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Pip e Huck Finn: narração e infância
Ricardo Maria dos Santos (Universidade Estadual Paulista/UNESP)
Nosso propósito nesta comunicação é apresentar alguns exemplos de como a construção textual nas obras de Charles Dickens David Copperfield e Great Expectations , e na de Mark Twain The Adventures of Huckleberry Finn engendra o comportamento infantil e o faz de forma a explorar, retoricamente, imagens, sentimentos e ações associados à sua experiência. Há que se ter em mente, em todos os exemplos que serão apresentados, as características específicas da voz narrativa que torna possível tal construção.
Começando por David Copperfield , nota-se que a narrativa basicamente oscila entre duas instâncias da focalização (ou reflexão) do narrador de "primeira pessoa", para usar um termo consagrado. No primeiro parágrafo do livro percebemos como esse narrador, que textualmente é o David adulto, relata seu nascimento com uma distância de foco que lhe permite usar de ironia:
Whether I shall turn out to be the hero of my own life, or whether that station will be held by anybody else, these pages must show. To begin my life with the beginning of my life, I record that I was born (as I have been informed and believe) on a Friday, at twelve o'clock at night. It was remarked that the clock began to strike, and I began to cry, simultaneously.
In consideration of the day and hour of my birth, it was declared by the nurse, and by some sage women in the neighbourhood who had taken a lively interest in me several months before there was any possibility of our becoming personally acquainted, first, that I was destined to be unlucky in life, and secondly, that I was privileged to see ghosts and spirits, both these gifts inevitably attaching, as they believed, to all unlucky infants of either gender, born towards the small hours on a Friday night. (ch. 1, p. 49)
Esse narrador, temporalmente distante dos fatos, ao comentar as circunstâncias do seu nascimento, evidencia uma linguagem e um tratamento irônico que vão caracterizar a focalização no narrador adulto. Tal distanciamento, enfatizado pelo uso de orações na voz passiva, diminuirá em momentos diferentes da narrativa, até desaparecer e instaurar a focalização na criança David. Esta será responsável pela verossimilhança ao imaginário infantil de passagens como esta, quando relata as primeiras pessoas de que se lembra quando muito pequeno, sua mãe e a criada Pegotty:
The first objects that assume a distinct presence before me, as I look far back, into the blank of my infancy, are my mother with her pretty hair and youthful shape, and Pegotty with no shape at all, and eyes so dark that seemed to darken their whole neighbourhood in her face, and cheeks and arms so hard and red that I wondered the birds didn't peck her in preference to apples . (ch. 2, p. 61 - grifo nosso)
O não-entendimento, por parte da criança, das estratégias da situação romântica em que sua mãe estava se envolvendo também exemplifica o comportamento e a apreensão da realidade por parte da criança. Nos exemplos abaixo, nota-se o peculiar comportamento infantil de se atribuir um sentido concreto a declarações enfáticas e de não perceber o jogo enunciativo que Mr Murdstone, pretendente da mãe de David, elabora com seu interlocutor às custas da inocência do garoto:
... She begged him to choose it [a geranium] for himself, but he refused to do that - I could not understand why - so she plucked it for him, and gave it into his hand. He said he would never, never, part with it any more; and I thought he must be quite a fool not to know that it would fall to pieces in a day or two. (ch. 2, p. 70)
'What! Bewitching Mrs Copperfield's encumbrance?' cried the gentleman. 'The pretty little widow?'
'Quinion', said Mr Murdstone, 'take care, if you please. Someone's sharp.'
'Who is?' asked the gentleman, laughing.
I looked up, quickly, being curious to know.
'Only Brooks of Sheffield', said Mr Murdstone.
