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Imagens e mitos nas obras de Adélia Maria Woellner e Arriete Vilela
Clarice Braatz Schmidt Neukirchen (UNIOESTE)

Objetiva-se, neste estudo, apresentar reflexões acerca de como se realizam os processos de recordação na lírica da paranaense Adélia Maria Woellner e da poeta alagoana Arriete Vilela, a partir da recorrência à mitologia de diversos povos como, por exemplo, gregos e chineses.

Mito e memória são conteúdos de natureza essencialmente social, sendo que se constituem como instrumentos na perpetuação de tradições de todos os povos, os quais, sejam participantes de estruturas sociais simples ou extremamente complexas, possuem mitologias. Os rituais religiosos, mesmo nas sociedades modernas, podem ser encarados como correlatos à mitologia. Mircea Eliade observa que todas as grandes religiões possuem mitologias, haja vista ser a mitologia a expressão da influência do sagrado no mundo natural. O mito, no dizer de deste autor, seria a representação de histórias verdadeiras e preciosas por seu caráter sagrado, que haveriam ocorrido em um passado muito distante.

Fazer menção à mitologia requer que mencionemos, também, as imagens e símbolos que constituem o imaginário das diferentes civilizações. No pensamento arcaico e nas sociedades tradicionais a recorrência a imagens e símbolos sempre ocupou lugar de destaque. No entanto, o cientificismo tendeu a banir do campo de estudos tudo que fosse relacionado ao imaginário. Para Eliade, a superação do cientificismo do século XIX levou o homem moderno do século XX a redescobrir a importância da simbologia, sendo que sua valorização pelo mundo moderno nada mais seria que o resgate da simbologia como instrumento de conhecimento não-científico. No dizer de Eliade, "o símbolo, o mito, a imagem pertencem à substância da vida espiritual, que podemos camuflá-los, mutilá-los, degradá-los, mas que jamais poderemos extirpá-los" (1996, p. 7).

O mito, enquanto representação da vida passada de determinados povos, bem como de seus feitos heróicos, pode ser entendido como um elemento constituinte da memória humana, haja vista que, mesmo sem tomar consciência disso, todos os homens guardam resquícios dos tempos mitológicos. Os mitos representariam, também, um conjunto de símbolos muito antigos, que teriam a intenção de preservar dogmas e preceitos morais. Estariam, ainda, a serviço da memória referente a eventos primordiais, pois por meio destes, o homem teria um exemplo a seguir. Para Chevalier & Gheerbrant, os mitos representariam as funções da psique, sendo que as relações existentes entre estes exprimiriam a vida psíquica do homem, que se dividiria entre a ascensão a um nível mais sublime e a perversão. Atualmente, a palavra "mito" designaria um evento fictício, uma ilusão.

Na mitologia indiana, uma das funções do mito constitui-se das revelações que estes remetem à estrutura do tempo. São os mitos que narram os acontecimentos em um Tempo primordial, diferente do Tempo profano. A ação de narrar um mito anularia o Tempo profano e instauraria o Tempo sagrado da eternidade, ou seja, o mito teria o poder de "arrancar" o homem de seu cotidiano. Conforme salienta Eliade, "o mito reatualiza continuamente o Grande Tempo e dessa forma projeta quem o ouve a um plano sobre-humano e sobre-histórico que, entre outras coisas, proporciona a abordagem de uma realidade impossível de ser alcançada no plano da existência individual profana" (1996, p. 56).

Para Chevalier & Gheerbrant, seja qual for a interpretação que se dê ao mito, sua maior importância seria a capacidade que ele possui de "trazer à tona a função simbolizadora da imaginação. [...] seu valor simbólico, que lhe revela o sentido profundo" (Chevalier & Gheerbrant, 1993, p. 612).

Na lírica a recorrência à mitologia é constante. No poema "Maya", de Adélia Maria Woellner, verifica-se a ocorrência do mito como tema do texto:

 

Tu és Maya,
poderosa Deusa da Ilusão.
Dama tentadora e doce da fantasia,
brisa breve
que aquece, embala e acaricia,
mas é passageira, cruel, sem compaixão.
No espelho,
imagem convincente refletida,
fria, falsa,
mas de poder alucinante,
faz supor que é real
o sonho delirante
de um amor maior para iluminar a vida.

