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Itinerários simbólicos nos romances do Graal
Demétrio Alves Paz (UFRGS)
"O que conta para o homem medieval, é a demanda, a busca sem fim, num percurso que reproduz de modo ritual a viagem do homem em busca de salvação".
Nuno Júdice.
A viagem sempre foi um tema freqüente na literatura, fornecendo diversas obras-primas. O nosso mais antigo épico, Gilgamesh, é uma narrativa de viagem, em busca da imortalidade. Também Odisseu em sua Odisséia, Enéas na Eneida, Dante pelo inferno, purgatório e paraíso têm de viajar. Há, porém, um gênero, não muito valorizado, que se utiliza da viagem como tema: os romances de cavalaria. Nesses romances, a viagem é indispensável para o amadurecimento do herói que necessita viajar, geográfica e interiormente, em busca de aventuras e autoconhecimento. De certa forma, os romances de cavalaria são os primeiros exemplares do bildungsroman , o romance de formação, sendo o melhor exemplar Parsifal, de Wolfram von Eschenbach. Esse romance é considerado por muitos estudiosos, entre eles Mikhail Bakhtin, Arnold Hauser, Joseph Campbell e Otto Maria Carpeaux, um protótipo desses romances, que teriam seu ápice com Goethe e Thomas Mann na literatura alemã.
O presente trabalho propõe-se a analisar o tema da viagem em dois romances que tratam sobre o Graal e têm um herói em comum, Perceval ou Parsifal, tal como aparece, respectivamente, nos romances de Chrétien de Troyes e Wolfram von Eschenbach. Na análise, segue-se o esquema proposto por Joseph Campbell, em seu livro O Herói de Mil Faces. Antes, porém, fala-se sobre os romances de cavalaria e seu contexto histórico.
Os dois romances do Graal têm em comum a busca da relíquia sagrada. A viagem, portanto, faz-se presente como necessidade sine qua non para o desenvolvimento da história. Essa viagem, além de ter o caráter místico-espiritual, faz com que a personagem cresça, amadureça e torne-se homem. Esses romances foram escritos entre as duas últimas décadas do século XII e as duas primeiras do século XIII. Isto quer dizer que, em menos de cinqüenta anos, é escrito todo um ciclo a respeito do Graal e de seu herói, Perceval. Eles foram criados após a primeira cruzada, em 1095, em que Urbano II pregou: "Se os que forem lá perderem a sua vida durante a viagem por terra ou mar ou na batalha contra os pagãos, os seus pecados serão perdoados nessa hora" 1. A própria idéia de cruzada alterou o ideal antigo, pois o que antes era uma peregrinação religiosa à Terra Santa, tornou-se uma expedição militar, ou melhor, uma guerra santa. Não deve ser esquecido o fato de que a peregrinação é uma viagem de crescimento espiritual, assim como ocorre nos romances do Graal, em que o cavaleiro peregrina pelo seu rei ou por sua dama.
O primeiro herói do Graal foi Perceval e, ao contrário do que se pensa, a ênfase da história reside no seu percurso, não no Graal. Há um vasto ciclo de material escrito sobre Perceval, além das duas obras aqui estudadas. Em Perceval, o que realmente importa é o seu caminho, seu crescimento espiritual. Por esse motivo, Otto Maria Carpeaux considera o Parsifal, de Wolfram Von Eschenbach o primeiro bildungsroman que é, nas suas palavras, "o caminho de um homem pela vida em busca de si mesmo" 2.
Na análise, segue-se, como antes dito, o esquema proposto por Joseph Campbell, o qual é dividido em três partes: a partida, a iniciação e o retorno, havendo algumas subdivisões para cada parte. Resume-se a história de Perceval, seguindo a proposta acima, e, depois, analisam-se quatro episódios do romance.
