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Destino: Bruges - as travessias de Zênon na Europa do século XVI
Vanessa Costa e Silva Schmitt (UFRGS)
Considerada uma das mais importantes autoras de língua francesa do século XX, Marguerite Yourcenar tornou-se mundialmente conhecida por romances de cunho histórico, conduzindo, em geral, o leitor pelas tortuosas vias do passado, como se observa em A Obra em Negro . Assim, nas vielas de Bruges do século XVI, pode-se acompanhar parte da trajetória de vida de Zênon, médico, filósofo e alquimista, quando este, após levar uma vida errante, restabelece-se na sua cidade natal. Mesmo valendo-se de uma falsa identidade, o protagonista, perseguido pela Santa Inquisição, acaba sofrendo um processo que finda por sua condenação à morte. Na sua última expressão de liberdade, o suicídio substitui a dolorosa morte na fogueira.
A presente comunicação visa a analisar algumas etapas do processo geográfico-intelectual de Zênon ao longo de sua existência, onde algumas delas correspondem a um novo estado de conhecimento e de amadurecimento profissional e pessoal. Ao mapear a trajetória circular do percurso do protagonista, pretende-se evidenciar a aventura exterior e interior que o conduz de Bruges, cidade onde nasceu, a diversas regiões do mundo, em busca de aprimoramento técnico-científico, até o irresistível e arriscado retorno à terra natal, décadas depois, onde o enclausuramento substituirá, por fim, o nomadismo.
Primeira fase da errância: desfazendo o traçado pré-estabelecido
Consideravelmente distante do conceito popular de herói, Zênon não passa de um jovem bastardo cuja única alternativa relativamente eficaz de apagar as implicações de tal fato parece ser seguir a vida clerical. Inteligente, perspicaz, determinado, torna-se, desde a infância, pupilo do cônego Campanus, seu tio, que o instrui tanto nos preceitos religiosos, como nos prolegômenos da arte alquímica. Uma motivação mecânica, automatizada o conduz com brilhantismo à célebre Escola de Teologia da Universidade de Louvain, onde rapidamente conquista o respeito e admiração de colegas e mestres. No entanto, a possibilidade de destacar-se no mundo dos doutos não é suficiente para apascentar o espírito inquieto do jovem flamengo. No pequeno sótão que ocupa em Louvain, Zênon passa por dúvidas, tentações e triunfos próprios da juventude, enquanto dedica-se a experiências de mecânica, herborismo e medicina, que o fazem sentir-se orgulhoso à simples idéia de pertencer à mesma raça de homens que Copérnico, Nicolau de Cusa e Pitágoras, capaz de domesticar o fogo, transformar a essência das coisas e esquadrinhar o itinerário dos astros. Nessa época, o clérigo parece já não poder entregar-se integralmente à fé, e percebe-se um quê de ateísmo e heresia em torno de sua figura. É hora de partir. Deixando Bruges, ele pretende descobrir se a inépcia, a ignorância e o medo prevalecem em outros domínios. Assim, acabamos por encontrá-lo na estrada, aos vinte anos, em busca de alguém:
" -Além, um outro me espera. É a ele que me dirijo.
E retomou o passo.
- Quem? perguntou Henrique-Maximiliano, estupefato. O prior de León, aquele desdentado?
Zênon se voltou:
- Hic Zeno , respondeu. Eu mesmo." (p. 19) 1
A partir desse momento, Zênon pega incessantemente as mais diversas estradas a fim de encontrar seu próprio mistério, o qual se confunde com aquele do universo, um mistério indecifrável em cuja busca entrega-se ao longo de sua existência. São os diversos caminhos de Zênon que nos interessam aqui, caminhos que o tornaram, ao longo do tempo, um homem diferente, obrigando-o a modificar conceitos, filosofias, adesões, mexendo com sua sensibilidade e com sua capacidade de apreciação das coisas. Afinal, sua trajetória intelectual e psicológica não pode ser dissociada do amplo percurso geográfico traçado por ele.
