. Moby Dick é um romance de aventuras que contém uma série de meditações e perguntas sobre a condição humana, ao lado de informações documentais sobre a indústria baleeira. Após o desastre comercial que foi Moby Dick , Melville tentou, mais uma vez reencontrar o sucesso e escreveu Pierre (1852), que novamente não agrada o público. Em 1853 ele começou a escrever, por razões econômicas, contos e comédias curtas para periódicos como Putnam's e Harper's.

Quando Melville morreu, em 1891, os obituários referiram-se a ele como um escritor popular anos atrás e cujo melhor livro tinha sido Typee . Na década de 20 do século XX, Herman Melville foi redescoberto por estudiosos de literatura e, desde então, é considerado um dos mais importantes escritores norte-americanos, e Moby Dick , um dos grandes romances de todos os tempos. Apesar desse reconhecimento ter chegado tarde demais para que Melville pudesse apreciá-lo, a verdade é que ele era um escritor para o século que estava chegando. São os leitores do século XX que vão ler e valorizar seus trabalhos, à luz de novas convenções estéticas, estando aptos para entender a profundidade existente em suas obras e ávidos para compreender toda a sua simbologia.

Melville possuía uma intuição sobre o sentido trágico da vida, confirmada durante seus anos no mar, quando, em contato com a perversidade das tripulações e dos capitães e viu o sofrimento como poucos outros escritores de sua época puderem ver. É toda essa experiência que, amadurecida e acrescida das idéias nascidas de suas leituras, fez dele um escritor obcecado pelos males da existência, pelo questionamento sobre o ser humano e suas motivações, pelo bem e pelo mal.

Trama e processo narrativo em Benito Cereno: um jogo de máscaras

O livro The Piazza Tales , publicado em 1856, é uma coletânea de vários textos publicados por Melville em uma revista, sendo um deles "Benito Cereno". Melville ao escrever essa história baseou-se em fatos reais. A fonte é o capítulo 18 de um livro, publicado em 1817, chamado A Narrative of Voyages and Travels, in the Northern and Southern Hemispheres, escrito pelo Capitão Amasa Delano. Melville aumentou o capítulo adicionando, mudando e omitindo informações, ações, personagens e alguns detalhes, transformando uma simples narrativa de viagem em uma significativa obra literária. As mudanças são menos importantes que os acréscimos, pois é através deles que Melville dispõe os símbolos, tornando a obra polissêmica. Fazendo isso, ele aumentou as possibilidades de leitura do texto, permitindo que cada leitor possa encontrar múltiplos sentidos, dentro de um limite, e interpretá-los à sua própria maneira.

A história de Benito Cereno passa-se em 1799, na costa do Chile. Um navio caça-focas americano, comandado pelo Capitão Delano, está ancorado no porto de uma pequena ilha deserta. Em uma manhã nebulosa, seus ocupantes vêem surgir, na entrada do porto, um navio de aparência estranha, sem bandeira e visivelmente com problemas. Ao subir a bordo, encontra muitos negros pelo convés e um capitão enfraquecido pelos graves problemas e desgraças que haviam atingido o seu navio . Esse capitão é Benito Cereno, constantemente amparado por Babo, seu escravo, que permanece durante o tempo inteiro ao seu lado. Ao oferecimento de ajuda do capitão americano, Cereno se mostra grato e conta os problemas que transformaram sua viagem em um pesadelo.

Durante todo o tempo que permanece no barco, Delano tem muitas dúvidas a respeito da história e do capitão, mas mesmo assim não se nega a ajudá-los. Delano passa somente algumas horas no navio espanhol e suas suspeitas são reforçadas pelo comportamento de alguns marinheiros e mesmo pelo comportamento do próprio Cereno, mas ao mesmo tempo sua natureza amigável e bondosa faz com que logo encontre desculpas para aquilo que não consegue entender.

Conforme observa Jean-Jacques Mayoux, o mistério e o mal estão ambiguamente disseminados nos acontecimentos e personagens do navio " O tema da realidade mascarada e da ambigüidade das aparências jamais esteve como aqui no coração do tema ." (tradução minha) 1.

