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Brasileiros e Americanos do Sul: uma relação (quase) desconhecida
Maria Eunice Moreira (PUCRS)
Desde seus primeiros anos de vida como nação, o Brasil voltou os olhos para a França, procurando na terra dos gauleses o modelo para a instituição de sua vida cultural e literária. Após a independência brasileira, declarada em 1822, os intelectuais do País, patrocinados pelo Imperador, dirigiram-se à França para aí realizar suas aspirações literárias e, ao mesmo tempo, difundir na capital parisiense o produto cultural do Brasil. Prova disso encontra-se na famosa apresentação que três jovens fizeram ao Instituto Histórico de Paris, em 1834, ao se pronunciarem sobre as novidades de sua terra, no campo das artes, das ciências e da literatura. O poeta Gonçalves de Magalhães, o pintor Araújo Porto Alegre e o jornalista Torres Homem, autores desse empreendimento, tornaram-se os porta-vozes do Império, ao proclamar, na conceituada instituição de Paris, os novos ventos que sopravam da América, impulsionando não mais as naus de Pedro Álvares Cabral em direção à costa brasileira, mas ventilando as novidades brasileiras para a Europa, como forma de propagandear a independência e a ideologia nacionalista a que vinha associada a monarquia reinante.
Nesse intercâmbio que efetivava com o Velho Mundo, o Brasil descuidava de suas relações com os países do continente americano, onde ele próprio se inscrevia. Embora vivendo processos emancipatórios quase na mesma época – a independência da Argentina efetiva-se em 1816 e o Uruguai proclama sua independência em 1825 – e procurando também discutir os temas relativos à sua identidade cultural e literária, ao Brasil esses países pareciam distanciados. Raras são as referências sobre as relações entre os intelectuais do Prata com os românticos do Rio de Janeiro, como também esparsos são os contatos entre brasileiros e seus irmãos da América do Sul. Razões de ordem política, que acenderam o debate e o confronto entre Portugal e Espanha, parecem justificar o afastamento entre essas novas nações. O constante confronto entre brasileiros e castelhanos, há já alguns anos, motivados pelas rivalidades entre as duas coroas européias, provocou o afastamento entre os habitantes do continente americano.
Apesar, porém, dessa situação, o círculo sul-americano manteve com os brasileiros relações culturais esporádicas, do mesmo modo que os brasileiros marcaram sua presença junto às ex-colônias da Espanha, na América. Senão, vejamos:
Em 1817, o militar brasileiro José Inácio de Abreu e Lima, depois de haver presenciado a morte de seu pai, o Padre Roma, numa revolta em Pernambuco, viaja aos Estados Unidos para encontrar com Antônio Gonçalves da Cruz Cabugá, representante da comissão revolucionária encarregado de obter ajuda financeira dos americanos. Não obtendo o apoio pretendido, Abreu e Lima vai à Venezuela, à procura do General Bolívar. Aí permanece treze anos, convivendo com o famoso militar e com as forças bolivianas, tendo alcançado o posto de general de brigada. Em 1831, depois da morte do Libertador e da fragmentação da Grã-Colômbia, é expulso do país, volta aos Estados Unidos e de lá à França, onde conhece o Imperador do Brasil, D. Pedro I, cujo exílio equipara-se ao seu próprio e ao destino de Bolívar. Suas relações com o monarca brasileiro o trazem de volta a sua terra, em 1832, passando, a partir de então, a se envolver com o quadro político que agitava o Brasil nos tempos anteriores à maioridade de Pedro II (1840) até o final da década de sessenta, quando faleceu (1869).Autor de obras de idéias polêmicas, Abreu e Lima dá-se a conhecer através da obra intitulada Bosquejo histórico, político e literário do Brasil (1835), na qual defende a manutenção da monarquia como forma de governo, refutando a posição do Deputado França, da Bahia, que não só propunha a revogação do regime monárquico como retirava prerrogativas da Casa Imperial. Contestando essa proposta, o autor do livro excede a intenção política do texto e adentra a uma das questões em discussão no cenário brasileiro: a da existência de uma literatura nacional.
