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Marcas de (auto)biografia historiográfica
Heidrun Krieger Olinto (PUC-Rio/ CNPq)
A emergência de novos experimentos historiográficos (auto)biográficos merece um olhar interessado sobre a figura do intelectual que circula no campo literário. As reflexões propostas ensaiam uma imagem de sua situação hoje, das formas de sua intervenção e auto-encenação em comparação com o mito fundador do intelectual moderno, representado pelo autor do manifesto inaugural J'accuse , o escritor francês Émile Zola que se pronuncia em primeira pessoa ao assumir uma posição na esfera pública.
A vantagem de focalizar o fenômeno literário a partir de teorias sistêmicas vinculadas com teorias de ação pode ser percebida no deslocamento do olhar da unidade do texto para os diferentes papéis atualizáveis por participantes concretos e ativos no sistema literário. Estudos de literatura concebidos nesta ótica não tematizam o texto literário como entidade autônoma, permitindo a investigação de suas diversas dimensões, tais como produção, mediação e recepção.
É neste horizonte que se pode entender, igualmente, a referência freqüente ao sociólogo Niklas Luhmann pela elaboração de teorias sistêmicas que permitem lidar com complexidades crescentes e de constante transformação 1. O que, à primeira vista, pode parecer mero modelo de redução de complexidade revela seu potencial ilimitado precisamente pelo acento sobre a dinamização da complexidade, à medida que sistemas sociais (e sistemas literários) – ou seja, sistemas de sentido – podem ser compreendidos como resultado de processos seletivos que preservam possibilidades não atualizadas, mantendo-se, assim, uma identidade sistêmica atravessada por permanente inquietude e mobilidade. Pelo fato de seu modelo de sistema/entorno ( Struktur/Umwelt ) não eliminar oposições binárias, mas supor relações intercambiáveis e reajustáveis, Luhmann oferece perspectivas importantes para, igualmente, descrever sistemas literários e os agentes concretos que circulam neste campo.
Estas reflexões prévias, idealizadas como pano de fundo para localizar possíveis espaços de movimentação do intelectual contemporâneo, permitem igualmente situar as formas de sua intervenção em contraste com os seus precursores clássicos atuantes como mediadores no sistema literário. Assim, no quadro destas questões pretendo localizar o intelectual de letras como figura pública e como observador de segunda ordem, ativamente presente na escrita de histórias de literatura. Não se trata de um projeto tipológico ou de uma análise retrospectiva das transformações lineares de seu papel e de suas funções, mas de um olhar centrado sobre momentos circunstanciais de sua atuação no campo literário. As metamorfoses pontuais de sua imagem serão vinculadas, em contraponto, ao nascimento do intelectual moderno idealizado na manifestação pública do escritor francês Émile Zola, no final do século XIX, e desdobrados nas seguintes perguntas: onde, afinal, circula este intelectual hoje, como são percebidos os seus gestos pessoais na esfera pública e quais as formas de sua auto-encenação e auto-representação?
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“Uma verdadeira bomba abalou os fundamentos deste país”. Uma repetição deste comentário bombástico do escritor francês Anatole France sobre os efeitos da carta aberta J'accuse , de Émile Zola – publicada em 13 de janeiro de 1898 no jornal L'Aurore e dirigida ao Presidente da República Félix Faure – hoje, além de ser impensável, soaria falso. Naquele momento, uma edição de 200 000 exemplares esgotada em poucas horas, seguida por duas mil assinaturas de protesto de escritores do porte de Anatole France e Marcel Proust, por numerosos artistas, cientistas, jornalistas e estudantes que se entendiam como elite espiritual do país, transformou-se em berço do nascimento do intelectual moderno que levanta, em nome pessoal, uma bandeira pública. Iniciou-se, então, de forma espetacular, uma tradição do engajamento político do intelectual de esquerda a favor de causas justas contra a tirania do poder do Estado. Um engajamento político fundado sobre a responsabilidade moral que se fazia presente na esfera pública pelo poder da palavra autorizada, mas, em contrapartida, demandava também uma responsabilidade específica por parte daqueles que lidavam com ela profissionalmente, expressa por uma reflexão crítica com respeito à realidade e com respeito a calculados gestos de intervenção e de seus possíveis efeitos. Foi, assim, o chamado affair Dreyfus – a condenação do oficial judeu Alfred Dreyfus suspeito de espionagem e julgado por traição à pátria – que desencadeou uma onda de protestos a favor da revisão de um processo visto pela opinião pública como erro de justiça e que passou a ser considerado marco fundador do intelectual moderno. O próprio Zola não soube da reabertura do processo e da subseqüente absolvição, mas no seu enterro o significado e a ressonância de sua carta aberta, como forma de posicionamento simultaneamente pessoal e público, foram traduzidos por Anatole France com singela sensibilidade como expressão de “um momento de assumida consciência da humanidade” 2.
