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Joaquim Norberto e sua contribuição à edição de textos e à crítica literária
Roberto Acízelo de Souza (UERJ)
Entre os variados empreendimentos de Joaquim Norberto figura com destaque a organização de obras poéticas em livros, atividade de que foi um dos pioneiros entre nós. Assim, devemos a ele edições de Gonzaga ( Marília de Dirceu ; 1862), Silva Alvarenga ( Obras poéticas ; 1864), Alvarenga Peixoto ( Obras poéticas ; 1865), Gonçalves Dias ( Poesias ; 1870), Álvares de Azevedo ( Obras ; 1873), Laurindo Rabelo ( Obras poéticas ; 1876) e Casimiro de Abreu ( Obras completas ; 1877), série que constituiu a “Brasília – Biblioteca dos Melhores Autores Nacionais Antigos e Modernos”, que dirigiu para a editora Garnier.
Nesses trabalhos, atuou como um prático, pouco interessado em explicitar e discutir os fundamentos conceituais com que operava. Com efeito, não obstante tratar-se de metodologia sua contemporânea, fixada que foi nos anos de 1840, não há qualquer sinal de que tenha conhecido a sistematização da atividade filológica orientada para o estabelecimento de textos em bases científicas, devida sobretudo a Karl Lachmann (1793-1851) e mais tarde designada pelos termos ecdótica ou crítica textual, caracterizada pela seqüência das operações que se tornaram clássicas: recensão, estemática, emendas, edição.
Seu empirismo, no entanto, não lhe tira o merecimento, e pode-se dizer que o empenho de rigor transformou as edições por ele assinadas no que de melhor o século XIX produziu entre nós nessa modalidade. Para se ter uma idéia do aspecto geral dos textos que organizou, analisemos seu primeiro exercício no gênero, a edição de Marília de Dirceu , publicada em 1862, em dois volumes.
O primeiro volume se apresenta subdividido em três grandes partes: “Introdução”, “Peças justificativas” e “Dirceu de Marília”. A “Introdução”, por sua vez, se subdivide nas seguintes seções: “I – Advertência sobre a presente edição”; “II – Reflexão sobre as diversas edições”; “III – Juízo crítico dos escritores nacionais e estrangeiros”; “IV – Notícia sobre Tomás Antônio Gonzaga e suas obras”; “V – Notas”. Ora, ainda que não se trate de uma edição crítica, no rigor da expressão, conceito aliás de que Norberto não tinha notícia, cremos que os especialistas devem reconhecer nos materiais assim ordenados todos os elementos básicos para a sua preparação. Quanto ao que chama “Peças justificativas” — que numa boa edição de hoje constituiria o que tecnicamente designamos pelo termo “apêndice” —, trata-se da transcrição de documentos históricos, dispostos na seguinte ordem: “I – Certidão de idade do Dr. Tomás Antônio Gonzaga”; “II – Termo de inquirição dos contraentes Dr. Tomás Antônio Gonzaga e Dª Juliana de Sousa Mascarenhas”; “III – Auto de perguntas feitas ao desembargador Tomás Antônio Gonzaga”; “IV – Defesa do procurador dos réus José de Oliveira Fagundes”; “V – Sentença da alçada conferida contra os réus”. Finalmente, o terceiro e último bloco do primeiro volume — “Dirceu de Marília” —, introduzido por texto intitulado “Sobre as presentes liras” e dividido em dois segmentos — “I – Amores” e “II – Saudades” —, mereceria comentário mais analítico à parte, não fossem as presentes limitações de tempo e espaço. Digamos então apenas que, com essas liras apresentadas como respostas de Marília aos poemas que Dirceu lhe dirigira, tentou algo entre a fraude literária e a ficcionalização da autoria, prática que foi comum, como sabemos, entre pré-românticos e românticos europeus.
No entanto, não obstante essa fantasia arbitrária que vai de contrabando numa obra orientada por rigor historiográfico, o que prevalece mesmo nessa edição do Marília de Dirceu são os cuidados técnicos mobilizados tanto para o estabelecimento do texto quanto para sua explicação. Daí a presença de uma Introdução substanciosa, em que se encontram uma justificativa para a nova edição, um balanço das edições anteriores, uma boa amostra da fortuna crítica, uma biografia sintética do autor estendida em análise crítica de sua obra, um apêndice composto por documentos históricos, uma notícia sobre traduções dos poemas e inclusões deles em antologias, além de uma longa seção de notas.
