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História da Literatura e Magistério em Sílvio Romero
Wagner Coriolano de Abreu (PUCRS)

A primeira história da literatura brasileira, escrita pelo crítico e professor Sílvio Romero, na segunda metade do século XIX, possivelmente teve um planejamento e um esquema didáticos como estrutura preliminar. Ao longo de sua narrativa, o autor se afasta da preocupação com o mero registro de autores e obras - que comporiam o cânone à época - a fim de proporcionar aos leitores um debate amplo de problemas filosóficos relacionados à Arte e à História, através de comentários de aspectos da literatura e da produção cultural.

Em 1880, vitorioso em concurso, Sílvio Romero ingressa no Colégio D. Pedro II como professor de Filosofia, depois de atuar por mais de uma década na imprensa e por alguns anos na Promotoria Pública. Quando inicia a carreira de professor, Romero representa “uma pessoa bonacheirona, de excelente humor, desinteressado, generoso, comunicativo; mas de pena em punho preferia atacar, desfazer em tudo que o contrariasse”, conforme testemunho de seus contemporâneos 1. Pouco antes da aposentadoria no magistério, em 1911, leciona na Faculdade de Direito para a turma do jovem acadêmico Alceu Amoroso Lima, com o mesmo entusiasmo dos primeiros tempos, pois assim o descreve o crítico, em suas memórias:

era ele, antes de tudo, um homem que à cultura aliava um grande sentimento de humanidade. Vivo, cordial, pareceu-me desde logo um ser tipicamente brasileiro. Quem o via percebia nele imediatamente a negação do formalismo. Como professor, revelava-se, tanto na exposição da matéria como no trato com os alunos, o avesso da aridez com que se comportava a maioria dos mestres de meu tempo. Seu ensino era palpitante, vivo, inteligente, comunicativo, enquanto os outros professores, afastados, distantes, quase indiferentes à classe, limitavam-se a ler as apostilas, tal como em Coimbra. O professor era o lente, o que lia. 2

 

A hipótese de que sua história origina-se de uma série de apontamentos de aula, destinados ao magistério em escola secundária, exige que o leitor refaça o que foi a cátedra na escola brasileira do período e mesmo retroceda aos tempos em que Romero freqüentou a escola.

Em seu estudo sobre o discurso crítico de Araripe Júnior, coevo de Sílvio Romero, Luiz Roberto Cairo afirma que “muito da efervescência cultural do século XIX se deveu à existência de bons colégios particulares” 3. Esses colégios seguiam à risca o princípio segundo o qual os alunos tomavam notas ou seguiam as explicações do mestre através de compêndios. O ideal do ensino nesse período, conforme o escola-novista Lourenço Filho, “seria a reprodução automática sem qualquer variação, ou sem que permitisse a expressão de possíveis diferenças individuais. Dar a lição, tomar a lição – eis em que quase se resumia a didática tradicional” 4.

Na escola pública da Corte, esse ideal de ensino se apresenta por meio da polêmica entre realistas e humanistas. Em seu clássico estudo sobre o ensino no Império, Primitivo Moacyr diz que “é conhecida a controvérsia acerca do programa do ensino secundário; uns querem imprimir cunho mais científico que literário, e outros em vez disto, mais literário que científico” 5. A disputa entre humanistas e realistas revela a dimensão do conflito existente no ensino e seus métodos. Para Moacyr, “o ensino secundário não pode ser difundido em um só molde, variando, como variam efetivamente, as profissões daqueles a que se destinam” 6.

A introdução ao debate de idéias ou ao desafio nos moldes da cultura popular do Nordeste, observa Roberto Ventura 7, mostra o sentido de comunicação que Romero imprimi a seu trabalho, uma vez que sua cátedra se contrapõe à concepção de ensino vigente em seu tempo. Cabe ainda uma vez destacar que “o deslocamento do eixo pedagógico do intelecto para o sentimento” 8 viria a se constituir, efetivamente, nas primeiras décadas do século XX.

