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O Epílogo Macunaímico e A Memória Do Ritual
Márcio Araújo de Melo (UFMG)
O material que compõe as narrativas e cantos propagados pela oralidade é, creio não restarem dúvidas, o que vai fornecer bases à identidade de um povo.
Manuel de Souza e Silva
Sendo válido começar por uma explicação , que ela vá desde a primeira linha: " Epílogo [Do grego epílogos , pelo latim epilogu .] 1. Conclusão, resumo, remate, fecho. 2. Teatro : fala final, escrita para um ou mais atores, e freqüentemente destinada a explanar as intenções do autor e/ou o resultado final da ação dramática. 3. Teatro : O último ato ou cena de uma peça". Os esclarecimentos são de aurélio buarque (1988, p.672) e deles se pode descolar alguns significados que são úteis nesse momento. A primeira acepção dada pelo Dicionário está relacionada à finalização. Da segunda, é notável ajuizar que pode ser escrita por um ou mais integrante, e que pode explanar as intenções do autor . E, por final, o lugar que ele deve vir. O Epílogo da rapsódia de Mário de Andrade, "Macunaíma: herói sem nenhum caráter" 1, consegue trazer esses elementos. Nele encontram-se algumas explicações dos casos que sucederam com o herói de nossa gente e também alguns esclarecimentos sobre a construção da obra marioandradiana.
Destarte, ele irá contar que para narrar as aventuras do herói da tribo Tapanhumas - que estavam esquecidas n um silêncio imenso - o narrador precisou descobrir, meio que por acaso, um papagaio, que lhe contou a história "numa fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com mel-de-pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do mato". (M 168) O papagaio escutou as histórias do próprio Macunaíma, quando já no Uraricoera - sem seus irmãos, a muiraquitã e mulher -, "ficara defunto sem choro, no abandono completo", (M 158) se distraindo apenas com a última das aves que restara do séqüito imperial. Então, Macunaíma
passava os dias enfarado e se distraía fazendo o pássaro repetir na fala da tribo os casos que tinham sucedido pro herói desde a infância. Aaah... Macunaíma bocejava escorrendo caju, muito mole na rede, com as mãos pra trás fazendo cabeceiro, o casal de legorne empoleirado nos pés e o papagaio na barriga. (M 158/159)
Ao final da obra, o Epílogo é a marca mais espessa que corrobora na divisão, tão explorada ao longo do livro, entre a história oral - contada, primeiramente, por Macunaíma para o papagaio, depois desse ao narrador - e a história escrita - registrada pelo narrador após o relatado da ave imperial. Aliás, essa fronteira e diferenciação têm, ao longo da rapsódia , se mostrado muito fértil para a crítica literária. De tal maneira que se pode ver no trabalho de Eneida Maria de Souza(1988) uma preocupação entre a oralidade e a escrita. A autora vai pontuando uma reflexão a luz do dialogismo de Bakhtin e do universo lingüístico do texto, procurando destacar o aspecto da composição da obra marioandradiana. Portanto, ela alega e declara seu caminho:
"o universo lingüístico de Macunaíma se articula em torno da imagem do papagaio e se expande em diálogo pelo empréstimo das vozes de outros textos. Esse trabalho de transposição de um enunciado em outro (a relação entre o 'já-dito', o 'já-escrito' e a obra) tem como princípio o jogo de relações e deformações, operado sobretudo no nível da linguagem. (Souza1988:33)
As falas da rapsódia alvitram esses entrecruzares discursivos - como bem expôs a autora de A pedra mágica do discurso - : voz e letra; já-dito e já-escrito; papagaio e narrador; contador e cantador. São lugares de uma locução muito demarcada, que deixa os furos expostos e, por isso mesmo, solta ao limite. Portanto, como rapsodo, Mário de Andrade recolhe para sua obra tudo o que lê e escuta, e depois lhe dá um corpo vivo, construído por acréscimos e recortes, no qual as falas estremam fronteiras tênues.