No momento da despedida, Cereno mostra uma gratidão imensa pelo que Delano havia feito e parece não querer que ele se vá. Quando o capitão americano já está em seu bote, pronto para voltar ao seu navio, inesperadamente Cereno pula pela amurada do navio e cai no bote de Delano. Em seguida, Babo se joga com um punhal nas mãos. Delano vê suas piores suspeitas tornarem-se realidade e acredita que os dois queriam matá-lo e roubar seu navio. O engano só é esclarecido quando Delano intercepta Babo que, com uma pequena adaga, tenta matar Cereno.

No navio do americano, Cereno faz o relato verdadeiro dos acontecimentos, narrando que os negros haviam se rebelado e dominado toda a tripulação branca do navio. Todas as histórias, contadas por Cereno para Delano, foram instruídas por Babo, que era o chefe do motim. Delano decide então retomar o navio espanhol, o que consegue nessa mesma noite.

Após a retomada do navio, e com os negros sobreviventes presos, seguem para o Peru, onde o caso será investigado. Seguem-se então, páginas com o depoimento de Benito Cereno perante o tribunal em Lima. Pouco tempo depois de fazer seus depoimentos diante de um tribunal, Cereno morre e esse mesmo fim reservado é para Babo, condenado à morte.

Além de se basear nas memórias do Capitão Amasa Delano, Melville foi provavelmente influenciado por outros casos de navios onde os negros, escravos, haviam tomado o poder e assim tentado voltar para a África, para reconquistar a sua liberdade. Publicado poucos anos antes da Guerra Civil Americana, que teve por principal causa a luta pelo fim da escravidão, Benito Cereno não foi um grande sucesso. Tratando principalmente do preconceito disfarçado de alguns americanos do norte e da cegueira do povo, que se recusava a reconhecer a cidadania dos negros, Melville mais uma vez aborda temas que a sociedade ainda não estava pronta para encarar.

Um dos principais aspectos de Benito Cereno , que intrigam e chamam a atenção do leitor, é a maneira como essa história é contada. A história pode ser dividida em três partes: a narração dos eventos durante a permanência de Delano a bordo, os depoimentos feitos por Cereno, e o diálogo final entre Cereno e Delano. Cada uma dessas partes tem um narrador diferente o que, de uma certa maneira, ajuda a criar o efeito desejado por Melville.

Na primeira parte encontramos um narrador onisciente, mas essa sua onisciência é seletiva, pois durante todo o tempo ele só narra o que Delano vê, pensa e sente. Conforme Friedmann, na onisciência seletiva "o leitor é limitado a mente de apenas um dos personagens. Portanto, em vez de ser permitido um composto de ângulos de visão, ele está no centro fixo." 2 Assim sendo, o narrador não é nem protagonista nem testemunha mas também não é neutro, já que assume o ponto de vista de Delano, com todas as suas limitações. Acompanhando todos os passos de Delano, ele não pode revelar o que acontece por detrás de Delano, nem o que se passa em outro local dentro do navio.

Esse narrador causa um efeito estranho nos leitores, pois, ao mesmo tempo em que conta o que está acontecendo, ele consegue transmitir a sensação de que não está vendo tudo, que há coisas que ele não consegue contar pois Delano não consegue ver. E para os leitores só resta, como única possibilidade, ver o navio como Delano vê, mas com a consciência de que ele não vê tudo o que deveria. Esse procedimento prolonga o suspense, pois fica nítido que algo existe por trás dos acontecimentos e das falas, algo que poderá emergir a qualquer momento.

O Capitão Delano é um ingênuo, mas os leitores não o são e é dessa dualidade que se constroem suas expectativas. Para quem está lendo, é muito fácil saber que algo está errado, apesar de ser difícil decifrar o mistério. Além disso, Delano facilmente cria desculpas para o que ele não entende, jamais levando adiante as suas suspeitas e nunca acreditando que o mal possa estar por perto. Como o leitor só tem acesso ao ponto de vista de Delano, com seu tipo especial de "cegueira", a possibilidade de se descobrir a verdade é quase nenhuma.

A segunda parte da história é constituída pelas declarações de Cereno no tribunal no Peru. Essa parte é formada de extratos dos depoimentos do espanhol, que seguem o modelo legal de documentos desse tipo, onde só há descrições das ações ocorridas e mais nada. O ponto de vista desse relato é o de Benito Cereno, que parece narrar os acontecimentos de maneira quase neutra, mecânica, não expressando sentimentos, emoções. Seu registro é feito pelo escrivão, portanto na terceira pessoa do singular, seguindo o estilo do depoimento judicial, em que um funcionário transcreve as declarações do depoente. Esse depoimento além de esclarecer alguns fatos que haviam ficado obscuros na primeira parte, funciona como um choque para o leitor, pois há uma abrupta reversão dos sentidos dos fatos, do ponto de vista e da forma como são narrados: friamente, sem opiniões, sem sentimentos e percepções.

