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Imigrantes e errantes: personagens dos interlúdios em itálico de O continente
Luzi Lene Flores Prompt (PUCRS)

Entremeando as subdivisões de "O Sobrado" e as outras narrativas, há em O continente, textos em itálico, empregados para criar, além de uma história periférica, também uma moldura para os mesmos. Essas partes em itálico dão conta de personagens que integram o pano de fundo na história da narrativa principal e na da História, podendo-se dizer que fornecem a versão popular dessa História. Esses textos têm a função de referir os acontecimentos históricos intermediários, resumindo os fatos principais.

Essas partes em itálico também são histórias fechadas, ao molde dos episódios da narrativa principal. Mesmo assim representam um limiar em relação à narrativa primeira (se assim considerarmos a história dos Terra Cambarás) - pois esclarecem pontos que não são explicados nela.

No primeiro texto, a ação está situada em uma das ilhas do Arquipélago dos Açores, onde a escassez de recursos, juntamente com a promessa, feita pelo Rei de Portugal, de conceder novas terras, além de auxílio inicial a quem deseje emigrar, atraem habitantes dessas ilhas ao Brasil. O narrador assume um discurso da Coroa portuguesa, ironicamente persuasivo, assim como o seu ponto de vista ideológico, para mostrar como os imigrantes foram convencidos a deixar a ilha.

Em uma narrativa paralela, em Laguna, "a mais de mil léguas de distância", Chico Rodrigues está se dirigindo ao Continente. A distância entre José e Chico não é só geográfica. José sai de Portugal com sua família; conhecedor de sua origem, vem atrás de um sonho. Chico vem sozinho, não sabe onde nasceu e nem quem são seus pais, anda vagando o mundo. A distância de "mil léguas" entre José e Chico será vencida, mas a outra nunca será suprimida, nem mesmo reduzida. José Borges precisou de promessas de persuasão; Chico vai por conta, se "atira", impulsionado por sua natureza errante.

No navio, entre-lugar entre o espaço do passado e o do futuro, as mortes e o sofrimento dos portugueses durante a viagem fazem muitos adoecerem ou perderem o juízo. Quando chegam ao Continente, as promessas de El-Rei não são cumpridas e da condição inicial de imigrantes que eram, passam a sentir-se como degredados, ou seja, o deslocamento das ilhas para o Continente passa a ser visto como se tivesse sido uma imposição, não um convite.

Chico Rodrigues também já se encontra no Continente, faz-se bandoleiro e todos conhecem sua fama:

Em Santo Antônio da Guarda Velha, no Rio Grande, no Rio Pardo, em Tramandaí e Viamão não havia ninguém que não tivesse ouvido falar nas proezas dum tal Chico Rodrigues.

E de homens como ele havia centenas e centenas.

As patas de seus cavalos, suas armas e seus peitos iam empurrando as linhas divisórias do Continente do Rio Grande de São Pedro. (...)

A fronteira marchava com eles. Eles eram a fronteira (VERISSIMO, 1974, p.65). 1

 

É interessante notar o grande número de lugares citados nesse segmento, instituindo na narrativa os espaços percorridos por Chico Rodrigues através dos nomes das cidades. Chico Rodrigues também funciona como personagem-síntese, representa um coletivo: "como ele havia centenas e centenas". Vindos de outros lugares, esses homens não só percorrem o espaço do Continente como o "estendem", configurando-se as personagens como as próprias fronteiras. No Continente, o limite do território é imposto por homens como Chico Rodrigues, fundindo-se homens e espaço num só: "eles eram a fronteira".

O destino dos dois novos habitantes do Continente, José e Chico, se encontra quando o último rouba a filha de Zé e galopa com ela rumo a uma nova vida. Chico decide: " Resolvi mudar de vida, requerer sesmaria, fazer casa, parar quieto(...) De hoje em diante vou me chamar Chico Cambará "(VERISSIMO, 1974, p.66). A adoção de um novo nome salienta a mudança da condição de nômade para a estabilidade, porém essa dicotomia permanecerá na natureza do descendente de Chico, Rodrigo.