Durante décadas essa imagem do intelectual, fazendo parte de um grupo esclarecido de figuras simbólicas que passavam a defender, em atitudes pontuais, valores gerais como democracia, justiça, paz e direitos humanos, se legitimava como expressão de sua própria integridade moral que, por seu lado, justificava o seu engajamento e lhe emprestava autoridade. A atividade comum desse intelectual moderno, no campo da literatura, como crítico auto-reflexivo engajado em causas nobres, e cioso do seu papel de relevância social, se expressava na produção e disseminação de textos como meio central do seu discurso e se traduzia pela eficácia destes atestada pela ressonância na opinião pública e pela atenção prestada por parte de instâncias políticas. Entre inúmeros exemplos do intelectual de letras que poderiam ser nomeados, destaca-se a figura de Jean-Paul Sartre – batizado por Pierre Bourdieu com singela adequação de intelectual total – ilustrando de forma modelar esse novo papel e justificando a qualificação por sua presença não só na filosofia, mas também na crítica, na teoria e na literatura, no gênero dramático e no romance 3. Seguindo o modelo de Zola, foi o seu mérito ter reforçado e vitalizado uma forma paradigmática de denúncia que se impôs como padrão normativo, tornando-se tradição não apenas no mundo intelectual francês. O seu ativismo expandia-se em todos os campos da vida pública, à medida que assumia o papel clássico do intelectual de esquerda, envolvido na resistência e ocupado com questões de justiça social, violência e opressão. Mas foi também Sartre, que, nos últimos anos de sua vida, passou a ser relacionado com indagações incômodas acerca da morte do intelectual e do fracasso da missão do escritor engajado. Pierre Bourdieu, ao analisar a mecânica do campo de forças em que se movimentava essa figura, sinaliza uma profunda transformação em sua estrutura e nos efeitos de sua ação associados, entre outros, às perturbadoras descobertas dos gulags e à inexistência de instituições políticas democráticas na União Soviética. Nesta situação passava a ser problemático o silêncio diante dos crimes tornados visíveis, a abstenção diante da violência intolerável associada com Stalin, Mao, Pol Pot e, ainda, diante da cegueira face a regimes totalitários decididos a domesticar o pensamento livre 4.
Enquanto após a Segunda Guerra Mundial o tipo do intelectual de esquerda tinha-se transformado em culto, o declínio perceptível de sua imagem mítica pode ser acompanhado na trajetória do lendário intelectual total que, em certos momentos, tinha representado esse papel público em sua inquestionável nobreza e grandeza política através do poder de sua palavra de protesto contra variadas formas de dominação. Quando Jean-Paul Sartre morre em 1980, os franceses se despedem de um dos grandes representantes do intelectual moderno, mas foi, de certo modo, sintomático o melancólico ocaso deste porta-voz dos injustiçados que, muito antes de sua morte, deixou de ser ouvido.
Um século depois da publicação de J'accuse , as lembranças do tempo heróico do intelectual, quando a palavra ainda tinha força, são evocadas com nostalgia diante do seu (quase) autismo na esfera pública presente. Ainda que hoje a sua autoridade – baseada no uso público de sua razão e na intervenção eficaz nas condições de vida – não seja aceita incondicionalmente, e que se note uma clara retirada da esfera pública para os espaços da academia que, pela própria natureza, facilitam esse recolhimento a serviço da produção de conhecimentos críticos, as formas de sua auto-representação sinalizam, no entanto, a vontade incessante de transcender o campo limitado de sua comunidade científica e manifestam o desejo de reconhecimento dos seus gestos ativistas em horizontes mais amplos, visíveis os dois na sua colaboração regular nos debates do seu interesse na esfera pública. Não na qualidade de guardião da moral universal e da consciência ferida da humanidade com pretensão de falar em nome de direitos e valores universais mais elevados, mas a partir de uma espécie de moral circunstancial, com atribuições eventuais e circunscritas, associadas a lutas no campo cultural.