Se Abreu e Lima partiu do Brasil para a América do Sul, trajeto inverso fez o chileno Santiago Nunes Ribeiro quando deixou sua pátria, ainda menino e órfão, acompanhando seu tio, para vir morar no Brasil. Radicado no Rio de Janeiro, Santiago trabalhou como comerciário, mas se tornou, mais tarde, professor de Filosofia, no Ateneu Fluminense e professor de Retórica no Colégio Pedro II. Em 1843, quando começa a circular no Rio de Janeiro um dos mais importantes empreendimentos jornalísticos do período, o jornal Minerva Brasiliense , oferece sua contribuição às letras brasileiras, através de dois ensaios publicados sob o título “Da nacionalidade da literatura brasileira”, em que reivindica a glória da literatura brasileira 1, num momento em que a intelectualidade nacionalista voltava-se para o debate a e afirmação da existência de uma autêntica expressão literária, como forma de fortalecer a declarada independência brasileira.
A partir da década de 1840, as relações entre os intelectuais brasileiros e americanos conheceriam outras aproximações, testemunhadas, no plano cultural, pela colaboração de argentinos à discussão do processo literário brasileiro ou mesmo pela manifestação dos brasileiros sobre a produção literária argentina. De um lado, coloca-se José Mármol e Juan María Gutierrez que, permanecendo um período no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, conheceram e conviveram com os românticos filiados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; de outra parte, foi essa mesma aproximação que motivou a um dos mais expressivos membros dessa geração, Joaquim Norberto de Sousa Silva, a tecer considerações sobre a literatura argentina contemporânea. É no plano desses intercâmbios pouco conhecidos, que intento discutir essa (quase) desconhecida ligação entre intelectuais brasileiros e argentinos.
1 – Os argentinos e a literatura brasileira
Em 1845, Domingo Sarmiento, o autor de Facundo, foi enviado em missão à Europa pelo governo do Chile e, nessa trajetória, passou pelo Rio de Janeiro, onde encontrou seu conterrâneo, José Mármol, conforme ele escreve em seu livro Viajes: Uma jóia encontrei no Rio de Janeiro, Mármol, o jovem poeta que preludia sua lira, quando não há ouvidos mas apenas orelhas em sua pátria para escutá-lo. 2
Opositor de Juan Manuel de Rosas (1835-1852), José Mármol veio para o Brasil em 1843, em busca de novos horizontes e permaneceu no Rio de Janeiro pelo espaço de três anos. A estada mais prolongada na capital do Império permitiu-lhe maior contato com os românticos brasileiros e com os empreendimentos nacionalistas que movimentavam as idéias dessa geração. Em 1845, quando foi fundado o Ostensor Brasileiro, um jornal editado por Vicente Pereira de Carvalho Guimarães e João José Moreira, o jovem argentino encontrou espaço para publicar seus ensaios, reunidos em duas séries distintas. A primeira, denominada “Fragmento da minha carteira de viagem” 3 e que apareceu em 1845, esboça uma perspectiva americana, ao refletir sobre a necessidade de o fazer literário, nos novos territórios americanos, liberarem-se dos preceitos europeus, ao preconizar a independência literária como corolário da autonomia política. A apresentação desses tópicos nesse primeiro conjunto de artigos amplia-se sobretudo nos números seguintes do Ostensor Brasileiro, para os quais Mármol contribuiu com outro feixe de artigos, sob a identificação “Juventude progressista do Rio de Janeiro”. 4
Também nesses textos adota uma perspectiva americana, enfatizando a necessidade de rompimento com os velhos padrões europeus. A novidade literária que exige para a América provém do Romantismo; é esse movimento que constitui a vanguarda que traz a modernização. Para Mármol, juventude, Romantismo e progresso são termos quase equivalentes, pois seus objetivos encaminham para a renovação e isso que pretende e exige para a América, também nova. Para ele, a renovação literária não encontra, contudo, ressonância Brasil, cujos parâmetros são ainda muito conservadores, o que o leva a prenunciar que essa sociedade está fadada ao isolamento e à esterilidade, a não ser que forças inteligentes revertam o quadro cujo diagnóstico não é favorável.
