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Censura e subversão: Incidente em Antares e a ditadura militar
Maria da Glória Bordini(PUCRS)
A historicidade impregna a literatura desde seu ato inaugural, a intencionalidade do escritor, mergulhado numa tradição literária e numa determinada circunstância social, até sua concretização na leitura dos diversos públicos que o objeto livro consegue alcançar. Nesse intervalo, fatores materiais e imateriais, todos radicados na História, emolduram, delimitam e situam o lugar da obra, seja como criação, seja como ente de sentido para alguém a partir de atos interpretativos. Comparar esses processos significa administrar uma complexidade que não pode ser reduzida em suas contradições, lacunas e descontinuidades, sob pena de desfigurar a própria historicidade que a anima. Esse é o caso da relação entre o romance de Erico Verissimo, Incidente em Antares (Porto Alegre: Globo, 1971) e seu entorno histórico.
Em 1971, o Brasil enfrentava a pior fase da ditadura militar. O governo era ocupado pelo Gen. Garrastazu Médici, que apertara os parafusos do regime. O AI-5, em plena vigência, revogara os direitos mais fundamentais da cidadania, como os de reunião, de pensamento, de livre expressão, e ameaçava-se promulgar uma Lei de Censura Prévia, obrigando a imprensa e a indústria editorial a submeter aos órgãos censórios as publicações em curso. Nessa época de severa repressão do pensamento divergente, já vigiam mecanismos de censura política que induziam os veículos de opinião à auto-censura, o que transparecia nas colunas em branco ou preenchidas por segmentos dos Lusíadas ou por receitas culinárias . No meio editorial, as editoras se afligiam com a possibilidade anunciada de terem de submeter seus livros aos censores antes da edição, sob a ameaça de que poderiam ser apreendidos se considerados subversivos.
Nesse ano, Erico Verissimo, que regressara ao Brasil após uma estada em Washington, terminava a redação de seu novo romance, Incidente em Antares. A própria circunstância de produção do romance era sui generis : ele pensava escrever um novo romance urbano, que encerraria a série dedicada à vida metropolitana, sob o ângulo da denúncia das hipocrisias da alta burguesia, situado no Rio de Janeiro e envolvendo problemas de solidão, drogas, e pequenas vaidades.
Já em 1969 havia roteirizado o romance, que se chamaria A Hora do Sétimo Anjo , numa alusão ao fim dos tempos do Apocalipse de São João, quando viu uma fotografia na capa de uma revista , que ele não lembra se teria sido a Newsweek ou a Times . Figurava uma greve de coveiros nova-iorquinos, com doze caixões à espera de sepultamento, e o insólito da foto acendeu a imaginação do romancista. Diz ele ter pensado: “E se esses mortos resolvessem erguer-se e fazer greve contra os vivos?” (cf. entrevista a O Globo , Rio de Janeiro, 7 dez. 1971, p.II - ALEV 03e0300-71). Todavia, a idéia não lhe pareceu verossímil, num país em que greves não atingiam categorias como a de trabalhadores em cemitérios.
Em 8 de maio de 1970, ao passar ao lado do cemitério, em Porto Alegre, a idéia retornara e, conforme revela em entrevista a Ney Gastal e Susana Przybylski, no Correio do Povo , Porto Alegre, 24 out. 1971, p.21 (ALEV 03e0025-71), ao passear com Mafalda no Alto Petrópolis, tomou-o de tal maneira que terminou de esboçar o enredo ao atingir a esquina da Carlos Gomes com a Protásio Alves. “E o título me veio como que soprado pela brisa daquele belo outono”.