Perceval recebe o chamado da aventura ao contemplar a cavalaria e ter sentido vontade de se tornar um cavaleiro. Sua mãe, ao saber disso, faz o papel de recusa do chamado , visto que não deseja que ele vá e, para tanto, veste-o com roupas de palhaço para que seja mal-recebido e assim volte para casa. Não é isso que ocorre, entretanto. O herói, em seu caminho, encontra sua prima que lhe revela seu nome, Perceval. Chegando à corte de Artur, encontra-se com o Cavaleiro Vermelho e admira a sua armadura. Depois de falar com o rei e pedir que o arme cavaleiro, o que o rei faria de boa vontade, no dia seguinte, requisita a armadura vermelha. Key, o Senescal, sempre maldoso, diz que Perceval pode ir pegá-la. O herói mata o Cavaleiro Vermelho e cumpre a passagem para o primeiro limiar , pois assume uma outra personalidade, aparentemente, já que suas roupas de palhaço são cobertas pela armadura. Porém, somente a armadura não é o bastante para torná-lo um cavaleiro. Perceval somente se tornará cavaleiro após receber uma educação para tal, e essa é a próxima etapa.
Perceval encontra Gurnemanz, um nobre que perdera três filhos e tinha uma filha, Liaze. Gurnemanz educa Perceval ensinando-o como usar lança, escudo e espada. Também o ensina a não fazer perguntas desnecessárias, o que mais tarde será motivo de sua danação. Entretanto, aqui inicia o caminho de provas . Saindo da casa de Gurnemanz, o herói encontra um castelo sitiado, combate com dois cavaleiros. Kingrun, o Senescal e Clamides, o Rei. Ambos, vencidos, são mandados à corte de Artur para submeterem-se às ordens do rei. Nesse castelo, salvo por nosso herói, ocorre seu encontro com a Deusa. A princesa , que lá mora, chama-se Condwiramurs, apaixona-se por Perceval, e do mesmo modo é correspondida. Assim, casam-se por amor. Segundo Campbell: "o encontro com a Deusa (encarnada em toda mulher) é o teste final do talento do qual o herói é dotado para obter a benção do amor (caridade: amor fati), que é a própria vida, aproveitada como invólucro da eternidade." 3 Apesar de todo esse sucesso, Perceval quer mais, pois ele sente falta de suas aventuras e de sua mãe, a qual deseja reencontrar.
Saindo de seu castelo e vagando por terras desconhecidas, Perceval chega ao castelo do Graal. O herói assiste à procissão do Graal, mas nada pergunta, como lhe foi ensinado. Acorda pela manhã no castelo do Graal e, não vendo ninguém, parte, procurando alguém que lhe responda sobre o que presenciou. Encontra, uma vez mais, sua prima, que lhe revela o que perdeu. Perceval parte, outra vez, em busca de novas aventuras, mas agora, está abatido e sente saudades de sua esposa. Certa manhã, tendo presenciado a luta entre um falcão e um ganso, Perceval fica absorto em pensamentos. Ao ver três gotas de sangue na neve, lembra-se de Condwiramurs. Um pajem o vê e relata na corte que há um cavaleiro esperando por combate. Dois mostram-se dispostos a combatê-lo, Segramors e Keye que sofrem derrota. Galvão, porém, reconhece, em Perceval, aquele que há bastante tempo Artur e sua corte procuravam. Agora Perceval alcançou a apoteose . É admitido na Távola Redonda, a elite da cavalaria. No ápice de sua fama na cavalaria acontece o inesperado: surge uma dama, chamada Cundrie, amaldiçoando Perceval por não ter salvado o Rei Pescador. O herói promete que não descansará até encontrar o castelo do Graal novamente. E sai na busca de seu objetivo, não sem antes amaldiçoar Deus e a cavalaria por terem feito com que passasse por isso. Passam cinco anos sem que Perceval lembre de Deus, até encontrar-se com Trevizent, o Eremita (seu tio), o qual o aconselha a se arrepender de seus pecados. O herói segue os conselhos do eremita que foram a benção última . Agora ele está apto a retornar ao castelo do Graal. E dessa forma, passa-se para o último estágio.
Tendo, sinceramente, se arrependido de seus pecados, Perceval segue seu caminho. Luta com Galvão e seu irmão Feirefiz, vencendo o primeiro e empatando com o segundo. A mesma mulher que antes o repreendera, agora o abençoa, pois ele foi o escolhido para ser o novo rei do Graal. Perceval, sua esposa e filho foram escolhidos. Dessa forma, o cavaleiro torna-se o Senhor dos dois mundos : foi o melhor cavaleiro de seu tempo e o único digno de tornar-se rei do Graal.