A estratégia da narração deixa evidente que só foi possível a divulgação dos feitos do herói de nossa gente , por via de um papagaio que contou as histórias - escutadas do próprio Macunaíma - para um moço que pelas bandas do Uraricoera andou, quando nada mais havia por lá. É saliente observar que o papagaio, no pronunciamento e vôo para Lisboa, acaba por forçar a escrituração da obra. Da história, a ave acaba por exigir sua existência material, já que não se fará mais presente numa possível repetição, e o texto se inscreve na ordem de uma outra memória, em que "os ditos" e "os feitos" - já reditos e refeitos pelos narradores - não estão para uma verdade. Essa outra memória se registra no espaço do híbrido entre: o oral e escrito; o campo e a cidade; o mito e a máquina; a mãe natureza que fornece o alimento e também a fome. Por assim dizer, o papagaio-narrador desempenhará a função de baluarte dessa memória oral, além de ser o guardião de uma linguagem que - na fala de um outro narrador - vai produzir a escrita de Macunaíma .
Desses pássaros, a memória repetitiva sempre foi digna de admiração. Por conseguinte, não é desprezível notar que desde o início da descoberta do Novo Mundo "nenhum dos animais achados", comenta Sérgio Buarque de Holanda (1994, p.211), "pareceu ao Almirante [Colombo] tão digno de exibir-se na Espanha, porém, quanto os papagaios, e deles levou de volta nada menos de quarenta". E já em 1501, para se ter uma idéia, se alude ao Brasil como terra delli Papagá , ao passo que só mais tarde começaria a prevalecer, generalizando-se, o de terra do Brasil.
Segundo o autor de Raízes do Brasil (1994, p.212), destas aves a valorização se dava por uma razão especialíssima, pois durante largo tempo, aparecem "associados às maravilhas indianas". Além do mais, continua ele, "para o apreço que lhe davam, não só contribuía o saberem imitar a voz humana, além da formosura da plumagem, como sua procedência de países remotos, da Índia sobretudo, que lhes comunicava alguma coisa de seu mistério". E sem dúvida o último papagaio do séqüito imperial de Macunaíma - como guardião das aventuras do herói anti-heróico - irá anunciar algo misterioso, porque só ele "conserva no silêncio as frases e feitos do herói"(M 168).
Esse anunciar, de uma voz memorizada pelo guanumbi de Macunaíma, se desloca no tempo e espaço no entremeio das enunciações da narrativa. Do livro aos feitos do herói , as vozes rapsódicas são as marcas da história, tanto quanto da memória impressa. Não obstante, essa narrativa se sustenta no inscrito e com ela sua memória, mas preservada em reminiscências de um papagaio, que irá reproduzir e doar os feitos do herói de nossa gente à primeira pessoa que passar pelo Uraricoera. Assim, o texto se abre por um lado pela fala e memória frágeis do papagaio como também da escuta efêmera do futuro narrador, e por outro, pela rigidez da escrita da obra. Nessa narrativa híbrida, são atribuídos quatro papéis ao guanumbi : a) de escutar os feitos de Macunaíma; b) presenciar os últimos acontecimentos ocorridos com ele; c) testemunhar a linguagem do herói e, finalmente, d) transmitir para alguém. Esta linguagem, desaparecida "num silêncio imenso", é reescrita pelo narrador - que também adota um lugar no discurso -, como propõe Eneida de Souza (1988,p.120), quando "se insere como rapsodo, ao estudar, e gravar a fala impura do papagaio, assumindo sua posição ao longo do texto, com o que reescreve (reescreveu) a história sob o signo da oralidade".
O papagaio - ave metalingüística e recitador fático na definição de Haroldo de Campos (1973, p.274) - contará a história do herói de nossa gente ao seu futuro narrador, no mesmo silêncio imenso e ambiente misteriosos que estão no princípio das aventuras de Macunaíma. O ambiente ritualístico que se constrói no início e término da narrativa parece enfeitiçar o narrador, que se nomeia e se inclui no jogo mágico da narração. Sua memória é posta a prova, e ele se envolve nesse ritual demarcando seus lugares.
Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. (M 05)
Não havia mais ninguém lá. Aqueles lugares aqueles campos furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era solidão do deserto... Um silêncio imenso dormia à beira-rio do Uraricoera. (M 167)
Dos lugares que o narrador se coloca, é possível vê-lo como menestrel - cantador e contador -, pois se posiciona como detentor de uma memória que reproduz, com a fidelidade necessária, o dito e feito do outro, retirando de si o peso da autoria. Nesse ritual - e para relatar a história o mais próximo do original -, ele se aproxima ao próprio Macunaíma, como narrador e personagem, que se prepara, antes de começar a narrar, catando os carrapatos ou espantando os mosquitos. Por esse prisma, é possível olhar a obra de Mário de Andrade inscrita num espaço ambíguo que se abre entre o narrador e a personagem; o escrito e o falado; o dito/feito e o redito/refeito .
Essa dubiedade da narrativa marioandradiana - escrita e oralidade - é ressaltada, de várias maneiras, ao longo do texto. No Capítulo Carta pras Icamiabas 2 - que desloca completamente o eixo da narração, pois pela primeira e única vez 3 Macunaíma assume a narrativa e dá o seu tom -, não só o escrito e o oral são mesclados, mas citações e falas de várias autores vão se acumulando ao longo da missiva . O motivo primeiro de Macunaíma é pedir dinheiro as suas súditas para brincar com as filhas da civilização. E nesse emaranhado discursivo, Macunaíma irá compor uma carta ambígua que se abre entre o que ele conta sobre a cidade de São Paulo e o seu raciocínio Uraricoera .
Estávamos ainda abatido por termos perdido a nossa muiraquitã, em forma de sáurio, quando talvez por algum influxo metapsíquico, ou, qui lo sá, provocado por algum libido saudoso, como explica o sábio tudesco, doutor Sigmund Freud (lede Fróide), se nos deparou em sonho um arcanjo maravilhoso. Por ele soubemos que o talismã perdido, estava nas dilectas mãos do doutor Venceslau Pietro Pietra, súdito do Vice-Reinado do Peru, e de origem francamente florentina, como os Cavalcântis de Pernambuco. E como o doutor demorasse na ilustre cidade anchietana, sem demora nos partimos para cá, em busca do velocino roubado. (M 60)
Vão se aglutinando várias informações, em que cada uma se conecta a outra, mesmo quando são diferentes, ou opostas. Assim, há referência aos estudos de Freud sobre o sonho, e ao mesmo tempo, ele é interligado ao sonho de Nossa Senhora ou de José, na visão de um arcanjo maravilhoso que anuncia a Boa Nova . As línguas erudita, arcaica, popular, regional, contemporânea são postas num mesmo plano, deste modo e igualmente, se encontram e se mesclam na carta às súditas amazonas.
Voltando ao Epílogo - ainda como exemplo dessa dubiedade oral e escrito -, o narrador assume a postura de um cantador/contador de histórias, expondo-se frente a seus leitores/ouvintes, restabelecendo, desse modo, a relação milenar do ato de contar história. Para isso, adota as características necessárias para criar um ambiente narrativo, pois "quem conta história de dia, cria rabo de cotia" (M 94), já nos ensina o próprio Macunaíma, após a narração do mito da criação do Cruzeiro do Sul pela transformação de Pauí-Pódole.
Tudo ele [o papagaio] contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, o herói de nossa gente.
Tem mais não. (M 168)
Em relação à oralidade na rapsódia marioandradiana , mais uma vez é válido notar que, os casos do herói, como também sua fala impura , perdidos num silêncio imenso , estavam preservados pelo papagaio, que esperava longamente a vinda de um homem, para que este pudesse tomar seu lugar e detivesse também o segredos do último dos representantes da tribo dos Tapanhumas . Para que só assim, pudesse "abrir asas rumo de Lisboa". (M 168)
Assim, ao se apropriar da "fala impura e dos casos" de Macunaíma, o narrador passa a deter a função de novo guardião destas histórias. E como tal, repassa a seus leitores/ouvintes, "cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente", (M 168) para que também eles possam guardar os segredos do último representante da tribo Tapanhumas . No entanto, não mais como guardiões, mas agora como rapsodos possam cantar com a mesma "fala impura" qualquer caso e feito sucedido.