Apaga-se a luz;
a escuridão se revela,
e aquela imagem,
que parecia tão bela,
se esvai,
qual nuvem que no ar se desfaz,
e sequer, no céu, restam sombras ou sinais.
É o vazio.
Nem adianta procurar por ela:
não ficou Maya;
ficou nada;
nada mais...

(WOELLNER, Infinito em mim , 1997, p. 62).

 

Maya, na mitologia grega, foi a ninfa que deu à luz a Hermes. Na tradição romana, Maya era uma divindade que personificava o "despertar da natureza na primavera". Seria a deusa da fecundidade e da renovação da energia vital. Em sânscrito, Maya designaria a ilusão a que se reduz o mundo das aparências, que não seria mais que uma "operação mágica dos deuses". No poema acima, ela é descrita como a "Deusa da Ilusão", correspondendo à definição do sânscrito. Nota-se que, além da referência ao mito de Maya, há também no texto a recorrência ao tema do duplo, representado pela imagem do espelho. Este, ao refletir a imagem invertida de Maya, colabora para que sua falsa imagem impere. No momento em que as luzes apagam-se, impossibilitando o reflexo da falsa imagem de Maya, esta se esvai, deixando em seu lugar o vazio, o nada.

Maya, primeiramente, é descrita como "brisa breve/ que aquece, embala e acaricia". No entanto, o espelho revela sua verdadeira imagem: fria, falsa e alucinante. Na tradição veda, o espelho representaria a duração limitada e mutável dos seres. No poema em questão, o espelho seria tanto a representação da imagem mutável de Maya, - ora bela e serena, ora falsa e fria - quanto da finitude de Maya, pois, ao chegar a escuridão, a imagem da deusa desaparece restando apenas o vazio. Assim, o espelho, ao possibilitar a duplicação de Maya, mostraria sua polaridade benéfica e maléfica.

Na lírica de Arriete Vilela, por sua vez, observa-se a recorrência à mitologia grega no poema "Fênix":

 

Quero-te cúmplice
do fio que desteço
e que me constrói ora como fantasia
ora como conflito.

Quero-te cúmplice
dos laceramentos que a palavra
causa em minha pele
ao inscrever-te em mim.

Quero-te cúmplice dos destroços
dos quais renascemos sempre
- caliças restadas da placenta -,
mesmo que aos outros intriguem
essas cinzas polinizadas
pelas borboletas.

(VILELA, Vadios afetos , 1999, p. 58).

 

Neste poema, apesar do mito não ser utilizado como tema, como ocorre no poema "Maya", a recorrência à mitologia grega evidencia-se já no título do texto. A retomado do mito da fênix, ave mitológica que teria ressuscitado das cinzas, apresenta-se fazendo relação com a reconstrução da vida do eu lírico. A primeira estrofe menciona um fio que é destecido pelo eu lírico, que pode ser entendido como a trama do destino que, ao ser "destecida", faz com que o eu lírico se confronte com fantasias e conflitos.

Nota-se, no mito da fênix, uma aproximação com o mito bíblico da ressurreição. A fênix, segundo Chevalier e Gheerbrant, seria um dos símbolos da eternidade, salientando que a eternidade seria a ausência ou a superação de conflitos. Nesta perspectiva, pode-se afirmar que, no poema fênix, é renascendo das cinzas que o eu lírico consegue solucionar os conflitos instaurados na primeira estrofe do poema. Reconstruindo-se, a partir dos destroços encontrados ao destecer o fio da vida, o eu lírico pode reencontrar-se. Segundo Mircea Eliade, as imagens de cordas, fios e tramas, em várias culturas, estão, geralmente, relacionadas à vida humana. Por exemplo, no livro de , menciona-se o fio da vida. Na mitologia grega, as parcas teciam o destino. Na mitologia indiana, o ar teceu o universo, enquanto um sopro teceu a vida humana. Assim, há como resultado uma simbologia segundo a qual o cosmos está todo interligado por uma rede invisível, ou seja, há uma "amarração cósmica". Logo, destecer o fio, no poema, pode ser entendido como um retorno ao passado, como forma de resolver o presente.