Em linhas gerais, é essa a história de Perceval. Analisam-se, então, quatro episódios.
1º) O encontro com a cavalaria . Ao encontrar quatro cavaleiros e enchê-los de perguntas, Perceval deseja tornar-se igual a eles. Não sabendo o que são, pergunta isso a um deles, o qual responde que é cavaleiro, e Perceval diz: "- Cavaleiro? Não conheço ninguém assim chamado! Nunca vi um, porém sois mais belo que Deus. Gostaria de parecer convosco, assim todo brilhante e afeitado!" 4 É esse desejo que incita outras perguntas sobre as armas e vestes do cavaleiro. No fim, Perceval quer saber quem faz cavaleiros e, sendo a resposta Artur, pensa em ir procurá-lo e sai rumo à corte.
As duas principais características de Perceval são, nesse episódio, a curiosidade e a impaciência, características comuns de uma criança, o que Perceval, de certa forma, é na maneira como age. Essas duas qualidades lhe são tiradas e por isso não fará a pergunta redentora. Ao sair de casa, Perceval deu seu primeiro passo rumo ao encontro de si mesmo, buscando sua maturidade. De acordo com Estela Pinto Ribeiro Lamas, "A viagem torna-se iniciação e a aprendizagem, a própria vida. A viagem representa metaforicamente a vida e, paralelamente, as suas etapas, os encontros, os erros da caminhada presentificam-na metonimicamente." 5
Para Perceval, a cavalaria despertou-lhe um objetivo, um motivo a ser alcançado, porém esse caminho não será fácil. Ele deverá transformar seu comportamento infantil em adulto em pouco tempo. Essa mudança, brusca mas necessária, fará com que ele tome consciência de que sua vida mudou.
2º) Educação cavaleiresca . Perceval é instruído por Gurnemanz. O cavaleiro ensina-lhe como se comportar na sociedade cavaleiresca, dizendo: "- Libertai-vos de vosso comportamento inconveniente. Abstende-vos de perguntas desnecessárias, mas quando alguém vos fizer perguntas astuciosas, reagi de pronto com uma resposta ponderada." 6 Qual será o comportamento inconveniente? Quais as perguntas desnecessárias?
Perceval, mesmo sendo nobre de nascença, foi criado longe da corte, no meio dos camponeses, talvez seja esse o seu comportamento inconveniente, visto que não é o cortês exigido por Gurnemanz. Do mesmo modo, Perceval faz perguntas demais, sendo por isso censurado. Mais tarde será censurado por não ter feito uma pergunta, esta necessária, para a redenção do rei do Graal. Mas como distinguir perguntas certas das perguntas erradas, se lhe foi ensinado que "quem fala demasiado pronuncia palavras que se transformam em loucura. Quem fala demais faz o pecado, diz o sábio" 7.
Após sua educação cavaleiresca, Perceval torna-se cavaleiro, pois sabe como portar armas e como se comportar. Gurnemanz, então, oferece-lhe a filha em casamento. E este é o segundo momento de consciência, pois responde ao seu anfitrião: "- Senhor, sou ainda completamente inexperiente. Somente depois que me houver tornado um cavaleiro de verdade, e com algum direito puder aspirar ao amor, é que me dareis vossa filha Liaze, a bela jovem, em casamento." 8
Perceval reconhece que um homem deve ganhar algo porque merece, não porque lhe é oferecido e assim parte. Mais adiante, Perceval ganha uma esposa por merecimento, pois salvou seu reino, e por amor, já que "seu amor era sólido e inabalável, e ela sabia-se amada pelo marido na mesma medida". 9
Tem-se um casamento por amor, o que é uma exceção na época, visto que o casamento, na realidade, era um arranjo entre famílias, no qual o amor não importava. E este seria o casamento de Perceval com Liaze. Deste modo, Wolfram representa o amor romântico como o encontramos na lírica trovadoresca, o que é um avanço na concepção do amor na sociedade ocidental.