Quando acabam as declarações e chega-se à última parte da história, o narrador volta, mas agora contando a história com outro procedimento. O narrador já não vê mais apenas pelos olhos de Delano, ele vê de cima, ele vê tudo, ele conhece os sentimentos e as emoções de Delano e Cereno. O narrador finaliza o livro narrando as mortes de Babo e de Benito.

Se conforme as idéias de R.D.Laing - " Tua experiência de mim é invisível para mim e minha experiência de ti é invisível para ti " 3 - só resta, ao homem, preencher os vazios que ocorrem na comunicação com a sua interpretação pessoal. É nessa interação, na prática de preencher os vazios que estão presentes em seus diálogos com Cereno, que Delano falha terrivelmente. Como Cereno diz no último diálogo com Delano:

"Até o melhor dos homens erra, ao julgar a conduta de outro com as reentrâncias de cuja condição não está familiarizado. Mas o senhor foi forçado a isso; e em tempo reconheceu seu engano. Que isso, em ambos os aspectos, fosse assim para sempre, e para todos os homens." 4

 

Mas ao leitor é dada essa oportunidade, a de preencher os vazios, em relação aos quais Delano falhou. É principalmente devido à falta de percepção de Delano e à sua interpretação equivocada da situação que a narrativa sugere aos leitores que exercitem a sua capacidade interpretativa, desafiando-os. Assim, os leitores se vêem instados a preencher os vazios existentes no texto, que vão além daqueles deixados por Delano.

É fácil perceber que um dos grandes equívocos de Delano é a visão preconceituosa que ele tem dos negros. Para o capitão, os negros não são inteligentes o bastante para se rebelarem, o que o torna cego para as pistas que indicariam que o San Dominick está sob o controle desses seres aparentemente dóceis, afetuosos e de mente limitada. Do mesmo modo, Delano tem um certo preconceito em relação a Cereno por ele ser espanhol; isso demonstra um racismo cultural, que é evidenciado pelos pensamentos de Delano a respeito da habilidade de Cereno como capitão, da condição do navio, da balbúrdia reinante a bordo.

Mas mesmo com tantas indicações, não é fácil descobrir o segredo do San Dominick ; depois de tudo esclarecido, facilmente se encontram sinais de que os negros dominavam o navio. Eles se espalham pelo navio, e pelo livro, mas de alguma maneira nós, leitores, também falhamos em reconhecê-los.

Benito versus Delano - saberes diferenciados

Delano é um ator em um teatro que ele não imagina existir, nem consegue compreender. Benito Cereno é somente uma peça nesse tabuleiro armado pelos negros, assim como os outros brancos que ainda se encontram no navio. Todos os outros são também jogadores que sabem muito bem o que está acontecendo e o que devem fazer para vencer no final. E eles assim o fazem. Babo é um dos melhores jogadores, pois representa tão bem seu papel que faz Delano acreditar que ele "...era menos um servo que um dedicado companheiro" 5. Os brancos também fazem seu teatro, alguns tentando contar a verdade para Delano, mas eles não têm sucesso nessas tentativas, pois Delano está cego pelos seus preconceitos e o controle dos negros é muito eficaz.

Enquanto Delano é decidido e enérgico, Cereno é fraco, doente e melancólico. Delano anda pelo navio como dono, ou capitão, cuidando de tudo, e até chamando a atenção de Cereno, para o que considera inadequado. Don Benito apenas é levado por Babo, não tem vontade, não tem ânimo nem esperança. E é com grande esforço que consegue pular para o bote de Delano e avisá-lo sobre as reais intenções dos negros. Mas se fisicamente Delano é infinitas vezes superior ao espanhol, Cereno demonstra, no final, que consegue tirar dessa terrível experiência algo a mais.

Na única conversa franca entre Cereno e Delano relatada no livro, Cereno tenta mostrar a Delano como é difícil julgar corretamente as pessoas e as situações sem saber o que aconteceu. E Delano, ingenuamente, parece já considerar o episódio como uma simples lembrança ruim, que será rapidamente esquecida e estranha que Cereno não esteja totalmente recuperado:

"O senhor está generalizando, Don Benito; e com bastante mágoa. Mas o passado passou; por que fazer moralizações? Esqueça. Veja lá: o sol esquece tudo, e o mar azul, e o céu azul também; eles já viraram as páginas.