Vale ressaltar, ainda, que o poema de Vilela, apesar de não mencionar diretamente a imagem do fogo, evoca esta imagem por meio da menção às cinzas. Também o fogo, da mesma forma que a fênix, é uma imagem que se relaciona ao renascimento, à ressurreição. Em grande parte dos ritos de purificação característicos das culturas agrárias, a purificação dá-se por meio do fogo. Em sânscrito, inclusive, uma mesma palavra designaria "puro" e "fogo". Citando Chevalier e Gheerbrant, "o fogo [...] é sobretudo o motor da regeneração periódica" (1993, p. 441). Da mesma forma que nas mitologias consideradas pagãs, também na mitologia judaico-cristã o fogo pode ser visto como uma imagem ligada à purificação, como nota-se no livro de Isaías, no qual relata-se que os lábios do profeta Isaías teriam sido purificados por meio de uma brasa, ou seja, por meio do fogo.

No poema "Trem de fogo", de Woellner, também é possível observar a referência à simbologia do fogo:

 

Imagem arquetipal,
esse imenso trem
repete
o deslizar em curvas
do mitológico dragão.

Fogo e fumaça
transformam o vazio
em espaços
prenhes de magia...

(WOELLNER, Infinito em mim , 1997, p. 107).

 

Aqui, a poeta alia a imagem cotidiana de um trem em movimento a uma imagem arquetipal da mitologia chinesa. O movimento, o fogo e a fumaça do trem transformam sua existência vazia de sentido em um verdadeiro ritual mágico. Desta forma, Adélia Maria descreve como mágicos acontecimentos banais e corriqueiros, conseguindo mostrar a magia da vida explodindo em cada momento.

O fogo, além de ser uma imagem que representa a purificação e a regeneração, também representa um meio de ligação entre o plano terreno e o celeste. Para Chevalier e Gheerbrant, a imagem do fogo também estaria diretamente ligada à imagem do "Die", sendo a mais perfeita representação de Deus.

O dragão é um símbolo ambivalente, que transita entre o espaço terrestre e celeste. Para Chevalier & Gheerbrant, o símbolo do dragão seria o princípio ativo e demiurgo, uma imagem do Verbo criador , ou seja, também seria uma representação da potência divina. No poema acima, o eu lírico faz menção à "imagem arquetipal" do "mitológico dragão", comparando-o ao trem. A fumaça, responsável juntamente com o fogo pela transformação do espaço vazio, simbolizaria a relação existente entre o plano terreno e o plano celestial, sendo que no poema é a fumaça que abre espaço para que sejam instaurados "espaços/ prenhes de magia". Vale lembrar que, tanto nos rituais chineses, quanto nos rituais judaicos, é a fumaça que eleva até os céus a homenagem dos fiéis, ou seja, simboliza a junção do céu e da terra, ligando o homem ao ser divino.

A imagem do fogo, na visão de Gaston Bachelard, revelaria ao homem parte de sua essência. No dizer do filósofo,

 

ao contemplar esses fogos associados ao homem por milênios de fogo, perdemos o sentimento de fugacidade das coisas; o tempo mergulha na ausência; e as horas nos deixam sem abalar-nos. O que foi, o que é, o que será se convertem, fundindo-se, na presença mesma do ser; e nada mais, na alma encantada, se distingue dela própria, salvo talvez a sensação infinitamente pura de sua existência (BACHELARD, 2001, p. 184).

 

E ainda,

 

o tempo imemorial abre-se diante de nós quando pensamos na 'infância' do fogo. Todas as infâncias são as mesmas: infância do homem, infância do mundo, infância do fogo, vidas que não decorrem sobre o fio de uma história. O cosmos do sonhador nos instala num tempo imóvel, ajuda-nos a fundir-nos no mundo (idem, p. 185).

 

O simbolismo do fogo está inscrito em um mesmo terreno que o simbolismo da flecha e do relâmpago, produtor do fogo. Para Piganiol, "a incineração corresponderia à crença na transcendência de uma essência, na imortalidade da alma" (apud Durand, 2001, p. 173). O fogo purificador, geralmente, é associado ao sol. Segundo Durand, a simbologia do fogo representaria o intelecto, visto ser um elemento que afasta o homem da condição animal. Vale ressaltar, no entanto, que o fogo carrega representações ambivalentes. Afastado de seu simbolismo purificador, o fogo traz inúmeras outras representações, conforme se nota no poema "Guirlandas", de Vilela:

 

Enganadores perigos
- palpáveis, embora -
de caminhos desprevenidos como uma novidade
alegre,
que se encurtam traiçoeiros
para que a águia e a serpente antecipem
o tempo das revelações de um amor que se protege
entre labaredas.