A primeira edição da História da Literatura Brasileira aparece pela editora Garnier, em dois volumes ou tomos. Por sua vez, cada tomo divide-se em livros. No primeiro tomo da obra, Sílvio Romero dedica os vários capítulos do livro I aos “fatores da literatura brasileira”, uma espécie de embasamento teórico à leitura que empreende da tradição literária. Esta introdução traça a síntese indispensável à leitura dos dois tomos, pois contém os pressupostos metodológicos com os quais o leitor Romero examina a produção literária do passado. Constança Marcondes César, em seu estudo sobre a relação “Literatura e sociedade em Sílvio Romero”, sintetiza esta metodologia do seguinte modo:

a abordagem de Sílvio Romero caracteriza-se por essa metodologia: primeiro, apresenta um painel do século, caracterizando o grande contexto histórico, as notas dominantes da vida cultural em que a literatura floresce; em seguida, elenca os eventos marcantes no país e sua ressonância nas obras literárias; finalmente examina um caso concreto, exemplar, no qual a história, o acontecer, são expostos através da ótica de um sujeito criador. O individual e o social, a vida da cultura, aparecem entretecidos e espelhados, desse modo, na obra de arte, na literatura. 9

A narrativa da História da literatura brasileira , portanto, começa somente no livro II, ainda no primeiro tomo, e segue a periodização em voga no texto de Joaquim Norberto 10. A primeira impressão é que o autor comporá seu repertório de leituras e nomes com a mesma metodologia de outros narradores que o antecederam no exercício. O leitor, entretanto, encontra um texto narrativo mesclado de considerações teóricas sobre as bases de sua história.

Narra primeiro o século XVI, com a chegada do estrangeiro e os primeiros contatos deste com os nativos, destacando a influência mútua como base da formação do país, posteriormente tratado como nação e outros designativos.

O capítulo dois, ainda do mesmo segundo livro, segue na linha de tempo com o século XVII, a vez dos baianos e seus oradores e poetas - especial menção para Gregório de Matos – e o reconhecimento do papel fundador deste poeta perante a idéia de nacionalidade, cuja menção torna possível o postulado categórico de seu fazer metodológico:

a literatura brasileira, como todas as literaturas do mundo, deve ser a expressão positiva do estado emocional, dos sentimentos de um povo. Ora, nosso povo não é o índio, não é o negro, não é o português; é antes a soma de todas essas parcelas atiradas ao cadinho do Novo Mundo. 11

 

A partir da escrita de Sílvio Romero, a periodização perde a importância que desfrutava na perspectiva “dos esquemas unificadores como o Zeitgeist” 12, e outro fator ganha visibilidade maior, a saber, a polêmica romeriana. Essa polêmica está presente no texto de sua narrativa, ora introduzindo uma perspectiva de leitura, ora preenchendo o ponto de passagem entre uma época e outra, como podemos verificar no trecho que assinala a transição entre a escola mineira e os poetas que depois seriam denominados de pré-românticos.

Antes de empreendermos o estudo da eloqüência sagrada, das belas artes, das ciências naturais, das ciências históricas e do movimento político do Brasil nos trinta anos que lhe antecederam a independência, temos a passar em revista alguns poetas secundários que se prendem mais ou menos à escola mineira. Os principais são Domingos Caldas Barbosa, Domingos Vidal Barbosa, Bartholomeu Antonio Cordovil, e Bento de Figueiredo Terneiro Aranha. 13

Sílvio Romero não diminui o prestígio com que alguns autores foram agraciados nas antologias antecedentes ao seu estudo, pelo contrário, amplia generosamente as referências aos “maiores”, sejam eles poetas ou historiadores. E, ainda, abre espaço na sua galeria para nomes ligados a outras ciências, pelo fato de considerar uma história como objeto para além da inscrição poética ou, talvez, corroborando a filosofia positivista da supremacia racional sobre as categorias do gosto estético.