Para solucionar a greve inverossímil, inventou uma parede do operariado de um pólo industrial de uma cidade interiorana nas bandas do rio Uruguai. Ao chegar em casa, engavetou A Hora do Sétimo Anjo e desenhou a lápis colorido a praça central onde se desenvolveria o incidente do título. Um mês depois, ao visitar a filha em McLean, na Virginia, ele, que em geral não conseguia escrever nos Estados Unidos, sentou-se à frente da máquina Royal vermelha que Clarissa mantinha na sala que dava para a floresta atrás do pátio e começou a redigir a primeira parte, a história da cidade de Antares. Isso foi iniciado, segundo seu diário de criação (ALEV 04b0062-1970), no dia 29 de junho de 1970 e acabou no dia 12 de dezembro, quando retornou ao Brasil.
Em dezembro de 1970, Erico deixa passar o mês e depois retorna ao romance, “com enorme ímpeto e deleite” (cf. entrevista a Carlos M. Fernandes, em O Estado de S. Paulo , São Paulo, 23 maio 1965, 2 o . Caderno, p.8 - ALEV 03e0112-1972). Um dos cadernos de notas do escritor (cf. ALEV 04b0061-1970) mostra que uma das fontes para a construção da personagem Martim Francisco foi O homem rebelde/O mito de Sísifo , de Camus , o que afasta a hipótese de que ele estivesse seguindo a onda do boom da literatura fantástica latino-americana.É inegável que o incidente pode ser classificado de real-maravilhoso, nos termos de Alejo Carpentier, mas a incompreensibilidade do próprio incidente, acentuada pela história ascensional de violência da sociedade antarense, situa o texto igualmente na órbita do absurdo, o que talvez explique de modo mais convincente por que só no final na obra é possível tomar Antares como alegoria do processo que resultou no Brasil pós-64.
Diz ele em entrevista ao Jornal Opinião , em 29 de janeiro-5 de fevereiro de 1973: “Conheci Alejo Carpentier em 1954, quando ele estava exilado na Venezuela por causa da ditadura de sargento Batista. [...] Concordo com ele quanto à fatalidade, digamos assim, que nos impeliu para o ‘realismo mágico'. Note-se que o adjetivo mágico aqui significa também absurdo. [...] Não creio que tenha feito propriamente realismo mágico em Incidente em Antares . [...] Pensemos, por exemplo, no Rio Grande do Sul, na nossa paisagem verde e desafogada, na nossa população de origem européia, na nossa pobreza folclórica, na nossa quase ausência de ‘mistério à flor da terra' e havemos de concluir que o realismo mágico aqui seria algo postiço” (ALEV 03 a1005-1973).
Dessa forma, pelo viés do absurdo, o impacto de Incidente se torna maior, uma vez que sugere o advento do ininteligível como gatilho para a derrocada da democracia no País. Cumpre não esquecer que o juízo dos mortos sobre os vivos, no coreto da praça de Antares, é tão insuportável para a platéia antarense, que voltando os mortos a seus túmulos, mais que depressa as autoridades acionam a Operação Borracha, para fazer de conta que nada aconteceu. Toda a denúncia das arbitrariedades das elites de Antares se apaga, imagem mais do que eloqüente do período do “Brasil, ame-o ou deixe-o”, em que a aparência de normalidade e o espetáculo televisivo escondia os desmandos dos militares.
Tanto Erico tinha consciência do alcance político de sua sátira absurda que, perguntado em 18 de dezembro de 1971, por Norma Marzola para a revista Manchete, se submeteria seus livros à censura prévia, ele responde : “Já disse muitas vezes que não submeteria os originais de meus futuros livros a nenhuma censura prévia. Fazer isso seria cometer uma triste forma de suicídio moral. Se essa lei passar, teremos dado uma guinada vergonhosa no rumo do obscurantismo e dos autos-de-fé. “(cf. ALEV 03e1497-71). O que Erico provavelmente só soube depois é que Incidente em Antares foi lido pelos militares do Terceiro Exército antes da publicação definitiva, como informa seu editor, José Otávio Bertaso.