3º) O castelo do Graal . O herói viaja em busca de novas aventuras e encontra o castelo do Graal. Assiste à procissão do Graal maravilhado,
Mas sua educação cortês fez com que se abstivesse de qualquer pergunta. Ensimesmado inquiriu de si para si: "Gurnemanz, que me estimava, recomendou-me de forma inequívoca que me abstivesse de perguntas desnecessárias. Devo eu mais uma vez provocar uma situação de constrangimento, fazendo perguntas inconvenientes? Mesmo sem perguntar acabarei sabendo o que esta comunidade cavaleiresca tem de especial". 10
A educação que a sociedade lhe impôs é a causadora de sua desgraça, e depois quando é amaldiçoado diz: " Daqui em diante serei um órfão da alegria, até que tenha uma vez mais o Graal diante de meus olhos. Este é meu firme propósito, e nele pretendo persistir pelo resto de minha vida." 11Um objetivo é estabelecido e o busca de qualquer forma, e continua:
Se agora sou objeto de riso por parte de meus semelhantes apenas porque cumpro os preceitos do comportamento cavaleiresco, então devo concluir que tais preceitos são imperfeitos. O nobre Gurnemanz incutiu-me no espírito o desejo de ser cortês e de me abster de fazer perguntas indiscretas. 12
Outro momento de crescimento ocorre quando a mesma sociedade que o ensina como se portar, o julga por não fazer aquilo que lhe foi ensinado a não fazer, isto é, abster-se das "perguntas indiscretas". Porém, ao invés de discriminá-la, como foi feito consigo, ele demonstra amadurecimento e consciência de sua relação com essa sociedade de aparências, e responde: "Eu vos desobrigo de quaisquer compromissos de amizade para comigo até que eu tenha reconquistado o que minha imaturidade permitiu que perecesse no nascedouro. Galvão, um experiente cavaleiro, ao ver que o jovem está triste, tenta confortá-lo: " Estou certo de que irás superar todas as vicissitudes que obstruírem teu caminho. Que Deus te conceda boa sorte! A ele peço, que graças à Sua onipotência, me dê oportunidade de logo assistir-te em tudo o que for necessário." 14 Perceval ao ouvir o nome de Deus diz:
Ah, quem tu imaginas que seja Deus? Se ele fosse de fato todo-poderoso e tivesse capacidade para manifestar essa onipotência, não nos teria imposto a uma situação tão desmoralizante. Na expectativa de Suas recompensas sempre Lhe fui leal e pronto para servi-Lo. Por isso, doravante, recuso-me a ser-Lhe servidor. Se Ele me quer mal, eu arco com as conseqüências. Amigo, se partires para a luta, não confies em Deus. Confia, antes numa mulher cuja pureza e bondade feminina estejam acima de qualquer dúvida. Seu amor será seu escudo e salvaguarda no combate. Não sei quando tornarei a ver-te, mas meus bons votos te acompanham. 15
Não é uma atitude herética essa do nosso herói? Desafiar Deus, e arcar com as conseqüências. Há, também, além disso, uma desilusão, pois lhe foi dito que Deus sempre recompensava aqueles que fossem leais. Como isso não ocorreu, mais vale o amor verdadeiro de uma mulher que também o ame. Nota-se, outra vez, o ideal de amor cortês expresso na fala de Perceval, para quem o amor de uma mulher vale mais que a fé em Deus. Após essa conversa Perceval parte.
4º) Encontro com o conselheiro . Durante cinco anos, ele vaga em busca de aventuras até encontrar Trevizent que o reconciliará com Deus. Este encontro fará com que Perceval tome consciência de seus atos e arrependa-se do que fez, alcançando, desse modo, o seu objetivo. Reconhece-se, nesse encontro, o ideal cristão. Todo homem é pecador, mas há uma saída: crer. Vê-se que Perceval está no mundo, como um homem comum: peca - "esqueci Deus e minha fé e nada pratiquei além do mal" 16 - ; reconhece seu erro - "não pedi perdão e, que saiba, nada fiz para ser perdoado" 17 - ; é absolvido - "gostaria que permanecesses dois dias junto de mim e que em penitência tomasses do mesmo alimento que eu" 18 - e, no final, ganha a salvação - "arrependeu-se sinceramente, e então ficou em paz" 19.