A desproporção entre os dados informados e comentários que o autor faz quanto aos maiores em relação ao menores ou secundários, segundo a nota anterior, se estende ao tratamento dado às épocas, visto que o segundo tomo desta História da literatura brasileira se ocupa exclusivamente do período romântico, “a nossa primeira dentição nacional”. Aqui, o cânone de Sílvio Romero dispara à frente dos que o antecederam por uma questão de momento histórico, por estar na ponta final do processo do romantismo entre nós, contemporâneo à produção da prosa romântica e do desdobramento dos pressupostos anunciados por Gonçalves de Magalhães. Bem ao gosto de uma exposição escolar, diz

chegamos ao segundo momento do romantismo brasileiro, a fase inaugurada por Gonçalves Dias. É o seu ponto culminante. O poeta maranhense e José de Alencar, o célebre romancista do Ceará, são inquestionavelmente os dois mais ilustres e significativos tipos da literatura romântica entre nós. 14

 

Nota-se, novamente, o calor das afirmações categóricas e das preferências pessoais, pois adiante ainda completa o pensamento com uma rejeição aberta ao indianismo, “esse velho, e por mim tão maltratado indianismo”.

A história da literatura brasileira tem sua origem no exercício profissional de um professor, visto que a aula exige uma preparação antecipada dos tópicos e do material a ser utilizado. Outras duas razões justificam este evento singular e estão registradas no texto de sua história: escrever a história que Joaquim Norberto anunciara mas não escrevera 15 e inscrever a obra de Bernardo Guimarães como produção decisiva na argumentação dos rumos da nacionalidade brasileira.

 

CANDIDO, Antonio. Fora do texto, dentro da vida. In: _____ . A educação pela noite & outros ensaios . 3 ed. São Paulo: Ática, 2000. p.101.

LIMA, Alceu A. Memórias improvisadas , diálogos com Medeiros Lima. Petrópolis: Vozes, 1973. p. 39-40.

CAIRO, Luiz Roberto. O salto por cima da própria sombra : o discurso crítico de Araripe Júnior: uma leitura. São Paulo: Annablume, 1996. p. 27.

LOURENÇO FILHO, M.B. Introdução ao estudo da Escola Nova . São Paulo: Melhoramentos, 1978. p.151

MOACYR, Primitivo. A instrução e o Império : subsídios para a história da educação no Brasil – 1854-1888. 2º Volume. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1937. p. 487.

Ibidem, idem.

VENTURA, Roberto. História e crítica em Sílvio Romero. In: ROMERO, Sílvio. Compêndio de história da literatura brasileira (edição comemorativa). Org. Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro: Imago, 2002.

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia . São Paulo: Cortez, 1983. p. 14.

CÉSAR, Constança Marcondes. Literatura e sociedade em Sílvio Romero. Letras , PUC–Campinas, Campinas, v. 21(1/2), p.102-106, dez.2002.

SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Bosquejo da história da poesia brasileira. In: ZILBERMAN, R. e MOREIRA, M. E. O berço do cânone : textos fundadores da história da literatura brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.

ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira – Tomo primeiro: 1500-1830. Rio de Janeiro: Garnier, 1888. p. 171

OLINTO, Heidrun K. Interesses e paixões: histórias da literatura. In: ______ . Histórias de literatura : as novas teorias alemãs. Org. São Paulo: Ática, 1996. p.17.

ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira – Tomo primeiro: 1500-1830. Rio de Janeiro: Garnier, 1888. p. 302

ROMERO, Silvio. Op. Cit. p. 853 e segs.

A polêmica romeriana se faz presente na justificativa desta razão: “Em história literária Norberto não possui uma obra completa. Tem andado a anunciar a história da literatura brasileira, mas este livro não foi até agora escrito e provavelmente não o será jamais atentos a idade do autor e o retraimento em que hoje vive”. Id. Ibid., p.776.