Essa edição de Marília de Dirceu seria, como dissemos, apenas a primeira experiência de Norberto nessa modalidade de trabalho intelectual, mas o fato é que aí já se encontra fixado o modelo que o autor seguiria nos demais livros que organizou, ao longo dos quinze anos seguintes de sua carreira. É que, na verdade, todos apresentam estruturação muito semelhante, com a ressalva de que em nenhuma das empreitadas posteriores ele se permitiria extravagâncias como aquela constituída pela inserção do Dirceu de Marília no corpo da obra de Gonzaga.
Consideremos agora seus trabalhos no âmbito da crítica literária, tomada esta expressão como designação para estudos analíticos e apreciativos de obras literárias específicas.
A parte mais extensa e representativa dos seus escritos nessa modalidade compõe-se de certas matérias que publicou na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro — “Bento Teixeira Pinto” (1850); “Casimiro de Abreu” (1870); “Notícia sobre Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa e suas obras” (1876); “O Dr. Laurindo José da Silva Rabelo” (1879); “Alocução do presidente [lida na sessão solene comemorativa do centenário de Cláudio Manuel da Costa]” (1890); “Notas biográficas [sobre Cláudio Manuel da Costa]” (1890) —, bem como dos longos ensaios que fez constar das edições de poetas por ele preparadas, sempre com o título “Notícia sobre o autor e suas obras”. Além disso, legou-nos um “Esboço biográfico” de José Bonifácio, 1 algumas biografias resumidas de mulheres que se dedicaram às letras 2 e a apresentação de um pequeno volume de poemas. 3 Assinale-se, por fim, que entre os dois conjuntos principais antes referidos há sobreposição parcial, uma vez que o ensaio sobre Casimiro de Abreu sai primeiro na Revista (1870), sendo depois, com pequenas alterações, republicado nas Obras completas (1877), ao passo que o estudo sobre Laurindo Rabelo descreveu o percurso inverso, estampado que foi inicialmente nas Obras poéticas (1876), para depois figurar, também com ligeiras modificações, no periódico do Instituto Histórico e Geográfico (1879).
Alguns desses ensaios revelam escasso ou nulo teor propriamente crítico, caso daqueles dedicados respectivamente a José Bonifácio e a Gaspar de Azambuja, bem como dos que consagrou às “brasileiras célebres” pelos dotes literários. O primeiro se concentra exclusivamente na biografia do autor, em nenhum momento entrando em considerações sobre sua obra; o segundo, por sua vez, não passa de texto ritualístico e protocolar, destinado à apresentação de um estreante e seguindo a praxe polida de dar realce à juventude do poeta, o que enseja tanto acentuar suas potencialidades quanto desculpar suas inconsistência; e o conjunto formado pelas sínteses biográficas de mulheres literatas, ainda que ligeiramente faça comentários de valor sobre suas obras, na verdade integra seu esforço por assim dizer protofeminista, de “[...] apresenta[r] em relevo as [...] patrícias merecedoras das páginas da história.” 4
O estudo sobre Bento Teixeira, por seu turno, se divide entre considerações biográficas — reduzidas a muito pouco, considerando a quase completa indisponibilidade de dados a respeito da vida do escritor —, exposição de controvérsia sobre atribuição de autoria e breves juízos críticos, sendo que suas conclusões factuais estavam quase todas fadadas a retificação por investigações historiográficas futuras.
Quanto aos dois textos que dedicou a Cláudio Manuel da Costa, são ambos amplamente dominados por informações biográficas, em tom de celebração patriótica e com ênfase no episódio de sua participação na inconfidência mineira. Nos dois, no entanto, tangencia aqui e ali a crítica propriamente dita, sendo particularmente interessante um trecho em que, analisando o autor, afasta-se momentaneamente da concepção romântica de poesia como expressão psicológica espontânea e sincera, embora compreensivelmente não chegue a aprofundar a idéia. Vejamos a passagem:
Havia nele dois gênios ou dois temperamentos, um jovial e outro melancólico, que se transformavam mutuamente. Era um dualismo singular, de cuja existência dão testemunho as suas palavras e escritos. A tão aplaudida qualificação de Buffon de que o estilo é o homem tem nele completa negação. No meio dos amigos tornava-se divertido; tinha o riso da jovialidade nas faces macilentas, sendo a sua conversação repleta de sainetes, cheia de remoques, degenerando as mais das vezes em epigramas e sátiras. A sós consigo já não era o mesmo indivíduo. Embebia-se na mais profunda tristeza e, escrevendo, o estilo revestia-se das mais melancólicas cores, tornando-se de um sentimentalismo tão lúgubre que não deixa de impressionar os que o lêem. 5
Há enfim o grupo de ensaios mais característico de seu processo crítico-analítico, constituído pelos estudos sobre Gonzaga (1862), Silva Alvarenga (1864), Alvarenga Peixoto (1865), Casimiro de Abreu (1870), Álvares de Azevedo (1873), Teixeira e Sousa (1876) e Laurindo Rabelo (1876). Pode-se dizer que nesses ensaios chegou a cristalizar uma fórmula, já que em todos eles reserva um longo segmento inicial à composição de uma síntese biográfica, para em seguida, em trecho final bem menos extenso, concentrar-se em observações críticas, numa nítida adesão ao pressuposto romântico da justaposição entre vida e obra.