Surge, ao longe, a mesma donzela que antes o amaldiçoou e lhe diz: "Salve, ó filho de Gahmuret, pois Deus pretende mostrar-se indulgente contigo!" 20. Aquele Deus do qual ele cobrou recompensas, agora o recompensa em triplo, pois junto irão sua esposa e filho. Nas palavras de Cundrie: "Agora toma teu coração nas mãos e rejubila-te! Salve teu alto destino, ó apanágio da aventura humana! Leu-se na pedra que tu serás o novo soberano do Graal. Juntamente contigo foram convocados Codwiramurs, tua esposa e Loherangrim, teu filho." 21Mas, por que recompensar alguém que serve ao amor de uma mulher? Simples, pois sua " boca, que não sabe mentir, deverá saudar o nobre e amável rei" 22.
Perceval, após percorrer a duras penas seu caminho, amadureceu e descobriu que deveria ser autêntico, não mentir e amar a sua mulher. Por isso, continua Cundrie:
Tuas privações terminaram (...) Tuas penas se desvanecerão. Mas evita excessos. Eles te excluíram da seleta comunidade, pois o Graal e sua força miraculosa rejeitam as pessoas sem autenticidade. Os sofrimentos ensombreceram tua juventude, mas a felicidade que agora está à tua espera afugenta-os para sempre. Tu conquistaste a paz interior e aguardaste a vinda da felicidade em meio a toda sorte de sofrimentos. 23
O herói precisou passar por longas provações e manter-se fiel ao seu propósito. Perceval soube ter autenticidade e buscou seu próprio caminho, adquirindo maturidade. Apesar de toda essa glória alcançada, o herói continuou sendo humilde, tomando, assim, consciência de seus atos. Eis as palavras de Perceval: " Ao tempo eu não tinha maturidade suficiente para o relevante papel que me fora destinado" 2428. Ao pensar por si, revela uma consciência individual muito profunda. Saiu de casa, foi ensinado como deveria agir na sociedade e descobriu que isso não era suficiente, casou por amor, percorreu seu próprio caminho e foi recompensado por Deus da melhor forma possível, pois Trevrizent revela: "vós conseguistes que Deus, por meio da Santíssima Trindade, cumprisse vossa vontade" 25.
Imagine-se o que isso teria causado na Igreja. Um cavaleiro casado que, mesmo se mostrando herético, conquista a glória divina. Não se admira que o tema do Graal tenha sido clericalizado no século XIII, porém o principal herói, Perceval, não pôde ser tirado da história, devido a sua grande difusão e apreciação nessa época. Mas pôde ser transformado, e o foi, num jovem casto e puro, conforme os ideais da Igreja: Galaaz, herói de um só romance - A Demanda do Santo Graal 26- é um misto de cavaleiro e padre, tal qual concebeu São Bernardo. Como o objetivo do trabalho não é discutir Galaaz, passa-se a analisar o narrador da história.
O narrador de Parsifal é o narrador proposto por Walter Benjamin, pois a sua narrativa tem "uma dimensão utilitária". 27 Qual seria a sua utilidade? Wolfram diz, no início da história, "Ora, não conheço qualquer pessoa inteligente que não quisesse alcançar o sentido mais profundo desta história e os ensinamentos que ela oferece" 28 e que pretende contar "uma história que trata da lealdade inquebrantável e da verdadeira essência do homem" 29, pois "só aos poucos adquiriu verdadeira experiência" 30. Desse modo, tem-se o que Carpeaux 31 disse sobre o romance de formação. Isto quer dizer que a essência do homem reside na busca por experiência, aprendizado e sabedoria, o que só se adquire gradualmente. Por isso a viagem torna-se necessária: o jovem deve conhecer o mundo para poder transformar-se em indivíduo. Benjamin diz que "A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores" 32 e é exatamente isso que Wolfram fez ao narrar a história de Parsifal. O narrador faz com que o leitor viaje consigo e Perceval, visto que "o narrar é a aventura errante, a que as vozes se entregam, no afã de encontrar o próprio lugar no mundo". 33 Que voz é essa? É a do grande narrador, aquele que tem suas origens no povo, que adquiriu a sua técnica na oralidade e comunicabilidade de suas palavras, sejam elas faladas ou escritas. Wolfram tem uma consciência narrativa e poética espantosa para a sua época. Não pode ser esquecido o fato de que se está falando de um autor do século XIII, quando os romances ainda são escritos em verso e os mecanismos de narração tomam forma definitiva, pois agora não só o que se conta é importante, mas o como se conta.