I was quite relieved to find it was only Brooks of Sheffield; for, at first, I really thought it was I. (ch. 2, p. 72)
Situações narrativas como as dos exemplos anteriores percorrem todos os capítulos iniciais do romance, alternando parágrafos entre a focalização do narrador adulto e aquela da criança, quando não juntos num mesmo parágrafo, como na oração grifada acima. Além disso, há uma complexa interação entre esses modos de narrar, levando a um hibridismo de imagens que, ao recorrer ao alívio cômico, intensifica a ironia da narração adulta em relação ao ocorrido e prepara o caminho para tornar a narração que se segue mais intensamente expressiva do sentimento de impotência da criança perante a opressão adulta:
... 'If I go into a cheesemonger's shop, and buy five thousand double-Gloucester cheeses at fourpence-halfpenny each, present payment' - at which I see Miss Murdstone secretly overjoyed. I pore over these cheeses without any result or enlightenment until dinner-time, when, having made a Mulatto of myself by getting the dirt of the slate into the pores of my skin, I have a slice of bread to help me out with the cheeses, and am considered in disgrace for the rest of the evening. (ch. 4, p. 105)
Note-se a focalização da cena no sofrimento de David, narrado por sua contraparte adulta com um fino tom de humor e a figura retórica (zeugma) a conjugar a ação concreta do pão que lhe é oferecido com a associação aos queijos do terrível - para o garoto - exercício aritmético.
Impedido de sair de sua casa, o jovem David só tem os livros da biblioteca de seu finado pai a que recorrer. Mesmo no relato do conforto que tal leitura lhe proporcionava, verificamos a imaginação da criança avivada pelo ressentimento e pela opressão do padrasto e de sua irmã, Mr. e Miss Murdstone:
... It is curious to me how I could ever have consoled myself under my small troubles (which were great troubles to me), by impersonating my favourite characters in them [the books] - as I did - and by putting Mr and Miss Murdstone into all the bad ones - which I did too. I have been Tom Jones (a child's Tom Jones, a harmless creature) for a week together. I have sustained my own idea of Roderick Random for a month at a stretch, as I verily believe. ...
This was my only and my constant comfort. When I think of it, the picture always rises in my mind, of a summer evening, the boys at play in the churchyard, and I sitting on my bed, reading as if for life. ... I have seen Tom Pipes go climbing up the church-steeple, I have watched Strap, with the knapsack on his back, stopping to rest himself upon the wicket-gate, and I know that Commodore Trunnion held that club with Mr Pickle, in the parlour of our little village alehouse. (ch. 4, p. 106)
Assim, as imagens de opressão, sofrimento e desamparo se revezam entre o narrador focalizado no adulto e na criança. Processo semelhante acontece em Great Expectations , cujos primeiros capítulos fornecem exemplos abundantes dessa focalização, promovendo um intenso painel dos medos, sentimento de culpa e percepção de injustiça que a criança sente. Quando Pip furta alguns alimentos e uma lima para o fugitivo que o ameaçara nas cenas iniciais do romance, ele passa a se sentir culpado pelo furto, mas impelido pelo terror absoluto das ameaças do criminoso, segue em frente, não sem "imaginar" coisas:
... I got up and went down stairs; every board upon the way, and every crack in every board, calling after me, 'Stop thief!' and 'Get up, Mrs Joe!' (ch 2, p. 47)
... The gates and dykes and banks came bursting at me through the mist, as if they cried as plainly as could be, 'A boy with Somebody-else's pork pie! Stop him!' The cattle came upon me with like suddenness, staring out of their eyes, and steaming out of their nostrils, 'Holloa, young thief!' One black ox, with a white cravat on - who even had to my awakened conscience something of a clerical air - fixed me so obstinately with his eyes, and moved his blunt head round in such an accusatory manner as I moved round, that I blubbered out to him, 'I couldn't help it, sir! It wasn't for myself I took it!' ... (ch. 3, p. 48)
No decorrer da narrativa, Pip será invariavelmente hostilizado e maltratado (muitas vezes fisicamente). Quando ele encontra a jovem Estella na casa de Miss Havisham, tem, pela primeira vez, consciência de sua classe. Assim ele (personagem adulto em foco) discorre sobre sua sensibilidade extremada:
My sister's bringing me up had made me sensitive. In the little world in which children have their existence whosoever brings them up, there is nothing so finely perceived and so finely felt, as injustice. It may only be small injustice that the child can be exposed to; but the child is small, and its world is small, and its rocking-horse stands as many hands high, according to scale, as a big-boned Irish hunter. ... (ch. 8, p. 92)
Essa asserção somente enfatiza o que as imagens já haviam demonstrado até então: a desigualdade de forças e completa impotência da criança, com conseqüências para seu futuro. Não surpreende, então, que Pip, acorçoado pela curiosidade dos adultos quando volta da casa de Miss Havisham, responde às perguntas com uma imaginação fantástica que se explica pela própria tortura que eles lhe infligiam:
'Now, boy! What was she a doing of, when you went in today?' asked Mr Pumblechook.