As biografias que precedem à análise textual e ao juízo crítico, reforçando a pertinência da observação que fizemos, segundo a qual os ensaios do grupo em apreço cristalizam um modelo, são por sua vez também bastante homogêneas na sua concepção: em todas o biografado aparece como uma espécie de reserva moral da nacionalidade, envolto na aura de certo heroísmo burguês e moderno, fundado na decência, no trabalho e no cultivo dos bons sentimentos, como o varão de que fala o otimismo iluminista de Gonzaga:
O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano:
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói o pobre,
Como o maior Augusto.Eu é que sou herói, Marília bela,
Seguindo da virtude a honrosa estrada [...]. 6
E por essa honrosa estrada da virtude naturalmente não se passa em “brancas nuvens”: trata-se sempre de um caminho de provações e sofrimentos, o que determina a assimilação pelo relato biográfico de ênfase sentimental e peripécia sensacionalista, recursos que por sinal degeneram com freqüência em verdadeiro humor involuntário, na linha dos mais rasgados folhetins, gênero aliás cultivado por Norberto. Veja-se, a propósito, a seguinte passagem, entre tantas outras que podem servir de exemplo:
Atormentava-o [a Alvarenga Peixoto] uma lembrança sinistra, que se erguia ante ele como um fantasma envolto em ensangüentadas roupas, trazendo na destra a lâmina de Catão e Bruto. Ah! Era o suicídio! Só ele poderia pôr fim a esse sonho, a esse enredo, a essa quimera, que se chama vida, que passa por verdade e que não é mais do que uma ilusão, uma mentira... Mas seus filhos, mas sua esposa lhe apareciam através dos véus vaporosos do delírio, e um suspiro dissipava a sinistra visão. 7
Quanto às observações críticas, consistem elas em formulações generalizantes e diretamente judicativas, porém em geral lastreadas na análise de particularidades microtextuais. Um dos seus fundamentos parece encontrar-se em certa concepção de “crítica literária” usualmente prescrita nos compêndios de retórica e poética em uso no Brasil da sua época:
Crítica literária é o juízo imparcial e esclarecido das obras dos escritores antigos e modernos. Exige retidão de espírito, sentimento vivo e delicado das belezas e defeitos , grande honestidade e elevação de vistas, inteligência profunda da verdade, e erudição sólida e variada. 8
Com efeito, seus enunciados críticos são categóricos tanto nos elogios das “belezas” quanto na condenação dos “defeitos”, como se pode observar no seguinte exemplo:
A sua rima [de Laurindo Rabelo] é rica e variada, mas não guarda simetria alguma no uso das agudas e graves, segundo a regra observada pelos italianos e seguida pelos nossos melhores poetas. São seus versos harmoniosos, e raro é encontrar algum mal medido ou cesurado. [...] são composições cheias de elegância, de belezas e de harmonia, abundantes de imagens poéticas e repassadas da mais doce e maviosa melancolia, que nada tem de fictícia. 9
O outro fundamento de seus juízos de valor provém de duas concepções caras à vertente do pensamento romântico que se tornou hegemônica no Brasil, as noções de que o mérito de uma composição literária se mede por sua fidelidade à cor local ou por sua autenticidade emocional, donde afirmações como as seguintes, que exemplificam respectivamente aplicações, para fins de julgamento crítico, do primeiro e do segundo princípio mencionados:
[...] Gonzaga [...] seguiu a poesia pastoril, as cenas campestres, matou em suas composições o elemento nacional, e deu a sua Marília de Dirceu feições inteiramente européias. Os que o querem defender desse erro [...] advogam a sua causa com as palavras de um ilustre crítico, de que a ninguém é dado sair da esfera de seu século, como se em Inácio José de Alvarenga Peixoto não tivesse ele mesmo um exemplo do contrário, pois as suas poesias têm um certo cunho de nacionalidade, e lidas pelo autor nas palestras de Vila Rica excitavam o entusiasmo pelas cousas da pátria e lhe lucravam louvores e aplausos. E Basílio da Gama com o seu Uraguai , e Santa Rita Durão com o seu Caramuru , e Silva Alvarenga com a sua Glaura , não se mostraram dignos poetas americanos, inspirados pela natureza bela, luxuriante e um tanto bravia de nossa cara pátria? 10
