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A representação da Índia na ficção de Mircea Eliane : La nuit bengali
Ana Maria Mello (UFRGS)

Qual teria sido a minha vida sem a experiência da Índia no princípio da minha juventude ? - Mircea Eliade

O romeno Mircea Eliade (1907-1986) é conhecido no Brasil como especialista em mitologia e historiador das religiões. Grande parte de suas obras teóricas estão disponíveis em português, destacando-se Mito e realidade, Tratado de História das religiões; O mito do eterno retorno; O sagrado e o profano; História das crenças e das idéias religiosas ; Ioga:imortalidade e liberdade. Este último título é o de sua tese de doutorado.

Destaca-se, no conjunto de seus escritos , um grande interesse pela Índia, civilização que exerceu, também, um grande fascínio sobre os simbolistas na segunda metade do século XIX. Segundo o próprio Eliade, foram, sobretudo, os estudos da filologia comparada indo-ariana que suscitaram o interesse pela cultura indiana no século XIX.

Desde a sua primeira estada na Índia, de 1928-1931, Mircea Eliade passou a estudar os mistérios e os ritos daquele País, interesse que se refletiu também na sua criação literária. No livro A Índia , Eliade reúne notas de viagem, algumas escritas durante o percurso que o levou ao território indiano, outras escritas mais tarde, quando já havia retornado à Europa.

La nuit bengali (Noites de Bengali), um de seus dez romances, surge de sua experiência indiana, quando ele aprendeu sânscrito e se iniciou nas práticas hindus com o professor Dasgupta. Em 1930, ele se instalou na casa de seu professor e ali manteve um idílio com a filha do professor até que os familiares da jovem indiana souberam do relacionamento amoroso. Nesse momento, Eliade foi expulso da casa e impedido de se comunicar com a jovem Maitreyi. Definitivamente rejeitado pela família indiana, refugiou-se por oito meses na região do Himalaia, em uma cabana na floresta em Rishikesh, graças ao apoio que recebeu de Shivananda 1. Segundo Eliade: [ele lhe] « arranjou uma pequena cabana na floresta... As condições eram muito simples : ser vegetariano e não usar o tipo do vestuário europeu – deram-me uma toga branca ». 2

O romance é a ficcionalização da experiência do autor que, na narrativa, recupera a atmosfera indiana, com seus costumes e a visão do mundo que tanto o atrai, percebendo-a como muito distinta da européia. O tema central é a iniciação amorosa entre a adolescente indiana - Maitreyi - e um engenheiro europeu, chamado Allan. Eliade mantém, no texto ficcional, o verdadeiro nome da jovem com quem se relacionou. Na época, Maitreyi já se iniciava na carreira literária e era admiradora do escritor R. Tagore.

O contraste entre códigos indianos do amor e os comportamentos europeus está no cerne da narrativa. Além disso, o romance desnuda os preconceitos dos europeus, ditos « civilizados », em relação à cultura indiana, denunciando a visão eurocêntrica como eivada de racismo e de arrogância.

O protagonista, à medida que penetra no universo cultural indiano, não consegue mais conviver com os europeus lá instalados provisoriamente, nem com os eurasiáticos que, embora tenham residência fixa na Índia, continuam a assumir ares de importância e superioridade em relação à população autóctone.

O livro foi recebido pela crítica como um relato de uma passagem iniciática, simbólica, e uma sinfonia do amor carnal sublimado. O narrador afirma que a narrativa é a recomposição de um diário íntimo em que fragmentariamente registrou suas impressões de estrangeiro. Ao reler mais tarde esse diário, acrescentou outros detalhes e impressões, elementos que servirão de suporte à narrativa autobiográfica ficcional, segundo o seu narrador.

O narrador autodiegético, que a posteriori faz um balanço do vivido, revela, passo a passo, a descoberta e a fascinação que experimentou pelos valores indianos, além de relatar a forma como foi excluído desse mundo. A hesitação inicial do narrador, na rememoração dos acontecimentos, deve-se, segundo ele, à distância entre as anotações fragmentadas do diário e a construção da narrativa ficcional: « Se eu hesito nesse começo, é porque não consegui ainda saber o dia exato de meu primeiro encontro com Maitreyi. Nas minhas notas daquele ano não descobri nada. » 3

Essa hesitação aponta para uma característica que está no cerne da autobiografia ficcional : o fato de que o relato mistura impressões das vivências do protagonista com as impressões do narrador em que ele transformou, afastados temporalmente. O relato da experiência vivida desdobra-se nos seguintes momentos : o tempo do diário íntimo que registra uma mágica aventura de amor, à medida em que é vivenciada; as anotações ulteriores ao acontecido, quando Allan é expulso da casa de Maitreyi, logo que a família indiana descobre o envolvimento dos jovens ; a narrativa final, entretecida a partir das anotações anteriores.