Um olhar sobre o cenário atual confirma, em todo o caso, certa economia destes gestos intervencionistas e silêncios prolongados, além de deslocar o acento da afirmação autoral do intelectual que fala para um circuito comunicacional mais pertinente que enfatiza, ao contrário, o processo de recepção: quem, afinal, o escuta?
No mais tardar na década de 90, se tornou ainda mais visível um comportamento apático acerca de lutas intelectuais, o que levou o historiador e fundador da renomada revista Le Débat , Pierre Nora, a formular a sua inquietação no edital do número 110, publicado em 2000 por ocasião do vigésimo aniversário da revista, nos seguintes termos: “Adieu aux intellectuels?”. 5 Uma indagação que retoma, de forma negativa, o próprio texto inaugural da revista que começava a circular em 1980, precisamente, o ano da morte de Jean-Paul Sartre.
A metamorfose da figura do intelectual francês, de mandarim admirado e celebrado, segundo Nora, ao escárnio da nação, é comentada por ele também em função da visível transformação do intelectual engajado em intelectual midiático, que se despenca de um show de televisão para outro evento-espectáculo disseminando suas banalidades. Nora não é o único a prever o fim dos pensadores franceses, porque também Jean-François Lyotard, em Tombeau de l'intellectuel et autres papiers 6, tinha negado legitimidade à existência dos intelectuais franceses e Régis Debray, intelectual de esquerda, anunciava em 2000 de modo explícito o seu fim, no polêmico livro I.F. Suite et fin , em que minimizava e apagava a sua importância na própria abreviação verbal irônica: I. F., por intelectual francês 7. As alegações acerca das causas da perda de prestígio, vinculadas por Debray com reiterados equívocos nos diagnósticos da política mundial, cumulam pateticamente na sua afirmação de que o século XX, inaugurado gloriosamente com J'accuse , de Émile Zola, termina de forma melancólica com a transformação do I.O. (intelectual original) em I.T. (intelectual terminal), visto por ele como figura abjeta que comete reiterados pecados capitais, entre eles, autismo coletivo, grandiloquente desrealização, narcisismo moral, crônicos equívocos em seus diagnósticos do tempo.
As ameaças de extinção de sua espécie – por incompetência e inutilidade de sua ação e por indiferença de uma eventual audiência – se repetem periodicamente. Mas igualmente propostas que restauram, senão a sua aura, pelo menos uma função aceitável e significativa balizada pelo exercício criativo de suas capacidades intelectuais na projeção de mundos alternativos. Quais, então, poderiam ser os espaços, hoje, capazes de oferecer algum tipo de atração ao intelectual que não só permitem formas de auto-encenação, mas igualmente a circulação e o intercâmbio de seus desejados gestos de intervenção?
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O papel idealizado para o intelectual contemporâneo por Hans Ulrich Gumbrecht, ao localizar a sua forma de atuar no espaço da universidade, corresponde segundo o teórico da literatura e da cultura ao de “catalisador de complexidades intelectuais” e representa, de certo modo, uma revitalização de sua intervenção, ainda que fortemente minimizada em sua ressonância pública 8. O pensamento complexo que surge em territórios transdisciplinares, nos interstícios das ciências analisadas, não a partir de convencionais contrastes, mas em função de múltiplas sintonias entre as ciências naturais e as humanidades, se explica, parcialmente, em função da localização da maioria dos intelectuais hoje, no recinto protegido da academia, vista de forma positiva como espaço propício para produzir e multiplicar complexidades com que a civilização moderna se confronta, sem causar dano na esfera social e política concreta e de desenvolver um “pensamento de risco” 9.