Conhece-se a facilidade que tem [Álvares de Azevedo] em escrever e que a sua pena mal pode seguir a impetuosa torrente das palavras que lhe dita o pensamento. Quando porém a afetação lhe retém a inspiração natural e lhe empola o estilo e lhe encarece a dicção, tirando toda pureza à sua linguagem, tudo se transforma e só resta o autor artificial, com toda a sua ostensiva erudição, defeito que seria desculpável na sua idade se isso mesmo não fora ridículo. 11
A conclusão que se impõe ao término dessa descrição dos trabalhos de Joaquim Norberto nos campos da edição de textos e da crítica literária é o reconhecimento de sua incontestável importância, decorrência da consciência técnica com que usualmente se conduzia em suas pesquisas. Assim, não obstante restrições que se possam fazer ao embasamento conceitual de sua produção nas áreas em causa, é inegável que praticou a crítica como estudo analítico e minucioso, e não como resenha ligeira ou emissão de opiniões impressionistas, e que concebeu a edição literária como intervenção ordenadora e interpretativa, e não como mera republicação mecânica de materiais impressos ou manuscritos.
No caso da crítica, no entanto, deve-se assinalar também a sua obsolescência, explicável pelos rumos seguidos pelos estudos literários no século XX, progressivamente informados pelos parâmetros imanentistas propostos e difundidos pela teoria da literatura, tão infensos, como se sabe, tanto aos julgamentos de gosto retórico-poéticos quanto ao biografismo, ao espontaneísmo emocional e à idealização nacionalista, repertório de idéias com que Norberto operou suas análises e formulou seus juízos de valor.
Quanto aos seus esforços no sentido de organizar edições completas e confiáveis, é de lamentar-se que seu exemplo não tenha suscitado maior número de adeptos e continuadores entre nós. De fato, segundo amplo consenso, a literatura brasileira permanece muito pobre nesse aspecto, e mesmo escritores do porte de um Machado de Assis ainda esperam que suas obras sejam coligidas e recebam tratamento editorial à altura de sua importância. É que, se só em décadas recentes mal ou bem aprendemos a valorizar e preservar o patrimônio histórico arquitetônico do País, parece que permanecemos longe de estender o mesmo zelo aos nossos monumentos literários.
O texto figura como apêndice da edição de 1861 da obra poética do autor ( Poesias de Américo Elísio ).
Tais biografias constituem conjunto destacável do seu livro Brasileiras célebres (1862), onde dedica seções às seguintes escritoras: Rita Joana de Sousa, Ângela do Amaral Rangel, Gracia Ermelinda da Cunha Matos, Delfina Benigna da Cunha e Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira.
Saudades (1862), livro de estréia do obscuro poeta M. Gaspar de Azambuja.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Brasileiras célebres . B. L. Garnier: Rio de Janeiro / Paris, 1862. p. 3.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Alocução do presidente [lida na sessão comemorativa do centenário de Cláudio Manuel da Costa]. Revista trimensal do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro , Rio de Janeiro, LIII , 1º e 2º trim. de 1890, p. 15-25. P. 17.
GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu . B. L. Garnier: Rio de Janeiro / Paris, 1862. 2 v. V. 1, p. 103-104.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Notícia sobre o autor e sua obra. In: PEIXOTO, Inácio José de Alvarenga. Obras poéticas . B. L. Garnier: Rio de Janeiro / Paris, 1865. P. 56.
PINHEIRO, Joaquim Caetano Fernandes. Postilas de retórica e poética . B. L. Garnier: Rio de Janeiro, 1872. P. 165. Grifos nossos.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. O Dr. Laurindo José da Silva Rabelo. Revista trimensal do Instituto Histórico-Geográfico e Etnográfico do Brasil , Rio de Janeiro, XLII , 1879, p. 75-113. P. 101.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Notícia sobre Tomás Antônio Gonzaga e suas obras. In: GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu . B. L. Garnier: Rio de Janeiro / Paris, 1862. 2 v. V. 1, p. 89-90.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Notícia sobre o autor e sua obra. In: AZEVEDO, Manuel Antônio Álvares de. Obras . B. L. Garnier: Rio de Janeiro; Belhatte: Paris, 1873. 3 v. V. 1, p. 69.