Após pegar uma rota alternativa na previsível estrada de sua vida, análoga ao atalho que o conduz a Compostela aos vinte anos, o protagonista acredita-se liberado de rotinas e de preconceitos que tendem a paralisar todos os atos. No monastério de León, acaba por ter a chance de romper com uma profissão que o desagrada e de instruir-se, alhures, em outras ciências. A partir de então, tudo o que se sabe a respeito dele são suposições, fantasias, um ouvir-dizer impossível de se comprovar. Conforme os boatos, teria passado em Gand, estudando alquimia; em Paris, dedicando-se ao macabro e proibido prazer de dissecar os mortos; em Montpellier, onde teria freqüentado a escola de Medicina até refutar o sistema galênico; quem sabe no Languedoc, como um mágico sedutor de mulheres, ou como peregrino na Catalunha. Especula-se que, degradando a nobre ciência médica, o flamengo estivesse exercendo a abjeta prática da cirurgia. Apenas boataria, até a publicação de um tratado de medicina assinado por ele, em 1539, cujo conteúdo surpreende pela ausência de heresia. De qualquer forma, para seus conterrâneos, Zênon deixa de ser uma pessoa, torna-se um nome, menos que isso: eles o estão esquecendo.
A medicina como uma opção madura e definitiva
O protagonista reaparece como um vulto em Colônia, em torno de 1549, por ocasião da peste. Médico encarregado de prestar cuidados aos pestilentos, o acaso o conduz à casa dos Fugger, onde acaba conhecendo sua meia-irmã Marta. Mesmo descobrindo quem ela é, tal encontro não parece acrescer nada à bagagem emocional de Zênon, que prefere omitir sua identidade. Exercer um papel considerado desprezível socialmente (ocupar-se daqueles que morrem à margem da dignidade, mesmo que sejam, como Benedita Fugger, membros da elite) aproxima Zênon da verdadeira medicina, aquela que despoja o médico de pudores e medos, que o afasta dos louvores em respeito à vida humana.
Nunca deixou de ser suscetível à vaidade, mas postos louváveis à cabeceira de príncipes e nobres não lhe pareciam traduzir a essência da medicina, assim como sujeitar-se às teorias galênicas ainda aceitas como verdades absolutas na Escola de Montpellier não correspondia ao seu perfil de livre pensador. São confissões como estas, feitas a seu primo Henrique Maximiliano por ocasião de um encontro casual entre os dois em Innsbruck, em meados da década de 1550, que mostram ao leitor que as muitas estradas e as diferentes posições sociais que já ocupara provocaram amadurecimento e um certo desprendimento em Zênon. Mesmo assim, talvez o singelo e direto questionamento do soldado Maximiliano corresponda às próprias inquietações do médico e alquimista:
"Irmão Zênon, acho-o magro, cansado, algo selvagem e vestido com uma túnica tão miserável que nem meu criado usaria. Valeu a pena estudar durante vinte anos para chegar à dúvida, que por si só cresce em todas as cabeças bem formadas?" (p.103)
Considerando as dúvidas como bolhas de ar na superfície, o filósofo afirma que a verdade parece ser sutil demais para ser compreendida aos olhos da letra escrita (p.103). O que não impede que Zênon busque à sua maneira esta verdade, questione a ciência e a medicina, o papel de médico, concluindo que o exercício de sua profissão era incompleto: se ele verificava pulsos, examinava línguas e urinas, não estudava almas... E cada noite à cabeceira de um doente o fazia pensar em perguntas sem respostas a respeito da dor e seus fins ou se a alma sobrevive ao naufrágio do corpo. Uma "revolução negra", como ele mesmo designa (p.111), se deu na Basiléia, à época da peste negra, quando seu criado de confiança, com quem mantinha uma relação afetiva e sexual, morreu vitimado pelo mal: desiludido, percebeu que estava cansado da sua profissão, que não queria voltar a examinar o urinol do senhor fulano ou medir o pulso do senhor beltrano. No