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Olhares deslocados sobre temáticas complexas: possíveis alterações na historiografia literária
Miriam Denise Kelm (PUCRS)

Os Senhores da Guerra 1
(Francisco Ribeiro-Pedro Ayres Magalhães)

Lá fora estão os Senhores da Guerra
E cantam já hinos de vitória
Qual é a história desta terra?
É o medo
Ali mesmo
 
Cá dentro estão os homens à espera
Unidos no destino da terra

Já não há memória de paz na Terra
É o medo
Ali mesmo

Ó Terra,
Mais um dia a nascer
Ai, é menos um dia a perder
É tão pouca a glória duma guerra
E os homens que as fazem sem vitórias
Já não há memória de paz na terra
É o medo

Ali mesmo.

Qual é a história desta terra?
Quem são os Senhores da Guerra?
Como e o que se conta de uma guerra?
Os que a fazem são os mesmos que a escrevem?
Há quem seja mais ou menos "autorizado" a falar dela?

Às guerras coloniais ultramarinas portuguesas, ocorridas entre as décadas de 60 e 70 últimas, atribui-se a responsabilidade maior pela queda do regime salazarista, tanto pelo aspecto da derrocada econômica que acelerou, quanto pelo histórico-político dada a insustentabilidade do projeto expansionista e, ainda, pelo fator ético-existencial: as perdas injustificáveis, os danos causados à razão, afetando toda uma coletividade.

Até meados da década de 90, havia em torno de uma vintena de romances que tinham como mote central as guerras coloniais, encerradas em 1975 com a independência das ex-colônias. A produção, porém, ainda que em menor quantidade, continua a existir sob ângulos variados e persistentes. No ano de 1998, Rui de Azevedo Teixeira publica a sua tese de Doutoramento, intitulada " A guerra colonial e o romance português . Agonia e Catarse". 2 Escolhe 8 romances, dentre os quais dois textos de autoria feminina (Wanda Ramos e Lídia Jorge), e abre espaço à polêmica quando se posiciona em relação a esses últimos: não seriam propriamente "romances de guerra" por não conterem descrições da ação bélica em si, o que resultaria de um dado inquestionável que é o das mulheres se verem deslocadas perante um ato que desconhecem, masculino, militar por excelência. Seriam romances "lacunares" e, por isso mesmo, preenchidos com demasiadas abstrações, frágeis no que concerne à criticidade da guerra, tecida textualmente. Por outro lado, deixa de incluir um dos romances mais contundentes sobre o tema: Autópsia de um mar de ruínas , 3 1984, do açoriano João de Melo.

No presente exercício historiográfico queremos propor que a condição de deslocamento seja positivada , e a apontamos como possibilitadora de uma apreensão ( e representação ) diferenciadas sobre a temática das guerras coloniais no plano ficcional. Tanto o nível lingüístico, como a construção simbólica, os universos de experiências distintas e as significações últimas serão afetados pelo ângulo do qual se narra o mesmo evento. Corroborando essa hipótese, Isabel Allegro de Magalhães afirma que os textos escritos por autoras portuguesas parecem falar de uma outra guerra, e atingem um grau de criticidade maior e mais agudo do que os pares masculinos. 4 Linda Hutcheon 5 molda o termo "ex-cêntricos" para se referir àqueles que, por um ou outro fator, não falam desde um posicionamento central, e, em sua produção, contestam os princípios da ideologia dominante. Sua interferência dá-se em relação ao discurso historiográfico oficial, que se vê desestabilizado, pela via do texto literário. Já Hugo Achugar 6 lembra que toda a construção de uma memória nacional é exercida a partir da posição e de um posicionamento (do sujeito enunciador) em relação ao poder e à autoridade. Por isso, a importância de se levar em conta “el lugar desde donde se habla”, que leva a formular as perguntas: quem é o sujeito de produção e qual a vinculação dele com a instituição pela qual se orienta?

O olhar diversamente locado, seja pela condição de gênero, pela opção sexual, pela posição dentro de uma hierarquia estabelecida, ou pela identidade étnica foi motivo e justificativa para a seleção de autores e obras exercida neste exercício historiográfico.

Como eixo axial apontamos José Martins Garcia , açoriano, nascido em 1947, que publica Lugar de massacre , em fins de 1975, ano que coincide com a proximidade da Revolução dos Cravos (1974) e com a independência de Angola. É considerado o primeiro romance sobre a guerra colonial e permanece, até hoje, sendo um texto potencialmente admirável, pela carga simbólica, linguagem pautada por fina ironia e recorrência à forma memorialista. Situa-se na Guiné-Bissau de final dos anos 60 e constrói-se sobre a trajetória de dois portugueses emblemáticos mandados para o campo de conflito: o jovem conde D'Avince, de linhagem nobre decaída e que tentará reproduzir em plena África o seu status quo , e o professor Pierre Avince, intelectual, bêbado e desarrazoado, dolorosamente consciente e que termina seus dias em Lisboa, anos depois, rememorando os acontecimentos. Pela estratégia adotada, o Portugal passadio volve-se em alheamento e degeneração (primeiro personagem) e o Portugal presente torna-se cético e descrente de tudo (segundo personagem, também identidade do narrador). Como o título indica, os ideais imperialistas cobram de toda uma geração de portugueses vidas, consciências, ideais e memória. O olhar que José Martins Garcia lança sobre tais contingências é tão preciso que, arriscamos, advém de quem, como ele, ou como o personagem-narrador-professor, olha da "margem", considerando-se a mal-disfarçada distinção entre portugueses da metrópole e portugueses insulares.