Sendo uma das marcas de distinção a sua capacidade auto-reflexiva que acompanha a análise das ações humanas, a sua forma de intervenção se legitimava pelo poder da razão em sintonia com a inspiração, a coragem e o talento polêmico que, em seu conjunto, contribuíram para construir uma imagem aurática dos inteletuais, hoje reduzida à própria vontade de eles serem ouvidos e levados a sério nos debates políticos urgentes, ainda que praticamente digam e escrevam tão somente aquilo que deles se espera. O que ocorreu, então, indaga Gumbrecht, para que por um lado muitos intelectuais ainda sonhem em poder sacudir e polarizar a esfera pública, enquanto, por outro, as suas opiniões, no melhor dos casos, pareçam ter apenas status ornamental? Uma das razões alegadas é a mudança do próprio conceito de verdade em relação à convicção do intelectual de falar em nome da verdade. Hoje o valor de verdade se encontra pluralizado e disseminado entre as competências de especialistas distintos. Se, além do mais, fora do mundo dos próprios intelectuais sequer sobrevive a expectativa de formas de conduta e de ação de valor geral, o que, então, sobra para justificar o seu papel social? Uma vez que grande parte habita no espaço universitário intramuros, uma eventual resposta corresponde à auto-imagem criada pelos próprios acadêmicos profissionais. Mas uma nova autocompreensão da universidade e dos intelectuais pode favorecer a imagem de produtores de alternativas e contra-modelos potenciais orientados no princípio de um pensamento contra-intuitivo. No contexto dessas reflexões a figura do intelectual emerge como catalisador de complexidades em uma cultura de excesso ameaçada por processos negentrópicos. O conceito do “pensamento de risco” converge com essa idéia, à medida que transformações idealizadas como melhorias, mas pouco testadas concretamente, poderiam implicar consideráveis perigos na prática. O exemplo de uma eventual transferência das possibilidades da tecnologia genética para a criação do gênero humano ilustra, no caso, os riscos inerentes à experimentação de pensamentos alternativos fora de certos recintos protegidos. Em suma, o mundo acadêmico – morada dos intelectuais – deveria abrigar e fomentar pensamentos de risco, ainda que – e porque – a sua imediata transformação em prática possa ser considerada perigosa. Dito por Hans Ulrich Gumbrecht na primeira pessoa do plural, “nós, antes de mais nada, deveríamos refletir sobre aquilo que não é refletido fora dos muros do mundo acadêmico, porque nas condições práticas atuais, esta forma de pensamento comporta excessivo risco nas condições práticas atuais” 10, este papel de catalisador de complexidades, demandado para o intelectual, coincide assim com a projeção de sua própria imagem, e auto-encenação, como intelectual contemporâneo.
A sua intervenção certamente não terá o efeito de uma bomba capaz de abalar os fundamentos de uma nação. Mas em nosso momento atual de expectativas diminuídas, o seu gesto – ainda que mínimo – talvez seja capaz de converter as perspectivas melancólicas do intelectual apático em pequenos atos de resistência, ao estimular reflexões complexas como antídoto ao pensamento normatizado, fundado sobre formas de redução de complexidade.
LUHMANN, Niklas. Erkenntnis als Konstruktion . Bern : Benteli, l988, p.98.
ESSIG, Rolf- Bernhard. Der offene Brief. Würzburg: Könighausen & Neumann, 1999.
BOURDIEU, Pierre. As regras da arte . São Paulo: Companhia das Letras, 1996 e BOURDIEU, Pierre. Die Erfindung des totalen Intellektuellen. Romanistische Zeitschrift für Literaturgeschichte , 4, 1981, p.385-391.
BOURDIEU, Pierre. As regras da arte . São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 219.
NORA, Pierre. Adieu aux intellectuels? Éditorial. Le Débat , 110, 2000.
LYOTARD, Jean-François. Tombeau de l'intellectuel et autres papiers . Paris: Galilée, 1989.
DEBRAY, Régis. I.F. Suite e fin . Paris : Gallimard, 2000.
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Riskantes Denken. Intellektuelle als Katalysatoren von Komplexität. In: Uwe Justus Wenzel. Der kritische Blick . Frankfurt : Fischer, 2002, p. 140-147.