dia em que encontrou o corpo do pajem, prometeu a si mesmo não cuidar de mais ninguém. Todavia, seis meses depois, ali está ele em Innsbruck, exercendo, mesmo que acuado, a sua profissão, pois a curiosidade renasce sempre e, com ela, a vontade de utilizar o talento que possui. A maturidade emocional de um homem com mais de quarenta anos e a paixão pela ciência fazem com que não cesse de se maravilhar com os mistérios da carne sustentada por vértebras... A ciência é tão mágica que, mesmo sabendo não deter o conhecimento integral, Zênon exalta-se com a possibilidade de outros estarem lá também, pensando, medindo, deduzindo. Para ele, "ciência e contemplação não são em absoluto suficientes se não se transmundam em poder: o povo tem razão quando vê em nós os adeptos de uma magia branca ou negra" (p. 106). E o poder exercido pelo cientista independe do uso de utensílios para o exame do objeto; afinal, ele está associado ao mais raro e precioso instrumento: a licença de pensar e de agir à sua guisa. Mas, na época em que vivem, tal liberdade é restrita: se o pensamento parece ser livre, a expressão do mesmo não o é, e o protagonista da Obra em Negro sabe muito bem disso. Escondido em Innsbruck, pronto a rumar por outras vias, Zênon conclui que seus triunfos e seus riscos não são exatamente aqueles que se imagina, pois "há outras glórias para além da glória e outras fogueiras para além da fogueira" (p. 115) e, o mais importante, é que morrerá menos tolo do que nasceu.
De Innsbruck, ele parte na hora certa para aquelas que serão suas últimas viagens. Passa por Wurzburgo, onde dedica-se à arte hermética; pela Turíngia; pela Polônia, onde se engaja como cirurgião nos exércitos do rei. O interesse por uma visão mais holística da medicina o conduz à Suécia, onde pode estudar plantas e um clima diferentes, alimentando sua paixão pelo herborismo. Nesta corte, conquista a confiança do rei, cujo filho passa a ser seu pupilo. Junto às curandeiras dos vilarejos e aos nômades, aprende receitas naturais. Ser mentor do jovem príncipe Erik é mais do que uma gratificação pessoal pela qualidade de seu trabalho, representa um comprometimento afetivo que confunde-se com um estado passional aparentemente unilateral. Mas é preciso fugir novamente, e a Alemanha é seu novo destino. "Pela primeira vez na vida, sentia a necessidade de conservar os pés dentro do traçado de seus passos, como se sua existência se movesse ao longo de uma órbita preestabelecida, à semelhança das estrelas errantes" (p.130). Como Lübeck, onde já havia exercido a medicina outrora, o retém por pouco tempo, vai a Paris na intenção de imprimir suas Proteorias, tratado filosófico comprometedor. No caminho, passa por Louvain, onde utiliza pela primeira vez sua falsa identidade de Sebastião Theus. Em Paris, surge o convite para cuidar do pequeno príncipe gravemente doente, mas, sabendo que a rainha Catarina não o defenderá junto aos acusadores da Sorbonne, decide ir embora. A glória de estar livre compensa aquela de servir inseguro a realeza.
Na verdade, o Zênon maduro e experiente entra num jogo perigoso cuja natureza motivadora ele desconhece: voltar a Bruges e lá se fazer esquecer. Sua imagem vinte vezes refletida num exótico espelho florentino o faz pensar no grego Demócrito e em sua hipótese de uma série infinita de universos idênticos onde vivem e morrem diversos filósofos prisioneiros. Talvez Bruges seja um desses universos, do qual, apesar do distanciamento físico, nunca tenha sido possível escapar. Lá, pode ser que o médico e filósofo multiplique-se nos mais diversos tipos de gente ao qual virá a dedicar-se, que todos os pacientes façam parte das imagens do seu espelho interior, pedaços capazes de traduzir a essência da arte médica. Há trinta anos distante do primeiro atalho que pegou, ainda existe a busca por Hic Zeno .