O relato ficcional mostra, pouco a pouco, o contraste entre as culturas européia e indiana, revelando a atmosfera familiar em que o engenheiro europeu penetra e experimenta um estranhamento que se transmuta, progressivamente, em fascinação. Eis o que ele observa a respeito de seu primeiro ingresso na casa de Maitreyi, quando acompanha um jornalista europeu em busca de informações sobre a cultura local, para compor um livro :

 

Mas eu jamais teria suspeitado que o interior de uma residência bengali pudesse conter tantas maravilhas, tanta luz filtrada por cortinas diáfanas como xales, tanta maciez nos tapetes ao serem tocados, tantos sofás em cachemira de lã e pequenas mesas excêntricas, com um só pé, sustentando tampos feitos de latão ... Sobre essas mesas haviam colocado taças de thé e doces que Narendra Sen 4 havia escolhido, ele mesmo, para melhor informar sua visita sobre os doces típicos do país. 5

 

Maitreyi, que no início do relato, é descrita de início por sua « feiúra », considerado o padrão europeu de beleza - olhos excessivamente grandes, lábios demasiados vermelhos, tez morena - transforma-se miraculosamente em um misterioso enigma a ser decifrado, com uma beleza especial, plena de sortilégios e símbolos. Da mesma forma, o seu próprio País ganha um novo sentido para aquele que o descobre. Ambos, Maitreyi e a Índia, guardam mistérios a serem desvelados, sendo ela a ponte que permite a travessia para o outro lado:

 

Eu gostaria de já confessar e claramente que eu jamais pensei em amor durante os primeiros meses de minha vida junto a Maitreyi. Eu estava antes fascinado por sua natureza, enfeitiçado pelo mistério de sua existência. Eu pensava nela, eu fazia anotações em meu diário a respeito de um grande número de conversações e incidentes, eu estava perturbado e inquieto, - mas era devido ao charme estranho, incompreensível de seus olhos, de suas respostas, de seu riso. Era certo que esta jovem me atraía. Na sua própria maneira de ser, havia não sei que poder de encantamento e de apelo. Mas eu mentiria se não acrescentasse que minha vida inteira ali – e não somente Maitreyi – me parecia miraculosa e pouco real. Eu havia entrado tão rapidamente e tão livremente em uma morada onde tudo era para mim pleno de mistério e de incerteza que me acordava às vezes desse sonho indiano e voltava a pensar em minha vida, na nossa vida....Eu sorria. Que transformação ! Nada mais me interessa, ou quase nada, de meu antigo universo.... 6

 

No interior da narrativa de amor, há uma romance de atmosfera e costumes, que entrelaça três comunidades : a autóctone - tradicional, pouco disposta a aceitar os hábitos e valores europeus ; uma comunidade branca, sobretudo inglesa; uma comunidade eurasiana, que despreza os indianos e se rebaixa para os europeus civilizados, que ela tenta imitar em tudo. Ao mesmo tempo, ativa o imaginário indiano, na medida em que o casal Maitreyi-Allan revive a lenda de Nala e da bela Damayanti da epopéia indiana Mahabharata . 7

A sensualidade sutil e refinada da jovem indiana desnorteia os paradigmas de conduta amorosa do europeu racionalista, habituado a outras formas de relacionamento. Quando ela lhe revela o seu amor por uma árvore, descrevendo-a como um ser que é passível de ser amado, receber carícias e confissão, esse relato desnorteia os parâmetros do europeu, sugerindo a complexidade do espírito asiático. Educada na « civilização » indiana ( tal como a considerava Rimbaud), de signos intrincados para um europeu, com um pudor imprevisível, Maitreyi insere Allan em um emaranhado de símbolos que ele tenta decifrar, percebendo uma trama onde qualquer gesto, objeto ou olhar é carregado de « pregnância simbólica », conforme expressão de Ernst Cassirer. 8