'She was sitting,' I answered, 'in a black velvet coach.'
Mr Pumblechook and Mrs Joe stared at one another - as they well might - and both repeated, 'In a black velvet coach?'
'Yes, said I. 'And Miss Estella - that's her niece, I think - handed her in cake and wine at the coach-window, on a gold plate. And we all had cake and wine on gold plates. And I got up behind the coach to eat mine, because she told me to.'
... Mr Pumblechook and Mrs Joe stared at one another again, in utter amazement. I was perfectly frantic - a reckless witness under the torture - and would have told them anything. (ch. 9, p. 96-97)
Assim, a estratégia de defesa de Pip ante a tortura de seus "inquisidores" é a de mentir desbragadamente, com uma imaginação que o faz "think of myself with amazement" (p. 97). A criação de um mundo fictício em que Miss Havisham vivia assemelha-se, pois, aos mundos fictícios a que o jovem David Copperfield recorria para amenizar seu cotidiano oprimido pelos Murdstones. A forma como o texto é construído, possibilitando que as características do imaginário infantil sejam demonstradas com generosidade, e mantidas em primeiro plano através dos focalizadores Pip-adulto e Pip-criança, atesta o poder retórico investido na criação da personagem e do percurso narrativo pelo qual dela tomamos conhecimento.
Recorrendo à imaginação infantil também, mas com uma narração bem diferente da de Dickens, Twain apresenta seu narrador Huckleberry Finn muito próximo do narrado: as ações e pensamentos de Huck e o comportamento das outras personagens são relatados quase que sem uma mediação narrativa perceptível além daquela do protagonista. Diferentemente de David e Pip, no entanto, as personagens infantis podem levar uma vida menos controlada pelos adultos. Assim acontece com o juramento da turma de Tom Sawyer:
"Now we'll start this band of robbers and call it Tom Sawyer's Gang. Everybody that wants to join has got to take an oath, and write his name in blood."
Everybody was willing. So Tom got out a sheet of paper that he had wrote the oath on, and read it. It swore every boy to stick to the band, and never tell any of the secrets; and if anybody done anything to any boy in the band, whichever boy was ordered to kill that person and his family must do it, and he mustn't eat and he mustn't sleep till he had killed them and hacked a cross in their breasts, which was the sign of the band. ...
Everybody said it was a real beautiful oath, and asked Tom if he got it out of his own head. He said, some of it, but the rest was out of pirate-books, and robber-books, and every gang that was high-toned had it. (ch. 2, p. 7)
We played robber now and then about a month, and then I resigned. All the boys did. We hadn't robbed nobody, we hadn't killed any people, but only just pretended. (ch. 3, p. 12)
Quando o pai de Huck, sempre bêbado, o rapta e leva para uma ilha do rio Mississipi, Huck elabora seu próprio plano de fuga, mas com uma estratégia de apagar seus rastros para que seu pai e todo o mundo "civilizado" não o encontrassem. Assim é que ele forja seu próprio assassinato, com várias marcas de sangue e mesmo fios de cabelo no fio da lâmina do machado de seu pai. A partir da fuga bem sucedida, ocorrem os vários episódios em que Huck e o escravo Jim vivem aventuras por vilarejos e paragens ao longo do grande rio. Ao contrário das criações dickensianas, a personagem criança em Twain freqüentemente faz uso de mentiras e tenta enganar, mesmo que de brincadeira, pessoas à sua volta. O narrador Huck é, segundo Tom Quirk (1993, p. 86), "a receptacle of impressions, but they are filtered through a distinctively adolescent consciousness - quick to perceive, slow to comprehend. " Essa distinção assume uma função semelhante à dos focalizadores em Dickens: permitem entrever as situações narrativas de um ângulo mais privilegiado que o narrador e enfatizam o poder persuasivo da caracterização da criança/adolescente ao mostrar sua limitação de horizontes interpretativos naquelas circunstâncias.