Em Bruges, encerra-se o nomadismo. Ele já tem a impressão de que permanecerá na cidade até o fim de seus dias. Em decorrência da estreita amizade com o prior dos Franciscanos e do estúpido envenenamento de seu primeiro mentor da juventude, o barbeiro-cirurgião João Myers, Zênon, já na qualidade de doutor Sebastião Theus, dedica-se aos pobres. As diferenças entre presente e passado se anulam, pois pouco importa se está exercendo a medicina junto a príncipes ou a maltrapilhos. Mas as implicações dessa restrição de lugar sobre seu ser são importantes. Repetições mecânicas dos mesmos gestos e a vida sedentária o deprimem, como uma sentença de prisão concedida por ele mesmo, que, porém, não é irrevocável: quem sabe amanhã ou depois ele retoma a existência errante? No entanto, seu destino se agita: "um deslizamento se opera à sua revelia" (p. 152). O tempo, as horas, os lugares por que passou, tudo se reflete no seu estado atual. O prestígio que gozou, as estradas da ambição e do saber confundem-se com todas as viagens, imagens e momentos, e Zênon abisma-se com suas visões sobre o tempo e a eternidade. Meditar, rever conceitos, transformar sua maneira de pensar. Para ele, agora, o mais importante é o ato de pensar, e não os duvidosos produtos do pensamento por si só. Metáforas que se insinuam nele. A meditação o conduz sempre ao corpo, seu principal objeto de estudo: dominar os fundamentos da máquina humana é essencial para um médico da categoria de Zênon, um homem que viu na medicina a filosofia da perda e da cura.
Às margens do abismo, o alquimista chega ao fim de uma etapa de mais de cinqüenta anos: a primeira etapa da Grande Obra tomou toda sua vida, e agora faltam-lhe forças para ir mais longe. Ao mesmo tempo, experimenta diferenças positivas no seu ser: sua mão e seu olhar nunca foram tão firmes; a ausência completa de ambição e de medo permite que aplique seus métodos livremente, quase sempre com bons resultados. Sua relação com o erotismo e com a castidade mudou, são poucos os acessos de cólera, mas ainda goza de vaidade após uma operação bem feita. Aos poucos, percebe-se saindo do desfiladeiro negro. Já saiu antes, pode fazê-lo novamente. A busca do espírito gira em círculos, ele começa a pensar em novas viagens, está decidido a desaparecer após o enterro de seu grande amigo prior. Nada mais importa.
Por fim, o destino revela-se diferente, e Zênon não consegue sair. Em Bruges, a ratoeira o espera, e a prisão por uma acusação completamente falsa faz com que assuma sua verdadeira identidade. A vaidade intelectual o obriga a ser acusado então por suas idéias, e não por envolvimento num caso abjeto de monges heréticos. Sabe que está terminado, apesar da sólida defesa diante do júri. A sentença de morte ainda pode ser revertida em prisão perpétua mediante uma retratação pública, situação inadmissível para um homem que prezou a liberdade durante toda sua vida.
Liberdade: palavra que rege o destino de Zênon até o fim. Pois, à véspera de ser queimado vivo, ele ainda é livre para morrer à sua maneira. Todos os passos que deu ao longo de sua existência influem nessa hora, confrontam-se ao medo da morte. Mas ela é iminente, seja em poucas ou em vinte e quatro horas. Suas idéias podem ser tolhidas, apagadas, destruídas, mas não a sua liberdade de pensar livremente. Opta pelo suicídio e, com destreza cirúrgica, corta as veias e deixa o sangue fluir. Nos últimos momentos, é possível que Zênon aviste sua última estrada, e, ao fim, sua figura. Hic Zeno .
YOURCENAR, Marguerite. A Obra em Negro . Traduzido do francês por Ivan Junqueira. 5 a edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. 330 p. A seguir, todas as referências remetem a essa edição, salvo indicação em contrário.