O próximo interlúdio lírico inicia com um botânico francês anotando as observações feitas durante o dia. A exemplo de Winter, personagem de "A Teiniaguá", o olhar estrangeiro mais uma vez se institui como observador do espaço-geográfico e social do Continente.

As notas no diário dissertam sobre outro tipo de habitante do Continente, pouco desenvolvido na narrativa principal: " os gaúchos sem cavalo, sem armas, sem botas, sem nada "(VERISSIMO, 1974, p.153). Essa segunda narrativa trata dos miseráveis do Continente, os Carés. Esses errantes são determinados pela relação com o espaço de origem: "retirantes"; "foragidos", "desertores", "vindos do outro lado", "gente andarenga", "sem pouso certo".

João Caré considera-se um componente da terra do Continente "cresci do chão". Sua origem nem a mãe sabia. João anda sozinho, sem sapatos, quase sem roupas e se tem fome mastiga raízes. Se um dia "se junta com uma china" começam a ter filhos, que quando mortos são enterrados sendo a única coisa que os Carés plantam.

Essa narrativa dos Carés é intercalada com outra, que apresenta o ponto de vista dos imigrantes alemães, os quais, como os portugueses, não receberam o prometido, mas desbravam novos lugares. Da amurada do navio, Willy olha a cidade que os casais açorianos fundaram. Da embarcação, a observação da paisagem pelos recém-chegados se dá comparativamente ao espaço de onde vêm. O rio tem águas "barrentas e margens baixas", não tem história nem castelos, não tem os seres mitológicos nem ninfas dos rios de seu país natal. Para os imigrantes deslocados, a comparação expressa a cultura de seu espaço anterior. Para eles, também esse espaço choca pelo novo, principalmente pelo incivilizado.

Willy, de início, decide transformar o espaço incivilizado: "derrubar árvores", "virar a terra". Outros colonos chegam e esse espaço vai se alterando e, até, sendo nomeado. Comparando-se a realidade dos Carés e dos colonos alemães, percebe-se que é bem diferente da das personagens da narrativa principal, principalmente da família Terra-Cambará, que ascende chegando ao poder político. Nessas partes em itálico o narrador dá lugar a outras vozes, diferentes das que surgem na narrativa principal.

A terceira parte se refere a outro ramo da árvore genealógica da família Terra, a filha do irmão de Ana, Horácio Terra, que ficara em Rio Pardo. Essa parte relata dez anos de Revolução Farroupilha através de suas observações.

O quarto segmento inicia com o sonho de Mingote Caré de ter um cavalo. Um dia rouba um, mas é descoberto, o dono da estância manda açoitá-lo e marcar o "lombo" do ladrão, para que aprenda a respeitar a propriedade alheia. Após ser pego pelo roubo, Mingote é jogado como uma "rês" ao chão. Ao assumir o ponto de vista fraseológico do estancieiro, o narrador dissimula seu próprio ponto de vista e mostra como os poderosos terratenentes desconsideravam esses errantes representados na narrativa pelos Carés.

Mingote, por ironia, cai sem forças justo numa estância que se estende espacialmente além das fronteiras do Continente, configurando a injustiça sócio-econômica da região. Mas os Carés são muitos e estão "espalhados" pelo amplo espaço do Continente, como confirma o Juca, outro Caré que tinha a cara "riscada" de cicatrizes:

Perguntavam.

Me diga uma coisa Juca, onde foi que te deram esse talho que te vai de orelha a orelha, cheio de voltas que nem o Rio Camaquã?

No combate do Poncho Verde.(VERISSIMO, 1974, p.461).

 

O verbo "perguntar" introduz o diálogo expresso através do discurso direto e a indeterminação do sujeito da frase, acrescenta à narrativa uma personagem coletiva. A própria pergunta já indicia espacialidade nas cicatrizes de Juca através do advérbio interrogativo de lugar "onde". O "talho de orelha a orelha, cheio de voltas" é comparado a um rio, levando a imaginar-se na face de Juca um mapa da região do Rio Camaquã. Cada talho na face de Juca Feio remete a um espaço diferente: o dos "beiços" foi na luta pela reconquista de Caçapava; o terceiro no Paraguai, guerreando contra Rosas. Nas respostas de Juca os incidentes continentinos tornam-se partes das feições do Caré.