Enganadores perigos
- palpáveis, embora -
com sombras que se revelam numa cumplicidade
ambígua:
trazes-me poemas de outras paragens,
acenas-me com o teu novo rosto,
mas não te deixas naufragar em mim.

Enganadores perigos
- palpáveis, embora -
que me reacendem as chamas de fogo:

apesar de arderem, vorazes e belas,
não consomem esses teus olhos hindus
que põem guirlandas de luto
sobre o meu peito de maduros amores
mortalmente desinventados.

(VILELA, Vadios afetos , 1999, p. 33-34).

 

Neste poema, o fogo simboliza a potência que sufoca, queima e destrói. São as labaredas que protegem o amor traiçoeiro e destruidor, que põe guirlandas de luto sobre o peito maduro de amores do eu lírico.

Para Chevalier e Gheerbrant, "o fogo, fumegante e devorador, em uma antítese completa da chama iluminante, simboliza a imaginação exaltada... o subconsciente... o fogo infernal... o intelecto em sua forma revoltada: em suma, todas as formas de regressão psíquica" (1993, p. 443). Aqui, o fogo já não se apresenta como meio de purificação, mas como proveniente e protetor de "enganadores perigos". Apesar do aspecto negativo de destruição aliado à imagem do fogo, ainda assim, na visão de Chevalier e Gheerbrant o fogo continuaria a representar a regeneração, mesmo que por meio da destruição. Isso se daria porque, mesmo que de forma destrutiva, "ele simboliza a purificação pela compreensão, até a mais espiritual de suas formas, pela luz e pela verdade" (1993, p. 443).

Se por um lado o fogo é representação do demiurgo, por outro, é a representação do demônio. Simboliza o celeste e o subterrâneo, apontando, assim, para a dualidade humana.

Nota-se, ainda que, no poema, há a menção à águia e à serpente como portadoras de revelações, o que remete a uma lenda indiana correlata ao mito bíblico da tentação no Paraíso, segundo a qual a serpente seria a detentora dos segredos da vida. Segundo Chevalier e Gheerbrant, a serpente não se apresentaria propriamente como um arquétipo, mas como "um complexo de arquétipos ligado á noite fria, pegajosa e subterrânea das origens. [...] Ela é o reservatório, o potencial em que se originam todas as manifestações" (1993, p. 815).

É um equivoco que, no mundo dito "moderno", o pensamento simbólico seja relegado somente às crianças, poetas e loucos. Antes, deve ser reconhecido como uma realidade humana. Para Eliade, o subconsciente do homem teria um valor espiritual maior que a vida consciente, sendo que até mesmo o homem mais realista viveria de imagens. Este filósofo salienta que, "se o espírito utiliza as Imagens para captar a realidade profunda das coisas, é exatamente porque essa realidade se manifesta de maneira contraditória, e conseqüentemente não poderia ser expressada por conceitos" (1996, p.11). Chevalier e Gheerbrant, ao referirem-se à simbologia concernente à cultura de povos animistas como os de Nova Guiné, Bornéu, Madagascar e da África banto, entre outras, observam que "essas culturas só se distinguem da nossa pelo fato de terem continuado a manifestar abertamente as crenças simbólicas que, no nosso caso, viram-se ocultas por uma pressão histórica, sem por isso desaparecerem" (1993, p. 821).

Convém ressaltar que, consoante Eliade, o símbolo e sua atualização estão ligados às tensões e mudanças da vida social. Apesar disso, considera possível que os símbolos arcaicos sejam utilizados inconscientemente por indivíduos que desconhecem a essência de tais símbolos. Ou seja, eles se modificam, mas nunca desaparecem por completo, pois participam da essência humana.

Observa-se que, tanto na lírica de Woellner quanto na de Vilela, a recorrência a temas como a mitologia ocorre no sentido de estabelecer relação entre o passado e o presente, como uma ponte entre o agora e as realidades inscritas em um tempo original. O fazer poético de ambas as poetas, apesar de ser marcado por poemas de natureza bastante íntima, apresenta temas universais que revelam a busca por descobrir a essência dos mais variados objetos, bem como a essência dos seres humanos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio . São Paulo: Martins Fontes, 2001.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1991.

VILELA, Arriete. Vadios afetos. Maceió: Editora Gazeta de alagoas, 1999.

WOELLNER, Adélia Maria. Infinito em mim. Curitiba, 1997.