A avaliação desse estrangeira, pronunciada em 1846, no momento em que o Império brasileiro buscava sedimentar seu poder, através da instituição de mecanismos legitimadores de sua potência, principalmente alicerçados nas idéias nacionalistas dos componentes do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, cujo chefe e presença marcante era o Imperador Pedro II, poderia provocar objeções por partes dos brasileiros mais comprometidos com o processo cultural. No entanto, Mármol recebe acolhida por parte do grupo romântico. Esse assentimento pode ser medido pelo fato de que Joaquim Norberto, que havia escrito em 1841 um “Bosquejo da história da poesia brasileira” 5 e se dedica à escrita de um livro sobre a História da literatura brasileira, recorre às idéias do amigo argentino para subsidiar seu empreendimento. A sintonia entre os dois talvez resulte do fato de que, para ambos, o quadro brasileiro apresenta deficiências, em função da feição particular que tomou o processo de emancipação da colônia em relação a Portugal, onde não houve uma ruptura violenta, possibilitando, assim, a manutenção de padrões conservadores e ultrapassados.
2 – Os brasileiros e a literatura argentina
Em 15 de março de 1844, Joaquim Norberto de Sousa Silva escreve para o periódico carioca Minerva Brasiliense, que recém começara a circular, um artigo intitulado “Indagações sobre a literatura argentina contemporânea” 6. O texto é publicado justamente quando Juan María Gutierrez, de volta de uma viagem à Europa, passava alguns dias no Rio de Janeiro. Para sua surpresa, o intelectual argentino recebe, na Capital do Brasil, uma carta procedente do Uruguai e assinada por Esteban Echeverría, pedindo-lhe para que se acercasse do autor do artigo e trouxesse a ele um exemplar do Minerva Brasiliense, onde fora publicado o estudo sobre a literatura argentina. Gutierrez realmente cumpre com o solicitado e volta a sua pátria não só com esse, mas com outros escritos desse jovem brasileiro.
“Indagações sobre a literatura argentina contemporânea” abre com uma declaração de fé sobre o progresso brilhante e florescente (...) [que] as nações americanas (...) oferecem na marcha de seu desenvolvimento intelectual 7, para, logo em seguida, situar a história da literatura argentina numa faixa temporal que vai da proclamação da independência até a aparição de Esteban de Echeverría. Para o historiador brasileiro, foi depois do triunfo das armas nacionais que os autores puderam cantar os feitos dos Ocampos, Balcarces, Poiredons, Belgranos, S. Martin e Trenalis, nas páginas da Lira argentina.
Definidas as bases teóricas em torno das quais exercitará sua crítica – a relação entre literatura e sociedade; a faixa cronológica onde se situará – da independência até a obra de Echeverría; o corpus para análise – os poemas de Lira argentina, Joaquim Norberto está apto a dar início à escrita de sua história. A leitura de suas primeiras apreciações críticas já evidencia que ele busca, no patrimônio literário argentino, os valores com que examina a produção de sua terra, isto é, interessam-lhe os poemas que tematizam os episódios pátrios ou que retratam a natureza da América, como refuta ou coloca em posição secundária os versos que apelam ainda a saturadas formas poéticas ou estilo afetado, que podem sugerir um tempo passado, que se quer distante.