Porque não tem memória; disse desanimado; porque não são humanos.

Mas essas suaves brisas, que agora lhe refrescam o rosto, não lhe trazem um lenitivo humano? Amigos calorosos, amigos fiéis são as brisas.

Com sua fidelidade elas só fazem me soprar para tumba, Señor, foi a amarga resposta.

O senhor está salvo, exclamou Capitão Delano, cada vez mais surpreso e sentido; está salvo; o que lançou uma sombra tal sobre o senhor?

O negro.(...)Não houve mais conversas naquele dia." 6

 

Para Delano, tudo que aconteceu já é passado, para Cereno a experiência o modificou tão profundamente que nada mais será como antes, essa situação demonstra que o amadurecimento só pode vir a partir da experiência vivida, do sofrimento. O conhecimento mais profundo do ser humano depende da vivência que esse mesmo ser tem, do contato real com o bem e o mal.

Delano apenas passou pelo navio espanhol, nada sofreu, nada aprendeu. Já Cereno que viveu como prisioneiro dos negros por algum tempo, constantemente ameaçado, e experimentando um tipo de escravidão, deixou sua inocência em algum lugar do Pacífico, trazendo consigo o conhecimento, os ensinamentos que só se obtém através do sofrimento.

Na descrição que Delano faz do navio espanhol, ele fala sobre certos entalhes na popa:

"Mas a principal relíquia de extinta grandeza era o amplo átrio em forma de escudo da popa, intrincadamente entalhado com brasões de Castela e Leon, rodeado de medalhões com grupos de pinturas simbólicas e mitológicas; no alto e no centro dele, via-se um sátiro negro e mascarado, calcando seu pé na prostrada nuca de uma figura contorcida, igualmente com máscara." 7

 

É possível ler-se essa narrativa como uma história baseada na aparência devido ao fato de que Delano só consegue enxergar as "máscaras" que os homens usam, nunca indo além da superfície e acreditando totalmente no que vê, principalmente no que está pronto para ver. Como o sátiro e a outra figura no medalhão esculpido na popa, todos no navio estão "mascarados". Não possuindo a habilidade de ver além, Delano não consegue entender o que está acontecendo no navio. O preconceito de Delano, disfarçado mas real, é usado pelos negros para que ele nada perceba; é esse mesmo preconceito que faz com que as "máscaras" que os negros usam sejam tão convincentes. Babo se apresenta como criado dedicado e afetuoso, pois é isso que Delano esperava encontrar, acreditando que:

"Há algo no negro que, de maneira peculiar, o torna apto ao desempenho de funções junto a nossa pessoa. (...) Quando a isso se acrescenta a docilidade proveniente do contentamento sem aspirações, características de uma mente limitada, e aquela suscetibilidade para a afeição cega, que às vezes se vê incontestavelmente nos indivíduos inferiores ...". 8

 

O espaço ficcional de Benito Cereno : o locus ameaçador

Melville não deixou limites para seus leitores, eles podem, ou talvez devam cruzar as fronteiras entre o real e o simbólico. O imaginário projetado no espaço ficcional afigura-se atemorizante desde o início, começando pelo navio, uma miniatura do mundo real, isolado por água de todos os lados, que lembra um castelo gótico, com sua atmosfera pesada, cheia de segredos e esconderijos. Delano não percebe o que se encontra além do convés do navio, mas tem medo do que pode estar guardado nas entranhas do velho San Dominick . É com um pouco de temor que, em uma determinada hora, Delano não vê mais seu próprio navio. Sente-se afastado do que conhece, perdido em um ambiente que lhe parece hostil. O navio espanhol também tem muito de fantasmagórico, com sua aparência decadente, sua cor desbotada, sem vida, as letras de seu nome corroídas pela ferrugem. Os homens lá dentro, magros e sedentos, não melhoram em nada a aparência do estranho navio; na verdade, só contribuem para torná-lo mais soturno e misterioso. Ao entrar no navio, Delano parece penetrar também em outro mundo, desconhecido e inexplicável para a sua mente ingênua.