Em entrevista concedida em 29 de abril de 2004, arquivada no Acervo Literário de Erico Veríssimo, Bertaso conta como a Editora Globo driblou o regime militar ante a possibilidade nada remota de que o livro de Erico fosse apreendido após ser posto em circulação nas livrarias. Informa ele: “Lembro muito bem quando recebi os originais, em 1971. Nós trabalhávamos ainda lá no Centro e estávamos nos mudando para o Menino Deus. [...] Erico disse que ia escrever algo sobre uma cidade que desde sua fundação havia atravessado diversas provações e que tinha vivido um incidente extraordinário durante o regime implantado após 1964, na ditadura militar. Ele queria uma capa com um grande sol vermelho de peste sobre a cidade, e todos corriam para fotografar os pôres-do-sol do Guaíba quando ele telefonava avisando que naquela hora H o sol estava como ele imaginava”.
Como os leitores da época devem estar lembrados, a primeira edição do romance foi publicada com uma capa desenhada, em que uma cidade em perfil negro, quase caricata, aparece sob um enorme sol ominosamente vermelho, o que significa que os ocasos do Guaíba eram líricos demais para expressar o clima da obra, captado pelo capista.
Continua José Otávio Bertaso a história da edição de Incidente com abundância de detalhes: “Recebemos os originais e imediatamente os passamos à tipografia. O livro começou a ser composto antes mesmo que fosse editorado. Lá pela tantas, peguei os paquês e comecei a ler. Fiquei meio impressionado com algumas coisas que estavam ali. Cheguei à conclusão de que se nós publicássemos o livro, ele poderia ser objeto de apreensão pela Censura que existia então. Bolamos um cartaz em negro com os dizeres: NUM PAÍS TOTALITÁRIO ESTE LIVRO SERIA PROIBIDO, sobre o fac-símile da capa, e, embaixo, a frase: “à venda nas livrarias”. O cartaz estava sobre a mesa quando a pedagoga e psicóloga Juracy C. Marques, que à época estava publicando um livro conosco, viu a arte final e nos alertou de que era muito agressivo. Naquele ano, estávamos também publicando, do Gen. Paula Couto, Quatro Perfis de Chefia . Peguei o telefone e liguei para o irmão dele, que comandava o Terceiro Exército. Pedi uma entrevista, explicando que havíamos recebido uma advertência sobre o cartaz de Incidente em Antares e queríamos sua opinião. Levei 150 paquês e a arte final do cartaz. Eu havia lido, por fim, o final do livro, que ainda estava em composição. Lendo a palavra “liberdade” o fulano quase havia sido fuzilado. Diante do cartaz e das provas, o Paula Couto me recebeu com dois coronéis, um encarregado da Segunda Seção, de Inteligência, e o outro da Quinta, que não sei do que tratava. A resposta que recebi foi de que o cartaz estava perfeito e que não percebiam agressividade nenhuma. O que eles gostariam de saber é, evidentemente, o conteúdo do livro. Entreguei as 150 páginas em paquê e uma carta do Instituto Nacional do Livro, assinada pela diretora Maria Alice Barroso, nos propondo a co-edição da obra e completei dizendo que no momento que o livro saísse eles receberiam cinco exemplares, três para eles e dois para a biblioteca”.
Bertaso cumpriu a promessa, mas ao que parece, os dirigentes do Terceiro Exército se deram conta de que não deveriam desafiar o prestígio público de Verissimo e da própria família Bertaso, altamente reputada nos círculos políticos do Estado. Bertaso narra inclusive um estranho fato, até agora inédito: “desde o primeiro ano de lançamento, o Incidente em Antares passou ser adotado pela Academia Militar de Agulhas Negras, para a qual passamos a vender 600 exemplares ao ano. Essa reação favorável ao livro é tão surpreendente que não sei explicá-la.”
Seja como for, cegueira intencional do regime militar, ou clarividência quanto à repercussão que um mandato de apreensão determinaria no cenário da cultura brasileira e internacional, o recurso de marketing editorial da obra obteve uma resposta muito positiva por parte dos leitores brasileiros. Bertaso informa, sobre a circulação da obra que: “o total de exemplares, em edições sucessivas de 5.000 exemplares, atingiu 30.000 só naquele ano de 1971. O cartaz foi impresso e distribuído por todo o Brasil. O livro era acompanhado de uma cinta vermelha com letras negras e a mesma frase do cartaz”.