É assim que desenvolve sua exposição seguindo uma escala de valores: nela, destaca alguns e homogeneiza outros. A primeira posição é concedida a Esteban de Luca, porque é o que melhor se mostra não só na combinação do ritmo e encadeamento no diferente gênero de versos, como na variação de seu estilo fluente 8. Dentre as composições desse autor, elege “O triunfo de Maipu”, a quem concede um destaque, pois de todos os poemas desta época [é] o mais importante. 9 A preferência pelo texto e pelo autor não o exime, porém, de tecer alguns comentários restritivos à composição, sobretudo ao final, quando se esperava a presença das idéias modernas em voga 10. Logo em seguida, volta seus olhos para Vicente López, autor da Marcha nupcial, que, segundo Norberto, rivaliza com De Luca pela força de algumas passagens, especialmente aquelas que se referem a episódios bélicos. Menos brilhantes, mas assim mesmo exímios na lírica, cita Juan Ramón Rojas, Juan Lafinur, Fr. Caytano Rodriguez e Manuel Labarden. Num terceiro plano, aparece Bartolomé Hidalgo. D. Florencio Varela merece rápido registro por parte do crítico brasileiro e conclui seu ensaio com Juan Cruz Varela, um poeta medíocre, cujos versos pecam pelas repetições insípidas. Ao crítico, no entanto, incomodam outros problemas em relação ao poeta: o insulto que comete ao Quinto Império português, em versos que acabam atacando os brasileiros, e as posições voltaireanas que assume contrapondo-se ao Catolicismo, religião professada por Norberto.
Enfim, como após a tempestade vem a borrasca, como diz o ditado, o círculo poético examinado por Joaquim Norberto encerra-se quando aparece em Buenos Aires Estevan Echeverría, anunciando novos dias para a poesia americana. Aproximando o autor argentino do brasileiro Gonçalves de Magalhães fica mais evidente o lugar que concede ao jovem poeta: para Joaquim Norberto, o autor de Suspiros poéticos e Saudades significava a renovação da poesia brasileira, o marco inicial de uma nova era que, no campo político expressava os ideais do Império florescente e, na arte, anunciava a reforma da poesia. Ao denominar Echeverría o Magalhães argentino 11, em idêntica posição o coloca, como o renovador da literatura de sua pátria. Ao Brasil, como à Argentina, busca o nacionalista e romântico Joaquim Norberto de Sousa Silva o maior compromisso com a representação do espaço nacional, fato que, nesse momento, carregava o texto poético de valor político, uma vez que comprometido com a construção da nação emergente.
3 – Considerações finais
José Mármol dizia que as idéias não têm pátrias, (embora se possa dizer que há pátrias que não têm idéias ou há pátrias que têm mais idéias), mas essa não é a discussão que se impõe nesse momento. As idéias não têm pátrias pode significar, no contexto em que se inscrevem essas reflexões, o pensamento dominante no lado de cá de Atlântico, e que se expressa na rejeição aos modelos europeus, uma vez que esses não só presentificam a metrópole nos novos espaços autônomos, como significam também o ultrapassado, o obsoleto, aquilo que deve ser varrido para que adentre o novo, o reformado e que a preocupação com o fazer literário original constitui uma busca a ser obtida em curto espaço de tempo, pois que urge superar os obstáculos e os impedimentos decorrentes do processo colonial.
Eis por que estou interessada nessa relações: de um lado,porque deslocam o eixo da discussão Brasil/Europa, para outro, Brasil/América, buscando colocar a jovem nação no convívio com seus pares americanos; de outro, porque traz novos subsídios para a escrita de uma história da literatura brasileira, podendo, quem sabe, indicar que as reflexões que se faziam aqui e ali, na outra margem da Banda Oriental, revelavam uma originalidade que vale a pena desvendar para poder discutir.
1 RIBEIRO, Santiago Nunes. Da nacionalidade da literatura brasileira. Minerva Brasiliense, Rio de Janeiro, n. 1., p. 7-23, nov. 1843.
2 Idem, p. 76.
3 MÁRMOL, José. Fragmento de minha carteira de Viagem. Ostensor Brasileiro , Rio de Janeiro, 1845.
4 MÁRMOL, José. Juventude progressista do Rio de Janeiro. Ostensor Brasileiro , Rio de Janeiro, 1846.
5 SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Modulações poéticas. In: ZILBERMAN, Regina, MOREIRA, Maria Eunice . O berço do cânone. Textos fundadores da história da literatura brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.
6 SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Indagações sobre a literatura argentina contemporânea. Minerva Brasiliense , Rio de Janeiro, n. 10, p. 294-301, 15 mar. 1844.
7 Idem.
8 Idem.
9 Idem.
10 Idem.
11 Idem.