Uma das primeiras descrições da manhã em que o San Dominick chega ao porto de Santa Maria é muito dúbia, mas nos dá uma idéia do tom dessa história:

"Tudo estava mudo e calmo; tudo acinzentado. O mar, (...), parecia imóvel, e estava liso na superfície como chumbo ondulado que já esfriou e foi posto no molde do fundidor. O céu parecia um manto cinza. Vôos de perturbados pássaros cinzas, assim como os vôos das perturbadas névoas cinzas em que eles se misturavam,..(...) Sombras presentes, pressagiando, maiores sombras por vir." 9

 

Nesse excerto, nota-se a reincidência da cor cinza na descrição do espaço. Conforme Chevalier e Gheerbrant , a cor cinza é:

"...composta, em partes iguais de preto e branco, designaria na simbologia cristã (.) a ressurreição dos mortos.(...) É a cor da cinza e da bruma. (...) A grisalha de certos tempos brumosos dá uma impressão de tristeza , de melancolia, de enfado.(...) Quanto aos sonhos que aparecem numa espécie de névoa acinzentada, situam-se nas camadas recuadas do Inconsciente , que precisam ser elucidadas e clarificadas pela tomada de consciência." 10

 

De acordo com esses significados da cor cinza, podemos encontrar algumas possibilidades interpretativas: o cinza pode representar uma futura ressurreição do Negro, que se encontrava como morto durante o período da escravatura; pode também representar a tristeza e o pesar das pessoas dominadas no San Dominick; assim como revelar a melancolia visível de Benito Cereno. Também podemos relacionar essa cor com a primeira visão que Delano tem do navio espanhol, vislumbrado através da neblina /névoa, e com o Inconsciente de Delano que percebe toda a situação dentro do navio e precisa fazer com que essas percepções venham à tona, ou seja, tornem-se conscientes. E ele tem essa tomada de consciência mas somente no final, quando Cereno pula para dentro do seu barco e é seguido por Babo que deseja matá-lo. É então que:

"Naquele momento, pela mente há tanto obscurecida do Capitão Delano, passou um lampejo de revelação, iluminando com inesperada clareza todo o comportamento misterioso de seu anfitrião, bem como qualquer evento enigmático daquele dia, e também a viagem inteira do San Dominick. " 11

 

É só nesse momento, quando as máscaras caem, que Delano consegue ver a verdade. Os negros, como o sátiro do medalhão, tinham "pisado" em todos os espanhóis, dominando-os, mas devido aos disfarces que eles usavam, o capitão não percebera a realidade. Esse medalhão esculpido na popa é um sinal que Melville deixa para seus leitores, só que dificilmente esse símbolo é compreendido antes do final da história, quando o seu sentido se esclarece.

Apesar de ter sido escrito há quase 150 anos atrás, com uma temática ligada aos acontecimentos da época, Benito Cereno continua tão atual e pertinente quanto na época em que foi escrito. Se a Guerra Civil Americana acabou com a escravidão dos negros nos Estados Unidos, e em outros países essa mesma prática foi sendo abolida aos poucos, ou já havia sido, os próximos séculos encontraram outros problemas sociais e éticos com os quais podemos relacionar essa mesma narrativa. Além disso, em um nível mais profundo, a obra toca em questões relacionadas a mecanismos de funcionamento psíquico do ser humano, tais como seus temores, sonhos e esperanças que continuam atuais.

Herman Melville, ao explorar o que se encontra por detrás da aparência do homem: suas motivações, questionamentos, atos bons e maus, antecede, em alguns anos, a observação de aspectos do ser humano que seriam estudados por Freud e durante todo o século vinte. Hawthornne, ao avaliar a obra de Melville, considera que esse o ultrapassou na exploração dos horrores do inconsciente, que se escondem além da superfície da existência.

 

MAYOUX, Jean-Jacques. Melville par lui-même. Seuil : Paris, 1963. p. 111

FRIEDMAN, Norman. Ponto de vista na ficção . polígrafo. s.d

LAING, R. D. apud COSTA LIMA, Luiz (sel.). A literatura e o leitor . Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1979 . p. 23

MELVILLE, Herman. Benito Cereno . Rio de Janeiro:Imago, 1993. p.20.

Idem p.17.

Idem p.125-126

Idem p.11

Idem p.70-71

Idem p.7.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: J.Olympio, 2000. p.248.

MELVILLE, Herman. Benito Cereno . Rio de Janeiro: Imago, 1993. p.97.