Nas abas, os editores declaram que o autor achou melhor não fornecer uma sinopse do livro, para não revelar o culpado de antemão. Citam Verissimo textualmente, quando afirma “abri a veia da sátira e deixei correr seu sangue livre e abundantemente”, reproduzem a epígrafe, caracterizam o romance como “desmobiliado”, com predomínio de ação e diálogo e realçam o tratamente franco e objetivo dos problemas sócio-políticos. O romance é tido como desaguadouro de tendências do escritor, desde o fantástico que aparecia em contos de 1929 e 31. Não se mencionam a ditadura, desmandos políticos ou se dá qualquer indício sobre o incidente ou sobre o conteúdo contestatório do romance (cf. o exemplar em ALEV 8 a0064-1981).
Entretanto, perguntado sobre as reações ao livro, Bertaso reconhece: “Poucas manifestações apareceram. Houve muitas notícias, mas a crítica foi reduzidíssima. Por temor à censura, evidentemente.” De fato, a crítica da época foi perfunctória e por vezes cautelosa. Na maior parte dos casos, não alterou o horizonte de expectativas já formado sobre a obra de Verissimo: enfatizou sua habilidade como contador de histórias, desagradou-se de sua incursão pelo fantástico, e dividiu-se, conforme as cores ideológicas de cada um, quanto a seu poder de denúncia. As evidências de alta vendagem num primeiro momento obrigaram os jornais a porem seus críticos de plantão a comentarem o texto, mas a venda continuada, mesmo que não alcançasse as quantidades excepcionais do início, prova que no mínimo uma lacuna entre a curiosidade do público e a instituição crítica havia.
No dia 27 de novembro de 1971, no Suplemento do Jornal do Brasil , a lista de mais vendidos no Rio apresenta Incidente em Antares em primeiro lugar. Na mesma edição, Carlos Lacerda comenta, em Os fantasmas de Erico Veríssimo, os acertos e erros do escritor, sobretudo a opção pela fantasmagoria dos mortos.Diz ele ao final: “Alguém dirá que os fantasmas desse romance não convencem. A mim, convenceram. Para mim, este romance está repleto de fantasmas, muito além daqueles que o Autor definiu como tais. E isto é que dá ao livro sua grandeza, a par da coragem simples e despretenciosa com que faz as necessárias denúncias e toma, em face do abuso, a posição que compete à inteligência.” (ALEV 03c0778-71).
Erico, em entrevista que concede a O Globo de 7 de dezembro de 1971(ALEV 03c1447-71), parece responder àqueles que estranham sua virada criativa. Em primeiro lugar, trata de estabelecer a filiação do romance, em termos de ironia e sátira, a uma tradição por ele mesmo praticada desde Fantoches. Depois, acentuando o caráter compromissado de seu novo livro, mas não vinculado aos conflitos ideológicos do momento, declara-se um romancista engajado, não a partidos, mas à vida, alegando: “Veja como os “defuntos” de Incidente em Antares continuam sendo homens, sujeitos a todos os reflexos condicionados que movem os vivos, e todos eles ainda interessados na vida”.