Em seguida, o narrador começa falar de outro Caré, aquele tem a maior família de todos, o Chiru, que não anda vagando sozinho, leva mulher e filhos. Ao informar que tem dez filhos e explicitar "sem contar os mortos", o narrador remete o leitor para a condição sócio-econômica do vagante. Chamando os filhos do casal de "crias", outra vez expõe a condição quase animal dos Carés. Os familiares "batem estrada", repisando os caminhos por serem errantes, sem lugar para se fixar. Chiru consegue licença para erguer seu "rancho" no Angico, em Santa Fé. A mudança de comportamento desse Caré, ao largar a vida de vagante para fixar-se no Angico, explica a presença de uma Caré da narrativa principal, pois da família de Chiru procederá Ismália, amante de Licurgo.

Após fixar-se no Angico, Chiru é recrutado para a guerra: " Chiru não ouviu direito contra quem, mas desconfiava que era outra vez contra os castelhanos "(VERISSIMO, 1974, p.462). A configuração espacial em derredor do Continente está expressa na origem dos companheiros de guerra de Chiru: argentinos, orientais, batalhões vindos do Norte. O narrador continua informando que o inverno de 65 fora "brabo" e contando, através do ponto de vista espaço-temporal de Chiru, a escabrosidade da guerra: cólera, mil febres, insolação, etc.

Durante esse período, Chiru encontra o sobrinho de Bibiana. O fato de encontrar , num lugar tão distante, um conhecido, alguém que mora no mesmo lugar que Chiru, influencia a concepção espacial revelada na frase " Mundo velho bem pequeno ". Quando Florêncio é atingido no joelho, Chiru carrega-o nas costas até a trincheira. O moço agradece " Obrigado, companheiro ", isto faz com que Chiru reconheça: " Na paz vivia como bicho. Na guerra era um homem" (VERISSIMO, 1974, P.465).

Essa narrativa sobre os Carés expressa uma visão periférica tanto da sociedade rural, quanto da guerra, onde quem faz a história não são apenas os nomes que aparecem na historiografia oficial, mas também aqueles que são "atirados na estrada como rês".

Mais líricas que as outras partes, a quinta e a sexta tratam do passado de Fandango e de Maneco Lírio. A primeira descreve, sob a ótica de Fandango, o caráter do gaúcho e os tipos do sul: os da fronteira, os da zona missioneira, os "da banda do mar", os da campanha, etc.

O narrador, antes de apresentar o discurso de Fandango, avisa que só a voz dele se fará ouvir, empregando o vocábulo "solar" e acrescentando que "quando pegava a palavra não entregava a mais ninguém". O narrador introduz o solo de Fandango através do verbum discendi "dizer", declarando-se, mais uma vez, ouvinte da narrativa:

Disse:

Dês de gurizote ando cruzando e recruzando o Continente

e não hai canto destes pagos que eu não conheça.(...)

Pela zona missioneira e pela Campanha, meu Deus, sou capaz até de andar de olhos tapados (VERISSIMO, 1974, p. 542).

 

Com o discurso direto, o narrador reproduz a visão de mundo de Fandango utilizando expressões que caracterizam a personagem como um vagamundo: "cruzando e recruzando" e "não hai canto que eu não conheça". Os espaços, que Fandango cruzou, são destacados sempre com índices que indicam o deslocamento: "fiz muita tropa", "andei", "miles de vezes cortei" e, finalmente, "sou capaz de andar de olhos tapados", metaforizando a infinidade de vezes que andou pela zona missioneira e pela Campanha.

Depois, Fandango conta como está povoada cada parte do espaço percorrido, a nacionalidade de origem dos colonos que ocupam cada lugar. Na fala de Fandango existem nomeações topográficas que se referem a acidentes geográficos da realidade sul-rio-grandense: "Serra", "beira dos rios", "região serrana", etc. Dizer que os italianos "empoleiraram-se" na Serra metaforiza a colocação dos italianos nos altos dos montes que constituem a Serra. Fandango explica essa ocupação de um território de difícil acesso por um golpe de sorte dos alemães que lhes conferiu os melhores lugares próximos aos rios da bacia do Sinos e Caí. Novamente, o verbo "andar" sugere um conhecimento in loco da região, além de reforçar seu tipo afeito a deslocamentos.