A união dos dois é antecedida de sinais e de uma atmosfera sagrada, celebrada em segredo à beira de um lago, diante da água, da floresta e do céu. Nela, Maitreyi faz um juramento cósmico à Terra-mãe :

Eu me comprometo diante de ti, ó Terra, a ser de Allan e de mais ninguém. Ele me fará brotar dele, como tu fazes brotar a erva de ti. E como tu esperas a chuva, assim eu esperarei sua chegada ; e aquilo que são para ti os raios, seu corpo o sera para mim. Eu me comprometo diante de ti para que nossa união traga frutos, pois eu o amo como todas as minhas forças e se alguma mal tiver que acontecer, que ele não recaia sobre ele, mas sobre mim, pois fui eu quem o escolheu. [...] Que nosso amor seja como a alegria das árvores que fazes brotar. Que nosso abraço seja como o primeiro dia da colheita. Que nosso beijo seja chuva...

 

A relação amorosa é penetrada pelo misticismo e a sensualidade orientais, sensualidade essa que se entrelaça ao espírito e não o separa do prazer físico. À secura e fragmentação do diário, conforme o próprio narrador o qualifica, contrapõe-se à tessitura quase musical e mágica do relato da passagem iniciática, que delineia o itinerário do protagonista ao centro de seu ser para recuperar o vivido, dando-lhe cadência e vida, no limite do que as palavras podem alcançar. A desordem e a transmutação internas desestabilizam o mundo até então conhecido e estático em seus valores e levam ao autoconhecimento e a uma verdadeira Gnose, na medida em que Allan apreende o Outro, o diferente, e se inicia em uma nova verdade, em outra forma de ser, não antes de experimentar uma espécie de morte, conforme sua avaliação final do vivido:

Desde há muito, morreu em mim o jovem otimista e vigoroso que eu havia sido, consciente do do que queria e daquilo que podia fazer – o europeu dominado por técnicas, uma alma de pioneiro que outrora havia desembarcado na Índia, acreditando trazer para ela a civilização. Tudo me parecia inútil, ilusório e inútil. Tudo, incluindo esses meses de amor e de infelicidade. (p. 251)

 

Para Allan, a experiência na Índia equivale, portanto, a uma passagem iniciática, já que provoca uma modificação profunda em seu modo de ser e estar no mundo. Segundo Eliade, em Initiation, rites, sociétés secrètes , a iniciação compreende um conjunto de ritos e de ensinamentos orais, experiência que propicia « a modificação radical do estatuto religioso e social do sujeito a iniciar » 9. E, acrescenta : «  Filosoficamente falando, a iniciação equivale a uma mutação ontológica do regime existencial. No final de suas provas, o neófito frui toda uma outra existência, diferente daquela anterior à iniciação: ele tornou-se outro. » 10

O protagonista de La nuit bengali descobre que existe, fora do mundo europeu, outros mundos surpreendentes, menos pelas paisagens e climas diferentes, do que pela maneira como o indivíduo comum vive os atos mais importantes de sua vida, guiado por arquétipos da cultura.

O universo imaginário de Eliade projeta-se na narrativa e entrelaça as experiências vividas à uma poeticidade própria da obra de arte, revelando que esse imaginário ficcional nasce do choque entre os acontecimentos reais e as suas repercussões na interioridade do sujeito, e expressa-se através de um recital de símbolos.

 

Swami Sivananda foi um dos grandes mestres indianos do século XX. (1887-1963)

ELIADE, M. A provação do labirinto: diálogos com Claude-Henri Rocquet . Lisboa: Dom Quixote, 1987. p. 35.

ELIADE, Mircea. La nuit bengali. Paris : Gallimard, 2000. p.11

Narendra Sen é o pai de Maitreyi no texto ficcional.

idem ibidem, p. 19

idem, ibidem, p. 71-2

Obra épica, consolidada entre os séculos II e VII, compreendendo 200.000 versos, que exerceu grande influenciou sobre o pensamento, os costumes e a literatura da Índia e países da civilização indiana.

Segundo Ernst Cassirer, o pensamento é incapaz de ter uma intuição objetiva de uma coisa, mas a integrá-la imediatamente em um sentido; na consciência humanna nada se apresenta, mas tudo é representado. In: ___ La philosophie des formes symboliques. Paris : Minuit, 1981. vol. III, p. 217-231.

ELIADE, Mircea. Initiation, rites, sociétés secrètes . Paris : Gallimard, 1976. (Idées). p.12

idem, ibidem, p. 12