A maioria dos romances e novelas de cavalaria remete a um livro anterior, isto é, o narrador recebeu de alguém a sua história. Essa idéia levou Italo Calvino a supor que a própria cavalaria "não tenha nunca existido antes dos livros de cavalaria ou até que só existiu nos livros". 35 Exagero à parte, pois se sabe que a cavalaria existiu de fato, Calvino quer dizer que a cavalaria conhecida por todos é a literária, isto é, a idealização daquela cavalaria real.
Do mesmo modo, o narrador dialoga com o leitor e o próprio ato de narrar, por meio de perguntas diretas e indiretas, fazendo com que o seu interlocutor preste muita atenção e fique curioso para saber o que acontecerá em seguida, em passagens como: "quem estiver desejoso de saber para onde Parsifal seria impelido por sua sede de aventuras ouvirá, sem demora, coisas extraordinárias" 36 ou "quereis agora conhecer os motivos que levaram Artur a acolher o conselho de seus nobres e deixar seu país e seu castelo em Karidoel" 37. Esse artifício de perguntar e responder as suas próprias perguntas é herança da narrativa oral. Não se esqueça de que esses romances eram lidos na corte para os nobres. Wolfram provavelmente tinha ciência de que "quem escuta uma história está em companhia do narrador". 38 O bom narrador, e aqui se falou dele, faz com o seu leitor/ouvinte viaje com ele, tal como Wolfram em Parsifal.
Grande parte dos romances e novelas de cavalaria trata da viagem iniciática, pois os protagonistas devem demonstrar o seu valor perante a sociedade (entenda-se aqui a sociedade cortês idealizada nos romances), saindo em busca de aventuras, quer por amor, quer por glória pessoal. O cavaleiro deve ser testado ao máximo para avaliar as suas qualidades. Perceval, ao contrário de Lancelot, Tristão e seus amores adúlteros, Galaaz e sua predestinação, é o protótipo para os heróis das últimas novelas de cavalaria: Tirant, Amadis, Palmeirim e até Dom Quixote, afinal "muitos são os protagonistas que abandonam o mundo em que vivem, em busca de novas experiências, de forma a criarem uma identidade própria e original". 39 Essa identidade Perceval obtém pelo seu itinerário.
PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média. Textos e testemunhas. São Paulo: editora UNESP,2000, p.83.
CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Rio de Janeiro: Alhambra, 1978. vol.1, p.180.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento,1995, p.119.
TROYES, Chrétien de. Perceval ou o Romance do Graal . São Paulo: Martins Fontes, 1992.p.27.
LAMAS,Estela Pinto Ribeiro. "A errância do mito ou o mito da errância no conto tradicional português". In: FALCÃO, Ana Margarida, NASCIMENTO, Maria Teresa, Leal, Maria Luísa (org) Literatura de Viagem. Narrativa, história, mito. Lisboa: Edições Cosmos,1997.p.448.
ESCHENBACH, Wolfram von. Parsifal. São Paulo: Antroposófica, 1995. p.126.
texto anônimo traduzido para o português no século XIII. Esse texto é uma versão portuguesa da Quest du Sant Grail francesa , possivelmente escrita por um monge de Cister.
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. São Paulo: Brasiliense,1996. p.200.
GOMES, Álvaro Cardoso. A Voz Itinerante. São Paulo: EDUSP,1991. p.123.
Cabe aqui salientar a diferença entre romances de cavalaria e novelas de cavalaria. Os primeiros foram escritos em verso, no século XII e início do XIII, já as novelas foram escritas em prosa do segundo quartel do século XIII em diante.
CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das letras,1995.p.63.
LOPES, Ana Maria Costa."A viagem no conto popular português". In: FALCÃO, Ana Margarida; NASCIMENTO, Maria Teresa; LEAL, Maria Luísa (org) Literatura de Viagem. Narrativa, história, mito. Lisboa: Edições Cosmos,1997.p.467.