Essa barganha entre o oral e o escrito parece ter produzido um momento muito particular na colonização das Américas, o qual Cornejo Polar (2000, p.220) chama de o grau zero da literatura latino-americana, "ou, se quiser, o ponto no qual oralidade e escrita não somente marcam suas diferenças externas, mas ainda tornam evidentes sua mútua alienação e sua recíproca e agressiva repulsão". Aqui o autor está se referindo especialmente ao que acontecera na tarde de sábado de 16 de novembro de 1532 em Cajamarca ,
quando frei Vicente Valverde oferece salvação cristã e amizade imperial a Atahualpa e lhe requer que, sem demora, renegue seus deuses e aceite ser vassalo do imperador dom Carlos - tudo isso a través de um lengua de espanhol precaríssimo e (ainda pior) falante do chinchaysyo e não do quéchua cusquenho. Com matizes a mais ou a menos, os cronistas que estiveram em Cajamarca conta que o Inca pediu provas do que ouvia e Valverde respondeu que a verdade estava escrita. Narram resumidamente que o padre lhe entregou a Bíblia, que Atahualpa teve dificuldade em abri-la, que a olhou detidamente, procurou ouvi-la e - ante seu silêncio - atirou-a ao chão. Esse foi o sinal que desencadeou o massacre de Cajamarca. Pouco depois o Inca é executado. (Cornejo Polar 2000, pp.287/288)
Ao analisar esse marco zero da história da colonização latino-americana, Cornejo Polar defende a impossibilidade de coexistência entre esses dois lados do discurso - colonizado (oralidade) e colonizador (escrita) -, que se perpetuará para sempre. Assim, esse encontro - definido e datado - é pontuado por ele como tendo:
a ver com algo mais importante que continua marcado até hoje a textura mais profunda das nossas letras e de toda a vida social da América Latina: com destino histórico de duas consciências que desde o seu primeiro encontro se repelem pela matéria lingüística em que se formalizaram, o que pressagia a extensão de um campo de enfrentamento muito mais profundos e dramáticos, mas também a complexidade de densos e confusos processos de imbricação transcultural.
Ora, esse grau zero , que baliza a diferença entre a oralidade e a escrita, parece ser um pouco anterior para nós brasileiros - salvo as diferenças entre eles -, pois data exatamente do dia do achamento da Terra de Santa Cruz . Neste 22 de abril de 1500, ao ver um pequeno grupo de índios, os portugueses tentam manter uma primeira comunicação sem grandes resultados, conforme Pero Vaz de Caminha expõe em carta ao rei de Portugal.
Mas, não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa.
Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levara na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. (www.orbita.starmedia.com/)
A possível comunicabilidade, entre esses discursos heterogêneos, é feita apenas por troca de coisas materiais. A tradução se dá, assim, não pela palavra, mas por objetos que são atirados entre os dois grupos. Os motivos da incomunicabilidade entre os portugueses e os índios não se dão exatamente pelo fato de não se entenderem pelas línguas, mas "por o mar quebrar na costa". Assim, as diferenças entre as personagens desta primeira história são anuladas pelo discurso da Carta De Caminha, que resolve a situação pela tradução material. Dos objetos lançados entre as partes, destaca-se a imagem das penas de papagaio, que funcionam - na escrita da Carta - como uma possibilidade de tradução de discursos incompatíveis. Ainda é válido observar que no discurso da Carta, as diferenças são apagadas também quanto aos elementos da troca, pois começa pelo arremesso de um barrete e uma carapuça por parte dos portugueses, que recebem, por seu turno, um outro barrete dos índios. São rasuradas também as especificidades de fabricação e material de cada presente. Assim, um barrete português se iguala ao do índio, mesmo que ressaltados o linho e a penas de papagaio de cada um. Num outro momento da Carta, a figura do papagaio aparece novamente como perspectiva de tradução, em que a incomunicabilidade impera. No entanto, ao contrário do que ocorreu antes no discurso do colonizador, já não se anulam mais as diferenças, agora estão expostas em sua fala/escrita.
Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se houvesse ali. (www.orbita.starmedia.com/)
Não é gratuito que a imagem do papagaio apareça junto a uma possível exploração do ouro e da prata. São riquezas e desejos que a escrita do colonizador não deixa de marcar forte nas linhas de sua história 4 . Além do mais, a presença dessas aves corrobora a do ouro e da prata, pois ele traduz - como anjo decaído no Paraíso Terreal 4- algo de misterioso. Essa usurpação da imagem do papagaio como tradutor parece adquirir significados maiores do que uma simples passagem do oral para o escrito, ou mesmo como guardião de uma memória esquecida. Ela contem a imagem secular da colonização, que visualiza a comunicação como reflexo de seu próprio discurso, isto é, a tradução pelo viés de quem tem a palavra para escrever, e registrar sua história.
Dessa idéia de tradução pela via papagaio, Mário de Andrade não se furtou; e o último do séqüito de Macunaíma fará - após contar a história e o feitos do herói - uma viagem para Lisboa. Para esse retorno, Maria Zilda Cury (1981, p.168) comenta que é "a possibilidade da fala do dominado cultural", que se inicia com a ida do papagaio para Lisboa. Por assim dizer, a tradução se dará ao avesso, e o papagaio - que veio na frota portuguesa - retorna a origem. Mas com agora ele tem uma "fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com mel-de-pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do mato". (M 168)
Como última análise, ainda é bom notar que o termo tradução - do latim traductione, 'ato de conduzir além, de transferir' - se origina da mesma etimologia que traição - do latim tradere, 'entregar'. Não há tradução que não carregue a traição de si mesmo. E a fala mansa e nova do guanumbi de Macunaíma terá esse caráter híbrido da tradução / traição , pois, por primeiro, o papagaio espera, no outro que se apresenta, a possibilidade de uma tradução (transferir), e depois, irá trair a memória apreendida do original. Num outro momento, essa traição/tradução vai aparecer na escrituração da obra, e liberará a ave tradutora/traidora da obrigação da memória, e ela poderá ir para Lisboa. Nesse jogo de formação e deformação da linguagem e narrativa, a figura do rapsodo retorna com mais força, expondo o hibridismo da obra marioandradiana.
Referência Bibliográfica:
Andrade , Mário de. Macunaíma, herói sem nenhum caráter . Coordenada por Telê Porto Ancona Lopez. Paris: Associetiens Archives de la latterrature latino-americaine, des caribes ete africine du xxe siècle, Brasília, CNPq, 1974.
Campos , Haroldo de. Morfologia do Macunaíma . São Paulo: Editora Perspectiva, 1973.
Cornejo Polar , Antonio. O condor voa: literatura e cultura latino-americanas . Tradução de Ilka Valle de Carvalho. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2000.
Cury , Maria Zilda. Arte e criação em Macunaíma . In: Ensaio de semiótica, cadernos de lingüística e teoria literária. Ano III, nº 6, Faculdade de Letras, departamento de lingüística e teoria literária, Belo Horizonte:UFMG, dezembro de 1981.
Holanda, Aurélio Buarque de. Novo dicionário da língua portuguesa . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
Holanda , Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso . São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
Pero Vaz de Caminha. C arta ao rei de Portugal . ( www.orbita.starmedia.com/hpcaminha)
Souza e Silva , Manoel de. Do alheio ao próprio: a poesia em Moçambique . São Paulo: Edusp , Goiânia: Editora da UFG, 1997. Souza ,
Souza , Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso . Belo Horizonte: Editora da U FMG, 1988.
- Todas as citações são referências da edição crítica de "Macunaíma, herói sem nenhum caráter" coordenada por Telê Porto Ancona Lopez. Paris: Associetiens Archives de la latterrature latino-americaine, des caribes ete africine du xxe siècle, Brasília, CNPq, 1974.
- O Capítulo IX, Carta pras icamiabas , merece ainda uma análise que privilegie essa discussão.
- As outras histórias-aventuras de Macunaíma foram contadas, por ele, para um papagaio que as recontou para um moço que fora até o Uraricoera.
- Além do mais, para se ter uma pequena idéia do que representava essa ave na época colonial, os toros de pau-brasil enviado para Europa valiam cerca de oito ducados o quintal - quatro arrobas, i. e., 58,75 kg - , e cada um desses pássaros orçou-se em seis ducados.