O último interlúdio lírico se refere ao pai de Liroca, primeira personagem da primeira parte de "O Sobrado". Assim, os Lírio abrem a moldura narrativa e fecham os textos intermediários. Depois de informar que o Major vive sozinho na "meia-água", situada numa rua que se chama, não por acaso, " Voluntários da Pátria ", o narrador destaca no interior da casa os retratos de três personagens que Maneco admira: o Imperador, Gaspar Martins (líder dos federalistas da Revolução de 93) e de sua falecida esposa. Através dessa descrição centrada em poucos mas significativos objetos, caracteriza-se a personagem, indiciando seus gostos, sua ideologia, seu caráter.

Maneco toma mate em frente à janela, limiar entre o interior da casa e a rua, onde vê meninos e meninas jogando jogos que exigem espaço aberto. O fato de estar à janela dilui a solidão do espaço interno da casa, uma vez que a personagem mora sozinha, conforme dissera o narrador. No mesmo momento em que a personagem olha o retrato do Imperador saudosamente, o som do apito do trem acaba com o sonho de Maneco:

Um apito do trem vara como uma lança o devaneio do major.

Maneco Lírio tira o relógio do bolso e olha o mostrador (...)

O trem agora vai passando

pela frente do rancho de Quincas Caré

que sai para fora com a mulher e os filhos

e ficam olhando de boca aberta para a locomotiva (VERISSIMO, 1974, p.660).

 

O apito transpassa o devaneio cortando-o como uma lança, imagem que sugere a dor do presente e do tempo que se vai, marcado pelo gesto de conferir o horário no relógio de bolso. A passagem do trem reúne também dois tempos que nesse momento confluem: tanto Maneco quanto Quincas Caré são personagens estáticos na narrativa. Quincas, proveniente de uma família de "índios vagos", agora não é mais errante, estabeleceu-se em Santa Fé. Maneco, nesse presente, evoca o passado e um Imperador deposto. Tempo e espaço se misturam, ambos enfatizando a oposição fixação/deslocamento.

A imagem do trem passando e o som de seu apito são compartilhados por Maneco e Quincas Caré. Na primeira parte de "O Sobrado", fora o som do sino, partilhado por José Lírio e Licurgo Cambará, que transportara a narrativa do espaço externo para dentro do Sobrado. O primeiro é filho de Maneco, e Licurgo é amante de Ismália Caré, todos interligados no emaranhado de linhas espaço-temporais da narrativa principal. Ambos, Maneco e Carés, são personagens periféricos, não só no sentido do espaço representado na narrativa, a proximidade com a linha do trem. Maneco mora numa "meia-água" e Quincas num "rancho", habitações opostas ao Sobrado, o que também os separa, pelo espaço social ocupado, da possibilidade de integrarem a narrativa principal.

Segundo D. Gonzalez (1995),o que propõem essa partes em itálico é uma visão lateral sobre a população do Continente e de suas periferias. Elas não são totalmente independentes do resto do romance por sua substância mesma, e sim porque suas personagens anunciam aquelas que vão aparecer na narrativa principal, ou inversamente nos informam sobre a transformação de algumas que foram perdidas de vista. Com o auxílio dos intermezzos , o Continente e seus limites são, assim, apresentados como um todo. Mesmo que Santa Fé pareça relativamente isolada, ela pertence a um conjunto do qual os elementos são interligados pelo fluxo migratório, comercial, das guerras, das viagens de informação ou de divertimento, e dos laços de família.

 

REFERÊNCIAS :

GONZALES, Didier. L'espace de "O continente". Nova Renascença , Porto, n.57-58, p.365-382, Primavera/Verão 1995.

VERISSIMO, Erico. O continente. In: _. O tempo e vento . Porto Alegre: Globo, 1974. v.1 e 2.

 

 

VERISSIMO, Erico. O continente. In.__ . O tempo e o vento. Porto Alegre: Globo, 1974. v. 1 e 2.