As diferentes percepções de infância que os textos dos dois autores veiculam se devem a fatores distintos mas correlatos. A sociedade inglesa do início do século XVIII vivenciava a transformação de um modo de produção agrário para um industrial, no que se configuraria a primeira sociedade capitalista industrial de grandes dimensões. No campo das idéias, também ocorria uma grande mudança: ao ideal romântico do "beau sauvage" de Rousseau se sucedeu o ideal - mais romântico ainda e, na estrutura de poder social, inócuo - representado pela criança, próxima da natureza e, portanto, de Deus. À medida que o avanço técnico e científico acelerava o caráter da produção industrial exploradora do trabalho humano frente às máquinas, ocorriam alguns fenômenos importantes. As classes sociais inferiores viram, pela primeira vez na história, suas crianças competindo com os adultos no mercado de trabalho (e também perecendo em condições de trabalho calamitosas). Enquanto isso, os homens da classe média e da aristocracia se viram num movimento de negação de valores sentimentais, em razão da necessidade de manter uma objetividade fria e competitiva exigida pelos negócios que o capitalismo inglês gerava e que possibilitariam transformar aquela sociedade no império britânico "onde o sol nunca se punha". O ideal de empenho ( earnestness ) masculino cobraria deles que seu comportamento se afastasse daqueles de crianças e mulheres, de onde também advêm as associações depreciativas à imaginação, gentileza e compaixão.
No caso de Huckleberry Finn , há o contexto de uma luta contra os valores ideológicos de um Calvinismo muito rígido, que Mark Twain combatia, que via a criança como um ser degradado, tendo que esperar até a idade adulta para ser purificada no culto religioso. A essa também se junta uma nova vertente do "Bad Boy", que floresceu na segunda metade do século XIX e que permitiu a Twain encontrar um focalizador mais livre para viver uma aventura não permitida aos garotos de classe média e que pudesse, por estar à margem dela, não ter restrições para encontrar diversos tipos sociais ao longo da viagem pelo Mississipi e poder descrevê-la na expressão vernácula que tanto o notabilizou.
Embora os universos ficcionais sejam totalmente diferentes nas obras em questão, a personagem criança recorre à imaginação (e é até vítima dela, como no caso de Pip); as diferentes instâncias do narrador e dos focalizadores utilizam esse manancial de imagens de forma a conseguir o efeito retórico de caracterização coesa de personagens e situações narrativas. Para fechar com uma nota irônica, desta vez de Huck Finn, a própria narração, que é construída, é objeto de troça, bem à maneira de um adolescente:
... and so there ain't nothing more to write about, and I am rotten glad of it, because if I'd'a' knowed what a trouble it was to make a book I wouldn't'a' tackled it and ain't agoing to no more. ... (ch. the Last, p. 293)
ANDREWS, M. Dickens and the Grown-up Child . Iowa City : University of Iowa Press, 1994.
DICKENS, C. David Copperfield . Edited by Trevor Blount. Harmondsworth: Penguin, 1966.
________. Great Expectation s . Edited by Angus Calder. Harmondsworth: Penguin, 1965.
STONE, Jr., A. E. The Innocent Eye . Childhood in Mark Twain's Imagination. New Haven : Yale University Press, 1961.
TWAIN, M. The Adventures of Huckleberry Finn . Ed. by G. Graff and James Phelan. Boston : Bedford-St. Martin's, 1995.