Essa tentativa estratégica de direcionamento da recepção não produz frutos expressivos. Se Lacerda identifica mais mortos do que os da praça de Antares na obra e vê nisso um ato de coragem, em 8 de dezembro de 1971, Hélio Pólvora no Caderno B do Jornal do Brasil , se encarrega de desviar a atenção dos leitores para aspectos familiares da produção do escritor. Vê como típica de um simples e despretencioso contador de histórias a sátira fantástica, mas ao final, faz uma constatação sibilina, contrariando seu próprio diagnóstico de sorridente leveza da história: “nem por isso o romance alivia o peso de uma reflexão que caracteriza esta última parte da obra de Erico Veríssimo. Nunca foi ele um mais perfeito exemplo, entre nós, de contador de histórias, nobre e digno nesta arte que encerra também, se bem exercida, significados além da ficção”. (ALEV 03c0718-71)
A lado de Lacerda, alinha-se Tristão de Athayde, em artigo O Antimachismo , para o Jornal do Brasil de 10 de fevereiro de 1972, em que louva a atitude corajosa do autor “dadas as atuais circunstâncias políticas” e diagnostica como de maior valor no texto a sua vocação desmitificadora do machismo, já exercitada em O Tempo e o Vento. Reprova, como Lacerda, a segunda parte, percebendo no autor um desconforto no tratamento transrealista do tema, mas refere que, ao retomar o corte satírico, produz “páginas admiráveis e socialmente reconfortantes para os que vivem saturados do triunfalismo hodierno”. Transparece, pois, nesse pronunciamento de um crítico considerado de direita, o desgosto com a situação do País, que encontra consolo no romance de Verissimo, embora a tentativa de inovação estética do autor não seja vista com bons olhos.
Em 17 de abril de 1972, Marcos Santarrita, em artigo para o Correio da Manhã , intitulado Erico: a volta de um velho senhor muito digno , afirma que o escritor “vem mais uma vez provar que se pode retratar um determinado [momento] histórico sem cair nas armadilhas à espera dos que se aventuram por esses caminhos”. É o único dos críticos da época que entende o texto como um romance histórico afinado a seu tempo. E acrescenta: “E o romancista vai mais longe ainda: dá provas de extremo domínio da técnica do romance, acrescentando com êxito a esse frágil equilíbrio o elemento perigoso da alegoria.” Declarando que Erico veio a publicar o melhor romance brasileiro dos últimos dez anos, defende-o dos críticos que, como alguém se pronunciara sobre O Prisioneiro , se sentem “vexados” por andarem com seus livros debaixo do braço, duvidando que “coroem suas vidinhas de modo tão brilhante”.
Em compensação, mais ciente dos efeitos do romance sobre a consciência do público quanto ao regime de 64, em virtude do fenômeno de vendagem em que se tornara, no ano seguinte, José Augusto Guerra , no Suplemento do Estado de S. Paulo , em artigo de 11 de março de 1973, intitulado Do permanente e do incidental , reclama: “Atadas as pontas da vida [está comparando Fantoches a Incidente ], verifica-se que a prosa caricatural ora resulta de um desprezo à realidade, ora de uma visão unilateral dos problemas sociais e políticos. Em qualquer dos casos, sente-se a sombra do artifício engendrando as personagens, que não se movimentam com liberdade (para usarmos a palavra mágica), mas são dirigidas por cordões bem visíveis.” Há um evidente mal-estar do crítico, que parece pender para o lado do regime vigente, procurando no elemento caricatural o defeito para desautorizar o efeito emancipatório da sátira.
O curioso, entretanto, é que, quatro anos depois do lançamento da primeira edição, em 1975, na edição de 14 de dezembro de O Dia , do Rio de Janeiro, na lista dos mais vendidos, aparece ainda Incidente em Antares, desta vez em terceiro lugar, abaixo de Os Tambores de São Luís , de Josué Montello e Feliz Ano Novo , de Rubem Fonseca. (ALEv 03c1285-75). Num país como o Brasil de então, ainda sob um regime opressivo, o fato de o romance continuar por quatro anos a figurar entre os mais vendidos demonstra tanto o poder de fogo da alegoria de Incidente , quanto a eficácia das estratégias de comercialização da Globo, que aproveitaram os anseios do momento para desafiar as restrições da censura, aliadas à propaganda espontânea de que o livro podia ser apreendido. Segundo parece, as condições históricas propícias a um dissenso silencioso e os meios materiais de difusão foram mais poderosos do que os mecanismos de formação da opinião pública pela imprensa que, ou atada pela censura, ou de juízo formado sobre o escritor, não parece haver alterado substancialmente a recepção do romance.