Em 1977, o açoriano João de Melo publica A memória de ver matar e morrer , logo esgotado. Depois de 6 anos, decide reescrevê-lo, denominando-o Autópsia de um mar de ruínas. No prefácio, aponta para um distanciamento maior entre o então romance testemunho do vivido e o agora texto ficcional, retrabalhado, "por forma a que a guerra colonial regressasse comigo à memória dos vivos". Construído a partir de várias vozes "dizentes", o eu-narrador é o furriel enfermeiro que acompanha a tropa em terras africanas, o que lhe permite estar locado diferentemente, mas internalizado o suficiente para detectar o medo abissal dos soldados portugueses junto ao "inferno" africano e suas armadilhas, os desmandos hierárquicos, a degeneração ético-moral visível no assédio e violência praticados contra as mulheres africanas, e o sofrimento físico. Uma das vozes é a feminina, ponto alto do romance, de palavras duríssimas dada a condição peculiar da dupla subordinação a que a mulher negra é submetida pelo homem branco. O enfermeiro-leitor-escritor encerra em si contradições e é alvo da desconfiança dos demais. O posicionamento é outro, assim como o relato, consciencioso, impactante.

Teolinda Gersão (1948), com o romance Paisagem com mulher e mar ao fundo , de 1982, toca no problemática da reconstrução emocional e identitária da personagem que perde o filho em combate (conseqüência das mais traumáticas e que atinge a mulher, muito especialmente, em tempos de guerra). Isto se dá segundo um posicionamento crítico contra o regime salazarista, que apregoava como missão maior feminina o "dar os filhos à pátria". O olhar da protagonista madura, que já não vive em seu país de origem e que tenta reorganizar-se interiormente lembra que um conflito bélico não se encerra num tempo/espaço, delimitados, mas se expande indefinidamente nos seres com ela envolvidos de uma ou de outra maneira.

Álamo de Oliveira , (1945) açoriano, com o livro Até hoje: memórias de u m cão , publicado em 1988, toca em circunstâncias especiais: a compulsória convocação de soldados nas ilhas dos Açores, quase todos muito jovens e provindos do meio rural, e o brutal choque de realidade em terras africanas, mais o homossexualismo entre os aquartelados, tratado como outro ingrediente a acelerar a maturidade. A identidade, no plano coletivo e no âmbito privado, dentro das contingências do enfrentamento bélico, é o tema que sobressai do olhar locado diferentemente, por quem, como Álamo, não é "hétero", como o quer o "centro", e inclui a questão da identidade (e da liberdade) sexual em sua obra.

A portuguesa Lídia Jorge (1954), em 1988, lança o romance A costa dos murmúrios , logo aclamado e premiado pela crítica. Com forte referencialidade biográfica, o enredo do texto conta de uma jovem estudante de História que acompanha o marido alferes à costa de Moçambique, nos dias que antecedem a derrocada dos portugueses. A personagem vê, ouve e registra as contradições palpáveis no âmbito da linguagem e nos atos equívocos dos que estão ao seu redor, e presencia uma transformação de caráter e comportamento do esposo que afetará as relações amorosas de modo irreversível. Como estratégias narrativas importantes salienta-se a presença de um conto dentro do romance, escrito a partir das memórias da protagonista, tempos depois, e que manterá com a antagonista (autora do conto) um diálogo sobre realidade, verdade, ficcionalidade e historicidade. Na presença de "vozes sociais" entrecruzadas e na reconceitualização que a personagem propõe de termos como guerra, heroísmo, colonizador/colonizado, relações homem/mulher, etc., percebe-se o olhar deslocado daquela que chega a se identificar, metafórica e literalmente, com um "olho" que observa e mede a si e aos outros nas circunstâncias de confronto.

 

A título de conclusão:

Isabel Allegro de Magalhães alerta para diferenças iniludíveis, tanto no plano temático quanto no plano angular, isto é, no ponto de vista de certos romances que têm como mote as guerras coloniais. Logo, a problematização que esses textos literários levantam não se restringe ao questionamento de consensos tradicionais em relação à temática da descolonização. Ela está implicada tanto no responsável pela representação discursiva (autoral), como no sujeito discursivo que conduz a narração (o/a narrador/a), proporcionando um ponto de vista particularizado e alcançando uma dimensão significativa até então não efetuada. Além da alteridade, palavra-síntese desse processo, Hugo Achugar lembra que o "lugar de onde se fala" implica diretamente sobre o discurso que se cria.

A pequena amostra feita até aqui, cremos, argui, critica contumazmente, multiplica os significados, e possibilita modos diferenciados de reflexão sobre o tema central. A leitura desses livros viabiliza a que se respondam as interrogações com que iniciamos, sem a pretensão de encerrar a discussão.

 

In: Madredeus, O espírito da paz. Produzido por Pedro Ayres Magalhães para União Lisboa Produções Audiovisuais, Lda. Emi-Valentim de Carvalho. Lisboa: 1994. 1 CD. Faixa 6.

TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português . Agonia e catarse. Lisboa: Notícias Editorial, 1998.

MELO, João de. Autópsia de um mar de ruínas . Lisboa: Assírio e Alvim, 1984.

MAGALHÃES, Isabel Allegro de. O sexo dos textos . Lisboa: Editorial Caminho, 1995. p. 29.

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo . História, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

ACHUGAR, Hugo. A escritura da história ou a propósito das fundações da nação. In: Histórias da Literatura : teorias, temas e autores. MOREIRA, Maria Eunice. (Org.) Porto Alegre: Mercado Aberto, 2003.